2.7 Ergonomia
2.7.2 Fundamentos e pressupostos conceituais da ergonomia situada
Para realizar um estudo de uma situação de trabalho atribuindo preceitos ergonômicos alguns fundamentos precisam estar compreendidos. A respeito disso, existem quatro pressupostos principais, abordados por autores da ergonomia situada (DANIELLOU, 2004; GÜÉRIN et al., 2001; WISNER, 1987): distinção entre tarefa e atividade, variabilidade, carga de trabalho, modo operatório e regulação.
A começar pela distinção entre tarefa e atividade, tem-se que “os desvios significativos entre prescrição e realidade são fontes de dificuldades para o trabalhador e é conveniente reduzi-los para uma melhor prescrição, embora saiba que é impossível anulá-los” (DANIELLOU, 2004, p.6). A tarefa é um conjunto de prescrições da organização com relação aquilo que o trabalhador deve fazer (ABRAHÃO, 2009b; FALZON, 2007). Conforme Güérin et al. (2001a), é um resultado antecipado, fixado dentro de condições determinadas. A tarefa pode ser definida por um objetivo e pelas condições de trabalho (FALZON, 2007). Desta forma, a tarefa também pode ser chamada de trabalho prescrito.
A atividade, por sua vez, está atrelada ao trabalho real. A atividade é o que realmente é feito e o que o sujeito mobiliza para efetuar a tarefa (FALZON, 2007, CYBIS, 2010). A atividade é definida com base nas ações de quem trabalha, nas decisões tomadas pelos trabalhadores, na forma como o trabalhador usa de si para atingir os objetivos ou na estratégia que ele encontra para cumprir estes objetivos dentro das condições fornecidas (ABRAHÃO et al, 2009).
Conforme Moraes e Mont‟alvão (1998, p. 85): “Uma descoberta sempre renovável e uma contribuição fundamental da Ergonomia para o estudo do trabalho é que o trabalho real difere sempre, e às vezes profundamente do prescrito.” Isto não quer dizer, que é papel da ergonomia estudar a tarefa e atividade com intuito de aproximá-las. Na verdade, a ergonomia se propõe a entender esta distância para que a organização permita as mobilizações não prescritas do trabalhador sem lhe causar problemas.
No que concerne à variabilidade, considera-se que esta está associada a tudo que não foi previsto e é manifestado dentro das situações produtivas (ABRAHÃO, 2000). Pode-se dividi-la de duas formas: a variabilidade do sujeito e variabilidade dos dispositivos técnicos e organizacionais. Ao se tratar do sujeito refere-se às alterações fisiológicas do ser humano (envelhecimento, adoecimento, ciclos circadianos, e, no caso das mulheres, o ciclo menstrual) que se enquadra no que é chamado de variabilidade intraindividual. Ainda relacionado ao sujeito existe a variabilidade interindividual, que é referente às características, experiências e fazeres de cada trabalhador (ABRAHÃO et al., 2009b).
A variabilidade consequente aos imprevistos dos dispositivos técnicos e organizacionais pode ser dividida em variabilidade normal e incidente. A variabilidade normal é intrínseca ao trabalho, pode ser sazonal ou periódica, e, portanto, é previsível. A variabilidade incidental é imprevisível por ser decorrente de eventos inesperados como flutuações na demanda ou defeitos de produtos, etc.
Ter conhecimento dos quesitos variáveis em um determinado trabalho e identificar como os operadores se comportam diante deles tem grande relevância. Conforme Abrahão et al (2009b, p.62): “O objetivo do estudo da variabilidade não é suprimi-la, mas compreender como os trabalhadores enfrentam a diversidade e as variações das situações, quais as consequências para saúde e para a produção”.
Em relação à carga de trabalho, algumas confusões podem ocorrer com o termo. Na verdade, ao referir-se a carga de trabalho, o que se pretende em ergonomia é falar sobre os excessos de carga ou uma sobrecarga. Afinal, pra que exista o trabalho, é necessário que exista uma atividade, desta forma, a ocorrência da carga de trabalho é imprescindível. Güérin et al. (2001b, p.67) traz a seguinte posição:
A noção de “carga de trabalho”, do nosso ponto de vista, pode ser interpretada a partir da compreensão da margem de manobra da qual dispõe um operador num dado momento para elaborar modos operatórios tendo em vista atingir objetivos exigidos, sem efeitos desfavoráveis sobre seu próprio estado. Uma carga de trabalho moderada corresponde a uma situação em que é possível elaborar modos operatórios que satisfaçam a esses critérios e alternar as maneiras de trabalhar. O aumento da
carga de trabalho se traduz por uma diminuição do numero de modos operatórios possíveis [...]. Em casos extremos, um só modo operatório é possível e, às vezes, até nenhum.
A partir disso, é dada importância a analise da carga como forma de encontrar o que constrange2 a tarefa (objetivos, cadencias, procedimentos, equipamentos, etc.) e o que o operador realiza de esforço3 para atingir o que lhe foi prescrito (FALZON, 2007b).
Neste contexto, se encontra condicionantes tanto do trabalhador (características físicas, sexo, idade, qualificação, experiência, competência, seu estado momentâneo e sua vida pessoal) como da empresa (exigências cognitivas da tarefa, as máquinas, ferramentas, meio ambiente, movimentos e posturas pressupostos, divisão de tarefas, hierarquia e o regime de trabalho). A carga de trabalho resulta da confrontação destas duas categorias de condicionantes. O resultado da carga de trabalho, por sua vez, volta-se sobre a empresa e sobre o trabalhador. “Retorna sobre o trabalhador o que se manifesta sobre seu estado de saúde, retorna sobre a empresa, o que se manifesta em termos de produção e produtividade” (ERGO&AÇÃO, 2003, p18).
A carga de trabalho é dividida em uma parcela física (posturas, gestos, biomecânica) e outra mental, que é subdividida em cognitiva (análise da situação, tomada de decisão, competência) e psíquica (mobilização cognitiva, desgaste) (ABRAHÃO, 2009b). Entretanto, esta divisão tem caráter teórico, pois em uma situação real de trabalho o resultado das diferentes dimensões da carga é único e de difícil dissociação.
Expostos às cargas de trabalho, o trabalhador se utiliza de estratégias individuais ou coletivas, muitas vezes sem ter consciência disso, como forma de regulação das cargas de trabalho, para ser capaz de concluir a tarefa que lhe foi atribuída. Algumas vezes este trabalhador, através de suas estratégias, consegue realizar sua tarefa com êxito, mas outras vezes a regulação não é suficiente e o trabalhador acaba por sofrer as consequências adoecendo ou não atingindo suas metas.
As estratégias a que referimos aqui nada mais são do que um conjunto de modos operatórios ou ações particulares efetuadas por um trabalhador. Por modos
operatórios, entende-se que são maneiras particulares adotadas pelos operadores para realizar
uma determinada tarefa. Estas maneiras podem variar de indivíduo para indivíduo assim como podem variar para um mesmo indivíduo em diferentes momentos. A definição de um modo
2 Constrangimento é referente às exigências da tarefa (GÜÉRIN et al., 2001; FALZON, 2007b), que podem restringir a capacidade articulação do operador para atingir os objetivos desta.
3 O esforço remete ao grau de mobilização (físico, cognitivo ou psíquico) do operador diante da sua atividade (FALZON, 2007b).
operatório depende de um conjunto de fatores como: objetivos a atingir, relações entre o tratamento da informação e ação, meios disponibilizados, organização da atividade humana, o conjunto de conhecimentos (saber fazer), resultados produzidos, representações que operador faz e o estado interno (GÜÉRIN et al., 2001b). O estado interno, além de fazer referência à idade, gênero, itinerários profissionais, estado de saúde e emocional do indivíduo, inclui as habilidades, saberes e experiência acumuladas pelo trabalhador que é relativo ao que se usa chamar de competências.
Dado este conjunto de fatores, o operador adota um modo operatório que considera mais apropriado para si, ou seja, adota o modo que considera mais prático, mais confortável, mais rápido, mais simples de acordo com sua forma de raciocinar ou mais prazeroso.
A elucidação dos modos operatórios, estratégias e competências fomenta o embasamento para determinar como o operador ou uma equipe de operadores conduz o seu trabalho para atingir os objetivos do que foi prescrito, geralmente buscando se poupar das sobrecargas advindas da sua tarefa. Sabendo que um trabalho pode estar exposto a uma série de variabilidades, o operador pode precisar alterar seu modo operatório nestas circunstâncias. Esta ideia está associada ao que a ergonomia costuma chamar de regulação. Conforme Falzon (2007a, p.10), este processo se comporta em três momentos: “a detecção de uma diferença em relação a um estado desejado, um diagnóstico dessa diferença (juízo de aceitabilidade) e (caso necessário) uma ação (é a regulação propriamente dita, mas ela pressupõe o que a precede)”. O conceito de regulação pode ser encontrado de duas formas: regulação do sistema (o objeto é o sistema técnico) e regulação da atividade humana (o objeto é o próprio indivíduo). O espaço para a regulação é de grande importância para que operador conclua seus objetivos sem prejudicar sua saúde física e mental. No entanto, quando este espaço é reduzido, o indivíduo recorre a modos operatórios inadequados, que podem ser prejudiciais para operador.
A partir do exposto, pode-se entender que:
Para atingir os objetivos, levando em conta os meios de que dispõe e seu próprio estado, o operador vai elaborar modos operatórios. Essa construção recorre a uma combinação de diferentes níveis de organização da atividade humana: baseia-se ao mesmo tempo em esquemas, ou seja, sequencias de buscas de informações e de ações bastante integradas, e num planejamento de conjunto, ligado às intenções do operador. Sempre põe em jogo, ao mesmo tempo, os mecanismos de exploração perceptiva, de processamento da informação e atividade muscular. (GÜÉRIN et al., 2001b).
A apresentação dos conceitos relacionados acima é fundamental para compreensão das aplicações da análise ergonômica do trabalho assim como o entendimento da linguagem abordada pela AET.
A partir do entendimento desses conceitos pode-se perceber que o sucesso de uma intervenção ergonômica concentra-se na ampliação dos espaços de regulação e na redução da carga de trabalho (LEPLAT, 2006) e é assim que a análise ergonômica do trabalho procura definir seus objetivos.