CAPÍTULO II - DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL SUSTANTÁVEL,
2.2 FUNDAMENTOS DO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL
Diversos autores têm colocado ênfase na questão de desenvolvimento territorial como forma de ascensão e melhoria da qualidade de vida das pessoas endogenamente. Essa concepção de desenvolvimento privilegia a formação de redes locais, a valorização dos recursos regionais e a gestão dos recursos naturais de forma a privilegiar o desenvolvimento no âmbito local (MENEZES e SERVA, 2012). O conceito de DTS surge a partir de avanços teóricos no campo da problemática socioambiental, que no final dos anos 1960 emergiu no campo do planejamento do desenvolvimento (MENEZES e SERVA, 2012), a princípio no âmbito restrito dos países industrializados, somado às contribuições das inúmeras experiências que emergem no mundo no âmbito do desenvolvimento endógeno e territorial.
Para Morin (2003), não cabe mais reduzir o desenvolvimento ao crescimento. A noção de desenvolvimento deve tornar-se multidimensional, ultrapassar ou romper os esquemas não apenas econômicos, mas também civilizacionais e culturais ocidentais que pretendem fixar seu sentido e suas normas. Deve romper com a concepção do progresso como certeza histórica para fazer dele uma possibilidade incerta, e deve compreender que nenhum desenvolvimento é adquirido para sempre: como todas as coisas vivas e humanas, ele sofre o ataque do princípio de degradação e precisa incessantemente ser regenerado.
Sachs (2003) colabora com esta crítica e entende que o processo de desenvolvimento sustentável não é unidirecional e sim multidimensional, ou seja, requer mudanças socioculturais, para alcançar maior equidade social, melhoria das condições de vida e do convívio. O desenvolvimento econômico padrão não responde à complexidade dos territórios e da atualidade. Existe a impossibilidade de se transpor modelos de economia, administração e desenvolvimento de um território para outro.
Para Vieira (2009) o entendimento dos focos estruturais da crise contemporânea do meio ambiente passa pela análise dos usos que vêm sendo feitos daquilo que não pertence a ninguém e/ou atravessa a propriedade:
florestas naturais, águas continentais e marinhas, atmosfera, fauna selvagem, biodiversidade. Nessa perspectiva observa-se a dimensão ligada ao estatuto econômico sui generis dos bens comuns. Porém, também as questões relativas aos conflitos de representações e interesses resultantes do envolvimento de um grande número de atores sociais, além do peso das incertezas e controvérsias cientificas sobre a dinâmica de reprodução dos ecossistemas e paisagens no longo prazo. O autor supracitado destaca que este enfoque analítico reforça a hipótese de que os processos de utilização predatória da base de recursos de uso comum estão relacionados à dissolução das modalidades de organização institucional no nível local. Vieira (2009) destaca que essa organização institucional no nível local no passado era capaz de preservar padrões menos destrutivos da relação entre comunidades com o meio ambiente biofísico e construído. Além disso, o autor supramencionado destaca que o desmantelamento progressivo do setor público e a redução dos investimentos sociais nos países do Sul passaram a coexistir com experiências
de auto-organização socioeconómica, sociocultural e sociopolítica no nível local, convergindo com os termos de referência da versão originária do enfoque de ecodesenvolvimento (ideia de ecorregiões).
Assim, o DTS incorpora o resgate da versão originária do conceito de ecodesenvolvimento, que segundo Sachs (2007) designava um novo estilo de desenvolvimento e um novo enfoque (participativo) de planejamento e gestão, que combinava postulados éticos, a saber: atendimento de necessidades humanas fundamentais (materiais e intangíveis), promoção de autoconfiança (self-reliance) das populações envolvidas e cultivo da prudência ecológica (VIEIRA, 2006; SACHS, 2007).
Dando continuidade à construção teórica do conceito de DTS, resgata-se as noções-chave da abordagem territorial do deresgata-senvolvimento. Para Benko e Pecqueur (2001), as relações de proximidade entre os atores locais desempenham um papel determinante na competitividade das atividades econômicas. Nesse sentido, as experiências dos distritos industriais e da sua capacidade de negociar modos de cooperação entre capital e trabalho, entre grandes empresas e subcontratantes, entre administração e sociedade civil, entre banco e indústria, etc promoveram pistas dos potenciais do desenvolvimento endógeno. Pecqueur (2005) define que desenvolvimento territorial se caracteriza a partir da constituição de uma entidade produtiva enraizada num espaço geográfico, explica ainda que o princípio da construção do território pelos autores não convoca apenas os produtores, mas também os consumidores. Não que o mercado seja limitado ao território, mas o planejamento e a formação da oferta deve ter em vista a demanda.
Boisier (1993) defende que o desenvolvimento de um território organizado depende da existência, da articulação e das condições de manejo de seis elementos, que normalmente estão presentes em qualquer território organizado. Esses elementos são: a) atores, b) instituições, c) cultura, d) procedimentos, e) recursos, e f) entorno. Esses elementos interagem de um modo denso ou difuso, de forma aleatória ou então de uma forma inteligente e estruturada. O desenvolvimento resultará apenas de uma interação densa e inteligentemente articulada, mediante um projeto coletivo ou um projeto político regional. Do contrário, não se terá senão uma caixa preta, cujo conteúdo e funcionamento se desconhece. O autor supracitado apresenta que o
desenvolvimento de um território organizado (região, província ou localidade) não depende apenas da existência dos seis elementos descritos, nem da sua qualidade, mas depende, basicamente, do modo de articulação.
Sachs (2005) problematiza a questão do planejamento e afirma que este deve ser democrático, em diálogo quadripartido entre planejadores, empreendedores, trabalhadores e a sociedade civil organizada, e que deve ser estabelecido no tripé dos objetivos sociais e éticos, ambiental e viabilidade econômica. O autor conclui ainda que quanto mais cedo o abismo das diferenças de padrões de consumo em todo mundo for reduzido, mais cedo seremos capazes de passar de uma economia de crescimento para uma economia de estado constante.
Sachs (2007) apresenta algumas configurações entre as relações de:
meio ambiente, população, técnicas, recursos naturais e produtos; considera que estas configurações podem ser desenhadas a partir de duas visões distintas, uma tradicional e outra de novas relações pertinentes. Estas novas relações pertinentes devem ser consideradas dentro de uma estratégia que além das dimensões tradicionais do planejamento também se somem o desenvolvimento com a gestão do ambiente. Sachs (2007) define seis níveis críticos em que situará a ação: 1) a estrutura de consumo; 2) o regime sócio-político; 3) as técnicas empregadas; 4) as modalidades de utilização dos recursos naturais e da energia; 5) as formas de ocupação do solo; 6) O tamanho, o ritmo de crescimento e a distribuição da população.
Para Sachs (2007) para que o pais alcance situações triplamente (econômico, social e ambiental) ganhadoras, deve-se repensar o quadro institucional no qual se concebe e se realiza o desenvolvimento. Uma vez afastados os dois extremos da economia – mercado em estado puro (uma utopia liberal) e economia de comando -, a totalidade das situações realmente existentes no mundo atual enquadra-se na categoria das economias mistas, com múltiplos mercados de trabalho, bens e serviços, em que operam as empresas privadas com fins lucrativos, o Estado (em todos os níveis), os diversos atores da economia social e o conjunto das populações que se dedicam parcialmente a atividades econômicas fora do mercado, realizadas no contexto doméstico. A seção a seguir apresenta os principais elementos da
economia social e solidárias que poderá fortalecer propostas endógenas de desenvolvimento.