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Fundamentos da coculpabilidade

No documento DIREITO PENAL ARTIGO (páginas 33-36)

3. A coculpabilidade e suas implicações

3.2. Fundamentos da coculpabilidade

O primeiro dos fundamentos do princípio da coculpabilidade centra-se exclusivamente no sujeito, pois aduz que o grau de autodetermina-ção de toda pessoa é regido por circunstâncias individualizadas, vari-áveis de acordo com o lugar, nível de escolaridade, moradia e outros fatores que influenciam na formação da personalidade de cada um.

O segundo fundamento do princípio da coculpabilidade é o reco-nhecimento da desigualdade social entre os homens. Essa desigual-dade deve ser considerada na conta, na hora da reprovação. Se o cidadão que comete um delito é devedor do Estado – detentor do poder de punir –, também é, ao mesmo tempo, credor deste mes-mo Estado – responsável pela criação de condições necessárias para

o bem-estar dos cidadãos. O Estado deve, então, descontar aquilo que não realizou como devedor, por não ter propiciado condições de vida digna a todos. Nesse sentido, a coculpabilidade representa uma corresponsabilidade do Estado nos delitos cometidos pelos ci-dadãos credores do Estado.

Com maestria nos ensina os renomados autores Eugenio Raúl Za-ffaroni e José Henrique Pierangelli, em termos que não permitem melhor exposição:

Todo sujeito age numa circunstância determinada e com um âm-bito de autodeterminação também determinado. Em sua própria personalidade há uma contribuição para esse âmbito de autode-terminação, posto que a sociedade – por melhor organizada que seja – nunca tem a possibilidade de brindar a todos os homens com as mesmas oportunidades. Em conseqüência, há sujeitos que têm um menor âmbito de autodeterminação, condicionado desta maneira por causas sociais. Não será possível atribuir estas causas sociais ao sujeito e sobrecarregá-lo com elas no momento da reprovação de culpabilidade. Costuma-se dizer que há, aqui, uma ‘co-culpabilidade’, com a qual a própria sociedade deve ar-car. (ZAFFARONI; PIERANGELLI, 2010, p. 525).

Nas sociedades pluralistas, as alternativas de comportamento, as co-tas pessoais de liberdade e determinação foram distribuídas de for-ma desigual, em direta dependência da condição social ostentada pelo agente: “indivíduos de status social superior, maior liberdade;

indivíduos de status social inferior, maior determinação.” (SANTOS, 2002, p. 231).

Dessa forma, restaria comprometida a efetiva liberdade dos indivídu-os socialmente excluídindivídu-os. Ou, poder-se-ia dizer, que são livres dentro de uma fatalidade dada. Nesse contexto e diante de tal imperativo fático, de indivíduos inferiorizados por condições sociais adversas,

[...] é admissível a tese da co-culpabilidade da sociedade organiza-da, responsável pela injustiça nas condições sociais desfavoráveis da população marginalizada, determinantes de anormal motiva-ção da vontade nas decisões da vida. (SANTOS, 2002, p. 231).

O Estado, por mais organizado que seja, não é capaz de proporcio-nar a todos as mesmas oportunidades de vida. Em decorrência dis-so, certas pessoas, influenciadas pela sua condição social, possuem um menor âmbito de poder de escolha do próprio destino. Por isso, não seria razoável que esse indivíduo, que não está totalmente livre para escolher seus caminhos, sofra a pena em igualdade de condi-ções com um criminoso comum.

Em resumo, é fato que todas as escolhas são, em largas medidas, determinadas por um conjunto de restrições impostas pelas condi-ções socioeconômicas de cada indivíduo. Do mesmo modo, estar restrito em suas opções não é o mesmo que não ter opção. Tanto que a grande maioria das pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade social não são delinquentes. Na realidade, em última análise, sempre prevalece a própria vontade do agente, que sabe discernir entre o certo e errado, pois se assim não fosse seria considerado inimputável, o que não é o caso. Acontece que é a li-berdade de escolha desse delinquente que, em muito, encontra-se comprometida com a possibilidade de gozar esta liberdade, pois as circunstâncias adversas impostas pelo Estado na vida dessas pessoas não são eventuais, e sim permanentes.

Acentue-se, no entanto, que o princípio da coculpabilidade não eli-mina a seletividade do sistema penal, mas atua como princípio cor-retor dessa seletividade, diminuindo sobremaneira seus impactos, dando ensejo ao desenvolvimento de um espírito crítico e respon-sável que oriente toda a sociedade (MOURA, 2006). Segundo o dou-trinador alemão Franz von Liszt, o reconhecimento de que o crime

[...] tem as suas mais profundas raízes no meio social servirá de proteção contra os exageros da idéia finalística. A convicção da

‘culpa coletiva da sociedade’ refreará a ação repressiva do Esta-do; prevenir a prática do crime parecerá coisa de maior monta e de maior valia, tanto para o indivíduo como para a sociedade, do que punir o crime cometido. (LISZT, 2006, p. 120).

Ao permitir a existência de tamanhas desigualdades econômicas, sociais, políticas e culturais, o Estado estaria de alguma forma

reco-nhecendo que não dá chances iguais a todos. Isso não significa que todas as pessoas que sofrem com a vida miserável serão necessaria-mente infratores, mas em relação àqueles indivíduos com grau de autodeterminação reduzido é quase impossível exigir um compor-tamento adequado à lei e aos interesses gerais advindos do Direito.

Não se trata aqui de determinismo, mas sim, nos dizeres de Grégore Moura (2006, p. 1), de uma mea culpa que o Estado deve assumir.

A título de ilustração, consideremos a seguinte situação: um mendi-go, ao banhar-se em um chafariz no centro de uma cidade, a fim de lavar o seu corpo, expõe suas partes íntimas àqueles que por ali ca-minham. Sendo punido pela prática do delito previsto no artigo 233 do CPB (ato obsceno), pode-se perguntar: quais eram as escolhas que aquela pessoa tinha? Estava a ele assegurado o seu direito constitu-cional à moradia? A dignidade humana lhe estava assegurada? É aqui que se discutiria a aplicação ou não do princípio da coculpabilidade.

Ora, toda ação livre é uma ação voluntária, mas nem toda ação volun-tária é uma ação livre. A questão fica mais acentuada quando a redu-ção da esfera de atividade do indivíduo dá-se pela ausência de presta-ções estatais de direitos fundamentais assegurados pela Constituição.

Grosso modo, a aplicação a um caso concreto da coculpabilidade protege os direitos fundamentais do homem, gerando uma ruptura com a doutrina tradicional e sensibilizando juristas e todos aqueles que se preocupam com as injustiças que as ocasionais imperfeições do nosso CPB possa produzir.

No documento DIREITO PENAL ARTIGO (páginas 33-36)

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