2 POLÍTICA SOCIAL E O DESAFIO DE GARANTIR (MANTER) DIREITOS
2.3 Funções da Assistência Social: desafios e possibilidades
Com o advento do SUAS no Brasil, a PNAS avança no processo de consolidação enquanto política pública que tem a função de proteção social, defesa de direitos socioassistenciais e vigilância socioassistencial. A função de proteção social compreende a execução da política de assistência social a partir dos níveis de proteção básica e especial que devem garantir proteção pela política de assistência social balizadas nas cinco seguranças a serem afiançadas nesta política, conforme Norma Operacional a saber: I – acolhida: provida por meio da oferta pública de espaços e serviços para a realização da PSB e da PSE, devendo as instalações físicas e a ação profissional conter: a) condições de recepção; b) escuta profissional qualificada; c) informação; d) referência; e) concessão de benefícios; f) aquisições materiais e sociais; g) abordagem em territórios de incidência de situações de risco; h) oferta de uma rede de serviços e de locais de permanência de indivíduos e famílias sob curta, média e longa permanência. II – renda: operada por meio da concessão de auxílios financeiros e da concessão de benefícios continuados, nos termos da lei, para cidadãos não incluídos no sistema contributivo de proteção social, que apresentem vulnerabilidades decorrentes do ciclo de vida e/ou incapacidade para a vida independente e para o trabalho; III – convívio ou vivência
familiar, comunitária e social: exige a oferta pública de rede continuada de serviços que
garantam oportunidades e ação profissional para: a) a construção, restauração e o fortalecimento de laços de pertencimento, de natureza geracional, intergeracional, familiar, de vizinhança e interesses comuns e societários; b) o exercício capacitador e qualificador de vínculos sociais e de projetos pessoais e sociais de vida em sociedade. IV – desenvolvimento de autonomia: exige ações profissionais e sociais para: a) o desenvolvimento de capacidades e habilidades para o exercício do protagonismo, da cidadania; b) a conquista de melhores graus de liberdade, respeito à dignidade humana, protagonismo e certeza de proteção social para o cidadão e a cidadã, a família e a sociedade; c) conquista de maior grau de independência pessoal e qualidade, nos laços sociais, para os cidadãos e as cidadãs sob contingências e vicissitudes. V
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materiais e em pecúnia, em caráter transitório, denominados de benefícios eventuais para as famílias, seus membros e indivíduos.
A realização desta política como proteção social compreende um conjunto de ações em forma de serviços, projetos, programas e benefícios (eventuais e continuados) que visam a “redução e prevenção do impacto das vicissitudes sociais e naturais ao ciclo da vida, à dignidade humana e à família como núcleo básico de sustentação afetiva, biológica e relacional”. (BRASIL, 2005b, p. 19).
Enquanto a função de defesa dos direitos socioassistenciais deve se organizar de maneira a garantir aos usuários o acesso ao conhecimento dos direitos, bem como sua defesa, “Os direitos sociais devem estar presentes em todo o processo de implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos socioassistenciais” (BRASIL, 2008, p. 51) impedindo que o usuário seja submetido a relações de tutela e subalternização. Conforme Rizzotti (2015), a função de defesa de direitos socioassistenciais deve promover a ruptura da crença de que para o pobre qualquer coisa serve, que o discrimina e o aparta do reconhecimento como sujeito de direitos.
Nesta perspectiva, a defesa dos direitos socioassistenciais precisa constituir processos que garantam “a efetiva possibilidade de conhecimento e acesso dos usuários aos seus direitos e à sua fruição” (BRASIL, 2008, p. 53) sendo assim, importante salientar que as três funções são específicas e interdependentes entre si, precisam ter presente o local de vivência das pessoas, ou seja, o território, responsabilizando-se em ofertar serviços, projetos e programas territorializados.
Afirmar a Assistência Social como proteção social significa olhar para o cidadão, usuário dos serviços, como sujeito de direitos. Significa também reconhecer o direito aos benefícios e aos serviços garantidores de direitos, ofertados pelo conjunto das políticas sociais. (BRASIL, 2015, p. 30).
Sob esta ótica, a defesa dos direitos socioassistenciais deve se dar em vista da garantia destes na condição de obrigação do Estado, de forma continuada, contextualizada e com qualidade a fim de garantir as seguranças preconizada no SUAS, pois é “pela via do direito social que a proteção social se efetiva, reduzindo vulnerabilidades e incertezas, igualando oportunidades e enfrentando desigualdades”. (JACCOUD, 2009, p. 69).
O SUAS é um avanço incontestável, mas o contexto é de retração, seja na figura do Estado negando a implantação do SUAS (gestão e execução) em sua plenitude por falta de recursos humanos e financeiros, seja nos municípios que também vivem limites relacionados à
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manutenção de recursos humanos nos serviços, na esfera estadual ou na gestão federal. Corroborando com este contexto de falta de reconhecimento do direito, a urgente necessidade de relacionar o técnico e o político na prática profissional concebendo uma práxis pautada da garantia de direitos efetivamente e não na base de tentativas “cartoriais”. Tem-se também um quadro de não envolvimento da população usuária que, por sua vez, ainda não apreendeu a Assistência Social como um direito reclamável, concebendo-a no campo do favor, o que fortalece mais o percurso de travessias na política de assistência social, além de outros limites institucionais/operacionais, tais como a não superação da fragmentação da política que persiste no SUAS.
Koga (2013) alerta para a preocupação da institucionalidade da política pública versus a dinâmica e demanda do cotidiano, isto é, as necessidades da população e territórios destinatários, razão de ser das políticas sociais. Pois “é desse território de vivência que importa se aproximar para que possa ser estabelecido o lugar do território, de fato, nos pressupostos ideológicos das políticas sociais brasileiras”. (KOGA, 2013, p. 13).
Neste contexto, a vigilância tem um importante papel de contribuir para a garantia de proteção social, na perspectiva das seguranças socioassistenciais, constituindo-se nos “olhos” da política pública de assistência social no território, desvelando os sinais de vulnerabilidade e/ou riscos social. Sendo assim, é imperativo compreender tanto o aspecto conceitual como o operacional da VSA na PNAS, para efetivá-la plenamente nos municípios. A função VSA é interdependente junto às outras duas funções e, ao mesmo tempo, é responsável por subsidiar a efetivação delas, como visto a seguir.