1.8 Solu¸ c˜ ao formal: fun¸ c˜ ao de Green e n´ ucleo
2.1.3 Fun¸ c˜ oes de Green
SeΩ´e um dom´ınio emRn, umafun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω´e uma fun¸c˜ao G∈C2(Ω2md) tal que G−G0∈C2(Ω2) e, para todo x∈Ω,
∆y(G(x, y)−G0(x, y)) = 0. (2.40) Veremos no pr´oximo cap´ıtulo como esta defini¸c˜ao pode ser reformulada na lingua-gem de distribui¸c˜oes, j´a utilizada no Cap´ıtulo 1.8.
Mostraremos agora qual ´e a f´ormula que generaliza a representa¸c˜ao integral (2.27) a dom´ınios mais gerais do queRn e fun¸c˜oes de Green mais gerais do que a coulombiana:
Teorema 2.6 (Terceira Identidade de Green) : Seja Ωum dom´ınio limitado em Rn cuja fronteira ∂Ω = Ω\Ω ´e uma hipersuperf´ıcie de classe C1 em Rn, e seja G∈C2(Ω2md) uma fun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω. Se u∈C2(Ω) ´e uma solu¸c˜ao da equa¸c˜ao de Poisson ∆u = f em Ω, ent˜ao temos para todo x∈Ω
u(x) = Z
Ω
dny f(y)G(x, y)
− Z
∂Ω
dσ(y)·(∇u(y)G(x, y)− u(y)∇yG(x, y)) .
(2.41)
Demonstrac¸˜ao : Seja x∈Ω fixo e sejad(x, ∂Ω) a distˆancia de x`a fronteira∂Ω de Ω; portanto, ¯B(x)⊂Ω desde que 0< < d(x, ∂Ω).
Observamos primeiro que a fun¸c˜aoG(x, .), que apresenta o mesmo tipo de singularidade no pontoxcomo a fun¸c˜aoG0(x, .), ´e integr´avel sobre Ω e que
Z
Ω
dny f(y)G(x, y) = lim
→0
Z
Ω\B¯(x)
dny f(y)G(x, y). Isto segue da estimativa
Z
Ω
dny f(y)G(x, y) − Z
Ω\B¯(x)
dny f(y)G(x, y)
= Z
B(x)
dny f(y)G(x, y)
= Z
B(x)
dny f(y) (G−G0)(x, y) + Z
B(x)
dny f(y)G0(x, y) 6
Z
B(x)
dny |f(y)| |(G−G0)(x, y)| + Z
B(x)
dny |f(y)| |G0(x, y)|
6 sup
y∈B(x)
|f(y)|
( sup
y∈B(x)
|(G−G0)(x, y)| vol (B(x)) + gn() )
(veja a equa¸c˜ao (2.14), em conjunto com a equa¸c˜ao (2.15)). Por outro lado, tendo em vista que ∆u = f e ∆yG(x, y) = 0 em Ω\B¯(x), temos pela segunda identidade de Green (B.45)
Z
Ω\B¯(x)
dny f(y)G(x, y)
= Z
Ω\B¯(x)
dny (∆u(y)G(x, y) −u(y) ∆yG(x, y))
= Z
∂(Ω\B¯(x))
dσ(y)·(∇u(y)G(x, y) −u(y)∇yG(x, y))
= Z
∂Ω
dσ(y)·(∇u(y)G(x, y) −u(y)∇yG(x, y))
− Z
S(x)
dσ(y)·(∇u(y)G(x, y)− u(y)∇yG(x, y)) . Precisamos ent˜ao calcular a segunda integral de hipersuperf´ıcie, no limite →0. Mostramos primeiro que
→0lim Z
S(x)
dσ(y)·∇u(y)G(x, y) = 0. Isto segue da estimativa
Z
S(x)
dσ(y)·∇u(y)G(x, y)
= Z
S(x)
dσ(y)·∇u(y) (G−G0)(x, y) +
Z
S(x)
dσ(y)·∇u(y)G0(x, y) 6
Z
S(x)
dσ(y)|∇u(y)| |(G−G0)(x, y)|
+
G0() Z
S(x)
dσ(y)·∇u(y) 6
Z
S(x)
dσ(y)|∇u(y)| |(G−G0)(x, y)|
+
G0() Z
B¯(x)
dny f(y) 6 vol Sn−1
sup
|y−x|=
(|∇u(y)| |(G−G0)(x, y)|) n−1 + 1
nvol Sn−1 sup
|y−x|6
|f(y)| n|G0()|,
onde no pen´ultimo passo, foi utilizada o teorema da divergˆencia para a fun¸c˜ao u na bola B(x), em conjunto com a equa¸c˜ao ∆u = f. Finalmente, mostramos que
→0lim Z
S(x)
dσ(y)·u(y)∇yG(x, y) = u(x). Isto segue da estimativa
Z
S(x)
dσ(y)·u(y)∇yG(x, y) − u(x)
= Z
S(x)
dσ(y)·u(y)∇y(G−G0)(x, y) +
Z
S(x)
dσ(y)·u(y)∇yG0(x, y)
−u(x) Z
S(x)
dσ(y)·∇yG0(x, y) 6
Z
S(x)
dσ(y)|u(y)| |∇y(G−G0)(x, y)|
+ Z
S(x)
dσ(y) |u(y)−u(x)| |∇yG0(x, y)|
6 vol Sn−1 sup
|y−x|=
(|u(y)| |∇y(G−G0)(x, y)|) n−1 + sup
|y−x|=
|u(y)−u(x)| , onde utilizamos a normaliza¸c˜ao (2.9).
2
A terceira identidade de Green motiva a seguinte
Defini¸c˜ao 2.4 SejaΩum dom´ınio emRn. Uma fun¸c˜ao de Green GD∈C2(Ω2md) para o operador de Laplace emΩ´e chamadafun¸c˜ao de Green para o problema de Dirichletem Ωse
GD(x, y) = 0 paray∈∂Ω. (2.42)
De forma an´aloga, uma fun¸c˜ao de Green GN∈C2(Ω2md) para o operador de Laplace emΩ´e chamadafun¸c˜ao de Green para o problema de Neumannem Ωse
n(y)·∇yGN(x, y) = 1
vol (∂Ω) paray∈∂Ω. (2.43) Observamos que seria inconsistente exigir que a express˜ao do lado esquerdo da equa¸c˜ao (2.43) se anule, pois basta aplicar a terceira identidade de Green (2.41)
com u= 1 e f = 0 para concluir que se G∈C2(Ω2md) ´e uma fun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω qualquer, temos
Z
∂Ω
dσ(y)·∇yG(x, y) = 1. (2.44) Notamos tamb´em que no caso das fun¸c˜oes de Green para o problema de Dirichlet ou de Neumann, a terceira identidade de Green se reduz a
u(x) = Z
Ω
dny f(y)GD(x, y) + Z
∂Ω
dσ(y)·u(y)∇yGD(x, y) (2.45) no primeiro caso e
u(x) = Z
Ω
dny f(y)GN(x, y) − Z
∂Ω
dσ(y)·∇u(y)GN(x, y) + hui∂Ω (2.46) no segundo caso, onde
hui∂Ω = 1 vol (∂Ω)
Z
∂Ω
dσ(y)u(y) (2.47)
representa a m´edia da fun¸c˜aousobre a fronteira∂Ω de Ω, fornecendo uma solu¸c˜ao expl´ıcita, em termos de f´ormulas integrais, tanto do problema de Dirichlet (2.1),
u(x) = Z
Ω
dny f(y)GD(x, y) + Z
∂Ω
dσ(y)·gD(y)∇yGD(x, y), (2.48) como do problema de Neumann (2.2),
u(x) = Z
Ω
dny f(y)GN(x, y) − Z
∂Ω
dσ(y)gN(y)GN(x, y) + hui∂Ω. (2.49) Estas equa¸c˜oes constituem uma generaliza¸c˜ao da f´ormula de Poisson (2.27) pois incorporam, al´em da contribui¸c˜ao provinda da fontef e representada pela primeira integral “de volume” (que no caso da f´ormula de Poisson se reduz `a convolu¸c˜ao da fonte f com o potencial de Coulomb G0), uma contribui¸c˜ao adicional provinda dos dados gD ou gN prescritos na fronteira e representada pela segunda integral
“de superf´ıcie”. Obviamente, a f´ormula de Poisson ´e um caso especial, obtido quando (a) supomos quef tenha suporte compacto contido em Ω, (b) procuramos a solu¸c˜aoucom gD= 0 ou gN = 0 e (c) tomamos o limite em que Ω =Rn.
Sendo assim, conclu´ımos que, conforme prometido anteriormente, a resolu¸c˜ao dos problemas de Dirichlet e de Neumann se reduz `a resolu¸c˜ao de um ´unico pro-blema desta natureza, para uma escolha espec´ıfica da fonte e da condi¸c˜ao de fron-teira: basta calcular a fun¸c˜ao de Green correspondente para obter a solu¸c˜ao geral, segundo as equa¸c˜oes (2.48) ou (2.49). Invertendo a l´ogica anterior, podemos at´e usar estas f´ormulas para definir a solu¸c˜ao geral e assim provar a sua existˆencia,3
3Note que o Teorema 2.6 como tal n˜ao inclui nenhuma afirma¸c˜ao sobre a existˆencia da solu¸c˜aou, sendo que essa faz parte das suas hip´oteses e n˜ao das suas conclus˜oes.
isto ´e, provar o Teorema 2.2 assim como os teoremas an´alogos para o problema de Dirichlet n˜ao-homogˆeneo e o problema de Neumann homogˆeneo ou n˜ao-homogˆeneo, desde que a existˆencia da fun¸c˜ao de Green correspondente seja garantida e as suas propriedades sejam suficientemente bem especificadas para podermos fazer as estimativas necess´arias nas integrais pertinentes. Essa demonstra¸c˜ao constitui uma vers˜ao mais sofisticada da demonstra¸c˜ao do Teorema 2.5 dada acima, e n˜ao ´e nossa inten¸c˜ao apresent´a-la aqui.
Isso posto, resta a quest˜ao como calcular essas fun¸c˜oes de Green para um dom´ınio Ω dado. Ressalta-se que para dom´ınios gerais, trata-se de uma tarefa dif´ıcil, muitas vezes praticamente invi´avel. No entanto, existem alguns m´etodos que permitem tratar de casos especiais, entre eles (a seguir, nos restringiremos ao caso das fun¸c˜oes de Green para o problema de Dirichlet):
• M´etodos da teoria das fun¸c˜oes anal´ıticas no plano complexo:
´
e f´acil provar que se Ω e Ω0 s˜ao dois dom´ınios no plano complexo, cada um com fronteira regular, e com fun¸c˜oes de Green-Dirichlet GD para Ω e G0D para Ω0, e se f : Ω−→Ω0 ´e uma transforma¸c˜ao conforme que se estende a um homeomorfismo ¯f : ¯Ω−→Ω¯0, ent˜ao4
G0D(x0, y0) = GD(x, y) onde x0=f(x),y0 =f(y).
Este fato permite calcular fun¸c˜oes de Green-Dirichlet para dom´ınios mais complicadas a partir de fun¸c˜oes de Green-Dirichlet para dom´ınios mais sim-ples, lan¸cando m˜ao de transforma¸c˜oes conformes entre elas.
• M´etodos de reflex˜ao na fronteira:
´
e f´acil provar que uma combina¸c˜ao linear de fun¸c˜oes de Green coulombianas, da forma
G(x, y) = G0(x, y) + X
j
λjG0(xj, y) para x, y∈Ω,x6=y,xj 6=y
´
e uma fun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω, desde que os pontos xj (que podem depender do pontox)n˜ao perten¸cam ao dom´ınio Ω e, exceto possivelmente quandoxest´a na fronteira∂Ω, nem ao seu fecho Ω:
xj /∈Ω , x∈Ω =⇒ xj /∈Ω.
Este fato permite encontrar, para alguns dom´ınios especiais com alto grau de simetria,λj exj tais queG(x, y) se anula quando y∈∂Ω, e assim esteGser´a igual aGD.
A maneira mais did´atica de explicar estas t´ecnicas ´e atrav´es de exemplos. Aqui, queremos discutir dois exemplos da aplica¸c˜ao do m´etodo de reflex˜ao na fronteira:
4Tecnicamente, as hip´oteses exatas s˜ao as seguintes: ∂Ω e ∂Ω0 s˜ao curvas de classeC1 no plano complexo, f : Ω−→Ω0 ´e bijetora, holomorfa e com inversa f−1: Ω0−→Ω holomorfa e f¯: ¯Ω−→Ω¯0 ´e bijetora, cont´ınua e com inversa ¯f−1: ¯Ω0−→Ω cont´ınua.¯
o primeiro ´e tecnicamente o mais simples de todos, mas apresenta a desvantagem de que o dom´ınio correspondente n˜ao ´e limitado, enquanto que o segundo ´e um pouco mais complicado, mas fornece a fun¸c˜ao de Green-Dirichlet para o dom´ınio limitado mais simples poss´ıvel: a bola.
Exemplo 2.2 (Reflex˜ao num hiperplano) : Seja Ω um semi-espa¸co emRn, ent˜ao∂Ω
´e um hiperplano emRn, e denotamos porσa reflex˜ao ortogonal neste hiperplano, isto ´e,σ ´e a transforma¸c˜ao (linear) involutiva5 de Rn que ´e a identidade sobre o subespa¸co (n−1)-dimensional∂Ω deRn e menos a identidade sobre o subespa¸co unidimensional (∂Ω)⊥ de Rn que ´e o seu complemento ortogonal. Notando que para x∈Ω, temos σx∈/Ω, conclu´ımos que
G0(x, y) + λ G0(σx, y)
´e uma fun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω. Falta apenas determinar o fatorλtal que esta esta combina¸c˜ao se anula quando y∈∂Ω, i.e., quando σy=y.
Mas comoG0(x, y) depende apenas de|x−y|eσ´e isom´etrica (|σz|=|z|), ´e ´obvio que a solu¸c˜ao ´e λ=−1, e portanto a fun¸c˜ao de Green-Dirichlet para este dom´ınio
´e
GD(x, y) = G0(|x−y|)− G0(|σx−y|), (2.50) comG0 o potencial de Coulomb dado pela equa¸c˜ao (2.11), por exemplo.
Exemplo 2.3 (Reflex˜ao numa esfera) : Seja Ω a bola aberta em Rn de raio R em torno da origem, ent˜ao ∂Ω ´e a esfera emRn de raio R em torno da origem, e denotamos por σ a reflex˜ao conforme nesta esfera, isto ´e, σ ´e a transforma¸c˜ao (n˜ao-linear) involutiva5de Rn\ {0} dada por
σx = R2
r2 x para x∈Rn,x6= 0,
onder=|x| denota a norma euclideana dex, como antes. Notando que para x∈Ω, temos σx∈/Ω, conclu´ımos que
G0(x, y) + λ G0(σx, y)
´e uma fun¸c˜ao de Green para o operador de Laplace em Ω. Falta apenas determinar o fatorλ(que aqui depender´a dex) tal que esta esta combina¸c˜ao se anula quando y∈∂Ω, i.e., quando |y|=R, ou ainda, quando σy=y. Mas neste caso, temos
|σx−y|2 =
R2
|x|2x−y
2
= R2
|x|2 2
|x|2 − 2 R2
|x|2x·y + |y|2
= R2
|x|2
R2 − 2x·y +|x|2|y|2 R2
= R2
|x|2
|y|2 − 2x·y +|x|2
= R2
|x|2|x−y|2 .
5Uma transforma¸c˜ao ´e chamada involutiva se ela coincide com o seu pr´oprio inverso.
e como G0(x, y) depende apenas de |x−y|, podemos reescrever o resultado final de tal maneira que a distin¸c˜ao de casos da equa¸c˜ao (2.11) se torna desnecess´aria, chegando `a conclus˜ao de que a fun¸c˜ao de Green-Dirichlet para este dom´ınio ´e
GD(x, y) = G0 |x−y|
−G0
|x|
R |σx−y|
, (2.51)
comG0 o potencial de Coulomb dado pela equa¸c˜ao (2.11), por exemplo.
Notamos que a fun¸c˜ao de Green-Dirichlet (2.51) para a bola acima deduzida tamb´em ´e chamada o o n´ucleo de Poisson. Como j´a foi mencionado anterior-mente, ela pode ser combinada com a equa¸c˜ao (2.48) para provar, por constru¸c˜ao expl´ıcita, a existˆencia da solu¸c˜ao geral do problema de Dirichlet, homogˆeneo ou n˜ ao-homogˆeneo, no mais simples dos dom´ınios limitados: a bola. A f´ormula expl´ıcita que resulta desta combina¸c˜ao ´e devida a Poisson, o que explica a nomenclatura.