• Nenhum resultado encontrado

Funcionamento e procedimento: escuta especializada e depoimento pessoal

1 A VOZ DA CRIANÇA NO PODER JUDICIÁRIO

2.2 Funcionamento e procedimento: escuta especializada e depoimento pessoal

Passe-se agora a analisar o funcionamento e o procedimento da inovação da lei 13.431/2017, ou seja, a escuta especializada e o depoimento pessoal de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.

Conforme já mencionado, a referida lei tratou de definir quais são os tipos de violência que, sofridas por crianças e adolescentes, que seguirão o procedimento especial, sendo estas: violência física, psicológica, sexual e a violência institucional.

Nesta seara, passa-se à analisar os conceitos da expressão “depoimento especial”, veja- se o trazido pelo Conselho Nacional de Justiça:

O depoimento especial – nomeado anteriormente “depoimento sem dano“ –, consiste na aplicação de uma metodologia diferenciada de escuta de crianças e adolescentes na Justiça, em um ambiente reservado e que seja mais adequado ao seu universo. Na prática, servidores da Justiça são capacitados para conversar com crianças em um ambiente lúdico, procurando ganhar a sua confiança e não interromper a sua narrativa, permitindo o chamado relato livre. A conversa é gravada e assistida ao vivo na sala de audiência pelo juiz e demais partes do processo, como procuradores e advogados da defesa, por exemplo. A criança tem ciência de que está sendo gravada, informação que é transmitida de acordo com a sua capacidade de compreensão.

Quanto à escuta especializada, o conceito trazido pelo Ministério dos Direitos Humanos e pela Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (2017, p. 21) é o seguinte:

Escuta especializada: procedimento realizado pelos órgãos da rede de proteção nos campos da educação, da saúde, da assistência social, da segurança pública e dos direitos humanos, com o objetivo de assegurar o acompanhamento da vítima em suas demandas, na perspectiva de superação das consequências da violação sofrida, inclusive no âmbito familiar. Deve-se limitar estritamente ao necessário para o cumprimento da finalidade de proteção.

Já o depoimento especializado, também consoante entendimento do Ministério dos Direitos Humanos e Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (2017, p. 21) é aquele que se refere intrinsecamente à fala da criança ou adolescente:

Depoimento especializado: procedimento realizado pelos órgãos investigativos de segurança pública, com a finalidade de coleta de evidências dos fatos ocorridos no âmbito de um processo investigatório e pelo sistema de Justiça para responsabilização judicial do suposto autor da violência.

Ainda, acerca dos conceitos dos novos protocolos, a lei 13.431/2017, em seu artigo 7ª vai dizer o que é a escuta especializada, veja-se:

Art. 7o Escuta especializada é o procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade.

A respeito do depoimento especial, o artigo 8º do mesmo diploma legal, aduz que: “Art. 8o Depoimento especial é o procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou

testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária”.

Destaca-se também o artigo 11 da lei, o qual menciona que o depoimento especial seguirá o rito de produção antecipada de prova, ou seja, o rito cautelar, observa-se o texto legal do artigo:

Art. 11. O depoimento especial reger-se-á por protocolos e, sempre que possível, será realizado uma única vez, em sede de produção antecipada de prova judicial, garantida a ampla defesa do investigado. § 1o O depoimento especial seguirá o rito cautelar de antecipação de prova: I - quando a criança ou o adolescente tiver menos de 7 (sete) anos; II - em caso de violência sexual.§ 2oNão será admitida a tomada de novo depoimento especial, salvo quando justificada a sua imprescindibilidade pela autoridade competente e houver a concordância da vítima ou da testemunha, ou de seu representante legal.

No que tange à produção antecipada de provas, ressalta-se o entendimento da Desembargadora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, Maria Isabel de Matos Rocha (2016, p. 6), para quem o CPP prevê a produção antecipada de provas urgentes (CPP, art. 156, I e art. 225),11 em tempo breve após o fato. “No caso de crianças, elas devem ser ouvidas poucas vezes e por poucos profissionais, em respeito ao princípio da intervenção mínima e precoce, previsto no art. 100 do ECA.”12

Quanto ao rito do depoimento especial, o artigo 12 da lei 13.431/2017, preocupou-se em ditar como será realizado, possuindo a seguinte configuração:

Art. 12. O depoimento especial será colhido conforme o seguinte procedimento: I - os profissionais especializados esclarecerão a criança ou o adolescente sobre a tomada do depoimento especial, informando-lhe os seus direitos e os procedimentos a serem adotados e planejando sua participação, sendo vedada a leitura da denúncia ou de outras peças processuais; II - é assegurada à criança ou ao adolescente a livre narrativa sobre a situação de violência, podendo o profissional especializado intervir

11Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício:

I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; Art. 225. Se qualquer testemunha houver de ausentar-se, ou, por enfermidade ou por velhice, inspirar receio de que ao tempo da instrução criminal já não exista, o juiz poderá, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, tomar-lhe antecipadamente o depoimento.

12Art. 100. Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

quando necessário, utilizando técnicas que permitam a elucidação dos fatos; III - no curso do processo judicial, o depoimento especial será transmitido em tempo real para a sala de audiência, preservado o sigilo; IV - findo o procedimento previsto no inciso II deste artigo, o juiz, após consultar o Ministério Público, o defensor e os assistentes técnicos, avaliará a pertinência de perguntas complementares, organizadas em bloco; V - o profissional especializado poderá adaptar as perguntas à linguagem de melhor compreensão da criança ou do adolescente; VI - o depoimento especial será gravado em áudio e vídeo. § 1o À vítima ou testemunha de violência é garantido o direito de prestar depoimento diretamente ao juiz, se assim o entender. § 2o O juiz tomará todas as medidas apropriadas para a preservação da intimidade e da privacidade da vítima ou testemunha. § 3o O profissional especializado comunicará ao juiz se verificar que a presença, na sala de audiência, do autor da violência pode prejudicar o depoimento especial ou colocar o depoente em situação de risco, caso em que, fazendo constar em termo, será autorizado o afastamento do imputado. § 4o Nas hipóteses em que houver risco à vida ou à integridade física da vítima ou testemunha, o juiz tomará as medidas de proteção cabíveis, inclusive a restrição do disposto nos incisos III e VI deste artigo. § 5o As condições de preservação e de segurança da mídia relativa ao depoimento da criança ou do adolescente serão objeto de regulamentação, de forma a garantir o direito à intimidade e à privacidade da vítima ou testemunha. § 6o O depoimento especial tramitará em segredo de justiça.

Referente ao procedimento especial a ser realizado em sala separada das demais partes envolvidas, bem assim, serem ouvidas por profissionais, seguindo-se o rito em segredo de justiça, observa-se o que diz a autora Rocha (2016, p. 6) que, alguns dispositivos do Código de Processo Penal:

[...] sinalizam para um maior respeito e humanização na inquirição da vítima: é o caso do art. 201 § 4ª do CPP (reserva espaço separado para o ofendido), § 5ª (encaminha o ofendido para atendimento multidisciplinar psicossocial, assistência jurídica e saúde) e § 6ª (preserva intimidade, honra e imagem do ofendido, inclusive com segredo de justiça).

Neste sentido, continuando as palavras de Rocha (2016, p. 6):

[...] o art. 217 do CPP13 diz que a testemunha deve depor na sala de audiências com a presença do réu, mas o juiz pode usar a videoconferência ou até mandar retirar o réu da sala, prosseguindo com a presença do seu defensor, se verificar que a

13Art. 217. Se o juiz verificar que a presença do réu poderá causar humilhação, temor, ou sério constrangimento à testemunha ou ao ofendido, de modo que prejudique a verdade do depoimento, fará a inquirição por videoconferência e, somente na impossibilidade dessa forma, determinará a retirada do réu, prosseguindo na inquirição, com a presença do seu defensor.

presença do réu causará temor, insegurança, humilhação ou intimidação do depoente.

No âmbito das políticas implementadas quanto à segurança pública, assistência social, educação e saúde, o artigo 14 em seus parágrafos e incisos da lei 13.431/2017, descrevem o seguinte:

Art. 14. As políticas implementadas nos sistemas de justiça, segurança pública, assistência social, educação e saúde deverão adotar ações articuladas, coordenadas e efetivas voltadas ao acolhimento e ao atendimento integral às vítimas de violência. § 1o As ações de que trata o caput observarão as seguintes diretrizes:I - abrangência e integralidade, devendo comportar avaliação e atenção de todas as necessidades da vítima decorrentes da ofensa sofrida; II - capacitação interdisciplinar continuada, preferencialmente conjunta, dos profissionais; III - estabelecimento de mecanismos de informação, referência, contrarreferência e monitoramento; IV - planejamento coordenado do atendimento e do acompanhamento, respeitadas as especificidades da vítima ou testemunha e de suas famílias; V - celeridade do atendimento, que deve ser realizado imediatamente - ou tão logo quanto possível - após a revelação da violência; VI - priorização do atendimento em razão da idade ou de eventual prejuízo ao desenvolvimento psicossocial, garantida a intervenção preventiva; VII - mínima intervenção dos profissionais envolvidos; e VIII - monitoramento e avaliação periódica das políticas de atendimento. § 2o Nos casos de violência sexual, cabe ao responsável da rede de proteção garantir a urgência e a celeridade necessárias ao atendimento de saúde e à produção probatória, preservada a confidencialidade.

Aqui, observa-se que a lei tratou de garantir um acompanhamento protetivo para crianças e adolescentes em paralelo com as investigações, devendo-se oportunizar e garantir os devidos encaminhamentos em prol da saúde mental e física dos sujeitos, com o intuito de tratar a violência sofrida para minimizar os traumas vivenciados e oferecer o mais próximo de uma vida saudável e digna.

Ainda, quanto à proteção das vítimas e testemunhas de violência, bem como para com seus familiares, o Capítulo III da lei 13.431/2017, artigo 19 e incisos dispõe o seguinte:

Art. 19. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão estabelecer, no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (Suas), os seguintes procedimentos: I - elaboração de plano individual e familiar de atendimento, valorizando a participação da criança e do adolescente e, sempre que possível, a preservação dos vínculos familiares; II - atenção à vulnerabilidade indireta dos demais membros da família decorrente da situação de violência, e solicitação, quando necessário, aos órgãos competentes, de inclusão da vítima ou testemunha e de suas famílias nas políticas, programas e serviços existentes; III - avaliação e atenção às situações de intimidação, ameaça, constrangimento ou discriminação decorrentes da vitimização, inclusive durante o trâmite do processo judicial, as quais deverão ser comunicadas imediatamente à autoridade judicial para tomada de providências; e IV - representação ao Ministério Público, nos casos de falta de responsável legal com capacidade protetiva em razão da situação de violência, para

colocação da criança ou do adolescente sob os cuidados da família extensa, de família substituta ou de serviço de acolhimento familiar ou, em sua falta, institucional.

O artigo 21 e incisos trata de dizer quais as medidas devem ser tomadas pela autoridade policial quando se evidenciar que a criança ou adolescente está em situação de risco, observa-se:

Art. 21. Constatado que a criança ou o adolescente está em risco, a autoridade policial requisitará à autoridade judicial responsável, em qualquer momento dos procedimentos de investigação e responsabilização dos suspeitos, as medidas de proteção pertinentes, entre as quais: I - evitar o contato direto da criança ou do adolescente vítima ou testemunha de violência com o suposto autor da violência; II - solicitar o afastamento cautelar do investigado da residência ou local de convivência, em se tratando de pessoa que tenha contato com a criança ou o adolescente; III - requerer a prisão preventiva do investigado, quando houver suficientes indícios de ameaça à criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência; IV - solicitar aos órgãos socioassistenciais a inclusão da vítima e de sua família nos atendimentos a que têm direito; V - requerer a inclusão da criança ou do adolescente em programa de proteção a vítimas ou testemunhas ameaçadas; e VI - representar ao Ministério Público para que proponha ação cautelar de antecipação de prova, resguardados os pressupostos legais e as garantias previstas no art. 5o desta Lei, sempre que a demora possa causar prejuízo ao desenvolvimento da criança ou do adolescente.

A lei 13.431/2017 também trata de dispor que os órgãos responsáveis pela organização judiciária poderão criar juizados especiais e varas próprias especializadas para o atendimento de crimes envolvendo crianças e adolescentes, conforme artigo 23.

Ademais, o artigo 24 fala do crime da violação processual. Conforme a disposição do artigo:

Art. 24. Violar sigilo processual, permitindo que depoimento de criança ou adolescente seja assistido por pessoa estranha ao processo, sem autorização judicial e sem o consentimento do depoente ou de seu representante legal. Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

Seguindo a linha de pensamento do Ministério dos Direitos Humanos e Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, verifica-se que os profissionais que ouvirão as vítimas e testemunhas de violência devem ser altamente qualificados, cada um na sua devia área de atuação, devendo conhecer e seguir os procedimentos corretamente, tanto a escuta especializada como o depoimento especializado.

A especialização e os cuidados que os profissionais devem ter em relação às crianças e adolescentes, no momento da escuta ou depoimento especial, se dão tendo em vista o caráter de sujeitos em desenvolvimento, para evitar maiores danos psicológicos e preservar a prova, conforme nos explicam Franciele Letícia Kühl e Candisse Schirmer (2016, p.8, apud Melo, 2014, p. 215):

Assim, quando tratamos da investigação dos crimes contra a criança e o adolescente, certamente nos deparamos com algumas complexidades que não estão presentes em outros crimes. Por exemplo, em um crime de roubo, a vítima dificilmente se sentirá em dúvida quanto a registrar a ocorrência e a fornecer a maior quantidade de informações que levem à responsabilização do autor. Mesmo nos casos de traumas, a responsabilização do autor será motivo de conforto e de tranquilidade para a vítima. Em caso de violência contra a criança e o adolescente, a realidade é outra: primeiramente, estamos diante de pessoas ainda em formação e que, por isso, convivem com uma série de incertezas, de desconhecimentos e, ainda, com a dificuldade, muitas vezes, de se fazerem compreender e de serem plenamente acreditadas. Somado a isso, há que se considerar que grande parte da violência praticada contra a criança e o adolescente é perpetrada por familiares ou por pessoas próximas que, a rigor, deveriam cuidar-lhes e proteger-lhes. Disso decorre mais um conflito: o reconhecimento de que seu algoz é alguém que deveria lhes amar e proteger. Diante disso, não há como não reconhecer que esses crimes não podem ser tratados como os demais.

Referente à prova produzida e o risco que possui quando narrada à mesma situação por diversas vezes por seres em desenvolvimento, veja-se o entendimento de Kühl e Schirmer (2016, p.8, apud AZAMBUJA, 2006, p. 134) “A vítima, a princípio, relata os fatos ao ente de sua confiança, familiar ou não, e aos diversos profissionais das referidas instituições”

Assim, visualiza-se o que dizem as autoras Kühl e Schirmer (2016, p.8, apud AZAMBUJA, 2006, p. 134):

[...] não bastasse esta repetição de entrevistas, também pode haver a intervenção dos meios de comunicação, que entrevistam vítimas, agressores e testemunhas, correndo o risco de ampliar possíveis distorções. Só após tudo isso, a pequena vítima chega ao juízo criminal para relatar o fato criminoso.

Até este momento, “as diversas intervenções podem produzir um dano e traumatismo maior nos relacionamentos familiares e nas crianças individualmente do que o alegado abuso original”. Segundo as autoras, “Além de reproduzir a revitimização, a repetição de entrevistas, como demonstram as pesquisas científicas, poderá fragilizar a confiabilidade da declaração da vítima como prova no processo criminal”.

Para demonstrar a importância do colhimento de depoimento de forma especial, a autora Rocha cita alguns elementos significativos para o curso da investigação em se tratando de crianças e adolescentes, principalmente no que tange ao crime de violência sexual, veja-se o que diz Rocha (2016, p. 3/4):

Cabe lembrar que o depoimento da vítima menor de idade muitas vezes será a principal prova, por vários motivos: a) devido à ausência de testemunhas (já que o abuso sexual, e sobretudo o intrafamiliar, é crime cometido na clandestinidade, na intimidade do ambiente doméstico); b) devido à ausência de lesões ou vestígios que possam ser constatados no exame pericial médico-legal, em alguns crimes sexuais que não consistem em relação sexual completa que possa deixar vestígios; c) devido ao fato de o exame médico legal nem sempre ser conclusivo, porque realizado muito tempo após o fato (sobretudo nos casos de abuso intrafamiliar, que segundo os pesquisadores é um dos mais frequentes, e é o que mais demora a ser revelado pela criança e noticiado às autoridades.

Já no depoimento tradicional, como expõe Rocha (2016) a criança está sujeita a cruzar com o agressor nos corredores do fórum, e necessita falar em ambiente formal, (sala de audiência), na presença de adultos que, na maioria das vezes são figuras masculinas – juiz, promotor, advogados e o próprio agressor, tendo ainda que responder a perguntas que as partes lhe fazem diretamente, o que pode trazer inúmeros danos psicológicos ao sujeito, criança ou adolescente, envolvido no caso.

Nesse sentido, consoante Ministério dos Direitos Humanos e Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (2017), no que diz respeito ao procedimento da escuta, observa-se que o caráter sempre será protetivo, ou seja, o atendimento prestado pelos órgãos da rede de proteção terá caráter de acolhimento, considerando a fragilidade do estado em que a criança ou adolescente que sofreu ou presenciou algum tipo de violência, não sendo este o momento para análise e obtenção de provas quanto à forma e veracidade da execução dos fatos em que evolvidos.

Este novo método de escuta especializada, como bem explica Gabriela Duha Shultz Morschbarcher (2017), consegue evitar a exposição das vítimas ao constrangimento em salas de audiências, reduzindo inúmeros danos e respeitando a fase do desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, sendo, principalmente, observados os limites da criança e do adolescente no momento do colhimento de informações.

Conforme o Ministério dos Direitos Humanos e Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (2017), o atendimento deverá ser humanizado, ou seja, a abordagem deverá ser atenta a toda e qualquer tipo de expressão que possa denunciar algo, sem que haja julgamentos morais ou discriminação, considerado as inúmeras formas de expressão, para que se possa obter a prova na sua essência e dada à destinação correta. Ainda, consoante explicam os órgãos o ambiente deve ser adequado, possuindo espaços físicos de acordo com crianças e adolescentes, quebrando a característica da formalidade, devendo oferecer também privacidade e confidencialidade a fim de favorecer o sujeito na narração dos fatos.

Como forma de orientação, os órgãos acima mencionados também referem acerca importância de os profissionais que atuarão na escuta e no depoimento especial reunirem-se periodicamente a fim de buscar melhores saídas par casos isolados e urgentes, a fim de obter melhor conhecimento e interagir resultados.

Para que o procedimento ocorra, será necessária certa adaptação da estrutura do poder judiciário, devendo ser o depoimento da criança ou do adolescente envolvido em situação de violência realizado em sala especial e, em tese, tomado uma única vez, na presença de profissionais qualificados, que após, terá utilização durante todo o trâmite legal do processo, conforme (Childhood Brasil ONG, 2017):

A sala especial é devidamente ambientada para acolher crianças e adolescentes. A entrevista é conduzida por um profissional devidamente treinado, sendo transmitida por meio de um sistema de áudio e vídeo simultaneamente para outra sala, de audiência, onde ficam as autoridades judiciárias. A gravação vale como prova no decorrer de todo o processo e a medida permite, ainda, que a vítima dê o seu testemunho sem precisar passar pelo constrangimento de encarar o acusado.

No que se refere ao ambiente da tomada do depoimento, o artigo 10º da lei 13.431/2017, sinala o seguinte: “Art. 10. A escuta especializada e o depoimento especial serão realizados em local apropriado e acolhedor, com infraestrutura e espaço físico que garantam a privacidade da criança ou do adolescente vítima ou testemunha de violência”.

Diante da complexidade e necessidade de uma oitiva especial às crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência é que surgem estes novos protocolos, surgindo como alternativa também, como projeto piloto, o “depoimento sem dano”, conforme ensina-nos Kühl e Schirmer (2016, p. 10). Segundo os autores, o “depoimento sem dano”

constitui um projeto originado pelo Juiz de Direito da 2ª Vara da Infância e Juventude de Porto Alegre, José Antônio Daltoé Cezar, implantado desde 2003, onde as vítimas de

Documentos relacionados