Capítulo 3. O método na investigação
1. Fundamentos metodológicos e objetivos do estudo
Nas Ciências Sociais (CS), a procura pela elucidação do real advém de um percurso de espírito e não de um somatório técnico. O conhecimento “não é um estado mas sim um processo (…) de adaptação activa e criadora do homem ao meio envolvente” (Silva & Pinto, 2005, p. 10). Investigar em CS implica: primeiro, contribuir para explicar e compreender fenómenos sociais; e segundo, dar conta de dois requisitos fundamentais: a multiplicidade e a dependência contextual (Coutinho, 2011). A multiplicidade reside na existência de diferentes abordagens metodológicas e a dependência contextual advém do facto (inquestionável) do investigador não poder dissociar- se do contexto sociocultural em que está inserido (idem).
A escolha dos métodos de recolha de dados na investigação das ciências sociais foi palco de um debate aceso, que dividia os investigadores quanto às escolhas metodológicas, particularmente entre a adoção de métodos quantitativos e de métodos qualitativos (Matthews & Ross, 2010; Coutinho, 2011). No entanto, a partir dos anos oitenta, esse confronto de perspetivas (entre o positivismo e o interpretativismo) enfrentou um processo de mudança: “o confronto virulento que pugnava pela imposição do modelo do paradigma único deu lugar a uma situação de maior tranquilidade em que se começa a aceitar a possibilidade de influência mútua” (Coutinho, 2011, p. 31). O debate qualitativo-quantitativo foi transcendido dando lugar à adoção de uma perspetiva de integração de metodologias.
Diferentes métodos permitem, portanto, obter uma figura holística do fenómeno estudado. Porém, acima de tudo, não é o debate epistemológico que deve determinar a opção
52
metodológica do investigador, mas sim o problema a analisar, e a forma de captar a essência desse fenómeno (Matthews & Ross, 2010; Coutinho, 2011).
Enquadrado nas ciências sociais, este trabalho de investigação pretende, em primeiro lugar, explorar a literacia mediática dos adultos e, em segundo lugar, compreender os resultados encontrados. Tendo como pergunta de partida Quais são os níveis de literacia mediática dos adultos no mercado de trabalho? o objetivo central é estudar os níveis de literacia mediática de adultos, que estão inseridos no mercado de trabalho. Uma vez que a questão é abrangente, foi desdobrada num conjunto de objetivos subjacentes, abaixo descritos:
1. Compreender quais são as práticas mediáticas, as competências de literacia mediática e as práticas de cidadania que caracterizam o grupo de adultos em estudo;
2. Perceber de que forma o acesso aos media, a compreensão crítica dos mesmos e a produção mediática, enquanto dimensões da literacia mediática, se relacionam entre si; 3. Identificar perfis de literacia mediática.
Para o estudo intensivo da literacia mediática, a opção pela metodologia qualitativo-quantitativa tem sido reconhecida como uma estratégia metodológica eficaz (Livingstone, Couvering & Thumim, 2005; Lopes, 2013). Uma das conclusões a que têm chegado estudos empíricos nesta área é que uma metodologia isolada, como os questionários, não dá uma visão compreensiva da literacia mediática (Livingstone, Couvering & Thumim, 2005; Danish Technological Institute, 2011; Burger, 2012; Lopes, 2013). É necessário desenvolver ferramentas que permitam interpretar e justificar os resultados obtidos. Neste sentido, tendo em conta a pergunta de partida e os objetivos da investigação, bem como as conclusões dos estudos na área, este estudo articula os métodos quantitativos e qualitativos através da aplicação de um questionário e da realização de grupos de foco.
A combinação destes dois métodos pode ser desenvolvida de diferentes maneiras. Os métodos qualitativos podem ser usados antes, em simultâneo ou após os métodos qualitativos, dependendo do tipo de informação que o investigador pretende obter (Matthews & Ross, 2010). No caso deste estudo, os grupos de foco foram realizados após a aplicação do questionário, com o objetivo de explorar os principais resultados obtidos através deste.
1.1. Entrevistas exploratórias
Neste estudo foram realizadas três entrevistas exploratórias com professores e investigadores de referência nesta área: Manuel Pinto, Patrícia Ávila e Luís Pereira. Os objetivos foram encontrar
53
itinerários possíveis para o trilho metodológico (e teórico) e desvendar novas pistas e ideias de trabalho (ibidem)22. Embora o percurso percorrido até às opções metodológicas tenha resultado
das leituras, que são também a matriz do conhecimento do enquadramento teórico, estas entrevistas23 complementam essa informação. Seguindo de perto a linha de pensamento de
Quivy e Campenhoudt (2008, p.69), as entrevistas exploratórias foram uma forma de “descobrir os aspectos a ter em conta e [que] alargam ou rectificam o campo de investigação das leituras”. Assim, tiveram sobretudo uma “função heurística” (idem).
À Professora Patrícia Ávila, da Escola de Sociologia e Políticas Públicas do Instituto Universitário de Lisboa, foi pedida uma entrevista devido ao seu reconhecido currículo académico sobre a literacia dos adultos. Ao longo da entrevista, procurou-se explorar, sobretudo, as pontes entre a “literacia tradicional” e a “literacia mediática” e entender quais os métodos e abordagens de avaliação utilizados pelos estudos de literacia mais recomendados para avaliar os níveis de literacia mediática. No final, ficou a ideia de que o denominador comum entre os conceitos são as competências. No geral, a literacia é definida pelas capacidades de codificação e descodificação da informação que nos rodeia, competências estas que as tecnologias de informação e comunicação não dispensam. Por outro lado, ficou também a ideia de que avaliar a literacia não é meramente uma questão dicotómica de identificar se há ou não competências. Efetivamente essa avaliação deve considerar diferentes níveis de literacia mediática (que se diferenciam pelos diferentes graus de dificuldade) de forma a identificar as características de cada nível.
Para explorar diferentes abordagens aos termos literacia mediática e competências, foi realizada uma entrevista com Manuel Pinto, professor catedrático em Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho, e investigador na área da educação para os media. Sumariamente, esta entrevista reforçou a importância do significado que é atribuído aos conceitos, mais do que a terminologia. Ficou também a ideia de que ao avaliar competências de pessoas é necessário considerar o seu contexto e as suas experiências. Isto dificilmente é depreendido através dos resultados estatísticos de um questionário que apresenta respostas fechadas. Neste sentido, é crucial complementar as abordagens quantitativos com abordagens qualitativas. Com efeito, esta entrevista apresenta uma reflexão pertinente e relevante acerca das abordagens e perspetivas sobre a avaliação da literacia mediática.
22Dado que se tratam de investigadores de referência, a nível nacional, nos estudos de literacia e literacia mediática, recomenda-se vivamente a
leitura integral das entrevistas.
54
Finalmente, a entrevista com Luís Pereira, que desenvolveu uma tese de doutoramento sobre do domínio da literacia digital, teve como objetivo de que forma as diferentes terminologias usadas neste campo de estudo se relacionam e se diferenciam. A ideia principal é que o essencial numa investigação é construir uma plataforma de entendimento quando se utilizam os termos. Esse entendimento é essencial e requer uma definição clara do conceito.
Em suma, estas entrevistas exploratórias contribuíram com pistas para as leituras e para a investigação empírica. Dada a sua natureza e os seus objetivos, as entrevistas exploratórias, embora partilhem e apontem para caminhos teóricos e empírico (já percorridos pelos investigadores) não são analisadas nem consideradas como opção metodológica, ao nível dos questionários e dos grupos de foco.