1.4 O riso na Modernidade
1.4.2 Freud e as raízes psicológicas do riso
Ao estudar as raízes psicológicas do riso, Freud (1941) observa que as piadas têm um elemento tendencioso, ou seja, constata-se nelas uma tendência obscena ou agressiva, que tenta atingir o pudor, as crenças, a ideologia, tendência que é gerada pela repressão a que está sujeito o homem, enquanto ser social. Esta repressão será desinibida pelo riso.
Segundo sua teoria, o inconsciente se expressa por meio de quatro fenômenos: os sonhos, os sintomas e perturbações ou disfunções psiconeuróticas, os atos falhos e os ditos espirituosos. Nessa pesquisa, o fenômeno a ser evidenciado são os ditos espirituosos.
Para autor, o cômico tem, com o riso, a particularidade de ser gerado pelo inconsciente. O que ocorre, então é que, diante do desconhecido, o indivíduo armazena uma quantidade extra de energia, que deve ser liberada, como reação. Se o fato ao qual a pessoa deve reagir é breve, a liberação da energia ocorre como uma explosão súbita e, no caso da reação humorística — após uma piada curta — traduz-se em riso.
Ainda em relação ao cômico, Freud (1941) aponta as condições favoráveis e desfavoráveis para a sua construção. Como condições favoráveis estão: a euforia advinda da psique e a expectativa gerada a respeito do ato cômico e, como desfavoráveis, o não automatismo – ou seja – atenção em demasia para que o cômico aconteça e a exposição exagerada da ira e da compaixão, ou seja, o humor é considerado como um prazer pouco intenso, não explode jamais em gargalhadas, mas é altamente enobrecedor e liberador. O essencial não é a piada, mas a intenção que o humor transmite.
Percebe-se, pois, que o riso, na visão de Freud, surge a partir de algo não sério, uma vez que o prazer decorre da possibilidade de pensar, sem as obrigações da educação intelectual, no momento em que a razão e o julgamento crítico declaram a ausência de sentido de nossos jogos de infância. Isso é evidenciado
por meio dos jogos de palavras que nos causam prazer porque nos dispensam do esforço necessário à utilização séria da palavra.
O jogo de palavras, segundo o autor, suscita a ligação entre duas séries de ideias separadas, cuja apreensão usual exigiria muito mais esforço. O prazer que resulta de tal “curto-circuito” é tanto maior quanto mais as duas séries de ideias forem estranhas e afastadas entre si, o que faz com que a economia do curso do pensamento também seja maior. “A técnica do duplo sentido (ou jogo de palavras) criada pelo sentido real e sentido metafórico de uma palavra é uma fonte fecunda da técnica da mente” (FREUD, 1941: 37).
Uma vez que o riso, desde a antiguidade, pertence ao domínio dos humanos, Freud (1941) busca no psíquico a origem do processo de construção do risível. Sua preocupação não se restringe em analisar os efeitos do riso no ouvinte ou espectador da cena e sim no produtor do texto cômico, sua lógica e as razões de suas elaborações.
Ao fixar sua análise na lógica e nas razões de elaboração do texto cômico, Freud (1941) apresenta o trocadilho como outra técnica de elaboração do humor, estabelecendo assim a diferença entre o jogo de palavras e o trocadilho. Para o autor, enquanto o jogo de palavras reúne dois sentidos em uma palavra idêntica, ao trocadilho é suficiente que as duas palavras sugiram uma à outra por uma semelhança qualquer: semelhança geral em sua estrutura, assonância ou aliteração.
Ao analisar o mesmo material verbal, o autor utiliza a categoria da condensação que ele convencionou chamar de princípio da economia, ou seja, desdobramento em outras técnicas de produção de chistes como o trocadilho cujo deslocamento “não depende das palavras, mas do processo mental” (FREUD, 1941: 49). Tal deslocamento se dá pelo raciocínio falho – pelo absurdo – pelo automatismo psíquico – pela unificação – pelo oposto – pela alusão e a analogia.
Todas essas técnicas utilizadas pelo autor consistem na manipulação do material verbal, a fim de gerar novas relações de sentido, a partir de uma intenção cômica preliminar configurada como o humor que cria laço social e apresenta também um aspecto transgressivo e questionador do sentido estabelecido.
Para tanto, o humor como efeito de algo dito, segundo Freud (1941), surge no exato momento em que se está diante de questões limite e repentinamente ocorre um corte, uma criação simbólica súbita, ligada à irrupção de um sentido novo.
1.4.2.1 Os propósitos dos chistes
Segundo Ramos (2007), Freud comparava a gênese do riso à forma do sonho, ou seja, uma manifestação inconsciente de prazer e alívio. Sua base de estudo foi pautada nos chistes que circulavam nos meios sociais e no seu processo de construção que foi dividido em três grandes grupos: a condensação, o múltiplo uso do mesmo material e o duplo sentido.
O primeiro grupo é a condensação que pressupõe uma análise a partir da palavra composta e com modificação, ou seja, é o resumo das ideias que têm pontos em comum e uma analogia entre si. O segundo grupo diz respeito ao múltiplo uso do mesmo material que se dá por meio do deslocamento que pressupõe uma análise do todo e suas partes, em ordem diferente, com leve modificação; o terceiro grupo é formado pelo duplo sentido que pressupõe uma análise a partir de vocábulos nominais, dos significados metafóricos e literais, do jogo de palavras (duplo sentido) e do duplo sentido com uma alusão.
Ao falar dos propósitos dos chistes, Freud (1941) classifica-os como inocentes e tendenciosos. Os chistes inocentes têm um efeito moderado e raramente gera uma explosão de riso, dado seu conteúdo intelectual. Segundo Freud (1987: 50), esse tipo de chiste pressupõe “um fim em si mesmo, não servindo a um objeto particular” e seu “efeito cômico” é encontrado nas próprias técnicas de construção do chiste. Já os chistes tendenciosos, classificados também como chistes hostis cujo foco é sempre externo, dispõem de outras fontes de prazer que se dão por meio da agressividade, da sátira ou da defesa.
Para o autor, os chistes tendenciosos, como não têm um objetivo em si mesmo, precisam de três interlocutores para se realizar: o primeiro é o que profere;
o segundo é aquele que se toma o objeto de agressão hostil ou sexual e o terceiro é aquele em que se cumpre a intenção criadora do prazer do chiste.
Nos chistes ocorrem, pois, um processo de restabelecimento de velhas liberdades e de liberação de carga de instrução intelectual, ou seja, para rir de um chiste, o fruidor precisa escapar das inibições impostas pela sociedade, enquanto aproveita o prazer gerado pelo jogo de palavras.