2. EMBASAMENTO TEÓRICO E REVISÃO DE LITERATURA
2.2 A TRADUÇÃO TOTAL DE PEETER TOROP
2.2.1 A semiosfera e a semiótica da cultura
2.2.1.3 Fronteiras semióticas e as características da semiosfera
As fronteiras semióticas dividem o espaço interno da semiosfera
55 “a semiosfera do mundo contemporâneo, que constantemente se amplia no espaço ao longo dos séculos, adquiriu ultimamente um caráter global; inclui dentro de si tanto os sinais dos satélites como os versos dos poetas e os gritos dos animais. A interconexão de todos os elementos do espaço semiótico não é uma metáfora e sim uma realidade.”
do espaço externo. Pode-se falar em diversos tipos de fronteiras, como as fronteiras temporais, espaciais, de personalidade, entre outros tipos. Se retornarmos ao exemplo da semiosfera do chá chinês de Herrera (2009/2010), a fronteira temporal compreende o eixo do passado e um período de governo importante na história do chá. A fronteira espacial compreende a saída do chá do sul da China para o norte e, em seguida, para fora do país. A fronteira de personalidade compreende os diferentes membros da dinastia Qin responsável por “atravessar” o espaço semiótico pela primeira vez, transmitindo seu primeiro uso (medicinal) para o norte do país.
Segundo Lotman (1990, p. 12), a semiosfera se caracteriza por uma série de traços distintos, e que destaco adiante.
a) Homogeneidade/individualidade semiótica
Em seu caráter delimitado, o conceito de semiosfera estaria ligado a determinada homogeneidade e individualidade semiótica, o que a separa dos não textos e dos textos alossemiótico56 que a rodeiam, sendo a fronteira um dos conceitos fundamentais de seu caráter delimitado. Para que esses textos tornem-se reais para a semiosfera, é necessário traduzi-los a uma das linguagens de seu espaço interno, ou semiotizar os feitos não semióticos. Lotman (1990, p. 13) aponta que a fronteira da pessoa enquanto fenômeno da semiótica histórico-cultural depende do modo de codificação. Dessa maneira, conforme exemplo do próprio teórico, em alguns sistemas a mulher, as crianças, os empregados não livres e os vassalos podem ser incluídos na pessoa do marido, do amo, do patrão, necessitando de uma individualidade independente, mas em outros sistemas, elas são consideradas como sendo pessoas isoladas. Quando Ivan, o Terrível, condenava alguém à execução, junto com ele era executada toda a família, assim como seus criados, pois, juridicamente, todos constituíam uma só pessoa com o chefe da família.
Lotman ratifica que a fronteira do espaço semiótico não é um conceito artificial e, sim, de importante posição funcional e estrutural; ela é um mecanismo bilíngue que traduz as mensagens externas à linguagem interna da semiosfera e vice-versa. Sua função é limitar a penetração do externo no interno, filtrando-o e adaptando-o. Tramas como a de Romeu e Julieta, de Shakespeare, sobre o relacionamento amoroso que une espaços culturais inimigos, revela, segundo Lotman, a
56
O termo grego “állos” quer dizer “outro”, “diferente, “estranho”. Espaço alossemiótico é aquele que se constitui como um outro em relação a um dado sistema. (FIORIN, 2007).
essência do mecanismo de fronteira.
Entretanto, Lotman (1990, p. 15) observa que, por um lado, a fronteira une as esferas da semiose, mas, por outro, a partir da autoconsciência semiótica, ela as separa.
Tomar conciencia de sí mismo en el sentido semiótico-cultural, significa tomar conciencia de la propia especificidad, de la propia contraposición a otras esferas. Esto hace acentuar el carácter absoluto de la línea con que la esfera dada está contorneada.57.
b) Irregularidade semiótica
Outro caráter da semiosfera apontado por Lotman (1990, p. 16) é sua irregularidade semiótica. Para o teórico, dependendo de onde passa a fronteira de uma dada cultura, o observador terá uma determinada posição — o espaço não semiótico pode ser o espaço de outra semiótica, o que significa que, do ponto de vista interno de uma determinada cultura, tal espaço tem o aspecto de um mundo não semiótico externo; do ponto de vista de um observador externo, entretanto, o espaço pode se apresentar como periferia semiótica de tal cultura.
Na semiosfera, observa Lotman (1990, p.16), viola-se a hierarquia das linguagens e dos textos, que se chocam como linguagens e textos que estão no mesmo nível. “Los textos se ven sumergidos en lenguajes que no corresponden a ellos, y los códigos que los descifran pueden estar ausentes del todo”58. O teórico exemplifica valendo-se da imagem de uma sala de museu, onde diferentes vitrinas exibem objetos de séculos diferentes com inscrições em línguas conhecidas e desconhecidas, instruções para a decifração, um texto sobre a exposição, esquemas para as rotas de visitas e regras de conduta dos visitantes. Se ali se adicionarem os próprios visitantes munidos de sua bagagem semiótica, “obtendremos algo que recordará un cuadro de la semiosfera”59.
A falta de homogeneidade estrutural do espaço semiótico, prossegue Lotman (1990, p. 16), “forma reservas de procesos dinámicos y es uno de los mecanismos de producción de nueva información dentro
57 “Tornar-se consciente de si mesmo, no sentido semiótico-cultural, significa tornar-se consciente da própria especificidade, da própria contraposição a outras esferas. Isso enfatiza o caráter absoluto da linha com a qual a esfera dada está contornada.”
58
“Os textos se veem submergidos em linguagens que não correspondem a eles e os códigos que os decifram podem estar completamente ausentes”
de la esfera”60. Esses processos dinâmicos encontram menos resistência nos setores periféricos e, consequentemente, desenvolvem-se mais rapidamente. A criação de autodescrições metaestruturais (gramáticas), assevera o teórico, “es un factor que aumenta bruscamente la rigidez de la estructura y hace más lento el desarrollo de ésta”61, ao passo que os setores que não tenham sido descritos, ou que tenham sido descritos em categorias de uma gramática “alheia”, desenvolvem-se com maior rapidez.