Ao findar o modelo varguista, final da Segunda Guerra Mundial, o Brasil dentro da nova conjuntura política e econômica ocidental edita a nova Carta Magna de 1946, recuperando os princípios liberais de 1934. A reconquista dos princípios liberais abriu espaço para que as camadas populares se posicionassem dentro do novo paradigma sociopolítico e econômico.
Na mediação das lutas dos trabalhadores estava o sindicato atrelado ao Estado conforme o varguismo, cujo governo ditatorial se encerrou em 1945. O modelo era adequado a movimentação do peleguismo, contra o qual forças populares em busca da autonomia da entidade atraíam a simpatia das esquerdas, e colocavam em desconfiança os liberais e os conservadores nacionalistas. O debate constituinte de 1945/46 ocorreu nessa conjuntura de instabilidade política. O princípio liberal e o nacionalista, contrariados pelo posicionamento político das camadas populares, levaram seus defensores à tomada de posições políticas contra os representantes dos segmentos populares. Fávero argumenta que:
A passagem de 1945 para 1946 é marcada por uma escalada grevista que contraria tanto a direção sindical oficialista do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), quanto a do PC (Partido Comunista). [...] O debate na Constituinte é ”atravessado” pela luta social em
curso. [...] A relação do governo e dos partidos conservadores com o PC, pode ser descrita como de tolerância. [...] Ao aproximar o momento de votação da Constituição, acentuam-se as tensões. [...] É apreendido o jornal do PC “a Tribuna Popular”, [...] proíbe-se a realização de comícios em todo país, [...] são presos dirigentes comunistas, depredam-se comitês locais e invadem as residências de vários de seus parlamentares. (1996, p. 162-163)
O Brasil que vinha de uma ordem altamente excludente, desde a era imperial, buscava na nova conjuntura a afirmação de segmentos até então ausentes das discussões nacionais, como sujeitos portadores de direitos tanto políticos quanto civis. A emersão das camadas populares e o surgimento de partidos de esquerda davam direcionamento socialista à República Brasileira. Assim, a constituição de 194613, dominada pelos liberais, procura excluir segmentos sociais que buscavam na luta política suas afirmações como sujeitos ativos da nova sociedade.
Conforme Fávero, vários partidos emergem nesse contexto durante o ano de 1945. A União Democrática Nacional (UDN) em 07/04, congregada pelo setor liberal, oposicionista ao Estado Novo; os socialistas, que atuaram com independência em relação aos comunistas, aglutinaram-se na Esquerda Democrática em 12/06. Em 25/08, já no ano de 1947 compõe-se com o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Na esteira emergente, com o carisma de Getúlio, fundam-se o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e o PSD (Partido Socialista Democrático). O PCB (Partido Comunista do Brasil) “obtém seu registro e se integra ao movimento de reformas queremistas”. (FÁVERO, 1996, p. 155).
O resultado das eleições de 1946 mostra que o varguismo, dominante desde os anos 30, afirma-se como força política dominante na nova era política nacional. Os liberais, principais opositores a Vargas, ensaiavam a primeira tentativa de tomada do poder político por meio do lançamento de candidato próprio à presidência da República. O teste popular pelas urnas apontou para a continuidade da hegemonia de Vargas. Fávero mostra que,
Com o lançamento de Eduardo Gomes, Getúlio começa a preparar um candidato do governo. [...] Para se opor a Eduardo Gomes, autoriza o interventor mineiro a articular o nome do Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra. [...] realizadas as eleições, Eurico Dutra consegue 3.235.530 votos (54%), Eduardo Gomes
13 Segundo Fávero (1996, p. 164), o texto de 1946 é limitado em relação a uma série de questões
fundamentais para construir uma sociedade democrática. [...] A forma de dominação implantada com a Constituição expressa a contradição entre a manutenção das desigualdades e a emergência das massas populares como agente a ser considerado.
2.029.979 votos (34%) dos votos. [...] O PSD elege 151 deputados e 26 senadores, [...] a UDN 77 e 11, o PTB 22 e 2. (1996, p.158, 159) Na sequência do período Vargas inicia-se o período JK (Juscelino Kubitschek), marcado pelo impulso da política desenvolvimentista fundamentada na política econômica que, conforme Brum (1999) foi capaz de provocar importantes transformações na divisão social do trabalho, o que alterou a capacidade psíquica, bem como a consciência coletiva das classes trabalhadoras. Isto enfraqueceu a dominação ideológica que as classes dominantes exerciam sobre aquelas. Esse enfraquecimento fez emergir, no “cenário sociopolítico dos trabalhadores rurais”, uma agressiva mobilização, em especial para a sindicalização como ferramenta de luta pela reforma agrária. Entrava em cena a cultura popular como instrumento de educação popular. Segundo Fávero,
O que se denominou cultura popular e que se definiu e defendeu ora como um movimento, ora como um instrumento de luta política em favor das classes populares surgiu fazendo a critica não apenas da maneira de como se pensava “folclórica”, “ingênua” a cultura do povo brasileiro, mas também e principalmente os usos políticos de dominação e alienação da consciência das classes populares. Os anos de 1960-64 foram particularmente críticos e criativos em quase tudo. [...] Dentre as formas de luta popular que surgiram naqueles anos, ou que neles conseguiram se fortalecer, uma delas se chamou cultura popular; e a ela subordinava outra: a educação popular. (1983, p. 8-9)
As mobilizações dos trabalhadores ocorriam também no meio urbano. Nos finais dos anos 1950, irrompia a luta de classes no interior dos sindicatos, os quais passaram a atuar com mais independência. O movimento operário iniciava o trânsito, buscando superar a fase populista. Adquiria, assim, certa consciência política de classe, com interesses distintos dos interesses das outras classes sociais. No início anos 1960, conforme Brum,
O capital transnacional e seus associados internos constituíam-se na força econômica dominante no início dos anos 60 diante da crescente investida nacionalista-distributivista dos segmentos populares, sindicais, estudantis, intelectuais e de políticos de esquerda. As lideranças tradicionais pareciam perplexas. O ambiente de indefinição permitia espaço para a emergência popular. Instalava- se na sociedade um processo de intensa politização. O populismo mostrava-se inadequado e incapaz de assegurar as condições de viabilidade de uma nova etapa de expansão econômica e de manter as massas populares sob controle, dentro dos limites tradicionais de subconsciência e limitada mobilização política. (1999, p. 262-263)
A organização das camadas populares e as contradições político-ideológicas levaram ao esgotamento o governo populista que não conseguiu dar respostas às demandas sociais. Começa, de fato, a emergir na contradição tutelar a necessidade de emancipação, uma limitada mobilização popular animada pela abertura política que a democracia liberal permitia. Esse espaço, onde emergia certa consciência de classe e intensa manifestação política, incomodou as elites econômicas e políticas, dentro e fora do Brasil.