8 PERFIL DO PROFISSIONAL
9. ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO CURRICULAR
9.1 Fundamentos e objetivos do currículo
Concebe-se que a educação do campo e a formação de seus educadores devem ser construídas no sentido da promoção do mais amplo processo de formação político-pedagógica, vinculado à ideia do coletivo e ao movimento mais
amplo de transformação social. Nessa perspectiva, a proposta pedagógica do curso requer uma formação não limitada ao fazer, pois isso negar aos educadores do campo a possibilidade de produzirem uma reflexão filosófica, teórico-epistemológica acerca de sua própria condição, inclusive nas relações com a cidade e com as demais modalidades do conhecimento. Pela complexidade que o conhecimento atingiu em nossos dias, nenhuma área tem sua existência ou identidade construída a partir de si mesma, fora das demais áreas do conhecimento, isolada do debate com as demais culturas.
Propor um currículo para a escola do campo exige que se pense a vida do campo no contexto atual fase do capitalismo (globalização econômica, neoliberalismo, mercado, comunicação, novas tecnologias, reestruturação produtiva, agronegócio etc.) em curso nesse país, que tem implicado desenvolvimento desigual e excludente em diversos âmbitos (saúde, educação, moradia, relações de trabalho, organização da produção, eletrificação, saneamento, transportes, estradas), ou seja, vivenciam-se ao mesmo tempo, no campo, relações arcaicas e relações modernas, extremamente arraigadas na lógica do mercado capitalista, as quais têm implicado maior concentração da riqueza para uma minoria e uma crescente pobreza da maioria.
Ao se fazer referência à escola e ao educador do campo não se está defendendo uma escola agrícola, mas necessariamente uma escola que esteja relacionada à cultura do campo, sem se limitar somente a ela, mas tendo-a como referencial, ou seja, que a formação do educador para essa escola contribua para uma direção política a favor da melhoria das condições de vida dos sujeitos do campo. Assim, a formação do educador do campo se identificará pelo papel fundamental de educadores e educadoras na resistência organizada em defesa da escola pública, da reforma agrária e da transformação mais ampla da sociedade.
O desenvolvimento de uma educação transformadora requer um currículo baseado em pressupostos teóricos da Pedagogia Histórico-Crítica e da Pedagogia Socialista, cujos elementos deverão garantir a identidade do curso, se materializando em ações concretas de intervenção pedagógica na realidade atual das escolas do campo. Assim, o Curso de Licenciatura em Educação do Campo apresenta uma estrutura curricular que têm na docência e na formação
política o caráter unitário, capaz de conferir a todos os profissionais formados, qualquer que seja o seu campo de intervenção, essa identidade.
O currículo é aqui concebido de forma ampliada, reunindo todas as diferentes formas de saberes, práticas sociais, valores e ideologias, tendo a ciência e a filosofia, papel importante como saberes sistematizados historicamente a serviço da construção de conhecimento e de transformação da realidade. Nesse sentido, o currículo proposto tem como objetivos possibilitar ao aluno:
Compreender, de forma crítica e contextualizada, as relações e processos sociais organizados, a partir da reflexão sobre as diferentes realidades;
Dominar conhecimentos essenciais do currículo da educação básica para o exercício da docência na área específica de sua habilitação;
Compreender o conhecimento sistematizado como propiciador de relações entre a aprendizagem e a realidade vivida, sem negar a cultura de origem do homem e mulher do campo;
Dominar os usos e funções sociais da leitura e da escrita criticamente, para a formação de sujeitos leitores do mundo e da palavra;
Desenvolver conhecimentos e estratégias diversificadas de ensino e aprendizagem para as escolas do campo;
Desenvolver conteúdos e metodologias para o trabalho organizativo, cooperativo com famílias, movimentos e entidades sociais do campo;
Promover a integração do aluno com sua comunidade, possibilitando a pesquisa e a construção de projetos e práticas pedagógicas que expressem a história, a cultura e o conhecimento dos educandos, contribuindo para o fortalecimento de sua identidade camponesa;
Integrar ao processo de formação do educador às atividades de arte e cultura, esporte e lazer em suas diversas linguagens e modalidades de manifestação, garantindo uma prática educativa identificada com o fazer cultural do homem e mulher do campo;
Realizar atividades que possibilitem ao aluno expressar seus sentimentos, experiências de vida, opiniões e ideias, bem como elementos conflitantes da prática educativa, visando construir para novas relações humanas e pedagógicas nas escolas do campo, nos movimentos e entidades socais e na vida do assentamento;
Desenvolver atividades pedagógicas (estudos e pesquisas) que contribuam para a ampliação do universo cultural dos educadores e educadoras em formação, no campo da ciência, literatura, filosofia, arte e política, contribuindo para processos de crítica e autocrítica, de modo a fortalecer a sua autonomia intelectual como educadores e sujeitos sociais do campo;
Estabelecer relações entre trabalho e educação a partir de reflexões sobre as experiências vividas em sala de aula, no assentamento, nos movimentos sociais e com mundo do trabalho no campo e na cidade;
Relacionar os conteúdos disciplinares com as suas necessidades reais e para a compreensão das relações do campo e das relações sociais mais amplas;
Realizar experiências que contribuam para a ampliação dos processos de criação, criatividade e transformação, tanto individualmente como nos coletivos de educadores, na escola, nos movimentos sociais;
Avaliar o exercício discente visando estabelecer os níveis de dificuldades, visando superá-las e os avanços no desempenho escolar e não-escolar;
Refletir sobre as relações de gênero, raça e etnia no processo educativo, no âmbito das áreas de reforma agrária e da sociedade;
Estudar os valores e práticas organizativas das culturas negra, indígena e camponesa, como conteúdos fundamentais para o fortalecimento das identidades desses sujeitos;
Possibilitar o acesso a cultura tecnológica contemporânea, sem negar a condição de humanização que o conteúdo dessa aprendizagem precisa ter;
Elaborar monografia de conclusão de curso visando analisar e sistematizar estudos e experiências vivenciados no processo de formação, tanto em sala de aula quanto nas comunidades e movimentos sociais.