2.8 Tarifa Branca
2.8.2 Funcionamento da Tarifa Branca
Como já mencionado, o consumidor do grupo B, ou seja, o consumidor do grupo de baixa tensão – exceto o consumidor do subgrupo B4 (iluminação pública) e aquele de baixa renda do subgrupo B1 (ANEEL, 2010, p. 7) – poderá optar pela Tarifa Branca. Caso esse consumidor solicite a adesão à Tarifa Branca, a conta de energia passará a ser recebida com o seu consumo registrado em três grupos de leituras, referentes ao consumo no horário de ponta ou posto tarifário ponta, ao posto tarifário intermediário e ao fora de ponta. Cada posto tarifário possui um preço para o kWh, sendo, portanto, o faturamento total o resultado da quantidade de kWh consumido em cada posto tarifário multiplicado pelas suas respectivas tarifas.
O horário de ponta equivale às três horas consecutivas de maior consumo da rede elétrica, normalmente definido das 19h às 22h. A leitura referente ao consumo de energia no horário “intermediário” é aquela que normalmente compreende uma hora antes e uma hora depois do posto tarifário ponta: em geral, é definida das 18h às 19h e das 22h às 23h. A leitura referente ao consumo durante os horários considerados “fora de ponta” compreende os horários de 23h até às 18h do próximo dia. A exceção a essa regra se dá nos fins de semana, terça-feira de carnaval, sexta-feira da Paixão, Corpus Christi e feriados apresentados no Quadro 1, quando o consumo de energia, independentemente da hora do dia, será registrado como horários “fora de ponta”.
Cabe ressaltar que os preços das tarifas são maiores que a tarifa convencional nos horários de ponta e intermediário e menor que a tarifa convencional no horário fora de ponta.
Quadro 1 - Feriados com vigência da tarifa fora de ponta o dia todo
Dia e mês Feriados nacionais Leis federais
1º de janeiro Confraternização Universal 662, de 06/04/1949
21 de abril Tiradentes 662, de 06/04/1949
1º de maio Dia do Trabalho 662, de 06/04/1949 07 de setembro Independência 662, de 06/04/1949 12 de outubro Nossa Senhora Aparecida 6.802, de 30/06/1980
02 de novembro Finados 662, de 06/04/1949
15 de novembro Proclamação da República 662, de 06/04/1949
25 de dezembro Natal 662, de 06/04/1949
Fonte: Aneel (2010, p. 9).
É importante destacar que os horários das tarifas, apesar de inicialmente definidos, podem ser alterados por solicitação das empresas distribuidoras, no momento da
revisão tarifária, que acontece a cada 4 anos, caso a ANEEL aprove um possível pleito de modificação.
O Gráfico 1 apresenta a relação das tarifas “ponta”, “fora de ponta” e “intermediária”, utilizadas para os consumidores que optarem pela Tarifa Branca, com relação à “tarifa convencional”, que continuará válida para todos que não optarem pela Tarifa Branca.
Gráfico 1 - Comparação das tarifas Branca e Convencional
Fonte: Página explicativa da Aneel sobre a Tarifa Branca (ANEEL, 2017d).9
Os cálculos dos valores das tarifas que compõem a Tarifa Branca são definidos por expressões matemáticas simples, apresentadas em (1), (2) e (3), levando-se em consideração a tarifa convencional e os parâmetros kz, fi e fp, que serão alvo de larga discussão neste trabalho:
( 1 )
( 2 )
( 3 ),
em que TC denota a tarifa convencional atualmente utilizada; FP, INT e P representam, respectivamente, as tarifas Fora de Ponta, Intermediária e de Ponta.
Os parâmetros fi e fp foram primeiramente fixados pela Aneel como numericamente iguais a 3 e 5. O valor de kz, de acordo com a Aneel, deveria ser diferenciado para cada concessionária, dado que depende das características típicas dos consumidores, que
9
É importante mencionar que o Gráfico 1 é utilizado pela Aneel para apresentar didaticamente as tarifas da modalidade Tarifa Branca, sem a intenção de transmitir a proporção correta entre as tarifas.
Quanto maior a diferença entre a Tarifa Convencional e a Tarifa Branca fora de ponta, maior o incentivo à adesão à Tarifa Branca e vice-versa.
DIAS ÚTEIS SÁBADOS, DOMINGOS E FERIADOS
T a ri fa (re la ti v a ) T a ri fa (r e la ti v a ) Horas do dia Horas do dia Tarifa Branca
Fora de Ponta Intermediário Ponta
Tarifa Convencional (atual)
Tarifa Branca Tarifa Convencional (atual)
podem variar em diferentes regiões de concessão (TOMÉ, 2014). O valor do parâmetro kz influencia o valor de todas as tarifas, pois, como apresentado em (2) e (3), as tarifas intermediária (INT) e ponta (P) se relacionam com a tarifa fora de ponta (FP), a qual é ajustada diretamente pelo parâmetro kz.
A definição do parâmetro kz é particularmente relevante, pois estabelece a intensidade da economia financeira do consumidor, isso porque esse parâmetro ajusta a tarifa mais barata (“fora de ponta”), que irá compensar o usuário que modular seus hábitos de consumo evitando os horários de pico e intermediários. Os demais parâmetros (fi e fp) são importantes uma vez que podem transformar as tarifas intermediária (INT) e de ponta (P) em valores elevados. No caso da tarifa fora de ponta (FP), cujo preço efetivamente é menor que a tarifa convencional (TC), um erro em sua definição pode praticamente nivelar os preços mais baratos da Tarifa Branca com os preços fora desta, inviabilizando o uso da Tarifa Branca, uma vez que ela ficaria mais cara que a tarifa convencional e, assim, não traria benefícios para o consumidor.
Neste trabalho, serão utilizados os valores propostos pela Aneel para fi e fp, mantendo-os fixos, e variando somente o valor do parâmetro kz, de maneira que seja possível encontrar os valores que resultem na maior redução de consumo nos horários de ponta e intermediário. Os valores de kz que resultarem na maior redução de consumo serão considerados os mais adequados.
2.8.2.1 Influência dos preços das tarifas na conta de energia
Assim que um consumidor adere à Tarifa Branca, dependendo do seu perfil de consumo e do patamar das tarifas “ponta” (P), “intermediária” (INT) e “fora de ponta” (FP), definidas pela Aneel, poderá pagar automaticamente mais ou menos do que já pagava, independentemente da tentativa de modificação dos seus hábitos de consumo para os horários com o menor preço. Essas situações, que não proporcionam o deslocamento do consumo de energia dos horários de ponta e intermediários e, mesmo assim, geram resultados financeiros positivos ou negativos para os consumidores, são consideradas neste trabalho como resultados de uma definição errada das tarifas e devem ser avaliadas pela Aneel, já que podem tirar a efetividade ou a atratividade da Tarifa Branca para o consumidor. O entendimento dessas falhas na definição dos preços das tarifas é alvo desta dissertação.
O Gráfico 2 representa uma situação hipotética, em que se utiliza de um valor de tarifa convencional fictício e os parâmetros kz=0,8, fi=3 e fp=5. Pode-se observar que os
valores das tarifas intermediárias e de ponta estão muito superiores ao da convencional para os consumidores que aderirem à Tarifa Branca nesta situação. Em contrapartida, a tarifa fora de ponta não apresenta visualmente um ganho significativo ante a tarifa convencional que compense a adesão a essa nova modalidade tarifária.
Gráfico 2 - Tarifa convencional e FP, INT e P (kz=0,8, fi=3 e fp=5)
Fonte: Elaboração própria.
Notadamente, são poucos os equipamentos que podem ser modulados quanto ao seu horário de acionamento. Portanto, para se ter um resultado financeiramente satisfatório, de acordo com o Gráfico 2, seria preciso um grande esforço de alteração de hábitos para um resultado pouco expressivo ante a tarifa convencional.
O Gráfico 3 apresenta uma comparação de composições de valores tarifários. À esquerda supõe-se o valor do parâmetro de referência kz igual a 0,8 e à direita, igual a 0,4. Pode-se notar que os valores das tarifas apresentadas no gráfico em que kz=0,4 podem resultar em uma recompensa financeira maior para o usuário que aderir à Tarifa Branca, caso este consiga modular seus hábitos de uso para consumir mais energia no horário fora de ponta, em que o preço é significativamente menor.
R$ 0.2822 R$ 0.2258 R$ 0.6773 R$ 1.1288 R$ 0,00 R$ 0,20 R$ 0,40 R$ 0,60 R$ 0,80 R$ 1,00 R$ 1,20
Gráfico 3 - Tarifa Branca – Comparação entre kz de 0,8 e 0,4 (fi=3 e fp=5)
Fonte: Elaboração própria.
Como apresentado pelos autores Bueno, Utubey e Hostt (2013, p. 4), a definição do parâmetro kz é a chave para obter resultados positivos com a Tarifa Branca; todavia, seu dimensionamento errado irá causar problemas à sua implementação:
The choice of this new tariff will only be realized if the consumer considers that the financial benefits resulting from the modulation is rewarding in relation to changing their behavior and the cost associated with managing consumption. An inappropriate choice of the value of Kz can operate as a barrier to migration and, therefore, the adjustment of this parameter constitutes a fundamental aspect in the definition of an hourly rate that properly signals not only the distributor, but also the consumer.