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2 O OBJETO DE ESTUDO

2.4 FUNDAMENTOS PARA O MÉTODO NA SOCIOLOGIA DO COTIDIANO

Os estudiosos M. Weber e G. Simmel manifestaram preocupação com a globalidade do fenômeno social e instigaram, ainda, pesquisadores a desenvolverem uma sociologia que respeite a vida cotidiana, que apresente a descrição do vivido naquilo que é, sem exigir uma finalidade, contentando-se em exibir a vida de todo dia. Esta maneira ostenta uma atitude de globalidade, ao rejeitar a postura de discriminador do pesquisador que, ao analisar o dado social, separa o que é importante e significante daquilo que não o é (MAFFESOLI, 1988, p. 25).

Maffesoli (1988), sobre a questão do método, declara seu interesse pelo formismo a partir de Simmel, ao explicitar que se faz necessário modelar o dado social. Para tanto, antes de tudo, é preciso perceber o lógico e o não-lógico do fenômeno estudado para ir mesclando- os até obter um equilíbrio não linear. Portanto, o método pressupõe uma organicidade social e natural, sendo esta a perspectiva proposta para o formismo:

A noção de formismo não mais permite os contra-sensos habitualmente induzidos pela idéia de ‘Forma’; e esta me parece bastante adequada para descrever, de dentro, os contornos, os limites e a necessidade das situações e das representações constitutivas da vida cotidiana. Assim se tempera a rigidez do estruturalismo, preservando-se, porém, sua pertinente perspectiva

de invariância; trata-se, portanto, de modulação temperada que permite apreender a labilidade tanto quanto as correntes quentes do vivido (MAFFESOLI, 1988, p. 26).

Maffesoli (1988, p. 26) faz uso do neologismo para distinguir o “formismo” do “formalismo” empregado por outros autores, e não mais permitir os disparates sugeridos pela idéia de “forma”. O formismo se satisfaz em delinear ou esboçar o fenômeno social sem buscar uma finalidade exata dos mínimos atos da vida cotidiana, aceitando as aparências enquanto tais; já o formalismo esforça-se em dar sentido a tudo o que observa.

Nesta investigação buscamos uma compreensão teórica que nos revele caminhos para apreender a mistura de subjetivo e objetivo presente na estruturação do viver no contexto familiar, sabendo que é no movimento das formas objetivas que a subjetividade se deixa manifestar, permitindo a perduração do social. O subjetivo pode ser um caminho para melhor apreendermos a intersubjetividade, isto é, a alteridade presente no viver cotidiano.

No delineamento metodológico de nosso estudo estaremos atenta à polissemia da socialidade familiar e às suas formas estruturantes reveladas no cotidiano das famílias, acreditando ser possível identificar dados sociais diferenciados e complementares, os quais se constituirão no lastro dessa investigação que se vai definindo apoiada na epistemológica maffesoliana.

Particularmente, do ponto de vista metodológico, o estudo será conduzido segundo os pressupostos “formistas”, os quais ressaltam que a “forma é formante” (MAFFESOLI, 1997, p. 134). As coisas existem porque se inscrevem numa forma, e essa forma estrutura-se por aquilo que nos é dado ver, o que se apresenta aos nossos olhos. A forma enfatiza o politeísmo de valores, o movimento, e considera a multiplicidade dos aspectos de cada elemento da vida para a estruturação do grupo social (MAFFESOLI, 1988, 1995).

Cabe-nos compreender a “forma” nos aspectos relativos à rigidez e à labilidade. O estruturalismo toma a forma sob o ângulo exclusivo do formal, ou seja, restringe-se ao olhar externo do objeto estudado, interessando-nos a “forma” da vida social em família; portanto o “formismo” buscará revelar a invariância do dado social pertinente à perspectiva estruturante mais formal do grupo estudado, com os contornos delineados pela labilidade própria da dinâmica social familiar.

O formismo permite compreender o indivíduo em interação, isto é, em ação recíproca com o meio ambiente e com o seu meio social. Inter-ação que faz do conjunto algo além de suas partes componentes. O autor parafraseando E. Durkeim afirma “é a forma do todo que determina a das partes” (MAFFESOLI, 1988, p. 110).

Dessa maneira, nesse estudo, as famílias convivendo com familiares com dependências físicas serão compreendidas a partir de suas estruturas, da sua internalidade subjetiva, dos seus limites, contradições, harmonias, ambivalências e coerências. O formismo busca moldurar a polissemia do dado social, sem ser formal; ao contrário, é formante.

De acordo com Maffesoli (2004a, p. 65), a noção de “forma” pode ser um bom instrumento para fazer ressurgir, da banalidade cotidiana e outros fenômenos anódinos, seu verdadeiro significado. Para o autor, refletir sobre a forma não é um simples exercício acadêmico, mas melhor dizendo, um zelo, um cuidado útil e produtivo a tudo e a cada querer, mesmo que pequeno insignificante, das ações cotidianas. Reafirma que a forma é a fonte que dá origem, que faz brotar o estar-junto.

A forma salienta a particularidade sem descuidar das peculiaridades essenciais, isto é, capta o real em função do irreal, permite a apreensão da imagem, a compreensão da reversibilidade das coisas e dos sentidos. O que caracteriza o formismo é que ele procura esboçar a globalidade do fenômeno com os valores plurais e às vezes antagônicos da vida

cotidiana. A postura formista considera as trivialidades, as múltiplas criações e situações da vida cotidiana, respeitando as diferenças dos atores sociais.

Os pressupostos formistas sugerem coerência no dado social em sua pluralidade, heterogeneidade e ambivalência. Sendo assim, é possível apreender a harmonia na globalidade ou nas partes do objeto e da situação observada. Os pressupostos certificam que para ser científico não é necessário reduzir e eliminar o que se julga não ser essencial.

O formismo indica uma cientificidade mais ampla, englobante, generosa, que integra à pesquisa parâmetros convencionalmente deixados de lado. Pode existir hierarquia entre os fatos e contextos, mas todos permanecem indispensáveis. Tudo tem importância, tudo é colocado em relevo, não sendo possível fazer julgamento de valores sobre situações e ações observadas (MAFFESOLI, 1988, p. 116).

Isto pode ser confirmado ao olharmos atentamente a vida cotidiana e a existência social, que mantêm, elas próprias, o equilíbrio de acordo com as formas que lhes são peculiares, onde a ordem e a desordem, o funcionamento e a disfunção se articulam de maneira a estruturar e afirmar a sua permanência no contexto universal.

Para Maffesoli (1981), o formismo possibilita a apreensão do fenômeno em toda a sua essência, com tudo o que o compõe, valorizando o que muitos ignoram, as banalidades. Permite compreender as relações, as manifestações figurativas da socialidade, a polissemia que se manifesta no cotidiano, os sentimentos e as emoções do vivido no dia-a-dia; também tem a função de ressaltar a efervescência dos grupos sociais e de dispor as suas formas estruturantes.