2. EQUÍVOCO DA CASA
2.3 Fronteiras se esmaecem: poesia e/é política
2.3.2 Fronteiras que vibram, sentidos em desencontro
Casa, em seu funcionamento equívoco, encontra a rua. Se há, de um lado, discursos
estabilizados que com frequência (e insistência!) separam público de privado, a casa da rua, ao que esta tese vem mostrando, tal divisão urbana cristalizada borra, as linhas se confundem e, no desencontro desses lugares e discursos, espaços e sujeitos (se) significam diferentemente no Jardim Itatinga. A rua, lugar ocupado por quase duas mil prostitutas que dançam, esperam, trabalham, funciona no encontro com a casa, como porta de entrada, extensão. Nessas condições de produção em que a expressiva quantidade (ORLANDI, Eni, 2004) de casas [de prostituição] organiza o desenho urbano e constitui as relações sociais, a rua passa a fazer parte da casa, é o trabalho que une esses espaços. Esse modo outro de organização urbana produz sentidos aos sujeitos que se constituem e se identificam com o espaço pelo qual transitam, moram, vivem.
Em seu funcionamento opaco, produzido pela elipse nas condições de produção nas quais a palavra é formulada e circula, casa, pela contradição, propicia o (des)encontro da
família e da prostituta, da dona de casa [de família] e da dona de casa [de prostituição];
possibilita o (des)encontro de espaços separados pela história: o lugar da reclusão do sexo encontra o lugar do sexo insubmisso (RAGO, Margareth, 2008). Pela fissura sintática aberta pela elipse, adjuntos adnominais diferentes (e distintos para o discurso burguês) chocam-se e significam a palavra pela contradição. Nesse choque do real da língua que encontra o real da história, sexo, família, trabalho se conjugam na casa e produzem sentidos outros a partir desse
desencontro.
Esses sentidos que se embaralham a partir da palavra casa (e também a partir da designação dona de casa) deslizam e (re)significam as relações sociais, os modos de ocupar e de significar espaços, as formas outras de identificação dos sujeitos, colocando como questão a ser compreendida esse modo outro de existência (e de produção de sentidos) dos sujeitos no Jardim Itatinga, um modo outro de existir na e a partir da memória burguesa que constitui e (sobre)determina o urbano e suas relações, na e a partir da divisão citadina promovida e
gerenciada pelo Estado, no e em meio ao funcionamento ideológico, em meio a divisões de classe, étnico-raciais e sexo que recortam, atravessam e constituem o Jardim Itatinga. Nessas condições de produção, um modo (outro) de (r)esistir na cidade.
Relembro as designações presentes nas placas fixadas em muros e portões: casa de
família e residência familiar. Na língua, a exigência de uma distinção que incide significando casa de família no contraponto com as demais casas [de prostituição] do bairro. Também, como
será discutido na sequência, materializam-se nas entrevistas discursos que reiteram a necessidade de resguardar o corpo (e o sexo) (da mulher) no interior da casa, sendo a rua para esses corpos interditada: “você não vê as meninas da Silvia no portão. As duas trabalham fora, eu nunca vi essas meninas sentadas nessa varanda, como a minha não vai também”113. Esse corpo feminino que se resguarda no interior da casa também se relaciona com a evidência de que um corpo feminino pelas ruas do Jardim Itatinga só poderia ser de uma prostituta e, de outro lado, a exigência de se manterem trancadas se relaciona com a violência presente no bairro.
Relações de força concorrem para assegurar os sentidos para casa e, nessa direção, para a família, trabalhando para perpetuar a memória cristalizada para esse espaço, para a instituição
burguesa familiar e para os sujeitos114. Essa insistência em marcar uma diferença entre espaços,
diz sobre as disputas que estão em jogo e que se materializam nas placas, principalmente nessas condições de produção. Destaco três sequências discursivas que falam sobre a divisão realizada pelo Centro de Saúde Jardim Itatinga:
(SD 30) Então, é tranquila essa relação das famílias do bairro do Itatinga com as profissionais. Agora, das famílias do Maria Rosa e do Telesp tem um pouco de atrito. Eles não querem muito dividir espaço. (Agente de saúde). (SD 31) Pesquisadora: E quando tem que trazer crianças?
Elas trazem, mas sempre com essa... É que automaticamente a gente acaba dividindo o público, de manhã, por exemplo, a pediatria atende, e de manhã as meninas estão dormindo, então o período da tarde acaba sendo mais pra elas. Então, a gente tenta marcar as famílias mais pro período da manhã e
as meninas mais pro período da tarde. (Agente de saúde).
(SD 32) E não tem como você, por exemplo, tratar uma profissional do
sexo como uma dona de casa. Não tem como eu passar, por exemplo, uma
113 Moradora do Jardim Itatinga.
114 Relembro também a discussão feita sobre o discurso fundador e seu trabalho discursivo na manutenção de um
passado. Sobre isso, dois pontos a ser considerados: de um lado, a repetição da história inaugural que presentifica, no encontro dos tempos, a exclusão promovida pelo Estado, seu poder de organizar a cidade e os corpos pelo território urbano; poder estatal que como efeito também reafirma a necessária separação da prostituição e da família. De outro, também cabe assinalar, como anteriormente discutido, que o discurso fundador desdobra-se em polissemia: a atualização da memória fundadora funciona em meio a condições de produção dadas e os sujeitos que vivem ou trabalham no Jardim Itatinga produzem sentidos outros para a memória da exclusão.
pomada genital ginecológica para uma paciente que tem 30 relação por dia, não tem como eu pedir para ela esperar 30 dias se ela estiver com corrimento, você entendeu? É diferente. É específico, é um público específico. E aí, às vezes, gera algum conflito: “ai, a fulana vai e passa na frente”, mas eles conseguem entender a prioridade do atendimento. (Agente de saúde).
Se é necessário separá-las, é porque as famílias (do bairro ao lado) e prostitutas estão se encontrando: “Então, a gente tenta marcar as famílias mais pro período da manhã e as meninas mais pro período da tarde”.Nessas condições de produção, é forte o jogo entre a memória burguesa estabilizada que compõe esse imaginário de família, ainda que as organizações familiares (mesmo as com a placa) não perpetuem o modelo burguês nuclear, e o deslize de sentidos produzido por diferentes práticas sociais. Há uma separação que se impõe na história e que se repete a partir dos efeitos de evidência que significam a casa [de família] e a zona de prostituição. No entanto, é necessário considerar que no Jardim Itatinga as relações com o espaço urbano e público se constituem com e a partir da prostituição: as prostitutas
tomam e ocupam ruas inteiras, trabalham nas casas, produzindo outros modos de significar a
cidade e seus espaços.
Esse jogo entre a perpetuação do mesmo e o diferente que irrompe pelas relações cotidianas tensiona, indicando que as fronteiras que separam espaços se tocam e se imbricam. As sequências destacadas acima dão visibilidade a essa tensão. Na SD 30, há o descontentamento das moradoras e moradores dos bairros que circunscrevem o Jardim Itatinga por terem que usar o mesmo espaço que as prostitutas. É o argumento da impossibilidade de encontro que, como incialmente pontuado, ancora os discursos urbanísticos (médicos, administrativos, jurídicos) que dividem e retalham o espaço citadino, organizando trânsitos, deslocamentos, permanência e encontros. Divisões, como venho pontuando, que disfarçam outras, como questões de classe, étnico-racial e sexo, que continuam atravessando o discurso moral burguês que se impõe com força na história. Nas sequências 31 e 32 (respectivamente), as formulações destacadas explicitam uma separação feita por uma instituição pública: “a gente tenta marcar as famílias mais pro período da manhã e as meninas mais pro período da tarde” e “não tem como você, por exemplo, tratar uma profissional do sexo como uma dona de casa”. Divisão de horários e diferentes modos de atendimento que perpetuam uma diferença entre
família e prostituição.
A necessidade de organizar o modo de trabalho de uma instituição pública a partir de uma divisão moral (fruto de relações de poder que (sobre)determinam discursos e práticas), atravessada por outras divisões, como presente na formulação (SD 30) “Eles não querem muito
dividir espaço”, evitando-se, assim, o encontro num mesmo espaço da família e da prostituição, diz tanto sobre a perpetuação do discurso estabilizado como também diz sobre o que vem escapando a essa divisão. É a necessidade de estabelecer horários e modos específicos de atendimento para cada público que marca o encontro da família e da prostituição. As fronteiras (histórico-político-ideológicas) borram; não sem tensão, é preciso dizer. Gostaria de voltar a formulação destacada da SD 32: “E não tem como você, por exemplo, tratar uma profissional do sexo como uma dona de casa”. Na sequência, a justificativa para o tratamento diferenciado se relaciona com o número de parceiros sexuais e a possibilidade de transmissão de doenças. Para a agente de saúde, a prioridade do atendimento dado à profissional do sexo diz respeito ao desempenho de um trabalho sério e comprometido com a saúde populacional e tem a ver com a especificidade do público atendido no centro de saúde. No entanto, é preciso assinalar que essa diferença que faz com que a profissional do sexo seja atendida com prioridade é a mesma que incide pela memória separando família de prostituição. É pelo número de parceiros, é pelo modo como usam seu sexo que a distinção incide, sob a inscrição do discurso burguês. Ainda, na interdição de uma comparação, prostituta e dona de casa não coincidem. No entanto, é pela língua na história que donas de casa se encontram no Jardim Itatinga, produzindo o deslize.
Se pela abertura sintática da elipse os sentidos imbricam-se e transbordam significando casa pela contradição e pelo equívoco, é também pela elipse que os sentidos transitam e passam a significar dona de casa e prostituta nesse espaço. Dona de casa e dono
de(a) casa são designações que no bairro funcionam sem complementos explícitos
sintaticamente, já que o adjunto adnominal [de prostituição] fica elíptico.
Pesquisadora: E os moradores aqui do bairro que não tem casa de prostituição, eles também...é tranquilo?
É tranquilo. São tranquilos. Normalmente, eles são moradores, mas é...ou é filho de profissional do sexo, ou mãe de profissional do sexo, ou esposa de ex
dono, ou marido de ex dona... (Agente de saúde).
Isso, a gente fez um acordo com os donos das casas, porque, se uma pessoa da saúde vai muito naquela casa, ela cria nessa casa como uma casa de pessoas doentes e casa de pessoas doentes o cliente não vai (Agente de saúde). Então é, aí... foi com esse sentido que foi criado o bairro aqui, aí f... tinha o dono dessas terras aqui, cedeu uma parte das terras, foi criado uma imobiliária para vender os lotes aqui, foi trazida a primeira dona de casa pra cá, e toda feita uma infraestrutura, tanto que... todos os bairros aqui em volta não eram assaltad...asfaltados e esse era (Representante da Associação Mulheres Guerreiras. É gerente de casa de prostituição).
Pesquisadora: Então não tem nenhuma menina particular que vem pedir pra lavar [roupas]...
Às vezes aparece alguma, mas os donos de casa não gostam que pegue, né? Depois vai embora, não paga, sai quietinha, né? Deixa sem pagar aí fica ruim, né? (Lavadeira de roupas. Mora no Maria Rosa).
Embora exista a designação dono de casa para significar aquele que cuida da casa e dos afazeres domésticos, é necessário dizer que essa designação é pouco utilizada no Brasil. As atividades domésticas são, em nossa sociedade patriarcal e machista, ainda predominantemente exercidas por mulheres. Inclusive, nesse modelo familiar burguês, cabe exclusivamente à mulher o cuidado e a responsabilidade pelo lar naquilo que se refere aos afazeres domésticos. Desse modo, dono de casa [de prostituição] faz trabalhar os sentidos de
gerente ou proprietário, não o de doméstico. Além disso, uma outra divisão que incide pelo
sexo se faz presente na diferença entre as designações. Muitas das donas de casa do Jardim Itatinga são ex-prostitutas ou continuam se prostituindo. Não há qualquer menção, nos trabalhados visitados sobre o bairro, de homens que se prostituíam e que hoje são donos de
casa. Essa é uma diferença importante. Ainda, chamo a atenção para o funcionamento da
designação no feminino, visto que, popularmente a designação é fortemente atrelada ao espaço doméstico. Desse modo, dona de casa é gerente e proprietária, sentidos que deslizam e se tensionam sobre a memória (burguesa) estabilizada para o papel feminino no seio do lar [de
família]. Pela elipse, em dona de casa [de prostituição] a memória intervém significando a
designação no desencontro dos sentidos: entre o imaginário estabilizado e reiterado para a mulher pelos processos de produção histórico-político-ideológicos e sentidos outros que irrompem nas condições de produção e circulação da designação. Equivocamente, a designação
dona de casa funciona na tensão entre o mesmo e o diferente, produzindo sentidos outros para
a mulher nesse espaço. Se, nos espaços estabilizados para casa, a dona de casa só poderia significar aquela que deve cuidar do lar, responsável pelas atividades domésticas, no Jardim Itatinga, a designação circula significando a dona de uma casa de prostituição, a relação da mulher com o trabalho e com a sua participação social é outra: dona de casa é gerente, proprietária, empresária e, em alguns casos, também prostituta.
Casa e dona de casa, pela contradição, deslizam. Na sequência discursiva abaixo,
quem enuncia é uma dona de casa [de prostituição]:
(SD 33) Pesquisadora: Você trabalha nessa casa aqui?
É, eu trabalho aqui, né?
Pesquisadora: Você mora aqui e trabalha aqui?
É, é que a casa é minha agora, né?
É, eu lutei, comprei aqui, né, que aqui é grande... lá no fundo, que é casa antiga. Aos poucos eu tô mandando arrumar, né? Que é difícil derrubar para construir outra, porque eu não tenho dinheiro, né? (Dona de casa de
prostituição).
No espaço da casa, entrelaçam-se propriedade privada, morada, lar, empresa, trabalho, sexo e prazer. No equívoco de seu funcionamento no Jardim Itatinga, na palavra casa, que pela elipse abre-se para o excesso, tensionam e se encontram a prostituição e a responsável pelo lar, pelos afazeres domésticos; tensionam e se encontram espaços separados pela história. Os adjuntos em jogo que circulam pelo bairro incidem na brecha sintática e significam a palavra pela contradição: nessas formulações, morada e lar convivem com a prostituição; morada e lar encontram empresa e trabalho; donas de casa se conjugam. Em dona de casa, pelo equívoco aberto pela elipse, transitam, nessas condições de produção, como possibilidades de significação para a designação [proprietária/empresária/gerente] e/ou [proprietária/responsável pelo cuidado e organização doméstica]. A designação dona de casa, desse modo, funciona no
desencontro de sentidos distintos, que vibram e, em tensão, produzem sentidos. É em virtude
desse funcionamento que venho reiterando que a elipse (pautada nos pressupostos teóricos de Claudine Haroche (1992, 2016) e Eni Orlandi (2007)), diferentemente do que define a gramática normativa que a compreende como falta, abre para o excesso.
Ao ser questionada sobre ser agora uma dona de casa [de prostituição], visto a aquisição da casa [de prostituição], a entrevistada fala sobre a propriedade privada que é sua morada, seu lar que precisa de reformas e não sobre a casa funcionar como lugar de trabalho, como empresa. Recordo que essa entrevista foi, durante várias vezes, interrompida. A entrevista se deu no interior da casa, numa mesa do bar que se encontra logo na entrada, no início de um longo corredor que leva aos quartos. Em pleno horário de funcionamento, algumas mulheres trabalhavam: entravam nos quartos acompanhadas por clientes, saíam dos quartos, compravam bebidas e trocavam dinheiro, acertavam o pagamento pelo uso do quarto. Essas várias pausas que demandavam a atenção da entrevistada, por essa ser a gerente/proprietária da casa, uma
dona de casa, encontram essa sequência discursiva na qual dizer-se dona de casa é falar sobre
a reforma ainda por fazer em sua morada. É pelo desencontro, no descompasso que as casas e as donas de casa se entrelaçam.
É pela língua na história que temos acesso a esse desencontro de espaços e sujeitos: na nomeação do trabalho e da morada, família e prostituição, reincidentemente separados pelo discurso burguês, encontram-se. Os espaços se mesclam, imbricam-se, entrelaçam-se e, nesse outro modo de ocupar a casa e a rua, os sujeitos também se significam diferentemente. Jogo
metafórico em que uma palavra desliza sobre outra e expõe o jogo entre significante e significado que, não atados, possibilitam o movimento e o deslize de sentidos. Desse modo, afirmar o deslize entre significado e significante, na possibilidade de que os sentidos sempre podem ser outros, é, parafraseando Michel Pêcheux (2008), questionar a ambiguidade como relação lógica em que se inscreve um excludente “ou...ou”, na qual casa seria ou casa de família ou casa de prostituição e colocar em causa a contradição que constitui a designação e o equívoco que irrompe na língua pelo funcionamento da elipse. Pela contradição e pela fissura sintática aberta pela elipse, em casa vibram morada, lar, família, trabalho, empresa, boate, bordel, prazer e, desse modo, significam a palavra pelo desencontro. Coloca-se em causa, assim, o “ponto em que cessa a consistência da representação lógica inscrita nos espaços dos ‘mundos normais”, considerando o “fato linguístico do equívoco como fato estrutural implicado pela ordem do simbólico” (PÊCHEUX, Michel, 2008, p. 51). É dessa maneira que compreendo a elipse como uma fissura sintática que não significa falta, mas é na falta que se abre para o
excesso; lugar do equívoco, do encontro do real da língua e o real da história. É, pelo excesso,
que sujeitos e sentidos transbordam.
Na sequência, penso no corpo que ocupa as ruas, que pelas ruas espera, que pelas ruas do Jardim Itatinga trabalha, perguntando-me pelos laços produzidos pelos sujeitos no espaço urbano nessas condições de produção.