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A FUNCIONALIDADE DO DIREITO NO PROCESSO DE RECOMPOSIÇÃO DO CAPITAL

PROCESSOS DE GARANTIA DE DIREITOS

2 A CONCILIAÇÃO DE CLASSES NA FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE BRASILEIRA E SUA

3.2 A FUNCIONALIDADE DO DIREITO NO PROCESSO DE RECOMPOSIÇÃO DO CAPITAL

Nas tramas complexas da realidade atual marcada pela dominância do capital financeiro, é preciso pensar, então, sobre a im- portância do direito nos processos de regulação econômica, considerando este como expressão de uma das faces do Estado moderno.

De acordo com Mascaro (2012), é condição essencial compreender que “nas sociedades capitalistas, o direito adquire uma estrutura específica, cuja forma é correlata à circulação mercantil”. Ele se expressa como base constituinte das relações de troca de mercadorias e da exploração do trabalho pela via do assalariamento (MASCARO, 2012, p. 96). Dito de outro modo, “o direito [...] é uma configuração necessária à transação das mercadorias41 e, neste sentido, precisamente, é um fenô- meno estrutural do sistema de valorização do capital” (AKAMINE JR., 2011, p. 95).

Para Mascaro (2012), “nas sociedades capitalistas, o Estado e direito42 são elementos necessários de sua reprodução, tanto assim que as

41 O autor alerta que “a troca mercantil não pode ser pensada apenas no âmbito

da circulação – e isto já ensejou todo um debate nas fileiras do marxismo – mas, também, no coração da produção” (AKAMINE JR., 2011, p. 95).

42 Aqui também vale uma importante diferenciação: “[...] o direito, sendo uma

relação social específica, decorrente da relação de troca de mercadorias, não se confunde com ‘Estado’, que é outra relação social derivada desta. E, também, não podem ser tomados hipostasiadamente, como entes transcendentais [...]. [O] jurídico, como a forma que reveste a troca do ponto de vista dos proprietários de bens, este só existe quando a mercantilização se põe de modo universalizado. ‘Estado’, encarado como a configuração política assumida por proprietários (de capital e de trabalho) para garantir violentamente a equivalência de coisas e pessoas, este também só existe quando a mercadoria ‘força de trabalho’ encontra-se em posição oposta aos meios de produção, porque estes estão sob domínio de uma parte da sociedade. [...]. [Assim], ‘direito’ e ‘Estado’ assumem modos de ser próprios e específicos no

mais variadas e elásticas organizações do capitalismo são todas elas, de alguma maneira, jurídicas e estatais”. E é exatamente pela intrínseca re- lação entre Estado e direito que se pode afirmar que essas categorias atravessam, “[...] como formas derivadas do capital, toda atividade capitalista”. Consequentemente, “[...] não se há de pensar que haja meca- nismos de superação das contradições capitalistas presentes por meio dessas mesmas formas que lhe são necessárias” (MASCARO, 2012, p. 96). Por isso, conforme afirma Oswaldo Akamine Jr. (2011, p. 89), a despeito do desinteresse dos juristas, é preciso problematizar a “[...] íntima conexão que há entre economia e o direito”, para compreender que, na perspectiva da luta de classes, esse complexo secundário (Lukács, 2013) encontrará limites insuperáveis se o horizonte societário em mira for o da emancipação humana.

Há que se ressaltar, aqui, por oportuno, o papel do direito em face da crise, em particular, em virtude daquele processo de autonomização dos capitais antes mencionado. Podemos dizer que esse processo de aparente desvinculação dos capitais em relação ao processo de produção da riqueza, conforme mostra a história recente, como, por exemplo, o que ocorreu em 2008 nos EUA, conduz à formação de “bolhas” de valores fictícios. O processo D – M – D (dinheiro-mercadoria-dinheiro) é reduzido a D – D’ (dinheiro-dinheiro a mais). Essa equação

[...] é expressada na forma de títulos jurídicos que manifestam a apropriação de parcelas da mais-valia global pelos capitalistas ‘prestamistas’ [...]; ao fazê-lo, colocam-se em oposição aos chamados capitalistas funcionantes – os que efetivamente, comandaram a exploração da classe trabalhadora produtiva, já que [...] a distribuição da mais-valia global obedece o critério da propriedade e não da produção. A ideia, portanto, de ‘realizar’ o ganho de valor, no preciso sentido de torná-lo real, diz respeito à conversibilidade do título de propriedade em dinheiro. A liquidez representa o verdadeiro poder social; quando ela é posta em risco em termos sistêmicos, a crise se instala. (AKAMINE JR., 2011, p. 98-99).

capitalismo e, portanto, somente podem se compreendidos em relação à totalidade concreta, tomados a partir dos arranjos aos quais os homens estão submetidos para produzir sua existência social” (AKAMINE JR., 2011, p. 95- 96).

E, nesse sentido, conforme assevera Akamine Jr (2011, p. 99), é preciso esclarecer que “o direito de propriedade não existe porque a norma jurídica o prevê [...]”, mas pelo contrário, “[...] somente porque existe uma relação social ‘propriedade privada’ é que se pode pensar em uma regra que a torne mais clara e específica”.

O mesmo autor defende:

O direito é um fenômeno estrutural que deriva diretamente do processo de mercantilização, mas parece ser um instrumento ideológico, quando tomado com a forma normativa (porque se presta a um fim específico e claramente posto: a dominação classista.

Nestes termos, do ponto de vista jurídico, a economia aparece como um emaranhado de encadeamentos contratuais, onde as relações de troca ensejam relações entre sujeitos de direito. Seguindo a lógica capitalista, o direito, assim como o próprio capital, tende a se autonomizar, de modo que a sua origem na luta de classes se apaga: os indivíduos são tomados como iguais, formalmente [...]. O deslocamento do processo de valorização do capital é um fenômeno eminentemente jurídico e, assim, se desse movimento na totalidade concreta é que advém a crise, o jurídico tem de ser compreendido como parte constitutiva deste estado. (AKAMINE JR., 2011, p. 99-101, grifo do autor).

As relações jurídicas instituídas, segundo Akamine Jr. (2011), permitem os processos de transfiguração do capital – seja ele “prestamista” ou “funcionante”, para usar expressões marxianas – e devem ser respeitadas, caso contrário, não teriam sido instituídas. E, à medida que são cumpridas, instala-se na realidade a crise. Nesse sentido, pode-se dizer que “as relações jurídicas [...] dão causa às crises, mas, bem compreendido, porque derivam diretamente da relação social de troca de mercadorias equivalentes, que caracteriza o núcleo da economia capitalista”. Assim, como efeito prático dessa compreensão, temos que “[...] o direito não pode resolver nenhuma crise econômica: a solução

para qualquer crise tem de ser política, porque enseja a quebra violenta

de uma série de relações jurídicas em detrimento de outras” (AKAMINE JR., 2011, p. 101, grifo do autor).

A função do direito no contexto da dominância do capital portador de juros e fictício revela sua essencialidade nos processos de

valorização do capital, num cenário onde o dinheiro aparece como um valor que “produz”, tomando emprestado, aqui, fragmentos das análises de Chesnais (2005). Ainda que transações financeiras ocorram naquilo que o autor chama de “circuito fechado formado pelas relações financeiras especializadas” (CHESNAIS, 1996, p. 246), termos como autonomia e autonomização dessas transações devem ser utilizados com certa parcimônia, conforme já assinalamos em outro momento. Para o autor:

Independentemente de seus aspectos de agiotagem, como capital que rende juros, o capital monetário concentrado representa ‘a forma mais alienada, mais fetichizada da relação capitalista’, a forma D- D’ (isto é, aquela em que um capital D se fecunda e gera D’, sem passar por um investimento produtivo). Essa é a forma de ‘o dinheiro que gera mais dinheiro, um valor que valoriza a si mesmo, sem nenhum processo [de produção e de comercialização de mercadorias] que sirva de me- diação entre os dois extremos [...]. ‘O lucro dos banqueiros não passa de uma retenção sobre a mais-valia’ [...], e a capacidade do capital gerador de juros fazer valer suas exigências na partilha da mais-valia vai depender do grau de centralização e de concentração atingido pelo capital monetário. (CHESNAIS, 1996, p. 246-247, grifo do autor). As questões aqui mencionadas reforçam a ideia de que o processo de valorização do capital está organicamente articulado ao processo de criação do valor que ocorre na esfera da produção, por meio da exploração da força de trabalho. Nesse sentido, Marx (1986, p. 10-11) analisa:

Em antítese ao capital da dívida pública, onde um menos aparece como capital - sendo o capital portador de juros, em geral, a matriz de todas as formas aloucadas, de modo que, por exemplo, na concepção do banqueiro, dívidas podem aparecer como mercadorias -, queremos agora considerar a força de trabalho. Nesse caso, concebe-se o salário como juro e, por conseguinte, a força de trabalho como o capital que proporciona esse juro. Se, por exemplo, o salário de um ano é de 50 libras esterlinas e a taxa de juros é de 5%, então a força de trabalho anual equivale a um capital de 1000 libras esterlinas. A loucura da concepção capitalista atinge aí seu ápice: em vez de explicar a

valorização do capital pela exploração da força de trabalho, é, ao contrário, a produtividade da força de trabalho que é explicada pela circunstância de que a própria força de trabalho é esta coisa mística, capital portador de juros. [...] A formação do capital fictício chama-se capitalização. Cada receita que se repete regularmente é capitalizada em se a calculando na base da taxa média de juros, como importância que um capital, emprestado a essa taxa de juros, proporcionaria; se, por exemplo, a receita anual = 100 libras esterlinas e a taxa de juros = 5%, então as 100 libras esterlinas seriam o juro anual de 2000 libras esterlinas, e essas 2000 libras esterlinas são agora consideradas o valor- capital do título jurídico de propriedade sobre as 100 libras esterlinas anuais. Para quem compra esse título de propriedade, a receita anual de 100 libras esterlinas representa então, de fato, os juros de seu capital investido a 5%. Toda a conexão com o processo real de valorização do capital se perde assim até o último vestígio, e a concepção do capital como autômato que se valoriza por si mesmo se consolida.

Considerando todos esses aspectos, parece-nos acertada a expressão utilizada por Mészáros (2002) para definir essa crise como sendo uma crise estrutural do sistema global do capital, haja vista que atinge as esferas da produção, da circulação, da distribuição, do consumo, ou seja, repercute tanto na esfera da produção quanto da realização do valor. É uma crise que alastra suas consequências para todas as dimensões da vida em sociedade: economia, política, Estado, direito, cultura, etc. Com relação a essa última dimensão, vale aqui o destaque para o fato de que tudo se torna descartável nesse universo, provocando profundas mudanças na cultura da sociabilidade burguesa conduzida por uma perspectiva pós-moderna e tornando os bens culturais verdadeiras mercadorias, cuja fungibilidade é espantosa e destruidora do acervo das culturas originárias dos povos.

Esse destaque parece-nos importante, porque, no conteúdo dessa cultura capitalista construída e gerida com base no pensamento pós- moderno, adensa-se o individualismo coadunado com a máxima de que não existe sociedade, mas apenas indivíduos. Essa perspectiva própria do século passado é saturada, agora, pela lógica da mercadoria que, por sua vez, passa a ser uma lógica catalisadora de todas e das mais diversas

expressões humanas. Esse individualismo exacerbado, concebido como uma mina de oportunidades para o mercado e como um princípio direcionador das relações sociais, tem rebatimentos importantes sobre os processos organizativos das classes trabalhadoras e na forma de elas enfrentarem os ataques às suas conquistas históricas. E, aí, podemos fazer referência ao fenômeno da judicialização dos direitos, tanto sociais como os trabalhistas, que, ao fim e ao cabo, fragiliza as lutas coletivas. Os dissídios individuais interpostos por trabalhadores são um dos exemplos que confirmam essa estratégia de requerer direitos pela negação da luta de classes. E a conciliação aparece como um instrumento viabilizador da desconstrução daqueles mesmos direitos como conquistas do movimento histórico dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que reforça a defesa de uma “pacificação social”, dimensão estratégica para dar perenidade à cultura capitalista que se tem traduzido nas transformações macrossoci- etárias em curso, especialmente a partir do final dos anos de 1960.

Retomando as reflexões sobre a crise, pensamos que em Mészáros (2011) encontramos um posicionamento com o qual nos coadunamos. Para o autor, “[a] ocorrência das crises cíclicas periódicas continua sendo a marca do desenvolvimento capitalista conjuntural e continuará, enquanto o capitalismo sobreviver”. A crise atual, contudo, destas se diferencia pelos aspectos por nós alhures assinalados. É uma crise que pela sua natureza “[...] se combina com crises capitalistas cíclicas e afeta todas as formas concebíveis do sistema do capital enquanto tal, não somente o capitalismo. A crise estrutural se faz ativando

os limites absolutos do capital como modo de reprodução social metabó- lica” (MÉSZÁROS, 2011, p. 136, grifo do autor).

Entendemos que, sendo uma crise estrutural, cuja resolução só é possível do ponto de vista dos trabalhadores pela supressão do modo de produção que lhe dá origem, quaisquer alternativas desenhadas pela burguesia mundialmente articulada são ilusórias e deletérias. E, mais, a realidade tem mostrado que essa crise não encontrou ainda seu ponto de chegada, tendo ainda muitos processos destrutivos a serem revelados. Os lapsos de crescimento econômico, além de apresentarem índices muito baixos se comparados aos períodos de expansão precedentes, são circunstanciais e não se sustentam apesar do gigantesco reforço financeiro dado pelos Estados a bancos e empresas com o fito de resgatar os títulos de dívidas circulantes no mercado. Isso demonstra o acerto de Harvey (2011, p. 177) ao afirmar que, quando “[...] o Estado entra em cena para socorrer os financistas”, resta também evidente “[...] para todos que Estado e capital estão mais ligados um no outro do que nunca, tanto institucional quanto pessoalmente”. O crescimento das dívidas

empresariais nos EUA, epicentro da expressão maior da crise, em 2008, não foi estagnado, e o inadimplemento tem também aumentado significa- tivamente desde então, cujos efeitos espraiam-se para todo o sistema do capital. O processo de endividamento da população em geral, em todos os cantos do mundo, mas em particular nos EUA e na Europa, é tão grande que analistas apontam que um quantitativo importante delas já é considerado perdido, a despeito da crescente tomada de bens dos devedores por parte dos bancos em virtude das hipotecas não pagas. Tam- bém nos países de economia central, as taxas de desemprego estão elevadas, fato que desconstrói os argumentos da retomada do crescimento pela via do consumo. Tampouco vislumbra-se uma reedição das políticas keynesianas clássicas como alternativa para conduzir processos de absorção das demandas dos trabalhadores de modo a prevenir os processos de convulsões sociais. Pelo contrário, na Europa as conquistas caracterizadoras do chamado Welfare State foram praticamente destruídas nas últimas duas décadas, revelando a ocorrência de processos regressivos e autoritários. Esses processos ensinam aos trabalhadores que o passado não pode ser reinventado, e que as ilusões capitalistas precisam ser refutadas e desconstruídas para que se possa projetar o futuro.

As ilusões com relação ao potencial do direito também precisam ser desfeitas, apesar de sua validade contraditória como instrumento a favor dos interesses dos trabalhadores, nos limites da emancipação polí polomSegundo Mascaro (2012), “a solução de conter a crise do capitalismo por meio de instrumentos jurídicos – pleitos pela dignidade humana como garantia de direitos – é, na verdade, a busca por remendar a sociedade [...]”, pois o que a história mostra é que “o aumento dos ganhos dos explorados e das minorias é feito dentro do padrão jurídico e político capitalista”. Reconhecendo a “[...] relação estrutural entre a lógica do direito e a lógica do capital [...]”, o desafio que se põe é identificar e compreender “[...] as implicações jurídicas e políticas profundas nesse movimento pendular do capitalismo contemporâneo” (MASCARO, 2012, p. 101-103).

As crises do capitalismo – as de natureza cíclica cujos lapsos de reincidência têm diminuído, ou a estrutural, têm conduzido as economias mundiais a alternativas face aos limites da programática neoliberal. Essas alternativas, apesar de diversificadas – tanto no centro quanto na periferia do capitalismo, configuram “mais do mesmo”.

O aumento dos direitos em alguns países e o estancamento da perda de direitos em outros43

representa um novo momento no arranjo quantitativo do direito do capitalismo mundial contemporâneo. Se é um processo com potencial de consolidação de ganhos ou se é meramente provisório, ou mesmo se é um trampolim para lutas sociais mais estruturais e transformadoras, o tempo e as circunstâncias futuras o mostrarão. Mantendo a mesma lógica que realimenta o capitalismo, o progressismo jurídico atual corre o risco de jogar água para o moinho de uma economia-mundo que o tragará posteriormente. (MASCARO, 2012, p. 105),

Ao abordar as possíveis alternativas para o enfrentamento da crise, Mészáros (2011, p. 137) alerta para essas ilusões que podem avassalar corações e mentes, inclusive das classes trabalhadoras.

Uma das mais compreensíveis mas, em última ins- tância, auto-derrotada ilusão contra a qual temos de nos precaver é qualquer forma de neo- keynesianismo, incluindo o autodenominado neo- keynesianismo de esquerda. Os apelos a sua ressurreição são compreensíveis na atualidade, uma vez que equivalem à última linha de resistência em torno da qual as várias personificações do capital podem obter consenso provisório num momento de grande crise. Sob tais circunstâncias, as várias formas do capital pretendem lançar mão de medidas de intervenção estatal keynesianas para a reestabilização de seu sistema até que possam reverter suas concessões e retornar ao status quo ante. (MÉSZÁROS, 2011, p. 137, grifo do autor).

43 O autor, aqui, faz menção às “[...] experiências intervencionistas de expansão

capitalista [...] desenvolvidas no mundo – como na China e no Brasil – e, também às conquistas sociais a partir de “[...] movimentos ligados aos Estados[...]”, em especial em países latino-americanos – como Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina. Nesta região do planeta em particular, segundo o autor, não se pode negar o caráter alentador dessas conquistas jurídicas em face da “[...] absoluta miséria política neoliberal, de onde reluzem como contraposto, mas são, por sua natureza estrutural, irremediavelmente conservadoras” (MASCARO, 2012, p. 102-103).

É preciso, aqui, abordar um pouco mais a atuação do Estado nos eventos de crise; para isso, vamos levar em conta alguns fatos recentes. A crise vivenciada nos países centrais, a partir de 2008, está relacionada à lógica que a economia capitalista tem adotado desde as últimas três déca- das do século XX, ou seja, uma lógica centrada na valorização financeira do capital que se apropria de riquezas produzidas na base econômica, con- forme já indicado. Nesse processo, no momento em que os portadores de títulos emitidos procuram apropriar-se de capitais que ainda não existem, é exatamente o momento no qual a crise eclode. Há um capital fictício que representa uma massa de riqueza que não encontra uma base material para realizar-se, pois ainda não foi produzida.

Esses títulos sofrem, por isso, um processo de desvalorização, transformando-se naquilo que os economistas chamam de “títulos po- dres”. Seus portadores, portanto, tornar-se-ão insolventes, e essa condição alastra-se por toda e rede de conexões das relações sociais da produção capitalista. Na tentativa de conter esse processo, o Estado passa a intervir basicamente a partir de duas ações cumulativas estratés cumulatprimeira delas é comprando esses títulos na expectativa de que eles, com o tempo, possam novamente valorizar-se. Em razão disso, o Estado entra num processo de endividamento público, o que justifica as ações de ajustes fiscais. Para os trabalhadores, os resultados desse processo implicam, sempre, a redução ou supressão de direitos.

Essa estratégia foi adotada em vários países do mundo e, particularmente, nos EUA, logo quando os efeitos da crise de 2008 intensificaram-se, conforme Bastos e Mattos (2011, p. 184):

Fica clara [...] a severidade da crise econômica que tem início no ano de 2008 e o papel central do estado para, num primeiro momento sua contenção e posterior superação. Apesar de ter sido utilizada uma ampla gama de instrumentos de intervenção, muitos deles, altamente inusuais e heterodoxos, no primeiro semestre do ano de 2011, a taxa de desemprego ainda se encontrava em um patamar bastante elevado para os padrões históricos dos Estados Unidos, justificando um estudo mais acurado e desagregado a respeito de sua trajetória recente.

O outro caminho – que é adotado simultaneamente ao primeiro - implica a realização de novas reformas que atingem os mercados, inclusive o de trabalho. Nesse particular, essas reformas apontam para a adoção de medidas de retirada de direitos. É por meio dessa estratégia –

adotada agora também nos países centrais na Europa e nos EUA em virtude da crise vivenciada a partir de 2008 - que cresce a exploração do trabalho para aumentar a produção de valor que, em tese, pode servir para dar base material à massa de títulos que circulam no mercado. Assim, é importante verificar que a retirada de direitos e a intensificação da exploração da força de trabalho, conjuntamente, têm sido a principal estratégia adotada pelos capitalistas no mundo inteiro para buscar a superação da crise. Eis, pois, aí, uma das razões para que, na realidade