ASSÉDIO MORAL NO DIREITO BRASILEIRO
3.1 FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS E O ASSÉDIO MORAL
Na área jurídica, cada vez mais aumentam as discussões sobre o assunto assédio moral, assim como em todo o mundo. No Brasil também se intensifica este fenômeno, o que torna crescente as opiniões e artigos a cerca do tema. Passou a ser dado mais importância, e demonstrado uma maior conscientização, de que o assédio que permeia a relação de trabalho não só viola a saúde do trabalhador, mas sua dignidade como pessoa e uma série de outros direitos, acabando com sua autoestima e qualidade de vida.
Conforme Ferreira (2004, p. 87-88), “o fato da desvalorização do trabalho humano, vai de encontro ao estabelecido na ordem jurídica vigente, tanto interna como externamente”. Visto que a importância do trabalho na vida do homem e a necessidade que ele seja desenvolvido em condições dignas foram devidamente reconhecidas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, no inciso I do art. 23 que estabelece: “todo homem tem direito ao trabalho e a livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e a proteção contra o desemprego”.
Sobre este artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Nogueira (2001), comenta a aplicabilidade do principio da dignidade da pessoa humana no direito do trabalho:
Referido artigo indicam quais seriam, em síntese, as características do direito do trabalho com relação à pessoa humana. O trabalho deve buscar garantir ao homem o acesso à dignidade humana, buscando garantir-lhe, ainda, a possibilidade de existência de outros meios de proteção social. [...] É através do trabalho que o homem deixa de possuir apenas uma dimensão biológica para adquirir uma dimensão social, engajando-se na sociedade. [...] O trabalho é a condição e superação dos determinismos e através dele pode ser alcançada a liberdade. (NOGUEIRA, 2001, p. 20-21)
Podemos dizer que a garantia Constitucional que se tem hoje sobre o assédio moral, teve sua origem com a nova Constituição Federal aprovada em 1988, cuja garantia à indenização por danos morais, foi incluída no artigo 5º, inciso X, dispondo o seguinte: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.
A Carta Magna vigente, em seu artigo 1º explicita os fundamentos Constitucionais adotados pelo Estado Brasileiro Democrático, tais como: à dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. Ainda em seu artigo 170 estabelece que: “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social [...]”.
Como podemos ver, o assédio moral envolve matéria constitucional, uma vez que viola princípios e garantias estabelecidos na Carta Magna, envolvem também direitos e liberdades adquiridos pelos trabalhadores, presentes tanto na CLT como em diversas outras leis que tratam do assunto. Envolve, ainda, a jurisprudência brasileira, uma vez que não possui lei específica que discipline o assunto. Sobre essa ótica analisaremos o princípio a dignidade da pessoa humana relacionado ao assédio moral.
3.2 Projeto de Lei n° 4.742/2001.
É um dos projetos de Lei mais importantes sobre o tema, uma vez que criminaliza a conduta do assédio moral no ambiente de trabalho. Este projeto foi apresentado pelo Deputado federal Marcos de Jesus, objetivando criar o art.
146-A do Código Penal, dentro do capítulo destinado aos Crimes contra a Liberdade Individual.
A esta proposta foram apensados o Projeto de Lei n° 4.960/2001, de autoria do Deputado Feu Rosa, também tratando da tipificação penal do assédio moral; o Projeto de Lei n° 5.971/2001, apresentado pelo Deputado Inácio Arruda, sobre coação moral no ambiente de trabalho e o Projeto de Lei n° 5887, apresentado pelo Deputado Max Rosenmann.
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados considerou o Projeto constitucional, mas entendeu que sua redação e o dispositivo que incidiria inicialmente (art. 146 do Código Penal — constrangimento ilegal) deveriam ser modificados.
Assim a versão final do Projeto de Lei passou a direcionar a criminalização do assédio moral para o ad. 136-A do Código Penal (como uma variante do crime de maus-tratos).
Logo, deixou o assédio moral, em nível de Projeto de Lei, de ser considerado uma modalidade de constrangimento ilegal, para ser considerado uma modalidade de maus-tratos, O teor do art. 10 do Projeto inicialmente apresentado:
Artigo 1° - Art. 100 Código Penal Brasileiro — Decreto-lei n° 2848, de 7 de dezembro de 1940 — passa a vigorar acrescido de um artigo 146 A, com a seguinte redação:
Assédio Moral no Trabalho
Art. 146-A. Desqualificar, reiteradamente, por meio de palavras, gestos ou atitudes, a auto-estima, a segurança ou a imagem do servidor público ou empregado em razão de vínculo hierárquico funcional ou laboral.
Pena: Detenção de 3 (três) meses a um ano e multa.
A versão final apresenta um tipo penal mais complexo, inclusive com uma maior dosagem de previsão da pena:
Artigo 10 - Decreto-lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940, código Penal Brasileiro, fica acrescido do art. 136-A, com a seguinte redação:
“Art. 136-A Depreciar, de qualquer forma e reiteradamente a imagem ou o desempenho de servidor público ou empregado, em razão de subordinação hierárquica funcional ou laboral, sem justa causa, ou tratá-lo com rigor excessivo, colocando em risco ou afetando sua saúde física ou psíquica.
Pena — detenção de um a dois anos.
É preciso, sobretudo uma verdadeira disposição para o enfrentamento do problema por parte das instâncias governamentais, a fim de ultrapassar a visão médica individual ou mesmo psiquiátrica, inevitável quando se permite que o assédio moral se instale, adotando soluções de prevenção. A adoção de uma prevenção eficaz deve ser imposta pelo governo, mas também é da responsabilidade de todos. Todos nós somos ao mesmo tempo “assediadores” potenciais, eventuais futuras vítimas de superiores hierárquicos ou subordinados de alguém.