II. FUNDAMENTOS DE FACTO.
A 1.ª instância deu como provados os seguintes factos:
A. - Autores, na qualidade de primeiros contraentes e promitentes vendedores, e ré, na qualidade de segunda contraente e promitente compradora, subscreveram, em 08 de Janeiro de 1996, o instrumento particular denominado
"Contrato-Promessa de Compra e Venda", cuja cópia consta de fls. 10 e 11 dos autos e cujo teor se dá por reproduzido, onde consta, para além do mais, "1.ª Os promitentes vendedores são donos legítimos possuidores de três lotes de terreno para construção sitos em Queluz, (…)
B. - No documento referido em A) e sob a cláusula 2.ª consta que "Os primeiros contraentes prometem vender livre de quaisquer ónus, encargos ou responsabilidades e a segunda contraente promete comprar os ditos lotes de terreno pelo preço de esc: 300.000.000$00 (trezentos milhões de escudos)".
C . - No documento referido em A) e sob a cláusula 3.ª consta que "Entre as partes, foram acordadas as seguintes condições de pagamento: a) nesta data, como sinal e princípio de pagamento, entregou a quantia de esc:
60.000.000$00 (sessenta milhões de escudos) da qual os primeiros contraentes dão, neste acto, a correspondente quitação, b) esc: 75.000.000$00 (setenta e cinco milhões de escudos) aquando da escritura de compra e venda de um dos lotes de terreno, a celebrar-se, no prazo de 180 dias, este prazo poderá prorrogar-se, por mais 90 dias, ficando a segunda contraente a pagar juros, calculados à taxa de 13%. c) esc: 100.000.000$00 (cem milhões de escudos)
aguando da escritura de compra e venda de um outro lote de terreno, a celebrar-se, no prazo de 365 dias, este prazo poderá prorrogar-se por mais 90 dias, ficando a segunda contraente a pagar juros, calculados a 13%. d) O restante preço, no montante de esc: 65.000.000$00 (sessenta e cinco milhões de escudos) será pago aguando da outorga de escritura de compra e venda do último lote, a efectuar-se no prazo de 485 dias, este prazo poderá prorrogar-se por mais 90 dias, ficando a segunda contraente a pagar juros, calculados à taxa de 13%".
D. - No documento referido em A) e sob a cláusula 4.ª consta que "São da conta e responsabilidade da promitente compradora todos os encargos relativos à aquisição dos lotes a que o presente contrato se reporta, nomeadamente: a) sisa, escritura e registos; b) todas as infra-estruturas que deverão ser efectuadas: arruamentos, rede de águas e rede de esgotos domésticos e pluviais, EDP, TLP, e Gás e zonas verdes.
E . Fica a promitente compradora com autorização para iniciar as obras que achar necessárias, ficando responsável pelas mesmas".
F. - Com a outorga do documento referido em A), a ré passou a fruir dos lotes de terreno ali identificados, situação que se mantém.
G. - Em 31 de Março de 2000, a ré foi notificada, através de notificação judicial avulsa, para"...no dia 02 de Maio do ano de 2000, pelas onze horas, outorgar no 1º Cartório Notarial de Sintra, as escrituras prometidas, pagando o remanescente do preço em dívida e juros à taxa de 13% sobre as quantias devidas, contados da data em que cada uma dessas escrituras deveria ter sido outorgada de acordo com o estabelecido no contrato-promessa de compra e venda e constante, bem assim, do número três, als. b), c) e d) da presente notificação, sob pena de não o fazendo haver perda do interesse por parte dos notificantes em outorgar a compra e venda prometida e se verificar incumprimento definitivo imputável à notificada. Mais se requer que no acto da notificação a notificada seja questionada para dizer se aceita outorgar a
escritura prometida e pagar o preço em falta, acrescidos dos juros devidos contados pela forma constante desta notificação, ou, para em caso de se não poder pronunciar no acto da notificação o fazer por meio de carta a expedir no prazo de 10 dias, contados da notificação, para o escritório do mandatário dos ora notificantes, (...), sob pena de o seu silêncio ser interpretado como recusa em outorgar a escritura prometida, o que envolve como consequência para a notificada a perda do sinal passado. Ainda se requer que em caso de aquiescência por parte da notificada em outorgar a escritura prometida fazer a entrega do conhecimento do pagamento da sisa, bem como de todos os demais elementos à escritura prometida necessários no escritório dos mandatários dos notificantes.
H. - A ré enviou aos autores, na pessoa do seu mandatário, e estes receberam, a carta datada de 28.04.2000, constante a fls. 18 dos autos, onde consta, para além do mais, "...Na sequência da m/carta datada de 04.04.2000 e do fax enviado pelo Sr. Dr. …, venho informar V. Exa de que os documentos solicitados, não foram entregues e como tal não iremos comparecer na escritura, por culpa imputável aos clientes de V.Exa, dado não terem tratado da documentação e legalização dos lotes até ao passado dia 15.04.2000. Dado o incumprimento da parte dos mesmos, agradecia contacto até ao próximo dia 15.05.2000, tendo em vista a resolução do contrato ou a renegociação do mesmo. (...) ".
I . - No dia 02.05.2000, não foi celebrada a escritura de compra e venda marcada no 1° Cartório Notarial de Sintra, tendo-se verificado a não comparência do representante da entidade compradora quer à hora marcada quer no restante período de trabalho daquele dia, conforme consta do documento de fls. 102 dos autos, cujo teor se dá por reproduzido e integrado para todos os efeitos.
J. - A ré enviou aos autores, e estes receberam a carta datada de 04.04.2000, cujas cópias constam a fls. 47 a 58 dos autos, onde consta, para além do mais,
"Na sequência da notificação judicial avulsa datada de 31.03.2000, (...), relativa ao contrato promessa de 08.01.96, venho informar V. Ex.ª de que pretendo comparecer no Cartório Notarial de Sintra, para efectuar a escritura. Para tal, agradeço que me envie para ... até ao dia 15.04.2000, os seguintes documentos: 1) certidões matriciais e prediais, donde conste a identificação dos lotes A, B, e C, do respectivo contrato, como lotes de terreno para a construção urbana; 2) certidão camarária donde conste o actual estado do processo camarário nº 2465/92, 2466/92 e 2464/92, todos da Câmara Municipal de Sintra, bem como da possibilidade de renovação dos alvarás de licença de construção nº 78/96 e 77/96 da mesma Câmara. (...)".
K. - A ré, em nome do autor B, levantou as licenças de construção nº 77 e nº 78 de 1996 na Câmara Municipal de Sintra, tendo pago a quantia de esc:
5.690.980$00 e esc: 7.356.490$00.
L. - A ré tem como objecto social a construção de casas para venda e prédios e revenda dos adquiridos para esse fim.
M. - Os lotes dos autos tinham aprovado a construção de 104 apartamentos.
N. - No dia 27.03.1996, foi elaborado o "Auto de Embargo" constante a fls. 146 dos autos, onde consta, para além do mais, "...Por força do despacho do Exm°
Senhor Presidente datado de 25.03.1996, deve B, (...) na qualidade de titular do alvará de licença de construção, suspender imediatamente os trabalhos da obra, que constam de construção de dois prédios sitos nas traseiras da Avª Miguel Bombarda, confinando com a Avª General Humberto Delgado e com o Rio Jamor em Queluz, a que correspondem as licenças de construção n°s referentes aos processos nºs. A obra objecto do presente Auto de Embargo encontra-se em fase de início com a construção de pilares e enchimento de muralhas e está a ser executada após declaração de nulidade das deliberações camarárias que aprovaram os procs. determinando tal acto a nulidade das licenças de construção nº 77/96 e 78/96, tomada em reunião camarária de 13.03.1996. (...)".
O. - Nos lotes identificados em A), a ré fez a totalidade da muralha de betão a Nascente, a totalidade das fundações dos pilares e muralhas e parte do primeiro troço de pilares, tendo despendido nas mesmas, em mão-de-obra e material, a quantia de, pelo menos, esc: 22.307.103$00.
P. - A ré constrói cada prédio como o referido M) no prazo aproximado de, pelo menos, 1 ano.
Q . - Entre o ano de 1996 e 1999, a ré pretendia ter vendido todos os 104 apartamentos.
Matéria alterada e aditada pela decisão do recurso, conforme fundamentação infra:
R. Cada apartamento daria de lucro à ré quantia não inferior a € 18.479 em 1997, € 21.213 em 1998; € 20.139 em 1999 e € 16.814 em 2000.
S. Através do acordo referido em A) os autores pretendiam prometer vender e a ré pretendeu prometer comprar os identificados lotes de terreno com aprovação camarária do loteamento.
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