4. DEMONSTRAÇÃO DE RESULTADOS DAS PESQUISAS
4.1.1. Frequência no uso de termos específicos entre 2004 e 2020
Antes de analisarmos a frequência com que os termos opinião, realidade, narrativa, mentira, fake news e ficção aparecem e em quais editorias ao longo das coberturas jornalísticas do jornal Folha de São Paulo dos períodos pré-eleitorais e eleitorais de 2010, 2014 e 2018, decidimos realizar um levantamento geral, ano a ano, de 2004 a 2020, desses mesmos dados, com a finalidade de capturar um retrato panorâmico do fenômeno que ora analisamos. Surpreendentemente, por meio da análise de frequência do termo Opinião, percebemos um súbito aumento, de patamares relativamente muito baixos, a partir de 2011. O fato de não se tratar de ano eleitoral sugere que o dado reflete o brusco e disruptivo surgimento de alguma variável de fora das fronteiras de pensamento e do espectro ideológico. Daí por que supomos que esse ganho refletiria o impacto do advento de smartphones e de novas redes sociais.
120 Fonte: Acervo Folha (https://acervo.folha.com.br/)
Na medida em que as novas tecnologias de comunicação pressupõem uma quebra do monopólio não só da informação, mas sobretudo da opinião, nada mais natural que o termo se torne tão valorizado. Está aí também outro indicativo de que esse incremento seria explicado pela força e pelo aprendizado resultante do uso desses modernos instrumentos.
Se olharmos para a repercussão de dois termos afins, Ficção e Narrativa, ao longo dessa mesma série histórica, verificaremos que a frequência com que são mencionados apresenta uma tendência de alta a partir também de 2011, muito provavelmente estimulada pelo mesmo fator causal responsável pela valorização do termo Opinião.
Assim supomos pela dificuldade em crer, à luz da dimensão dos dados apresentados, que reflitam uma vertiginosa busca, um aumento tão significativo do interesse pela produção ou pela demanda de obras literárias ficcionais41.
41 De acordo com nossos levantamentos, a frequência com que os termos opinião, realidade, narrativa, mentira, fake news e ficção comparecem no caderno Guia do jornal Folha de S. Paulo, espaço dedicado aos eventos culturais, aumenta de 59 para 108, entre 2010 e 2014 (um ganho de 83%), e sofre um decréscimo de 2014 a 2018, caindo de 108 para 74 menções (uma queda de 68%). Estas menções se referem a qualquer tipo de acontecimento atinente ao universo das artes e constam muito frequentemente de sinopses de obras cinematográficas. A planilha relativa a estes dados consta do Anexo I, presente ao final deste trabalho.
81 93 80 80 66
732 504 2263
3031 2896 3334
2930 2897 3009 3162 2914
3520
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
Frequência do termo Opinião (Folha de S. Paulo, de 2004 a 2020)
121 Fonte: Acervo Folha (https://acervo.folha.com.br/)
Observe-se que a efervescência inicial, entre 2011 e 2012, não tem como refletir a instabilidade comum de um ano eleitoral. Supomos, a partir disso, que pode não ser consequência de fatores da arena política. Notemos que os anos em que ocorreram eleições presidenciais, 2006, 2010 e 2014, não parecem impactar sobre os dados estatísticos. Os números de 2012 a 2016 indicam para uma tendência de estabilização e não foram substancialmente impactados nem mesmo pelo processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É difícil de precisar o que teria levado a um aumento ainda mais significativo em 2017. Os anos subsequentes, de 2018, 2019 e 2020, mesmo que apresentem uma tendência de queda, ainda não nos permitem afirmar que indicam para uma completa reversão do ciclo de alta que verificamos desde o início da década. Como o aumento da frequência do uso do termo Ficção é simultâneo ao aumento do uso do termo Opinião, ambos podem estar de alguma forma relacionados. Isto é, a democratização da fala talvez favoreça o trânsito e até certa correspondência entre as duas expressões. Segundo tese levantada por este trabalho, o fato de mais pessoas expressarem o que pensam e sentem faz com que a opinião seja frequentemente vista sob a ótica da banalidade. No limite, até como ficção. Daí por que o debilitamento do espaço de elocução daquela talvez exerça algum impacto sobre o espaço de captura desta.
Agora, nada nos previne de que termos correlatos se tornem um eficiente meio de expressão desses mesmos sentimentos. Isto é, pode ser que os termos Opinião e Ficção
119 93 130 164 131 248
152 410
802
722 792 880
758 1067
957 864
764
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
Frequência do termo Ficção (Folha de S. Paulo, de 2004 a 2020)
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sejam eventualmente trocados por outros sem que a relação entre as ideias que imprimem deixe de existir.
Por sua vez, o termo Narrativa, a despeito de não apresentar um acréscimo de uso acachapante, também ganha tração, como visto adiante, a partir de 2011 e ao longo de toda a década.
Fonte: Acervo Folha (https://acervo.folha.com.br/)
Entre 2004 e 2009, com exceção de 2008, “narrativa” nunca receberia mais do que 660 menções em um único ano. O termo, durante esse primeiro período, apresenta uma média anual de 628 aparições. À diferença dos outros três vocábulos, percebemos, aqui, que o uso do termo ora analisado ganha força nos anos em que há certames eleitorais. Foi assim em 2010, 2014 e 2018. Como o número de menções não chegou a ser impactado pela disputa de 2006, reforça-se a nossa percepção de que, mesmo neste caso, a política não é o fator determinante. Percebam que é também em 2011 que os índices se descolam definitivamente da casa dos seiscentos. A média de aparições, entre 2010 e 2013, salta para 722, um acréscimo médio de agregação da ordem dos 15%. Esse primeiro degrau, inclusive, é expresso em uma sequência de altas que, curiosamente, só cede de forma discreta nos idos de 2013, ano das famosas Jornadas de Junho.
Os dados relativos ao termo Narrativa também nos permitem perceber que algo de significativo acontece antes das grandes manifestações populares e das eleições de 2014, que ajudariam a determinar os rumos do país pelo resto da década. Provavelmente
598 655
603 660 735 521
670 723 788 709
880 881 867 891
1099 1044 1202
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
Frequência do termo Narrativa (Folha de S. Paulo, de 2004 a 2020)
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em 2011. Não houvesse tal acontecimento e talvez não tivéssemos conhecido estes tempos de instabilidade.
Outro aspecto a salientar é o fato de o termo Narrativa, muito próximo da ideia de ficção, estar de alguma forma associado aos pleitos para a Presidência. O debate público parece inclinado a aproximar cada vez mais, principalmente a partir de 2011, a política de sua natureza abstrata. É assim que sua frequência alcança as novas médias de 879 e 1.115 menções anuais entre 2014 e 2017 e entre 2018 e 2020, respectivamente.
Os termos Realidade e Mentira sofrem um incremento nos anos finais da série histórica analisada. “Fake news”, por sua vez, saltará de uma única aparição em 2016 para 1.098, em 2020.
4.1.2. Frequência no uso de termos específicos durante os dez primeiros