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Funcionamento técnico

No documento Inteligência Artificial e Autoria: (páginas 115-119)

4.2 Inteligência Artificial

4.2.2 Funcionamento técnico

Outra forma de definição da inteligência artificial é a partir de seus componentes ou tecnologias mais comuns. Esse é um caminho comum dos relatórios das instituições da União Europeia, como o Livro Branco sobre Inteligência Artificial, publicado em fevereiro de 2020, centrado menos na definição do termo IA e mais nos principais elementos que a compõem, nomeadamente os dados e algoritmos, ambos imateriais, que podem ainda ser incorporados em um tercei-ro, o hardware ou equipamento material402. Wachowicz e Gonçalves, ao abordar questões de direitos autorais, apontam esses três como os componentes fundamentais da Inteligência Artificial403.

O equipamento material será essencialmente tutelado, no cam-po dos direitos intelectuais, cam-por direitos de propriedade industrial, en-globando ainda outros como os segredos de comércio. Uma pequena exceção é observada no direito sui generis previsto no art. 154º do novo Código de Propriedade Industrial. Apesar de sua natureza mista entre direitos de autor e propriedade industrial, a maior proximidade com essa última categoria é visível, evidenciada inclusive no art. 159º do referido Código, que aplica subsidiariamente o regime das patentes. A temática foge do escopo jusautoral da dissertação, diferentemente do que ocorreria se tivesse sido adotada a perspectiva estadunidense404.

Em relação aos outros dois componentes, são especialmente re-levantes dois regimes no regime português, observáveis, mutatis mu-tandis, nas outras legislações nacionais e transnacionais.

402 Comissão EuropEia 2020, 16.

403 WaChoWiCz & GonçalvEs 2019, 52–67.

404 A contraposição aos interesses dos EUA em adotar essa sistemática foi um dos poucos momentos de forte divergência entre a União Europeia e aquele país du-rante os processos de harmonização internacional de PI. asCEnsão 2008c, 10–11.

O primeiro deles está positivado na PJPC, que regulamenta a proteção jurídica dos programas de computador, em um regime aná-logo ao das obras literárias405. Essa escolha legislativa apartada parece ser resultado, em grande parte, da pressão da doutrina lusitana que considerava indevida a equivalência entre a tutela literária clássica com as dos programas de computador406, de natureza muito mais téc-nica que artística e com muitas características de direitos de proprie-dade industrial407, diferenciando-se da identificação que ocorreu nos EUA por orientação da CONTU408.

Há uma diferença entre “algoritmo” e “programa de computa-dor”. Um algoritmo “é um conjunto finito de instruções inequívocas ou não ambíguas que, quando fornecidas com valores de input de uma natureza pré-definida, produzem resultados pré-definidos que resul-tam na solução de um problema”409. Nesse formato, se enquadrariam como “processos” ou “métodos operacionais” e não seriam protegidos pelo Direito de Autor, vide art. 1º, n. 2 do CDADC. O programa de computador não está definido na lei, mas, na jurisprudência, há uma definição adequada no acórdão do TRL de 16/01/2014, rel. Ana Lucina Cabral: “um programa de computador consiste numa pré-listagem de instruções que precede a introdução dos dados, instruções essas que são destinadas a orientar a acção do computador relativamente ao ma-terial informativo que se pretende que seja processado”410.

Há um cuidado a se tomar. Quando uma pessoa fala do algo-ritmo computacional, pode estar se referindo ao conjunto básico de instruções já escrito em uma linguagem de programação, o que estaria tutelado411. Essa linguagem de programação escrita por humanos é

405 Ver acórdão do STJ de 13/01/2010, rel. Henriques Gaspar.

406 asCEnsão 2012b, 77 e 474–75; roCha 2008, 768.

407 Dias pErEira 2011a, 24.

408 Contu 1978.

409 Dias pErEira 2008, 399.

410 Remédio Marques faz uma detalhada distinção entre ambos em rEméDio marQuEs

2016, 3–5.rEméDio marQuEs 2016, 41.

411 rEméDio marQuEs 2016, 41; Dias pErEira 2008, 400 e 410.

em geral o código-fonte, que é convertido no código-objeto (ou código máquina), passível de leitura pelo computador412. Já o algoritmo en-quanto instruções básicas não expressadas, a ideia-base de certo pro-grama, não é tutelado, o que significa que os modelos de inteligência artificial (não sua expressão específica) também não são413. A lacuna nesse ponto levou a uma grande controvérsia sobre a patenteabilida-de dos algoritmos como “inteligência” das máquinas414, tendo algum avanço no fato que o Instituto Europeu de Patentes vem emitindo patentes para invenções relacionadas a programas de computador415, desde que tenham caráter técnico extra para além da interação normal entre o software e o hardware416.

Em relação às bases de dados, observamos duas proteções di-ferentes. A primeira é a proteção jurídica da seleção ou disposição original de conteúdo (ou seja, a “arquitetura” delas) determinada no artigo 4º da PJBD. É uma proteção que recebe menor atenção prática, mas que levanta dificuldades na definição precisa dos critérios para configurar a proteção. Essa proteção jusautoral não parece ser útil, contudo, nem para a proteção das bases de dados utilizadas para os procedimentos de aprendizado de máquina417.

Já o artigo 12º do mesmo diploma legal, muito mais relevan-te, regulamenta direito especial (ou sui generis) do fabricante da base de dados, tendo como motivo explícito resguardar “um investimento

412 Ver acórdão do TRL de 08/09/2015, rel. Maria do Rosário Morgado, que determi-nou que ambos (código fonte e código objeto) são passíveis de proteção pelos re-gime dos direitos de autor, afirmando ser essa a orientação dos tratados interna-cionais. Inobstante, nos parece difícil encontrar uma “criação intelectual própria”

ou atividade humana no resultado da tradução do código-fonte pela máquina, criando o código objeto, pois a forma desse último é submetida a quesitos técni-cos necessários e feito pela própria máquina. Assim, cf. viEira 2001, 125–26; Dias pErEira 2008, 400.

413 DrExlEtal. 2021, 18.

414 Dias pErEira 2001b; rEméDio marQuEs 2016.

415 Dias pErEira 2019b, 31–33.

416 Disponível em: https://www.epo.org/law-practice/legal-texts/html/guidelines/e/g_

ii_3_6.htm. Acesso em: 28 jul. 2020.

417 DrExlEtal. 2021, 6.

substancial do ponto de vista qualitativo ou quantitativo”. Esse dis-positivo, implementado na União Europeia sem ter sido depois aceito nem nos EUA, se enquadraria melhor como parte do instituto da con-corrência desleal, que não é, todavia, reconhecido pelo Reino Unido.

Essa pareceu ser a maior razão para a criação de uma nova regra de exploração exclusiva que foi positivada dentro de um corpo legal de direitos de autor, mas de natureza bastante afastada deles418. É efe-tivamente um direito sobre a informação, sendo muito criticado pela doutrina por entrar em conflito direto com o princípio basilar da liber-dade de ideias e com o próprio domínio público419.

Note-se que esse não é um direito sobre a criação de dados não-pessoais, e o TJUE já entendeu que os investimentos feitos para esse processo criativo não devem ser contabilizados para averiguar os requisitos420. Mais recentemente, na Comunicação da Comissão

“Construindo uma Economia de Dados Europeia” (SWD(2017) 2 fi-nal), foi proposta a criação de tal direito, incluindo os dados gerados por máquinas, sob a justificativa de fortalecer a indústria europeia e possibilitar uma melhor e mais segura mercantilização desse tipo de informação. Essa proposta foi bastante repudiada tanto pela doutri-na quanto pelos próprios relatórios oficiais de consulta da União Eu-ropeia421, mas conversas para sua implementação por todo o mundo continuam.

418 asCEnsão 2008c, 13–14. Essa Diretiva é tão controversa que, de dentro das próprias instituições europeias, já se levantaram inúmeros pleitos para que ela fosse revo-gada ou reformada substancialmente. Embora a última avaliação (SWD(2018) 147 final) tenha afirmado que não é mais recomendado reformar o direito sui generis, é reconhecido que não há evidências de que essa nova regra teve impactos econômicos benéficos na posição concorrencial da União Europeia. A afirmação pela desnecessidade de reforma, inclusive, contraria totalmente as conclusões do estudo da JIIP e Technopolis, que é também o mais completo dos que embasaram a avaliação: r. FishErEtal. 2018. Apontando a importância de elaborar políticas públicas de PI com base no desastre que foi o direito especial do fabricante, ver boylE 2008, 207–29.

419 asCEnsão 2008b, 104–5; Dias pErEira 2008, 428–29.

420 iGlEsias, shamuilia, & anDErbErG 2019, 9.

421 Para uma lista das críticas, ver huGEnholtz 2017. Essa ideia também não foi bem aceita nos EUA, cf. yu 2018.

Tanto a PJBD quanto o PJPC estão focadas no estabelecimento de direitos patrimoniais, reduzindo os direitos morais para um míni-mo, com reivindicação de autoria e identificação de seu nome na obra (artigo 9º da PJPC e artigo 8º da PJBD).

No documento Inteligência Artificial e Autoria: (páginas 115-119)