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1. INTRODUÇÃO

1.1 C ONFLICTO : NO TENGO MAPA NI B RÚJULAS , SOY EL CENTRO

1.1.1 Funk da realidade: organizando a escrita!

A dissertação33 Raperas Sudacas: a poética amefricana e mestiza

sapatão na América Latina é composta de quatro capítulos. O primeiro é a Introdução, com a seção secundária Conflicto: no tengo mapa ni brújulas, soy el centro e a seção terciária Funk da realidade: organizando a escrita!, onde procurei

fazer uma apresentação de todo o processo da pesquisa descrevendo todos os eventos nos quais participei com artigos, comunicações orais e pôsteres desde o momento que entrei no mestrado do Programa de Pós-Graduação do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia – PPGNEIM/UFBA.

Foi nesses eventos que completei as lacunas do meu projeto de pesquisa intitulado Raperas Sudacas: a poética lésbica negra da América Latina, com a colaboração de outras pesquisadoras de gênero e sexualidade e também de etnomusicólogas que encontrei no caminho percorrido durante a realização do mestrado.

Durante esses diversos diálogos o projeto mudou de nome e ganhou outra cara. Isso porque houve a percepção de que a categoria lésbica ainda é muito branca, quando as negras reivindicam um lugar, esse lugar é o das “sapatão”, assim no singular mesmo, porque nem mesmo o português culto sustenta a identidade sapatão. Sapatão era um termo para falar pejorativamente sobre lésbicas, mas atualmente houve uma positivação do termo. A palavra simboliza a ocupação de um espaço que não é mais aquele da mulher cuidadora dos filhos, próprios ou de outra(o)s, tão projetada sobre mulheres racializadas. E todas as raperas aqui citadas e reivindicadas estão nesse habitat outro onde o cuidado e amor entre mulheres é cultivado como forma de resistência, o espaço das sapatão.

Obviamente, no transcorrer do texto ainda aparece a palavra “lésbica”, muito mais por estar associada as autoras citadas que por uma vontade minha. Outra alteração decorrente dos diálogos estabelecidos durante o período de mestrado foi no título da dissertação. Inicialmente seria o mesmo título do projeto, mas se tornou perceptível para mim, enquanto pesquisadora, que as raperas indígenas latino-americanas também colaboram muito para o debate decolonial e

para a desconstrução da colonialidade, por isso o título agora é Raperas Sudacas: a

poética amefricana e mestiza sapatão na América Latina.

Optei também por escrever apenas quatro capítulos por acreditar que a separação do texto em mais capítulos atrapalharia a fluidez para quem se propuser a lê-lo. Assim, no segundo capítulo, Pachamama, esos mitos son para colonizarte busco demonstrar como as principais autoras da teoria decolonial, dentre elas Maria Lugones, Yuderkys Espinosa-Miñoso, Ochy Curiel, Luciana Ballestrin e do feminismo negro como Kimberlé Crenshaw, Lélia Gonzalez, Patrícia Hill Collins e do chamado feminismo de cor e/ou de terceiro mundo Glória Anzauldúa, Cherry Moraga, dialogam com as raperas amefricanas e mestizas sapatão da América Latina. Há também um diálogo com autoras e autores, sendo ou não teóricos da decolonialidade, que colaboraram para a formação do que hoje conhecemos como feminismo decolonial.

Esse capítulo é dividido em dois subcapítulos, sendo eles: Nzinga

mandou avisar: a minha história é preta onde busquei destacar a centralidade da

racialização do gênero na dissertação e nas teorias que me auxiliaram na escrita como o feminismo negro; e Marielle presente! com um debate mais aprofundado de como a sexualidade, ou melhor a sapatonice, é atravessada pelas questões racial e de gênero, com maior aporte da interseccionalidade nessa parte.

Todas as discussões realizadas nesse trabalho têm o aporte das raperas sapatão amefricanas e mestizas latino-americanas, nomeadamente Luana Hansen, Dory de Oliveira e Annie Ganzala do Brasil, Rebeca Lane da Guatemala, Caye Cayejera do Equador e Krudas Cubensi de Cuba. Em Era Uma Vez: o hip hop e as

minas, uma história, terceiro capítulo, proponho um diálogo entre as raperas acima

citadas e a etnomusicologia enquanto teoria que possibilita perceber como a música possui recorte de gênero, raça e sexualidade, assim como, outras categorias das sociedades latino-americanas criadas no processo de colonização que refletem até hoje os resquícios desse projeto de dominação. As principais autoras a tratarem da etnomusicologia nesse capítulo são Lizette Alegre González e Martha Ulhôa Carvalho, dentre outra(o)s.

O terceiro capítulo é dividido em três subcapítulos. No Todavía hay tanto:

seria isso uma netnomusicologia?! recorro à etnografia virtual, principalmente aos

aportes de Christine Hine, pois ela possibilita a aproximação com as minhas interlocutoras raperas a qualquer momento, ainda que estejam fisicamente em

lugares diferentes de mim. Cypher machocídio: as minas fazem história, é um resgate da história do hip hop latino-americano a partir do olhar e das histórias das mulheres, sapatão ou não. E Delete nos machistas, tem sapatão na pista é sobre a existência do rap sapatônico atual ser uma agradável consequência de raperas que vieram antes e plantaram as bases para a existência de um hip hop feminino e, um debate sobre como as mulheres no geral sofrem com a invisibilidade de seus trabalhos. Fazer esse resgate histórico é uma maneira dentre várias outras de combater a invisibilidade imposta socialmente.

O quarto e último capítulo intitulado Paralaxe ou Netnomusicologia: a

história de todas elas, procurei fazer uma recuperação das principais reflexões

realizadas em toda a dissertação com o objetivo de demonstrar a colaboração das raperas sapatão amefricanas e mestizas na desconstrução do racismo, do sexismo, da lesbofobia consequentes da colonialidade que assola os países latino- americanos, e também, deixar algumas portas abertas para pesquisas futuras. Apontei também alguns temas que possivelmente se desdobrarão em novas pesquisas.

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