2 CAPÍTULO I – FUNDAMENTOS TEÓRICOS SOBRE O ESTADO
5.3 As políticas da qualidade do ensino superior no Chile (2000-2012)
5.3.2 Funções e principais componentes do SINAC-ES
O Sistema Nacional de Garantia da Qualidade da Educação Superior (SINAC-ES) proporciona um novo marco com novos componentes e funções (vide Gráfico 3.1). Os principais componentes do sistema são:
1. A DIVESUP (Divisão de Educação Superior do Ministério de Educação) é responsável por assegurar o cumprimento das leis e reconhece formalmente as instituições de educação superior. Sua outra função principal consiste em recompilar e difundir informação, tarefa que realiza mediante o novo Serviço de Informação de Educação Superior (SIES).
2. El CNED (Conselho Nacional de Educação), sucessor do CSE (Conselho Superior de Educação), tem responsabilidades em todos os níveis educativos. Em relação com a educação superior, gere o processo de licenciamento, a nomeação dos responsáveis por realizar a revisão por pares, o provimento da informação e o trâmite das apelações apresentadas em relação às decisões de acreditação. O presidente do CNED é um acadêmico o catedrático de renome designado pelo Presidente da República. Compõe-se de outros nove acadêmicos e catedráticos de prestígio procedentes de diversas áreas do conhecimento. Dois deles são indicados pelo Presidente da República. São selecionados pelo Presidente do CNED e indicados pelo sindicato educativo mais representativo, o Senado, o CRUCH e os representantes dos IPs e CFTs. Seu mandato dura seis anos. El CNED elege um Secretário Executivo que gere Secretaria Técnica.
3. A CNA (Comissão Nacional de Acreditação) gerencia a acreditação, fixa os critérios de acreditação, implementa a acreditação institucional, autoriza as Agências Acreditadoras e proporciona informação pública. O presidente da CNA é um acadêmico ou catedrático de renome designado pelo Presidente da República. A CNA se compõe de outras catorze pessoas, incluídos acadêmicos e catedráticos reconhecidos e especialistas procedentes de diversos tipos de instituições de educação superior, o presidente da DIVESUP, representantes dos estudantes e a Secretaria Técnica, que tem voz, entretanto não possui voto. O mandato da maioria dos membros dura quatro anos.
se encarregam da acreditação das carreiras. Necessitam da autorização da CNA para exercer sua atividade em uma determinada série de áreas do conhecimento e de níveis acadêmicos.
Os principais organismos que compõem o SINAC-ES realizam quatro funções fundamentais:
1. Informação: O SINAC-ES tem a responsabilidade de identificar, recopilar e difundir informação pública dirigida a alunos, a familiares, a empresários e à sociedade, assim como informação de contexto solicitada pelo sistema e suas instituições. A DIVESUP é o componente principal encarregado da função informativa, embora a CNA e o CNED também participam da divulgação de informação sobre suas áreas específicas de trabalho. Em 2007, a DIVESUP criou o Sistema de Informação de Educação Superior (SIES), responsável pela função informativa.
2. Licenciamento: processo obrigatório consistente na autorização e supervisão do desenvolvimento de novas instituições de educação superior. Esta função corre exclusivamente a cargo do CNED. O processo dura entre seis e onze anos; uma vez completado, obtém-se a autonomia institucional.
3. Acreditação institucional: processo voluntário de garantia da qualidade das instituições autônomas, mediante uma avaliação interna e externa dos mecanismos, a implementação e os resultados dos objetivos e a missão da instituição. Esta função a realiza exclusivamente a CNA.
4. Acreditação das carreiras: processo de verificação da qualidade de determinadas carreiras em instituições autônomas, em função da missão e dos objetivos declarados. A acreditação é obrigatória para as carreiras de Medicina e Pedagogia e voluntária para as demais. Esta função pode ser realizada pela CNA ou pelas Agências Acreditadoras, que por sua vez podem centrar-se em matérias específicas ou em áreas acadêmicas de maior amplitude.
Em 2006, a lei 20.129 criou o Comitê de Coordenação (CC), responsável por garantir o adequado funcionamento do sistema. O CC se compõe do vice-presidente do CNED, o presidente da CNA e o diretor da DIVESUP. O secretário executivo do CNED exerce a função de secretário do CC. O CC celebra pelo menos três reuniões ordinárias ao ano; ademais, pode reunir-se com caráter extraordinário com prévia solicitação justificada de qualquer um dos organismos integrantes do SINAC-ES. Ao longo de 2012, o CC celebrou mais de três reuniões, das quais constam atas que dão conta dos temas debatidos e das decisões adotadas – embora se declararam que várias reuniões antes de 2012, não constam atas formais.
No tocante ao processo da garantia da qualidade para as instituições de educação superior de recente criação, o primeiro passo é registrar formalmente seus estatutos no escritório da DIVESUP/MINEDUC (vide Gráfico 1). Após este procedimento jurídico, as instituições hão de seguir o processo obrigatório de licenciamento, que dura entre seis e onze anos. As oito instituições de educação superior do CRUCH, criadas antes de 1981 (vide Tabela 1) já se consideravam autônomas no novo marco da educação superior e não tiveram que submeter-se ao processo de licenciamento. O resto das instituições de educação superior criadas depois de 1981 (universidades privadas, IPs e CFTs) tiveram que obter o status de autonomia. Durante os anos 1980, estas instituições estiveram sob a supervisão de uma instituição do CRUCH para obter a autonomia institucional. Após a criação do Conselho Superior de Educação (CSE), em 1990, novas universidades e IPs ficaram sob sua supervisão para obter a autonomia, enquanto que o Ministério da Educação ficou a cargo das CFTs. Este primeiro processo obrigatório para obter a autonomia era conhecido como acreditação, enquanto que no atual SINAC-ES se conhece como licenciamento.
Uma vez que uma instituição obteve sua licença, passa a ser autônoma e pode desenvolver sua atividade e função de sua missão, criando novas carreiras e novos campi satélite e admitindo mais alunos. Dado que o processo de acreditação institucional é voluntário, há algumas instituições que não o realizaram. Portanto, não existe um período fixo entre o licenciamento e a acreditação. O principal incentivo da acreditação está ligado ao financiamento. O sucesso na acreditação institucional comporta o direito dos alunos ao financiamento do Estado. A acreditação das carreiras apenas é obrigatória para Pedagogia e Medicina, embora algumas das pessoas entrevistadas pela equipe de revisão propuseram que se incluíssem outras profissões. Tanto a acreditação institucional como a das carreiras conduzem ao reconhecimento público da garantia da qualidade e as instituições de educação superior adquirem a responsabilidade de mantê-la.
Gráfico 1 – Processo de garantia da qualidade
Fonte: elaboração própria a partir de dados da CNA2012, Garantia da Qualidade da Educação Superior.
Gráfico 2 – Processo de acreditação institucional
Fonte: Conselho Nacional de Acreditação.
CNED CNA
• Registro • Licenciamento • Acreditação
•Garantia da qualidade público DIVESUP/ MINEDUC IES
autônomas IES acreditadas
Solicitação de acreditação
• Solicitud formal a la CNA • Autoavaliação da
instituição
Avaliação extern
a
• Avaliação externa por especialistas
• Feedback das instituições
• Decisão da CNA sobre a acreditação
• Acordo de acreditação e período Acreditaçã
o
• Pela própria instituição Melhora
da qualidade
Em 2006, a lei 20.129 criou o Comitê de Coordenação (CC), responsável por garantir o adequado funcionamento do sistema. O CC se compõe do vice-presidente do CNED, o presidente da CNA e o diretor da DIVESUP. O secretário executivo do CNED exerce a função de secretário do CC. O CC celebra ao menos três reuniões ordinárias ao ano; ademais, pode reunir-se em caráter extraordinário com prévia solicitação justificada de qualquer dos organismos integrantes do SINAC-ES. Ao longo de 2012, o CC celebrou mais de três reuniões, das quais constam atas que dão conta dos temas debatidos e das decisões adotadas – embora tenham ocorrido várias reuniões antes de 2012, não constam atas formais117.
Diante da dispersão de organismo e funções da educação superior, e da pressão das numerosas e fortes greves dos universitários, apoiados em parte pela comunidade acadêmica, o governo se sente pressionado a solicitar um informe-diagnóstico à OCDE – organismo do qual é membro pleno e que, a partir deste informe, deu lugar ao documento de Revisão de Políticas Nacionais, denominado “A Garantia da Qualidade da Educação Superior em Chile”, publicado pela OCDE em 2013.
Entre as sugestões que a OCDE realiza no informe antes mencionado destacam-se:
• Fomentar a igualdade, a relevância e a eficiência no sistema de educação superior em questão;
• Garantir padrões mínimos para proteger os interesses de todos os alunos;
• Conscientizar sobre a importância da qualidade e a profissionalização, que conduz à melhora contínua tanto do sistema global de educação superior como do próprio processo de garantia da qualidade.
• Respaldar a implicação ativa das partes interessadas, especialmente os alunos e os empresários, para fomentar a receptividade e a relevância da educação superior.
• Permitir a diversidade de instituições, carreiras e modos de provisão da educação superior a fim de impulsionar sua flexibilidade e sua capacidade de cumprir com seus objetivos.
• Aumentar o nível de transparência e abertura para gerar confiança interna e externa. • Manter uma atitude aberta às experiências de outros países para aprender com elas e fomentar o compromisso e a mobilidade internacionais.
A equipe de revisão recomenda que os principais componentes do sistema chileno de educação superior abarquem uma série de princípios similares que possam guiar seu trabalho futuro. A análise da equipe poderia constituir uma base para este fim, porém o importante é
chegar a um consenso sobre os objetivos adequados no contexto de Chile. O informe resume, a modo de exemplo, os padrões e as diretrizes para a garantia da qualidade que foram propostos para o Espaço Europeu de Educação Superior (EEES). A adoção coletiva desses princípios deveria facilitar a criação de itinerários mais sólidos ao longo do sistema para incorporar os padrões e as diretrizes da garantia da qualidade no EEES. Em colaboração com seus membros e outras organizações, a Associação Europeia para a Garantia da Qualidade na Educação Superior (ENQA, sigla em inglês), propôs uma série de padrões e diretrizes para a garantia interna e externa da qualidade dentro das instituições de educação superior, assim como para as agências externas de garantia da qualidade. Esses padrões e diretrizes se baseiam em uma série de princípios básicos sobre a garantia da qualidade. No mesmo informe a OCDE recomenda:
• Devem se desenvolver e melhorar a qualidade das carreiras para os alunos e outros beneficiários da educação superior.
• As carreiras devem ser ministradas em estruturas organizativas eficientes e eficazes. • A transparência e o recurso à assessoria externa para os processos de garantia da qualidade são importantes.
• Deveria potenciar-se a conscientização da importância da qualidade nas instituições de educação superior.
• Devem desenhar-se processos que permitam às instituições prestar contas do uso dos recursos públicos e privados.
• Fazer com que a garantia da qualidade destinada à prestação de contas seja compatível com o destinado à melhora.
• A qualidade das instituições deveria ser demonstrável tanto em escala nacional como internacional.
• Os processos de garantia da qualidade não devem menosprezar a diversidade e a inovação. Os padrões e diretrizes desenvolvidos seguindo os princípios mencionados servem de orientação e ajuda para que as instituições melhorem a educação oferecida, formando um contexto para a garantia da qualidade e fazendo com que a garantia externa da qualidade seja mais transparente e simples de entender para todos.
Tomando como ponto de partida os princípios chave da garantia da qualidade que descrevemos, a equipe de revisão conclui que o SINAC-ES ainda não satisfaz ditos princípios em vários aspectos:
• SINAES não se proporciona de forma consistente na garantia básica dos padrões mínimos, apenas foram dados os primeiros passos na conscientização da importância da qualidade como meio para alcançar a melhora contínua.
• Os usuários, principalmente os alunos e empresários, têm uma função secundária na garantia da qualidade.
• A falta de transparência sobre a forma com que se tomam as decisões no seio do SINAC-ES gerou desconfiança tanto dentro do sistema como na sociedade em geral acerca dos juízos que adota.
• A falta de um sistema de informação integrado e verificável provocou a perda de confiança nos dados publicados e contribuiu para uma situação em que a informação pode apresentar-se de forma enganosa.
• Não parece haver uma estratégia cara para a iniciativa internacional. Para conseguir bons resultados e cumprir os objetivos marcados. Todo sistema de garantia da qualidade deve incorporar uma série de elementos, que incluem mecanismos para garantir que toda a educação aplicada alcança determinados padrões de qualidade.
• Melhorar a própria capacidade das instituições de educação superior para levar a cabo a garantia da qualidade.
• Garantir a qualidade das carreiras individuais.
A sociedade civil chilena, desde o retorno à democracia em 1990, especialmente os estudantes e os pais endividados pelos altos gastos relacionados à educação dos filhos, uniu-se e demandou por políticas fortemente focalizadas nas dinâmicas do “capitalismo da educação superior”, aplicado pelos economistas de Pinochet, chamados “Chicago boys”, por ser uma considerável parte egressos da Escola de Economia de Chicago, encabeçada por Milton Friedmann.
A modo de conclusão, podemos dizer que a expansão da educação superior tem forças muito profundas na Argentina, no Brasil e no Chile. A promessa da mobilidade social, a transformação da estrutura produtiva dos países, marcada pelo maior peso do setor de serviços, e a própria necessidade de autofinanciamento das instituições demandam das instituições de educação superior uma abertura maior à experimentada em etapas históricas anteriores. Apesar das grandes trasnformações que foram trazidas pela globalização e pela economia neoliberal, no âmbito sistêmico, mantém-se a centralidade das grandes universidades públicas: Universidad de Buenos Aires (UBA), da Argentina, a Universidade de São Paulo (USP), do Brasil, e a Universidad de Chile, no Chile. Estas universidades, ademais de expandir sua matrícula (e, portanto, manter ainda uma proporção considerável do total de
estudantes), seguem sendo as instituições de maior qualidade – com maior investigação científica e claro predomínio no campo de pós-graduação. Incluindo a UNAM, do México, pode-se dizer que ainda são a expressão institucional mais nítida da capacidade latino- americana de reflexão intelectual, produção científica e elaboração de cultura própria. Por este importante papel que ainda ostentam, e a diminuição do compromiso fiscal com seu financiamento – que tem distintos graus nas diferentes experiências nacionais –, alguns especialistas falam da crise da universidade pública como um traço fundamental do período (décadas dos anos noventa e dois mil).
No âmbito das políticas para a educação superior, tentou-se construir – com diverso nível de concretude – sistemas de acreditação e garantia da qualidade que permitam uma gestão coordenada de um conjunto de instituições cada vez mais heterogêneo e diferenciado. As funções normativas e de supervigilância dos sistemas foram separadas das universidades nacionais, o que obriga a criação de novas instituições encarregadas de avaliar os ofertantes, assegurar sua qualidade e promover nelas uma cultura da informação, cumprimento, transparência e responsabilidade.
6 CAPÍTULO V – AVALIAÇÃO DA ACREDITAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR COMO INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO DA QUALIDADE