O DANO DECORRENTE DE ATIVIDADES LÍCITAS E SUA REPARAÇÃO
5.3 SOCIALIZAÇÃO DO RISCO E SEGURO DE RESPONSABILIDADE CIVIL
5.3.3 Fundamentos do seguro de responsabilidade civil
A idéia de seguro social surge do entendimento europeu segundo o qual a proteção social seria um dever da sociedade como um todo, apresentando o caráter de solidariedade até hoje vigente, pelo qual todos contribuem para que os necessitados de amparo possam tê-lo. Esta noção é fundamental para a compreensão do chamado seguro social, vez que se não fosse o caráter de proteção de todos por todos, mediante cotização
geral dos riscos entre os componentes da sociedade, não se chegaria a conceitos tais como o de previdência social.38
Em uma sociedade fundada na divisão de trabalhos, os riscos inerentes às atividades de cada qual, por todos deveriam ser suportados, vez que a vítima não poderia restar desamparada em decorrência de eventos cuja verificação não deflui de culpa de quem quer que seja.
Admita-se, por exemplo, que tenha havido a explosão de uma máquina que, ao espalhar, com seus estilhaços, a morte, quem por tais danos deveria responder, se todas as possíveis cautelas houvessem sido adotadas tanto na construção quanto no funcionamento daquele equipamento? Se de tudo se fez na ampla conjuração dos perigos atinentes a um tal organismo perigoso, e ainda assim eventos danosos se verificaram, poder-se-ia concluir que por tais ninguém seria responsável? Seria justo que toda aquela coletividade, que se beneficiara dos potentes meios de produção de riqueza, nada despendesse para o ressarcimento dos danos advindos do exercício de atividades perigosas, cujos bônus são repartidos a todos?39
Salienta Noronha40 que, se o Código Civil de 1916 condensou uma evolução multimilenar, consagrando soluções consideradas as mais perfeitas para a época do início de sua vigência, verdade é que, em poucas décadas, deixaram elas de atender proficuamente as necessidades sociais.
Aquelas concepções, então vigentes no século XIX, sofreram bruscas alterações no decorrer do século XX, entrando a sociedade num veloz processo de transformação dantes desconhecido, rapidamente fazendo anacrônico o regime jurídico instituído em 1916 e que começou a viger no ano seguinte.
Com o advento da Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra no século XVIII, agravou-se a exposição das pessoas a situações de riscos outrora desconhecidos. Deste modo, fez-se necessário um maior desenvolvimento do instituto da responsabilidade civil, com flexibilização da adoção da teoria da responsabilidade subjetiva dominante no século XIX, para, em poucos e determinados casos, aplicar-se a teoria da responsabilidade civil objetiva. Só assim foi possível oferecer alguma proteção jurídica aquelas vítimas de fatos danosos, que
38 Carlos Alberto Pereira de Castro e João Batista Lazzari. Manual de direito previdenciário. 6. ed. São
Paulo: LTR, 2005. Disponível em: <http://www.ltrdigital.com.br>, n. 15.
39 Wilson Melo da Silva. Responsabilidade. cit., p. 290.
ficavam na contingência da irressarcibilidade pelas dificuldades de se demonstrar a culpa do causador do dano, pressuposto inafastável da responsabilidade subjetiva.
Ressalta Noronha41 que o crescimento da responsabilidade civil, devido à Revolução Industrial, manifesta-se mediante um triplo fenômeno, que pode ser denominado de expansão dos danos sucessíveis de reparação, objetivação da responsabilidade e sua coletivização.
Prossegue aludindo que o fenômeno da ampliação dos danos sucessíveis de reparação traduz-se essencialmente, ainda que não exclusivamente, na extensão da obrigação de se indenizar os danos extrapatrimoniais e na tutela dos danos transindividuais, correspondendo os dois aspectos à aspiração da sociedade atual no sentido de que a reparação proporcionada às pessoas seja a mais abrangente possível.
Por sua vez, o fenômeno da objetivação consiste no progressivo distanciamento desta com relação ao princípio segundo o qual não há responsabilidade sem culpa.
Essa objetivação tem como resultado o trespasse da responsabilidade, do plano individual para o coletivo, ou seja, para coletivizá-la, fazendo com que ela remonte do autor individual do dano ao organismo ao qual pertence. Assim, a responsabilidade dos membros de uma escola pública, é tomada, em certo modo, pelo Estado; certos danos causados por um notário, nesta qualidade, a seus clientes, serão imputados ao corpo notarial que, em seu conjunto, haverá de responder pelas faltas de seus membros.42
Nas lapidares lições de Silvio Rodrigues43, a excessiva severidade dos tribunais, na admissão do caso fortuito como exonerador de responsabilidade, principalmente em um país como o Brasil, em que o seguro de responsabilidade é pouco difundido, pode aumentar enormemente o número de casos em que o agente, embora agindo sem culpa, causa dano a outrem e é obrigado a indenizar. Tal solução, como já foi apontado, em muitos casos apenas transfere a desgraça da pessoa da vítima para a pessoa do agente, este também inocente e desmerecedor de tão pesada punição.
Na preclara síntese de Wilson Melo da Silva44,
41 Fernando Noronha. Direito das obrigações. v. 2. cit., p. 540. 42 Louis Josserand. Derecho civil. v. 1. cit., p. 301.
43 Silvio Rodrigues, Direito civil, v. 4, cit., p. 176. 44 Wilson Melo da Silva. Responsabilidade. cit., p. 293.
a corrente da socialização do direito não se alicerça em fantasia, mas na realidade. A sociabilidade humana, viu-se, é um fato comprovado sob todas as luzes. Deflui da natureza do homem. E, por isso, teorias jurídicas que não partissem de um tal suposto, seriam teorias que se firmassem em errôneas premissas. E quem se apóia no equívoco só pode mesmo chegar a resultados enganosos e falsos.
Isso porque, as soluções oferecidas pela teoria da culpa são individualistas, além do que, se não lhe pode negar o valor de um princípio, é falha quando erigida, isoladamente, como o único princípio de imputação de responsabilidade civil.
Os regimes atuais de responsabilidade objetiva podem coexistir com o mecanismo do seguro. A passagem de uma responsabilidade fundada na culpa para uma responsabilidade objetiva é fruto do princípio segundo o qual a riqueza obriga – la richesse oblige – o qual supõe que a proteção e indenização das vítimas devem ser asseguradas pela pessoa que retira vantagem da atividade desenvolvida. Atualmente, o princípio la richesse oblige transforma-se, às vezes, no princípio segundo o qual o seguro obriga – l’assurance oblige.45
Salienta Venosa46 haver na responsabilidade civil objetiva uma pulverização do dever de indenizar por um amplo número de pessoas. Por isso, a tendência é que procure- se encontrar, no contrato de seguro de responsabilidade, a solução para a amplitude de indenização que se almeja sob o lastro da paz e justiça sociais.
A objetivação da responsabilidade civil, cujos progressos, em pouco menos de um século, podem levar ao prognóstico de maior expansão, Não coadunar-se-ia com a individualização do ressarcimento. Isto porque o dano advindo do risco tem caráter social e de justiça, por toda a coletividade devendo ser reparado, pois do contrário o homem poderia entregar-se à perniciosa negligência, temeroso por seus atos e pelos danos que deles pudessem decorrer, ainda em suas mais lícitas atividades.47
Todavia, quanto maior for o número de atividades protegidas pelo seguro, menor será a possibilidade de prejuízos restarem irressarcidos e, por via de conseqüência, cada vez mais o seguro passará a ser tarifado de sorte a limitar o quantum da indenização, desatendendo-se, destarte, aquele preceito exarado no art. 944 do Código Civil segundo o qual “a indenização mede-se pela extensão do dano”.
45 Geneviève Champs. La mise en danger. cit., p. 23. 46 Silvio de Salvo Venosa. Direito civil. v. 4. cit., p. 22. 47 Wilson Melo da Silva. Responsabilidade. cit., p. 307.
Finalmente, o fenômeno da coletivização da responsabilidade civil traduz o declínio da responsabilidade individual, perante o desenvolvimento de processos comunitários para a reparação de diversos danos, especialmente aqueles que afetam, de certo modo, a integridade física ou psíquica das pessoas. Tais danos são postos a cargo de toda a coletividade. Pode-se citar, como exemplos de coletivização da responsabilidade civil, o dever de indenização por danos corpóreos em acidentes de trânsito, posto a cargo de todos os proprietários de veículos automotores, mediante o pagamento do seguro obrigatório, e a responsabilidade por acidentes de trabalho, a cargo de toda a coletividade, por meio da seguridade social.
A teoria do risco é defendida, por conseqüência, como forma de atribuir à coletividade uma consciência mais clara da solidariedade que os une. Essa solidariedade combate o individualismo egoísta, que não se preocupa com o interesse dos outros e que paralisa as forças nocivas pela ameaça de uma responsabilidade. Deste modo, o seguro tornou-se praticamente necessário para todos os riscos, porque reparte entre todos os segurados a carga da reparação dos danos, numa verdadeira socialização dos riscos.48
A socialização de riscos denuncia o fracasso do individualismo jurídico, levado ao extremo pelos enciclopedistas e filósofos da Revolução Francesa, e presente nas legislações do século XVIII e na quase totalidade das legislações do século XIX, todas inspiradas pelo Código Napoleão.49 E arremata o eminente Wilson Melo da Silva50, ao afirmar que
o individualismo jurídico que teve sua justificação em determinada fase histórico-jurídica da vida dos povos, revelou-se calamitoso quando erigido em princípio teórico. Sancionou o egoísmo do homem fechado em torno de si mesmo, do que resultou originar-se o tipo do homem burguês tão acrimoniosamente vilipendiado por um dos maiores católicos de nossos tempos, o ardoroso Léon Bloy de le Desespere.
O seguro de responsabilidade é de tal modo difundido atualmente em diversos ordenamentos estrangeiros, que na maioria dos casos de ação de responsabilidade civil por acidentes, os pedidos de reparação são dirigidos contra os seguradores, e os juízes tendem a levar em consideração o montante do seguro para fixar a indenização.51
48 Marcel Planiol et ali. Traeté. t. 2. cit., p. 315. 49 Wilson Melo da Silva. Responsabilidade. cit., p. 239. 50 Wilson Melo da Silva. Responsabilidade. cit., p. 245. 51 Marcel Planiol et ali. Traeté. t. 2. cit., p. 399.
Todavia, com o alargamento da responsabilidade objetiva, maior é a facilidade de a vítima ter seus danos reparados e, diretamente proporcional a isto, é o impacto do dever indenizatório no patrimônio do ofensor.
Com o intuito de diminuir esse impacto que pode causar ruínas e demais adversidades capazes de influenciar negativamente no progresso social, na geração de empregos e no desenvolvimento de novas técnicas artísticas, científicas, de produção e de serviço, vem, ainda timidamente, difundindo-se no ordenamento brasileiro o seguro de responsabilidade civil.
É neste diapasão que explicam os Mazeaud52, que O responsável podia mostrar-se
previdente; podia, antecipadamente, liberar-se, no todo ou em parte, de sua obrigação de reparar. Assim, o causador do dano convenciona com um terceiro – o segurador – que este efetuará, em seu lugar, a reparação. É o que os franceses denominam contrat d’assurance de responsabilité.
Neste diapasão, salienta Hironaka53, que o atual sistema de responsabilidade civil está voltado para atender as vítimas, uma vez que, na maioria dos casos, os responsáveis tinham a possibilidade e a obrigação de se garantir, com isso garantindo também a segurança dos demais a quem acaba de vitimar.
Outra vantagem de se difundir o seguro de responsabilidade, traduz-se na maior possibilidade reparatória da indenização de eventos danosos ocorridos sem a intervenção do responsável. É que, muitas vezes, o dever indenizatório faz-se presente mesmo que não tenha havido falta do responsável, o que pode levar o Judiciário a excitar-se em fixar elevadas indenizações capazes de reparar completamente os danos, sob o fundamento de evitar a ruína do causador, pois deste modo estar-se-ia resolvendo um problema e criando- se um outro.
É neste contexto que se apresenta o seguro de responsabilidade como importante mecanismo posto à disposição do judiciário, para que sinta-se mais a vontade ao fixar indenizações mais condizentes com a proporção do dano causado a outrem, sem que essa dosimetria implique, necessariamente, na inviabilidade do progresso social.
Além do mais, o fato de o terceiro ter direito de ação diretamente contra o segurador traz-lhe inúmeras vantagens, dentre as quais pode-se citar a maior solvabilidade
52 Henri, Leon e Jean Mazeaud. Leçons. t. 3. cit., p. 592.
do segurador, sem que a verba tenha que passar antes pelas mãos do segurado para que este efetue o pagamento. O fato de tal verba não passar antes pelo patrimônio do segurado impede eventuais desvios, além de se evitar o risco de retenção por conta de concurso de credores em casos de insolvência civil e falência.