CAPÍTULO 1 – O CRIME INFORMÁTICO E SUA NATUREZA
2.5 FUNDAMENTO JURÍDICO
A cooperação penal internacional, em suas variadas formas, trata-se de
instituto que se encontra disciplinado tanto por normas de direito interno dos Estados como
por normas de direito internacional, fundamentando-se, portanto, em diplomas legais
nacionais (normas constitucionais, leis ordinárias etc.), em convenções, tratados ou acordos
bilaterais ou multilaterais ou, ainda, em promessa de reciprocidade
185formulada pelo Estado
necessidade de negociar instrumentos internacionais que habilitem o país a responder à intensificação e ao aumento da complexidade dos pedidos de cooperação com o exterior. Cf. KLEEBANK, Susan. Cooperação judiciária por via diplomática: avaliação e propostas de atualização do quadro normativo. Brasília: Instituto Rio Branco/Fundação Alexandre de Gusmão, 2004. p. 19. Por outro lado, cumpre destacar que, dentre os países latino-americanos, a Argentina logrou editar, em 18 de dezembro de 1996, uma lei genérica sobre cooperação internacional em matéria penal, a Ley de Cooperación Internacional en Materia Penal (Ley n. 24.767), que regula, em um único texto, além de várias modalidades de auxílio mútuo, também a extradição e a execução de sentenças penais estrangeiras, todas subordinadas a um conjunto de princípios e regras gerais comuns, juntamente com disposições específicas aplicáveis a cada uma das medidas de cooperação. Cf. ARGENTINA. Ley de cooperacion internacional en materia penal (Ley 24.767). Disponível em: http://www.oas.org/juridico/mla/sp/arg/sp_arg-mla-leg-24-767.html. Acesso em: 21/06/2007. Outros países, como o Uruguai, trataram de disciplinar o tema da cooperação internacional em matéria penal em diplomas separados, com a previsão de regras próprias aplicáveis a alguns delitos específicos, como as leis sobre entorpecentes (Lei n. 17.016, de 22 de outubro de 1998) e sobre a corrupção (Lei n. 17.060, de 23 de dezembro de 1998), cada uma delas estabelecendo os procedimentos de cooperação especificamente direcionados a cada espécie de delito (artigos 75 a 80 da Lei 17.016, e artigos 34 a 36 da Lei 17.060). Cf. URUGUAI. Ley Nº 17.016: Díctanse normas referentes a estupefacientes y sustancias que determinen dependencia física o psíquica. Disponível em: http://www.oas.org/juridico/mla/sp/ury/sp_ury-mla-law-17016.doc. Acesso em: 21/08/2007; URUGUAI. Ley Nº 17.060: Díctanse normas referidas al uso indebido del poder publico (corrupción). Disponível em: http://www.oas.org/juridico/mla/sp/ury/sp_ury-mla-law-17060.doc. Acesso em: 21/08/2007.
185 Neste sentido conferir a Lei de Cooperação Internacional em matéria penal, da Argentina (Ley 24.767), ao dispor, em seu artigo 3º, que “en ausencia de tratado que la prescriba, la ayuda estará subordinada a la existencia u ofrecimiento de reciprocidad”. Cf. ARGENTINA. Ley de cooperacion internacional en materia penal (Ley 24.767), Diciembre 18 de 1996. Disponível em: http://www.oas.org/juridico/mla/sp/arg/sp_arg-mla-leg-24-767.html. Acesso em: 21/06/2007. Da mesma forma, a lei brasileira n. 6.815/80 (“Estatuto do Estrangeiro”), ao tratar da extradição, em seu artigo 76, prevê que “a extradição poderá ser concedida quando o governo requerente se fundamentar em tratado, ou quando prometer ao Brasil a reciprocidade”. Cf. BRASIL. Lei n. 6.815, de 19 de Agosto de 1980 (“Estatuto do Estrangeiro”). Disponível em: http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/textos/visualizarTexto.html?ideNorma=366138&se qTexto=34210&PalavrasDestaque=. Acesso em: 21/06/2007. Observe-se que, mesmo antes da promulgação da referida lei, o Brasil já admitia a promessa de reciprocidade em matéria de extradição, conforme jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, in verbis: “A falta de tratado de extradição entre o Brasil e o País que requer tal medida não impede que o STF conheça do pedido, visto que, pela doutrina da Corte, é de ser o mesmo conhecido quando o Estado requerente promete reciprocidade e observância das ressalvas impostas pelo Estado brasileiro ao conceder a extradição”. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Extradição n. 346, Rel. Min. Antônio Neder, julgamento em 14 de dezembro de 1977, D.J. de 3 de março de 1978. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Disponível em: http://www.stf.gov.br/processos/DetalhesProcesso.asp?origem=JUR&classe=Ext&processo=346&recurso=0 &tip_julgamento=M. Acesso em: 21/08/2007. Em pronunciamento mais recente, assim também se manifestou o referido tribunal: “A ausência de tratado bilateral não impede a concessão de pedido extradicional, desde que o Estado requerente formalize promessa de reciprocidade, passível de fiel cumprimento. O compromisso firmado pelo Estado estrangeiro, no sentido da reciprocidade de tratamento para casos análogos, configura seu expresso reconhecimento da obrigação de deferir ao Brasil pedidos
requerente, por meio da qual este Estado compromete-se a processar, em conformidade com o
seu direito interno, pedido de cooperação que transite, no futuro, em sentido inverso.
Celso D. de Albuquerque Mello reconhece a existência de uma obrigação
moral de cooperação entre os Estados, decorrente da necessária solidariedade da comunidade
internacional na repressão à criminalidade. Contudo, pondera que tais razões não foram ainda
suficientes para criar um direito e o correspondente dever de cooperação em matéria penal na
ordem jurídica internacional. No entender do autor, o direito e o dever só existiriam de fato
idênticos. Daí a admissibilidade dessa promessa como fundamento de pedido de extradição passiva, nos exatos termos do art. 76, in fine, da Lei n. 6.815/80”. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Extradição n. 971, Rel. Min. Carlos Britto,julgamento em 23 de março de 2006, D.J. de 12 de maio de 2006. Disponível em:
http://www.stf.gov.br/processos/DetalhesProcesso.asp?origem=JUR&classe=Ext&processo=971&recurso=0 &tip_julgamento=M. Acesso em: 22/08/2007. Conferir também as Extradições n. 853, 866, 897, 936 e 947. Assim, na ausência de tratado ou convenção internacional sobre a matéria, a reciprocidade opera como base jurídica para a concessão da extradição pelo Brasil.Vale ainda ressaltar que, com relação ao cumprimento de diligências não executórias solicitadas ao Brasil por intermédio de cartas rogatórias, não se exige a prévia formulação de promessa de reciprocidade pelo Estado requerente. Neste sentido conferir jurisprudência do STF, in verbis: “A inexistência de tratado entre o país no qual situada a Justiça rogante e o Brasil não obstaculiza o cumprimento de carta rogatória, implementando-se atos a partir do critério da cooperação internacional no combate ao crime”. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ag. Reg. na Carta Rogatória n. 9854, Rel. Min. Marco Aurélio Mello, julgamento em 28 de maio de 2003, D.J. de 27 de junho de 2003. Disponível em: http://www.stf.gov.br/processos/DetalhesProcesso.asp?origem=JUR&classe=CR-AgR&processo=9854&recurso=0&tip_julgamento=M. Acesso em: 21/08/2007. Observe-se que as leis internas de outros países também permitem o atendimento aos pedidos de cooperação internacional em matéria penal, ainda que na ausência de promessa de reciprocidade, em algumas situações específicas, como p. ex. a Loi Fédérale sur l´Entraide Internationale en Matière Pénale (EIMP) da Suíça, in verbis: “Art. 8 Réciprocité – 1. En règle générale, il n’est donné suite à une demande que si l’Etat requérant assure la réciprocité. L’Office de la justice du Département fédéral de justice et police (office fédéral) requiert une garantie de réciprocité si les circonstances l’exigent. 2. La réciprocité n’est pas nécessaire, en particulier, lorsqu’il s’agit d’une notification ou lorsque l’exécution de la demande: a) paraît s’imposer en raison de la nature de l’acte commis ou de la nécessité de lutter contre certaines formes d’infractions; b) est propre à améliorer la situation de la personne poursuivie ou ses chances de reclassement social, ou c) sert à élucider un acte dirigé contre un citoyen suisse. 3. Le Conseil fédéral peut garantir la réciprocité à d’autres Etats dans les limites de la présente loi”. Cf. CONFÉDÉRATION SUISSE. Loi fédérale sur l’entraide internationale en matière pénale (EIMP) du 20 mars 1981. Disponível em : http://www.admin.ch/ch/f/rs/351_1/index.html Acesso em: 22/08/2007. Critério semelhante ao utilizado pela citada lei suíça, também encontra-se previsto na Lei de Cooperação Judiciária Internacional em Matéria Penal de Portugal (Lei n.º 144/99, de 31 de agosto), in verbis: “Artigo 4.º Princípio da reciprocidade – 1. A cooperação internacional em matéria penal regulada no presente diploma releva do princípio da reciprocidade. 2. O Ministério da Justiça solicita uma garantia de reciprocidade se as circunstâncias o exigirem e pode prestá-la a outros Estados, nos limites deste diploma. 3. A falta de reciprocidade não impede a satisfação de um pedido de cooperação desde que essa cooperação: a) Se mostre aconselhável em razão da natureza do fato ou da necessidade de lutar contra certas formas graves de criminalidade; b) Possa contribuir para melhorar a situação do arguido ou para a sua reinserção social; c) Sirva para esclarecer fatos imputados a um cidadão português”. Cf. PORTUGAL. Lei de Cooperação Judiciária Internacional em Matéria Penal
(lei n. 144/99, de 31 de agosto). Disponível em: http://www.gddc.pt/legislacao-lingua-portuguesa/portugues/Lei144-99rev.html. Acesso em: 22/03/2007. O Brasil, entretanto, submete a concessão de extradição à existência de tratado ou à promessa de reciprocidade, não admitindo exceções neste ponto. Outros países, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, herdeiros da tradição jurídica do common law, apenas concedem a extradição com base em tratado, não admitindo a reciprocidade. Cf. MELLO, Celso de Albuquerque. Curso de direito internacional público. 15. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 1021.
quando houvesse um tratado internacional que os consagrasse. Na ausência de um tratado,
restaria apenas um dever moral
186, mas não um dever jurídico.
187Da mesma forma, Gilda Russomano entende que, quando não houver entre
os Estados qualquer acordo ou convenção sobre a matéria, subsiste apenas o dever moral de o
Estado requerido atender a um pedido de extradição.
188Também, para Alfred Verdross, o
Direito Internacional não impõe diretamente o dever de extradição, pelo que este só pode
fundar-se em convênio expresso firmado entre os Estados.
189Susan Kleebank igualmente
aduz que “o costume e a jurisprudência asseguram o compromisso moral de atendimento das
solicitações. Os atos internacionais, contudo, são as únicas fontes de direito que geram
obrigações jurídicas aos Estados com relação ao encaminhamento das solicitações às Justiças
requeridas”.
190É de se assinalar que, mesmo nos casos em que a legislação interna do
Estado requerido preveja a possibilidade de prestação de cooperação internacional com base
em promessa de reciprocidade formulada pelo Estado requerente, ainda assim não existirá
uma obrigação jurídica internacional a vincular o Estado requerido, uma vez que a promessa
de reciprocidade poderá ser por ele acolhida ou rejeitada, sumariamente, sem qualquer
186 Celso D. de Albuquerque Mello constata que, no plano da sociedade internacional, existem “princípios morais”, que impõem aos Estados, nos períodos de tranqüilidade e de paz, a obrigação de agir em proveito da ordem internacional, tendo natureza puramente moral, baseando-se nos princípios de equidade, de justiça natural e na comitas gentium, cujo adimplemento não é exigível coativamente. Por outro lado, os deveres jurídicos encontram suas fontes nos tratados e nos costumes internacionais e o seu cumprimento pode ser exigido pelos meios coercitivos autorizados pelo Direito das Gentes. Cf. MELLO, Celso de Albuquerque. Curso de direito internacional público. 15. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 96-97.
187 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 1021.
188 A autora trata especificamente do instituto da extradição e diz que “os tratados conferem incontestavelmente ao instituto extradicional caráter de obrigatoriedade e constituem a melhor maneira de sistematizar e uniformizar os processos de extradição”. Cf. RUSSOMANO, Gilda Maciel Corrêa Meyer. A extradição no direito internacional e no direito brasileiro. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1981. pp. 50 e 28. 189 VERDROSS, Alfred. Derecho internacional publico. Trad. Antonio Truyol y Serra. Madrid: Aguilar. 1955.
p. 520.
190 KLEEBANK, Susan. Cooperação judiciária por via diplomática: avaliação e propostas de atualização do quadro normativo. Brasília: Instituto Rio Branco/Fundação Alexandre de Gusmão, 2004. p. 17.
fundamentação.
191Neste sentido, Solange Mendes de Souza afirma que “Corolário do
princípio da reciprocidade vem a ser a impossibilidade de exigir-se a cooperação. De fato, a
prestação da cooperação é ato político, podendo, dentro dos princípios do relacionamento
entre os Estados, ser negada”.
192Constata-se, portanto, que a doutrina geralmente entende que não há um
direito e o correspondente dever de cooperação entre os Estados no combate à criminalidade,
decorrente de um suposto “princípio geral de direito” ou de um “costume internacional”
oponível aos Estados em suas recíprocas relações no plano da sociedade internacional.
193O
direito e o dever de cooperação penal internacional resultam apenas de convênios expressos
firmados entre os Estados. Assim, a prestação de cooperação internacional em matéria penal
apenas adquire o caráter de uma obrigação juridicamente vinculatória entre os Estados,
191 Cf. REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 190. Claro é que, se o Estado requerente invocar a existência de promessa de reciprocidade previamente oferecida pelo Estado requerido, este então, não poderá frustrar o exame do pedido de cooperação que, se legal e procedente, imporá o seu atendimento, como resultante da palavra previamente empenhada. José Francisco Rezek lembra que, neste caso, haverá um compromisso que ao Estado requerido cumprirá honrar, “sob pena de ver colocada em causa sua responsabilidade internacional”. Cf. REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 191. No Brasil, a aceitação de promessa de reciprocidade formulada por Estado estrangeiro é da alçada exclusiva do Poder Executivo e independe da apreciação do Poder Judiciário – trata-se de um juízo político do Executivo. Neste sentido verifica-se vasta jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, in verbis : “Extradição. Reciprocidade. A faculdade de aceitar ou não a sua promessa é exercida pelo Poder Executivo, antes do envolvimento do Judiciário, bastando, ao controle de legalidade exercido pelo Supremo Tribunal, a comprovação do oferecimento da garantia”. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Extradição n. 431, Rel. Min. Octavio Gallotti, julgamento em 26 de fevereiro de 1986, D.J. de 4 de abril de 1986. Disponível em: http://www.stf.gov.br/processos/DetalhesProcesso.asp?origem=JUR&classe=Ext&processo=431&recurso=0 &tip_julgamento=M. Acesso em: 20/08/2007; “A inexistência de tratado de extradição não impede a formulação e o eventual atendimento do pleito extradicional, desde que o Estado requerente prometa reciprocidade de tratamento ao Brasil, mediante expediente (Nota Verbal) formalmente transmitido por via diplomática”. Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Extradição n. 953, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 28 de setembro de 2005, D.J. de 11 de novembro de 2005. Disponível em: http://www.stf.gov.br/processos/DetalhesProcesso.asp?origem=JUR&classe=Ext&processo=953&recurso=0 &tip_julgamento=M. Acesso em: 20/08/2007.
192 SOUZA, Solange Mendes de. Cooperação jurídica penal no Mercosul: novas possibilidades. Rio de Janeiro: Renovar, 2001. p. 155..
193 Neste sentido, Quintano Ripollés nos informa que, na doutrina, não se impôs a teoria – por vezes defendida por alguns poucos internacionalistas – da suposta existência de um direito e o correspondente dever de extradição. Afirma ser entendimento pacífico que não há, neste sentido, uma obrigação jurídica diretamente derivada do direito internacional, independente da prévia existência de convênio expresso sobre a matéria, firmado entre os Estados. Cf. RIPOLLÉS, Antonio Quintano. Tratado de derecho penal internacional e internacional penal. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas/Instituto Francisco de Vitoria, tomo I, 1955. p. 191-192.
mediante a prévia formulação de um convênio expresso, em que se estipulem as regras da
cooperação.
Por outro lado, há quem sustente
194estar a cooperação penal internacional
inserida no “dever geral de cooperação” consagrado no art. 1.º, parágrafo 3.º da Carta das
Nações Unidas (1945), in verbis:
“Os propósitos das Nações Unidas são:
[...] 3. Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades
fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião”.195