4 MANDADO DE INJUNÇÃO E O PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE
4.6 FUNDAMENTOS DO ATIVISMO JUDICIAL PROPOSTO POR ELIVAL DA
Ramos (2010, p. 129) afirma que por ativismo judicial deve ser entender:
O exercício da função jurisdicional para além dos limites impostos pelo próprio ordenamento jurídico que incumbe, institucionalmente, ao Poder Judiciário fazer atuar, resolvendo litígios de feições subjetivas (conflitos de interesse) e controvérsias jurídicas de natureza objetiva (conflitos normativos).
O autor critica a postura ativa do Judiciário, bem como a falta de parâmetros dogmáticos para legitimar esta atuação, a qual importa, segundo ele, na “desnaturação da atividade típica do Poder Judiciário, em detrimento dos demais Poderes” (RAMOS, op. cit., p. 129). Prossegue o autor, que o fenômeno atinge de forma mais intensa o Poder Legislativo, “o qual tanto pode ter o produto da legiferação irregularmente invalidado por decisão ativista (...) quanto o seu espaço de conformação normativa invadido por decisões excessivamente criativas”.
Entretanto, o autor critica também o passivismo judiciário, conforme se segue:
O positivismo liberal e sua atrofiada teorização hermenêutica, ao propugnarem a primazia absoluta do texto normativo sobre a atividade do intérprete-aplicador, reduzida à mera constatação e aplicação mecânica dos enunciados normativos, eliminaram qualquer possibilidade de ativismo judicial. Todavia, deram ensejo a fenômeno de gravidade equiparável, qual seja, o passivismo judiciário” (RAMOS, op. cit., p. 129) [grifo do autor].
Ramos elenca alguns fatores de impulsão para o ativismo judicial no Brasil, sendo que o primeiro fundamento, o qual já foi apontado diversas vezes ao longo da presente monografia, refere-se ao modelo de Estado adotado no Brasil, qual seja, Estado Democrático de Direito, de cunho nitidamente intervencionista e que apregoa, em diversas passagens da Constituição, a construção de uma ordem social
e econômica baseada em critérios de justiça e igualdade substancial (RAMOS, 2010).
Desta forma, esclarece o autor que:
Ao Poder Judiciário deveria caber, neste modelo, o controle jurídico da atividade intervencionista dos demais Poderes. No entanto, sobre ele também recaem as expectativas e pressões da sociedade no sentido da mais célere possível consecução dos fins traçados na Constituição, incluindo a imediata fruição de direitos sociais ou a extensão de benefícios, de universalização progressiva, concedidos a determinadas categorias ou regiões com exclusão de outras. É nesse sentido que se pode dizer que o próprio modelo de Estado-providência constitui força impulsionadora do ativismo judicial, levando juízes e tribunais a relevar, em algumas situações, a existência de limites impostos pelo próprio ordenamento cuja atuação lhes incumbe, na ilusão de poderem 'queimar' etapas, concretizando, no presente, o programa que a Constituição delineou prospectivamente (RAMOS, op. cit., p. 271).
O segundo fundamento apontado por Ramos é a expansão do controle abstrato de normas. Assim, a principal razão para a expansão do ativismo judicial nestas hipóteses “está na maior proximidade do controle de constitucionalidade, assim efetuado, do exercício da função legislativa”, muito embora, ressalta o autor, trata-se do exercício de atividade jurisdicional (RAMOS, op. cit., p. 277).
Como fator auxiliar à expansão do controle abstrato de normas, o autor aponta:
[...] a circunstância de que as normas parâmetros utilizadas pela Corte Constitucional para apurar a validade da legislação fiscalizada são, em larga medida, máxime em sede de constitucionalidade material, normas-princípio, cuja formulação textual fluída permite ao órgão de controle maior liberdade de ação no exercício de sua função hermenêutico-concretizadora (RAMOS,
op. cit., p. 277).
Outro fundamento assinalado por Ramos, no plano específico da realidade brasileira e de impulsão ao ativismo judicial é a tendência teorética denominada neoconstitucionalismo. O autor faz severas críticas a este movimento e afirma que devido às suas enormes fragilidades, não passa de um 'modismo intelectual' (RAMOS, op. cit.).
O autor destaca também como fundamento para o ativismo judicial, o déficit de elaboração legislativa por parte do Parlamento, e que se deve em parte ao sistema presidencialista adotado no Brasil, já que é terreno fértil para “negociações em torno de cada votação de interesse do governo” (RAMOS, op. cit., p. 290).
Aduz ainda que “a fragmentação da representação entre inúmeras legendas partidárias, associada ao pluripartidarismo atomístico” torna-se um dos principais obstáculos à otimização dos trabalhos parlamentares (RAMOS, 2010, p. 291). Destaca também que, além da possibilidade de aperfeiçoamento da disciplina do processo legislativo, “[...] uma reforma na distribuição de competências legislativas entre as unidades federadas, na linha de um federalismo assimétrico5, poderia,
igualmente, tornar a legiferação mais ágil e próxima das necessidades sociais” (RAMOS, op. cit., p. 293).
O último argumento trazido à baila por Ramos e na mesma esteira responsável pelo ativismo judicial no Brasil, é a atividade normativa atípica do Supremo Tribunal Federal, as quais:
[...] importam no exercício pelo órgão de cúpula do Judiciário brasileiro de competências normativas que, se não confrontam com o princípio da separação de Poderes, dele não decorrem e, mais do que isso, não contribuem para o seu fortalecimento, ao contrário, provocam uma certa tensão em relação ao conteúdo prescritivo de seu núcleo essencial (RAMOS, op. cit., p. 294).
A atividade normativa atípica a que Ramos se refere, trata-se da edição de súmula vinculante e da mudança de orientação jurisprudencial acerca dos efeitos do mandado de injunção, sendo que quanto a este último, o autor entende que os efeitos da decisão deveriam ser restritos aos limites subjetivos da lide e não com eficácia erga omnes, a qual tem prevalecido na Corte (RAMOS, op. cit.).
Apontados os fundamentos para o ativismo judicial, em especial no Supremo Tribunal Federal, conclui-se, portanto, que a doutrina constitucional é divergente acerca da ampliação das atribuições da Corte Constitucional e propõe limites para sua atuação, conforme se verá no próximo tópico.