Podemos chamar de planejamento o processo de projetar e de estabelecer um conjunto ordenado de ações, mas esta definição não se esgota, uma vez que são atribuídos ao planejamento diversos significados, segundo o enfoque e a ênfase com que os autores o abordam, surgindo desta forma, diferentes conceitos que nos orientam na discussão da questão do planejar. Porém as variações apresentadas nos conceitos de planejamento os tornam complementares entre si, na medida em que expressam uma preocupação, qual seja: “a de que ações significativas sobre uma dada realidade sejam praticadas de forma sistemática, a partir de uma visão clara da sua necessidade, dos seus objetivos e ordenadas de modo a obter o máximo de resultados com o melhor uso de recursos” (LÜCK, 1992, p. 23).
Lück afirma que “planejar é vislumbrar uma situação futura melhor e propor-se a construir essa realidade. É materializar uma vontade de transformação da realidade dando objetividade e direcionamento claro às ações” (LÜCK, 1992, p. 13). Esta autora chama a atenção para o fato de não existir “planejamento neutro ou apenas concebido como técnica, uma vez que, propondo diretrizes de ação que afetarão pessoas, estabelece um sentido social” (LÜCK, 1992, p. 62), e “uma vez que afetam a convivência das pessoas e influem sobre a organização, o funcionamento e os objetivos da sociedade, os problemas resultantes de tais situações são problemas políticos” (LÜCK, 1992, p. 62). Essas afirmações, segundo a autora, valem tanto para a sociedade como um todo, como para uma escola, ou mesmo uma turma de alunos, por exemplo, ou seja, para o macro-sistema e micro-sistema.
Esta autora ressalta ainda que o planejamento é uma atividade política, pois define ideias a serem concretizadas a partir de interesses sociais, já que o planejamento em educação pressupõe uma ideia de homem em sua problemática social. Sua política não é apenas pedagógica, voltada para questões intraescolares, mas sim, social, voltada para questões da sociedade como um todo, qual seja, uma política educacional.
Giroux (1997, p. 49) salienta que é durante o processo de planejamento que o professor deve se perguntar:
O que conta como conhecimento escolar? Como tal conhecimento é produzido? Como tal conhecimento é transmitido em sala de aula? Que tipos de relacionamentos sociais em sala de aula servem para espelhar e reproduzir os valores e normas incorporados nas relações sociais aceitas de outros lugares sociais dominantes? Quem tem acesso a formas legítimas de conhecimento? Dos interesses de quem este conhecimento está a serviço? Como são mediadas as contradições e tensões políticas
e sociais através de formas aceitáveis de conhecimento escolar e relacionamentos sociais? Como os métodos de avaliação predominantes servem para legitimar as formas de conhecimento existentes?
E para Libâneo (2003, p. 249):
O planejamento escolar é um processo de tomada de decisões. Planeja-se para decidir melhor, para racionalizar nossas ações, nosso trabalho, em função de objetivos. O planejamento é um instrumento de trabalho e, ao mesmo tempo, uma atividade de reflexão acerca de nossas ações e opções.
Fusari (2009) concebe o planejamento como um meio para facilitar e viabilizar a democratização do ensino e entende que o mesmo não deve ser encarado como uma atividade burocrática, mas que deve ser concebido, assumido e vivenciado no cotidiano da prática social docente, como um processo de reflexão. Esta, para que seja considerada filosófica, conforme Saviani (1987, p. 24), deve preencher três requisitos básicos, ou seja, ser: “radical – o que significa buscar a raiz do problema; rigorosa – na medida em que faz uso do método científico e de conjunto – pois exige visão da totalidade na qual o fenômeno aparece”.
Menegolla (2009) define planejamento como um processo de prever necessidades, ou seja, observar e pensar sobre o que é indispensável ser realizado numa situação real e presente ou prever futuras necessidades. É refletir sobre o presente e sobre o futuro, procurando sanar problemas existentes ou evitando que surjam novos problemas.
Também o define como um processo de racionalização dos meios e dos recursos humanos e materiais. Menegolla (2009, p. 19) considera que “a previsão e a tomada de decisões a respeito dos recursos e meios possíveis e disponíveis, que devem ser relacionados, para uma ação posterior, é fundamental, a fim de que possam se tornar fatores de ajuda na conquista dos objetivos”. O processo de planejamento representa um momento em que deve envolver uma análise profunda da realidade, das disponibilidades, das possibilidades dos meios, dos recursos humanos e materiais, pois diante da diversidade etno-pluri-cultural existente no campus, este deve se preparar para desenvolver um modelo de educação que promova a inclusão de todos os alunos que queiram nele estudar.
O processo de planejamento, segundo Menegolla (2009), visa o alcance de objetivos em prazos e etapas definidas, cujos objetivos constituem seu núcleo e sua dinâmica, pois são eles que determinam e orientam todas as demais etapas do ato de planejar. Devemos, através do ato de planejar, pensar sobre etapas e prazos, ou seja, quando devemos iniciar a execução; até onde podemos ir; quando podemos ou devemos terminar. São as perguntas que, durante o processo de planejar, deveremos fazer e responder corretamente para que este possa delinear toda a dimensão e execução do plano.
Considerando o que Menegolla (2009, p. 21) aponta sobre o processo de planejamento ao afirmar que o mesmo “requer conhecimento e avaliação científica da situação original: a avaliação deve ser a mais criteriosa e científica, para se evitar falhas na sua elaboração e estruturação”, devemos avaliar e reavaliar constantemente o planejamento, para podermos observar a concordância ou discordância entre os seus elementos constitutivos.
O planejamento, de acordo com Libâneo (2003, p. 250), cumpre três funções: “previsão de resultados e meios de atingi-los; reflexão, para revisão das decisões tomadas e das ações; correção dos desvios e adequação do trabalho em função dos objetivos e com base em padrões mínimos de desempenho”.
Este autor aponta uma característica importante do planejamento que é o seu caráter processual, ou seja, o ato de planejar não se reduz à elaboração dos planos de trabalho, mas a uma atividade permanente de reflexão e ação. O professor deve analisar sua prática à luz da teoria, deve revê-la, experimentar novas formas de trabalho, criar novas estratégias, experimentar novas formas, ou seja, tematizar sua prática, com isso a consciência sobre sua própria prática vai se ampliando. Salienta que “o planejamento é um processo contínuo de
conhecimento e análise da realidade escolar em suas condições concretas, de busca de alternativas para a solução de problemas e de tomada de decisões possibilitando a revisão dos planos e projetos, a correção no rumo das ações” (LIBÂNEO, 2003, p. 124).
Planejar, para Gandin (2003, p. 23), “é de fato, definir o que queremos alcançar; verificar a que distância, na prática, estamos do ideal e decidir o que se vai fazer para encurtar essa distância”.
Gandin (2007, p. 34) afirma ainda que planejar “é o processo de construir a realidade com as características que se deseja para a mesma. É interferir na realidade para transformá-la numa direção claramente indicada”. E ainda reforça que:
Realizar um processo de planejamento como construção de uma realidade – passando pela transformação da realidade existente – supõe sempre uma prática que não se submete à ideologia e ao senso comum; que, em vez delas, tenha a teoria como base e como justificativa do discurso (GANDIN, 2007, p. 172).
A teoria é o fundamento da prática transformadora, mas não o que comumente se diz do que é a teoria, ou seja, “aquilo que as pessoas dizem em contraposição com o aquilo que fazem: isso é o discurso” (GANDIN, 2003, p. 173). Este autor afirma que a teoria é um conjunto de saberes, que explica uma parte, tanto da realidade, como da prática, e que esta teoria não resolve todos os problemas de uma vez, já que não aponta verdades absolutas, pois entende que toda a verdade está sujeita a revisões.
Concordamos com este autor, quando afirma que devemos planejar para transformar a realidade numa direção escolhida, por isso devemos ampliar nossa consciência sobre o ato de planejar, que deve servir para implantar um processo de intervenção na realidade.
Outro autor que discute bastante esta questão é Vasconcellos. Para ele o ato de planejar remete a:
querer mudar algo; acreditar na possibilidade de mudança da realidade; perceber a necessidade da mediação teórico-metodológica; vislumbrar a possibilidade de realizar aquela determinada ação. Para que a atividade de projetar seja carregada de sentido, é preciso, pois, que a partir da disposição para realizar alguma mudança, o educador veja o planejamento como necessário (aquilo que se impõe, que deve ser, que não se pode dispensar) e possível (aquilo que não é, mas poderia ser, que é realizável) (VASCONCELLOS, 1999, p. 36).
O processo de planejamento deve ser visto como um instrumento de mudança, de transformação, não como a confecção de planos cuja atividade se encerra no momento de sua elaboração, e onde as etapas de execução e de avaliação ficam esquecidas.
É um processo educativo e não apenas uma formalidade burocrática da escola, e, “antes de ser uma mera questão técnica, o planejamento é uma questão política, na medida em que envolvem posicionamentos, opções, jogos de poder, compromisso com a reprodução ou com a transformação, etc.” (VASCONCELLOS, 1999, p. 40). Planejar é “antecipar mentalmente uma ação a ser realizada e agir de acordo com o previsto; é buscar fazer algo incrível, essencialmente humano: o real ser comandado pelo ideal” Vasconcellos (1999, p. 34).
Planejar, de acordo com Vasconcellos (2007), é organizar a própria ação, principalmente a de grupo, dando certeza, precisão e explicitando os fundamentos da ação do grupo; é procurar agir racionalmente, através de um conjunto de técnicas para racionalizar a ação; “é realizar um conjunto orgânico de ações, proposto para aproximar uma realidade a um ideal; é realizar o que é importante (essencial) e, além disso, sobreviver... se isso for essencial (importante)” (VASCONCELLOS, 2007, p. 19).
Consideramos, como este autor, que o ato de planejar deve conter três etapas: a etapa de Elaboração, onde decidimos que tipo de sociedade e de homem queremos e que tipo de intervenção educacional será necessária para concretizar essa decisão; deveremos procurar
saber a que distância estamos deste tipo de ação e até que ponto as ações desenvolvidas em nossa instituição estão contribuindo para atingirmos o resultado final que pretendemos. Nesta etapa também deveremos propor uma série de ações para tentarmos diminuir a distância entre o ideal e o real, para podermos contribuir efetivamente para o resultado final estabelecido.
A etapa de execução, em que devemos “agir em conformidade com o que foi proposto”, e por fim, a de Avaliação, que visa “revisar sempre cada um desses momentos e cada uma das ações, bem como cada um dos documentos deles derivados” (VASCONCELLOS, 2007, p. 23).
Este autor afirma que quem adotar qualquer definição de planejamento, estará colocando em sua reflexão alguns elementos que tenderão a questionar continuamente sua ação, sob três sentidos:
Em primeiro lugar devemos ter em mente que a elaboração do mesmo é apenas um dos aspectos do processo, que deve existir também do aspecto execução e do aspecto avaliação;
Em segundo lugar devemos ter em mente que a função do planejamento é clarear e precisar a ação, organizar o que fazemos, sintonizar ideias, realidade e recursos para tornar mais eficiente nossa ação;
E, por fim, todo o processo de planejamento deve ser feito de maneira participativa, ou seja, todas as pessoas que compõem um grupo devem participar, de uma maneira ou de outra, de todas as etapas, aspectos ou momentos desse processo.
Em toda instituição que está em processo de planejamento, há vários planos, de diversos níveis e de diferentes durações. Em seguida, falaremos de dois de nível e duração diferentes: o Projeto Político Pedagógico, que é elaborado para ter vigência de três a quatro anos, abrangendo toda a instituição de ensino em seus mais variados aspectos; e do Plano de Ensino, com duração de um ano, que abrange a organização do trabalho pedagógico do professor, e que são “necessários para tornar precisa a ação, para concretizá-la, para realizar, no dia-a-dia, as ideias presentes na instituição” (GANDIN, 2007, p. 51).