2 A POLÍTICA E O SISTEMA NACIONAL DE GERENCIAMENTO DE RECURSOS
2.1 FUNDAMENTOS, OBJETIVOS E DIRETRIZES DA POLÍTICA
A Lei n° 9.433, de 1997, estabelece no seu primeiro artigo os seis fundamentos que norteiam o processo de implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, considerados a base sobre a qual foi construída.
Inicialmente, os dois primeiros fundamentos enfatizam o domínio público da água, previsto na CF 88, e afirmam ser a água um recurso natural limitado e dotado de valor econômico. O reconhecimento do valor econômico da água implica desde já no direcionamento para a implementação da Cobrança pelo Uso da Água, que deverá se converter no seu uso de forma mais racional.
Após, define que em situações de escassez, o uso prioritário da água será para o consumo humano e a dessedentação de animais. Estabelece assim a primazia sobre os demais usos, fato considerado uma obviedade, mas que na prática nem sempre funciona, especialmente quando se encontram em jogo os usos da água com a finalidade econômica. O Código de Águas (1932) já previa essa prioridade em qualquer situação, sendo assim a Lei 9.433 é menos restritiva e a questão relativa à situação de escassez não se encontra bem definida.
O quarto fundamento afirma que a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas, logo todos os usuários possuem iguais condições no
que se refere ao acesso à água. Trata-se de um princípio de caráter técnico, que objetiva maximizar o uso da água e oferecer igualdade de oportunidades. Em situações de abundancia, esse princípio é atendido naturalmente, mas à medida que a água tende à escassez é preciso se estabelecer parâmetros para o atendimento de todos os usuários, de forma a evitar situações de conflitos.
A adoção da bacia hidrográfica como a unidade territorial de planejamento e gestão é o quinto fundamento, que trata de definir o perímetro da área a ser planejada, facilitando o confronto entre as disponibilidades e as demandas, essencial ao estabelecimento do balanço hídrico.
Finalmente, o sexto fundamento a ser mencionado refere-se à forma como se deve dar a gestão dos recursos hídricos no país, ou seja, descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e da comunidade. Descentralização baseia-se na premissa de que não se deve decidir em uma esfera superior o que pode ser solucionado em uma instância inferior, ou seja, no âmbito da bacia hidrográfica. Já a participação considera o compartilhamento de poder e responsabilidade, na medida em que as decisões são adotadas com base no consenso entre representantes de três esferas distintas, através do processo colegiado.
A Política Nacional de Recursos Hídricos define no art. 2° da referida Lei seus objetivos como sendo:
i. assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos;
ii. a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável;
iii. a preservação e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de origem natural ou decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais.
Desta forma, observa-se que os objetivos citados encontram-se alinhados com a previsão constitucional no que diz respeito à questão da degradação e preservação
ambiental, ao atendimento do princípio dos usos múltiplos e à estruturação do setor, de maneira que disponha da capacidade requerida para lidar com os eventos hidrológicos críticos e suas respectivas conseqüências sociais.
As diretrizes de ação da Política de Recursos Hídricos revelam os caminhos a serem percorridos. Constituem em si procedimentos a serem sistematicamente observados na gestão dos recursos hídricos.
A Lei das Águas estabelece como diretrizes gerais:
i. a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade. Na essência, essa diretriz busca integrar as políticas de recursos hídricos e de meio ambiente, considerando que a qualidade das águas e o uso e ocupação do solo estão intrinsecamente relacionados. Entretanto, no campo institucional, quantidade e qualidade, muitas vezes, encontram-se dissociadas, sendo a primeira tratada no âmbito das instituições voltadas às questões de recursos hídricos e a segunda naquelas relacionadas ao licenciamento ambiental. A ênfase à integração quantidade-qualidade é necessária à promoção da articulação entre as duas políticas;
ii. a adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do país. Essa diretriz objetiva contemplar, num país com a amplitude do Brasil, a adequação aos diversos aspectos ambientais, econômicos, sociais e culturais. Por conta dessa diversidade é que a Lei possui um caráter geral;
iii. a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental. Essa diretriz representa a necessidade de integração, não se pode conceber a gestão de recursos hídricos dissociada da ambiental, conforme afirmado anteriormente;
iv. a articulação do planejamento de recursos hídricos com os dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional. Objetiva, sobretudo identificar os pontos de contato entre o planejamento de recursos hídricos e os demais, para que todos sigam diretrizes de ação num mesmo sentido e maximizem os resultados almejados;
v. a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo. Os recursos hídricos não podem ser geridos de forma isolada, o uso e ocupação do solo (rural e urbano) encontra-se diretamente relacionado com a água. Observar essa diretriz visa, sobretudo, assegurar que o ciclo hidrológico seja realizado dentro da sua plenitude, procurando garantir a manutenção da cobertura vegetal e assim possibilitar a minimização do escorrimento superficial, maior infiltração da água pelo menos nos pontos de recargas de aqüíferos, evitando com isso a ocorrência de erosão, o carreamento de sólidos para os corpos d’água e o assoreamento dos mesmos, bem como de enchentes, entre outras conseqüências;
vi. a integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras. As águas interiores devem ter a sua gestão integrada aos estuários e às zonas costeiras da qual façam parte, uma vez que existe interdependência direta entre esses ecossistemas.
2.2 O SISTEMA NACIONAL DE GERENCIAMENTO DE RECURSOS HIDRICOS -