Em que pese o avanço das epistemologias críticas, nelas incluídas as descoloniais, e a evidência da crise nas ciências modernas, essas ainda se fundamentam em teorias, conceitos, modelos e outros pressupostos colocados como universais, e, por se presumirem o que há de mais evoluído, tais elementos são assumidos como referenciais a partir dos quais não apenas são mensuradas, mas também divididas as experiências e saberes entre o que é válido para a ciência e o que não é. Assim, tais elementos colocam-se como paradigmas, ao menos em um dos seus sentidos, e nesse sentido agem como força colonizadora dos corpos e subjetividades periféricas. Sustenta-se que a possibilidade de universalização de um paradigma demanda um nível tal de abstração que o desconecte completamente da realidade em que foi constituído, tal como expõe Castro-Gómez a partir do conceito “ponto zero”. Assim, os paradigmas são projetados como valores “absolutos” independentes de sua especificação histórica e cultural.
A determinação colonizadora que decorre dos paradigmas hegemônicos irradia-se do centro (Europa e Estados Unidos, o que permite falar em eurocentrismo ou norte-eurocentrismo) projetando-se sobre as periferias, inclusive, a América Latina. No campo da Política e do Direito, isso se materializa na grande dificuldade, e às vezes até incapacidade, de conceber outros modelos que não o Estado e a democracia representativa, e que não o monismo jurídico estatal. Assim, os sistemas jurídicos ocidentais cumprem uma função indispensável na eficácia da difusão das demais instituições hegemônicas, devido à sua força coercitiva e legitimação formal dos processos de subalternização e criminalização de práticas autóctones, de modo que será necessário dedicar uma seção à reflexão desse fenômeno (item 1.3), com ênfase na hermenêutica e na linguagem jurídica, que será campo importante da análise da segunda parte da tese (quarto capítulo). Por ora importa sublinhar que na delimitação dessa pesquisa, nota-se que paradigmas eurocêntricos como democracia representativa e monismo jurídico têm sido eficazes na colonização ou marginalização das experiências periféricas mediante o controle do Estado e do Direito, o que permite o controle dos demais campos de existência das comunidades.
Quando Gramsci (2010, p. 98-99) conceitua hegemonia, embora resgate a dimensão positiva da ideia, também aponta de modo contundente a função de comando que o grupo dominante lhe atribui: tal comando é exercido por meio do Estado e do governo jurídico e fundamentado pelos intelectuais do grupo, que atuam como “prepostos” exercendo funções subalternas da hegemonia social e governo político. Quando seguem a orientação do grupo dominante, as massas manifestam o “consenso espontâneo”, dando legitimidade à coerção
estatal como manifestação de legalidade no disciplinamento da vida social e dos corpos divergentes, aqueles que não consentem. Nos momentos de crise da ordem o consenso desaparece, então a divergência difunde-se por toda a sociedade, à qual se estende também, a força coercitiva. Claro que os fenômenos deflagrados no movimento que se denominou novo constitucionalismo latino-americano desafiam os paradigmas hegemônicos de Estado e Direito, daí a importância de se compreender e aportar também no campo das ciências novos paradigmas como o Estado Plurinacional, Pluralismo Jurídico, a Democracia Comunitária, entre outros. Mas como se vem sustentando, o aporte a essas experiências tem de ser precedido pela crítica às ciências hegemônicas e nessa tarefa, é indispensável a reflexão em torno das distintas funções cumpridas pela ideia de paradigma.
Celso Ludwig (2006, p. 26) explica que uma das definições atribuídas ao paradigma é de modelo de racionalidade ou padrão teórico que em determinadas épocas, alcançando aceitação na comunidade que o emprega, assume hegemonia e fundamenta o saber produzido por essa comunidade. É isso e é mais: numa lógica colonizadora, a hegemonia tende a reivindicar – e muitas vezes conseguir – o monopólio do desenvolvimento científico, tal como se observou nos últimos séculos nas sociedades ocidentais. Rafael Bautista S. (2014, p. 26-28) desenvolve semelhante análise mencionando o “marco categorial”, ou seja, o conjunto de categorias básicas que fundamentam os processos de conhecimento, compreensão e atuação sobre a realidade, sendo que na modernidade ocidental (como projeto de dominação), o marco categorial – ou paradigmas, como se discute em diversos momentos da tese – nega tudo aquilo que não determina, por isso é autorreferente, afirma-se na lógica da totalidade do ser, o que, no campo de análise dessa tese, se evidencia na incapacidade acadêmica de compreensão de processos que ultrapassem os limites da totalidade, como as insurreições indígenas na Bolívia, que, conforme avalia o autor, abalaram as estruturas do Estado liberal. Acrescenta-se que o monopólio na construção de paradigmas se coloca nos diversos campos da ciência, convertendo uma sociedade particular – a europeia moderna e, posteriormente, a norte-americana – no referencial de identificação de experiências válidas.
O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global (isto é, ocidental) de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se defende ostensivamente de duas formas de conhecimento não científico (e, portanto, potencialmente perturbadoras): o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos).
Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de
conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas. É esta a sua característica fundamental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma científico com os que o precedem (SOUSA SANTOS, 2000, p. 60-61. Sem grifo no original).
Leopoldo Zea (2005) ao analisar a função da linguagem em processos mais antigos de dominação colonial, traduz na dicotomia civilização-barbárie, o tipo de relação de subalternização que aqui se critica e um certo tipo de paradigma que, adaptando seus conteúdos na trajetória histórica, apoiou-se na ideia de civilização como paradigma justificador das mais diversas formas de dominação. Então, se Boaventura de Sousa Santos avalia que o paradigma moderno se distingue dos precedentes por ser totalitário e negar o reconhecimento da racionalidade de todas as formas que não cumprem seus requisitos, considera-se oportuno especificar que esse tipo de relação epistemológica já se estabelecia há muito tempo, e, talvez a novidade seja o alcance assombroso que a racionalidade europeia obteve, um alcance, de fato, global, homogeneizando todo o Ocidente – sob o discurso civilizador – e marginalizando a porção do globo que não logrou colonizar, o Oriente, ao qual ainda se reputa a condição de retrógado, rudimentar, de involução. Essa função colonial do paradigma, aparentemente, tem raízes muito antigas, sejam explícitas ou implícitas.
O termo paradigma é introduzido no pensamento ocidental por Platão em seu diálogo Timeu, atribuindo-lhe o sentido de “modelo”. Depois, Aristóteles emprega o termo, mas então com o sentido de “exemplo”, e, como ver-se-á adiante, ambas as formulações, assim como a mais difundida, de Thomas Kuhn, se dão dentro dos limites da Totalidade. A respeito da primeira aparição do termo, a data estimada do diálogo Timeu (que é o principal interlocutor) é 421-420 a.C. (LOPES, 2011, p. 15; 33) e a partir da narrativa de como a divindade demiurgo fabricou o mundo, vincula a criação ao ato intelectivo da divindade de contemplação do “arquétipo [paradeigma] imutável”. Então o “arquétipo/paradigma” é identificado como o “modelo” que inspirou a divindade – causa perfeita – na criação do mundo:
[...] quanto ao mundo, temos que apurar o seguinte: aquele que o fabricou produziu-o a partir de qual dproduziu-os dproduziu-ois arquétipproduziu-os: daquele que é imutável e inalterávelou do que devém. Ora, se o mundo é belo e o demiurgo é bom, é evidente que pôs os olhos que é eterno; se fosse ao contrário – o que nem é correcto supor –, teria posto os olhos no que devém. Portanto, é evidente para todos que pôs os olhos no que é eterno, pois o mundo é a mais bela das coisas devenientes e o demiurgo é a mais perfeita das causas (PLATÃO, 2011, p. 95).
A epistemologia do exemplo, por sua vez, é desenvolvida por Aristóteles em seu Analíticos Anteriores, onde diferencia os procedimentos de indução e dedução dos procedimentos por paradigmas, pois esse opera do particular ao particular, o que faz do
exemplo uma forma peculiar de conhecimento e da analogia (não da lógica) o regime discursivo do filósofo estagirita (AGAMBEN, 2010, p. 24-25). Veja-se como Aristóteles (2005, p. 244-245) coloca a questão: “Temos um paradigma9 quando se demonstra que o extremo maior é aplicável ao termo médio por meio de um termo semelhante ao terceiro”
(sem grifo no original). Nesse sentido, esclarece o filósofo que a relação estabelecida entre as premissas a partir de exemplos não se dá da parte para o todo (indução) ou do todo para a parte (dedução), mas sim, de parte à outra parte sendo que a condição de aceitabilidade do termo médio decorre de ser esse extraído de mais do que um assemelhado. Outra condição para estabelecer a relação é que um dos termos seja conhecido. Como se nota, se o paradigma platônico assume uma dimensão prescritiva – do modelo a ser seguido – o paradigma aristotélico não ultrapassa as fronteiras da Totalidade, pois a “parte conhecida” não é apenas parte do universo cognoscível, mas a própria referência última do conhecimento.
Em meados do século XX, é o debate entre Karl Popper e Thomas Kuhn que impacta profundamente nas ciências e não apenas nas chamadas “duras” – naturais e exatas, mas também nas ciências humanas e sociais. Primeiramente, as contribuições de Popper, que ocupou-se das ciências empíricas, investigando o que é e quais são seus métodos. Rejeitou a cientificidade dos métodos indutivos, considerando-os distintos da lógica da pesquisa cientifica, de modo que seria injustificável inferir enunciados universais de enunciados particulares (mesmo que inúmeros), pois tal conclusão sempre poderia ser falseada.
Denominou problema da indução os dilemas relacionados às inferências dedutivas e à validade ou verdade de seus enunciados universais. A prova dedutiva de teorias, por outro lado, consiste na formulação de conjecturas de nenhum modo já justificadas; partir de uma ideia nova para tirar conclusões (por dedução lógica). Nesse método a prova assume caráter dedutivo, pois os enunciados singulares – predições – são deduzidos da teoria, sendo preferíveis as predições que possam ser submetidas à prova ou que tenham aplicação prática.
Sempre que a aplicação prática indicar conclusões aceitáveis ou comprovadas – decisão positiva – a teoria passou na prova, alicerçando temporariamente a pesquisa, mas se a decisão for negativa, terá sido falseada a conclusão na aplicação, assim como, a teoria da qual foi extraída. Popper acreditava que o seu método resolveria problemas epistemológicos colocados ao indutivismo. Lança, então, mais um ataque à lógica indutiva por sua incapacidade de
9 Em língua espanhola nota-se a seguinte tradução “Hay ejemplo cuando se demonstra [...]” (sem grifo no original). Cf. Aristóteles, Primeros Analíticos [s.d]. disponível em:
https://onemorelibrary.com/index.php/es/libros/filosofia-y-psicologia/book/epistemologia-237/analiticos-primeros-analytica-priora-789 . Acesso em 18 abr. 2019.
proporcionar um critério de demarcação, que permitiria distinguir ciências empíricas dos sistemas metafísicos. Sustentou ser tarefa prioritária da lógica do conhecimento elaborar de um conceito de ciência empírica que demarcasse a linha que separa ciência e ideias metafísicas e para cumpri-la, propôs a falseabilidade como critério de demarcação, sendo que tal critério implica na possibilidade de incluir no campo da ciência empírica até mesmo os enunciados não passíveis de verificação – o que contrariava a tradição predominante entre os positivistas (POPPER, 1972, p. 27-41).
Afirmou que “Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema” (POPPER, 1972, p.
42), assim o que se pode exigir do sistema científico é a validação em sentido negativo, ou seja, a possibilidade de refutação de tal sistema. Antecipando a ampla gama de críticas que poderiam ser objetadas à sua proposta, Popper explica que sustenta sua posição na assimetria que existe entre verificabilidade e falseabilidade, que é própria dos enunciados universais.
Enunciados universais nunca derivam, mas podem ser contraditos por enunciados singulares, de modo que, a verdade de um enunciado singular pode falsear um enunciado universal, então, a falseabilidade é a única possibilidade de direcionamento indutivo das conclusões científicas (POPPER, 1972, p. 43).
Atento a tais ideias, Dussel avalia que “O critério de demarcação do que seja científico é agora puramente negativo e consiste no fato de que essa teoria tenha definido claramente enunciados básicos falseáveis”. A exigência de uma teoria falseável e outra(s) falseadora(s) como requisitos da verdadeira ciência coloca as ciências humanas ou sociais numa condição de pseudociência10 tornando absurdo reivindicar-lhes cientificidade. Diante disso, Kuhn abre um novo horizonte ao sugerir o paradigma e sua sucessão por meio de revoluções e aceitação pela comunidade científica. Fazendo isso, integra a intersubjetividade no processo de consolidação dos paradigmas, libertando a ciência do solipsismo popperiano.
Apena nesse sentido, Kuhn abre um novo horizonte porque no que se refere à concepção de
“ciência normal” as posições de Kuhn e Popper não variam muito (DUSSEL, 2012, p. 444-445).
Em 1962 foi publicada a primeira edição de A estrutura das revoluções científicas, do físico Thomas Kuhn. Essa obra, no ano de 2016, ainda era a mais citada11 nas pesquisas
10 E de fato a perplexidade de Dussel procede, pois Popper (1972, p. 46-48) atribui o subjetivo ao campo da psicologia, de modo que uma experiência subjetiva não pode ser outra coisa à ciência que um objeto de investigação empírica, ou seja, não pode, jamais, fundamentar enunciados.
11 O estudo é de autoria do professor Eliott Green assistente da cadeira de Estudos de Desenvolvimento, no Departamento de Desenvolvimento Internacional da London School of Economics and Political Science, e traz
em ciências sociais (GREEN, 2016). Físico teórico, Kuhn (1997, p. 7-13) passou a se dedicar ao estudo da história e filosofia e essa foi a primeira obra após a passagem de um campo do conhecimento ao outro, considerada uma tentativa de auto explicação a respeito de como se deu o seu deslocamento da ciência para a história da ciência. Dentre suas experiências como pesquisador, pôde passar um ano em contato com pesquisadores predominantemente das ciências sociais, ficando surpreso com o expressivo número de desacordos entre esses cientistas a respeito da natureza do método e dos problemas científicos, o que o levou à convicção de que as respostas dos cientistas sociais para suas questões são mais firmes e permanentes que as dos pesquisadores das ciências naturais, sendo que pela reflexão e comparação entre as comunidades científicas chegou à ideia de paradigma.
Em síntese, define paradigma como “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN, 1997, p. 13), a partir de exemplos (leis, teorias, aplicações e instrumentações) aceitos na prática científica pelos modelos que proporcionam e suas consequentes tradições coerentes e específicas. Dessa definição, nota-se a estreita relação de paradigma com os conceitos de “ciência normal” (pesquisa solidamente fundamentada em uma ou mais realizações científicas anteriores) e de “revoluções científicas”. Temendo a alteração em seus compromissos básicos, é comum que a ciência normal suprima temporariamente novidades fundamentais. Mas essa tradição da ciência não é capaz de resistir às anomalias (por exemplo, incapacidade de revolver problemas comuns) que lhe desorientam, sendo inevitavelmente subvertida e permitindo novas investigações que abrem caminho a um novo conjunto de compromissos e base prática, processo denominado
“revolução científica” que implica num desenvolvimento não cumulativo da ciência já que pressupõe a substituição total ou parcial do paradigma. Ou seja, há um elemento comum em todas as revoluções científicas, ao menos no campo da história das ciências físicas, segundo Kuhn: a rejeição de uma teoria anterior em favor de uma posterior incompatível (KUHN, 1997, p. 24-26; 29-31;125).
Por empregar o termo revolução, Kuhn discute qual o paralelismo possível entre o desenvolvimento científico e o político, para que ambos usem o mesmo termo. É que as revoluções políticas estão associadas ao sentimento crescente na comunidade, ou um segmento seu, de que as instituições não respondem aos problemas, alguns dos quais, as
na mesma tabela (extraída do Google Scholar) a obra Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, como a terceira mais citada. Recentemente, essa lista foi bastante difundida no Brasil em resposta a críticas feitas ao pedagogo brasileiro.
próprias instituições produzem. Do mesmo modo, as revoluções científicas estão associadas ao sentimento, também em parte da comunidade, de que o paradigma já não funciona adequadamente. Em ambos os casos, verifica-se uma percepção de funcionamento defeituoso que pode conduzir a uma crise, e, portanto, à revolução. Outro paralelo diz respeito às revoluções políticas almejarem mudanças nas instituições, sendo que as instituições proíbem tais mudanças. Começa com uma crise atenuando o papel das instituições e seu aprofundamento leva à concepção de projetos concretos para reconstruir a sociedade sobre novas estruturas institucionais. A ciência normal visa ampliar o alcance e previsão do conhecimento científico, mas não se propõe a revelar novidades, seja no campo dos fatos (onde ocorrem descobertas), seja da teoria (onde ocorrem invenções). Ao contrário, quando é bem-sucedida, não realiza descobertas. Depois de alcançado o primeiro paradigma, não é mais possível referir-se à ciência sem um paradigma e isso tem duas ordens de consequências: por um lado a profissionalização e restrição às mudanças desse paradigma e por outro, o detalhamento da informação, maior precisão e integração entre observação e teoria. Em todo caso, quem não sabe exatamente o que procura, quem não aplica instrumentos concebidos para fins previamente estabelecidos, não é capaz de realizar as descobertas, ou seja, sem o paradigma, a anomalia não pode ser percebida e quanto mais desenvolvido for o paradigma, mas sensível será às anomalias (KUHN, 1997, p. 77-78; 91-92; 108; 125-127).
A partir do caráter fundamental do paradigma para a ciência, dois aspectos precisam ser mencionados: a relação entre o paradigma e a comunidade científica e a incomensurabilidade entre comunidades e paradigmas. Quando redige o posfácio da obra, em 1969, Kuhn explica que emprega “paradigma” com dois sentidos: o primeiro é sociológico e indica o conjunto de crenças e técnicas compartilhadas por uma comunidade científica; o segundo, refere-se aos elementos e soluções concretas empregados na solução dos problemas:
são os modelos ou exemplos. Disso se depreende que uma comunidade é formada por cientistas que partilham o paradigma e os praticantes de uma especialidade tem instrução comum ou similar o que lhes permite delimitar seu objeto de estudo e facilmente chegar a julgamentos unânimes. Em lugar de “teoria”, propõe o termo “matriz disciplinar” para especificar essa série de elementos ordenados (matriz) em cada campo específico (disciplina).
Considerando paradigma como matriz disciplinar, esse irá abranger quatro componentes: i. as
“generalizações simbólicas”, que são as expressões aceitas e empregadas pela comunidade científica, ainda que não precedidas de uma discussão – como as leis ou fórmulas; ii.
“modelos”, que fornecem ao grupo as analogias que auxiliam na formulação de explicações aceitáveis; iii. os “valores” cujo compartilhamento é mais amplo que o dos demais
componentes e, dentre as causas de sua relevância, destaca-se que os valores são determinantes sobre o comportamento do grupo, e o mais importante dos componentes, conforme a avaliação do físico, iv. “compromissos comuns do grupo”, componente que teria dado vida própria à ideia de paradigma, substituindo o sentido de “exemplares” (soluções concretas), os exemplos que apontam como trabalho deve ser realizado (KUHN, 1997, p. 218-232).
Dessa caracterização, extraída das ideias de Thomas Kuhn, nota-se que o paradigma cumpre importantes funções no âmbito das ciências hegemônicas, especialmente na demarcação de suas fronteiras. Quando opera dessa maneira, Dussel (2012, p. 444 e ss.) os denomina “paradigmas funcionais”. Então, para pertencer a determinada comunidade científica, como sugere claramente a Estrutura das revoluções científicas, é necessário aceitar (mais que compartilhar) minimamente tais funções e seus pressupostos metodológicos, axiológicos e epistemológicos. Desde uma perspectiva crítica pode ser apontada a função colonial do paradigma, pois faz mais que excluir da comunidade científica os divergentes, nega o próprio carácter de científico ao que for produzido fora da comunidade. Ludwig (2017) especifica essa ideia apontando que o paradigma como “matriz disciplinar” constitui-se como totalidade das coisas (das generalizações simbólicas, próprias de cada área, das crenças e
Dessa caracterização, extraída das ideias de Thomas Kuhn, nota-se que o paradigma cumpre importantes funções no âmbito das ciências hegemônicas, especialmente na demarcação de suas fronteiras. Quando opera dessa maneira, Dussel (2012, p. 444 e ss.) os denomina “paradigmas funcionais”. Então, para pertencer a determinada comunidade científica, como sugere claramente a Estrutura das revoluções científicas, é necessário aceitar (mais que compartilhar) minimamente tais funções e seus pressupostos metodológicos, axiológicos e epistemológicos. Desde uma perspectiva crítica pode ser apontada a função colonial do paradigma, pois faz mais que excluir da comunidade científica os divergentes, nega o próprio carácter de científico ao que for produzido fora da comunidade. Ludwig (2017) especifica essa ideia apontando que o paradigma como “matriz disciplinar” constitui-se como totalidade das coisas (das generalizações simbólicas, próprias de cada área, das crenças e