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Funcionamento da memória no discurso jornalístico

No documento Anacir Vanz (páginas 31-35)

Para Romão (2005, p. 240), há um jogo que se estabelece entre produção e leitura de notícias. No entanto, ele não se dá de forma gratuita, mas pelo fato de os sujeitos estarem inseridos em uma realidade repleta de contradições sociais, o que torna o gesto de leitura e interpretação diferente para cada sujeito e, por consequência, o processo de significação dos discursos. Além disso, os dizeres não produzem os mesmos sentidos nos sujeitos, visto que, para cada um deles a memória discursiva – lugar de significação dos dizeres – é acionada de modo particular.

Para a teoria da interpretação, quando o sujeito produz/interpreta um discurso o faz com base em um já-dito/formulado anteriormente, porque são esses já-ditos que sustentam todo o discurso, permitindo compreender o funcionamento discursivo, assim como a sua relação com os sujeitos e com a ideologia. Conforme Orlandi (2013, p. 32), o que o sujeito diz não é sua propriedade particular, isso porque as palavras não lhe pertencem e adquirem significados iguais ou diferentes pelo funcionamento da história e da memória, ainda que ele seja afetado pela ilusão de que é o dono do dizer e que os sentidos podem ser por ele controlados.

Para a AD, a memória discursiva funciona ideologicamente nos processos de identificação dos sujeitos com os sentidos e se constitui por dois esquecimentos

“radicalmente diferentes e inerentes ao discurso” (PÊCHEUX, 2014, p. 161), que correspondem, na verdade, a ilusões que afetam o sujeito no processo discursivo.

Conforme Orlandi (2013, p. 35) o esquecimento número dois, da ordem da enunciação, é um esquecimento semiconsciente porque, ao produzirmos um discurso, elegemos uma palavra/expressão em detrimento de outra, colocando em funcionamento processos parafrásticos. A autora exemplifica que ao falarmos “sem medo” poderíamos substituir por “com coragem”, mas ao optarmos pela primeira, o fazemos porque isso significa no nosso discurso, embora não tenhamos total consciência disso. Em termos discursivos, isso significa que as escolhas que fazemos não são aleatórias.

O esquecimento número um é da ordem do ideológico e do inconsciente, pois remete ao modo como os sujeitos são marcados pela ideologia. Nessa forma de esquecimento, os sujeitos pressupõem que são a origem do dizer, quando, na verdade, somente retomam dizeres já existentes. Para melhor entender esse tipo de esquecimento, podemos pensar que, quando nascemos, os discursos já existiam e que, portanto, não somos a sua origem (ORLANDI, 2013, p. 35).

Essa memória com a qual trabalha a AD não deve, no entanto, ser confundida com a memória individual ou com a memória com a qual trabalham historiadores como Le Goff (2003, p. 49), por exemplo, para quem a história e a memória possuem uma ligação intrínseca, pois assim como os fatos passados não são a história em si, mas seu objeto, a memória também não é história, mas um dos objetos que colabora para a construção histórica, tal qual os fatos passados.

De acordo com o autor, a memória social/coletiva constitui instrumento indispensável para problematizar tempo e história, sobre os quais ela ora recua, ora se expande (Le Goff, 2003, p. 422), e do seu ponto de vista, ela é fundamental para o desenvolvimento das sociedades, principalmente a partir da segunda metade do século XX, pois, ao mesmo tempo em que essa memória se constitui por meio de arquivos históricos, também se insere nas discussões das sociedades que se encontram em processo de desenvolvimento, no tocante às lutas de classes que envolvem disputa por poder e, consequentemente, por sobrevivência (LE GOFF, 2003, p.469).

Portanto, a memória social/coletiva é, para o autor, uma forma de domínio, pois por meio dela é que as sociedades podem compreender os artifícios empregados para dar visibilidade às lutas de classes. Para ele, “a memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (LE GOFF, 2003, p. 470-471).

Pela esteira do discurso, a memória não diz respeito à rememoração dos fatos do passado e nem se refere à capacidade de armazenamento de dados no cérebro, mas é compreendida como um movimento de atualização/recuperação de já-ditos que irrompem no fio do discurso, por meio da repetição e da regularidade e que só significam pelo movimento da história, que não diz respeito à cronologia de acontecimentos passados, mas à forma como os sentidos se cristalizam ou se deslocam em uma dada conjuntura sócio-histórica.

Conforme Pêcheux (1999, p. 52), a memória corresponde aos “implícitos”, isto é, aos pré-construídos, aos elementos citados e relatados e aos discursos- transversos, que “estão ausentes por sua presença”, isto é, que ficam armazenados/arquivados na memória discursiva assim como objetos “esquecidos” no fundo de uma gaveta e que irrompem no eixo da formulação sob a forma de remissões, retomadas e de efeitos parafrásticos. Conforme ele:

[...] a memória discursiva seria aquilo que face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os ‘implícitos’ (quer dizer mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos etc. (de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível (PÊCHEUX,1999, p. 52, grifo do autor).

Contudo, Pêcheux (1999, p. 52) assinala que essa “regularidade” discursiva pode vir a se desfazer diante de um novo acontecimento discursivo, provocando, assim, uma “perturbação na memória” e, logo, a interrupção da regularidade, inaugurando outra série. Afirma ainda que esse tipo de memória não pode ser considerada homogênea e que possui “arestas”. Conforme o autor:

[...] a memória não pode ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente

um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos (PÊCHEUX, 1999, p. 56).

Orlandi (2013, p. 57) compreende a memória discursiva com o interdiscurso, como o “[...] saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”. Nas palavras da autora, o interdiscurso é um já-dito em outra ocasião, com outras palavras, que é atualizado pelo funcionamento da memória discursiva. Nesse sentido, é por meio do interdiscurso que o sujeito produz sentidos que determinam como ele se significa frente a uma determinada e/ou nova situação discursiva (ORLANDI, 2013, p. 31),

Para Indursky (2011, p. 71), é o regime de repetibilidade que torna possível afirmar que os saberes existem anteriormente ao discurso do sujeito e que, quando ele os atualiza, o faz na ilusão de que aquilo que diz nunca foi dito antes, isto é, “[...] de que foram formulados em outro lugar e por outro sujeito, e que ele os retoma, sem disso ter consciência” (INDURSKY, 2011, p. 71). Esse regime da repetibilidade atesta o funcionamento da memória discursiva, entendida por ela não como interdiscurso, mas como a “existência histórica do enunciado no seio de práticas discursivas, reguladas pelos aparelhos ideológicos” (COURTINE, 1981, p. 53 apud INDURSKY, 2011, p. 72).

De acordo com a autora, tanto o interdiscurso como a memória discursiva dizem respeito à memória social, mas o interdiscurso é da ordem do memorável, isto é, compreende uma memória ampla e saturada, que abarca todos os dizeres possíveis do complexo das formações discursivas. Já a memória discursiva é de ordem ideológica e diz respeito somente aos sentidos autorizados pela forma- sujeito1de uma uma FD, incluindo, também, aqueles que são refutados ou apagados em razão de determinações históricas (INDURSKY, 2011, p. 87). Segundo ela, “o interdiscurso abarca a memória discursiva referente ao complexo de todas as FDs” (INDURSKY, 2011, p. 88, grifo da autora).

Para a AD, a produção de qualquer discurso depende do funcionamento da

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Forma pela qual o sujeito do discurso se identifica com a formação discursiva que o constitui. Também chamada de sujeito universal ou sujeito do saber de uma FD (PÊCHEUX, 2014, p. 154).

memória discursiva, pois é por meio dela que os sentidos constituídos historicamente retornam atualizados no fio do discurso, sob novas formulações, isto é, ao formular o dizer, o sujeito mobiliza discursos que se encontram deslinearizados no interdiscurso e, mais especificamente, no interior das formações discursivas nas quais se inscreve, embora seja afetado pela ilusão de que é a origem deles. Dizendo de outro modo, o processo de significação está relacionado com a memória discursiva e logo, com a inscrição dos dizeres nas formações discursivas com as quais o sujeito se identifica imaginária e inconscientemente.

No documento Anacir Vanz (páginas 31-35)