1 O QUE É CONSUMO?
1.4 Consumo, identidade e estilo de vida
2.2.3 Funk Ostentação
O funk ostentação, foco da nossa pesquisa, surgiu anos depois do funk carioca, por volta dos anos 2000, sendo considerada uma das vertentes mais recentes. Ao contrário das mencionadas anteriormente, esse tipo de expressão cultural teve como principal ponto de partida o estado de São Paulo, mais
especificamente primeiro em Santos e, em seguida, começou a se espalhar mais para a capital, pela Zona Leste.
Assim como outros estilos musicais, mas com influência principalmente do RAP americano e do Hip-Hop ostentação, o tema principal é a exaltação de marcas e bens de consumo. Os elementos mais recorrentes nas músicas são bens como carros e motos, além de bebidas, roupas e mulheres. Em algumas canções, o discurso sobre o consumo vem atrelado ao discurso de superação das dificuldades ou da conquista de sonhos.
A maioria dos artistas que cantam o funk ostentação são sujeitos que nasceram e cresceram nas favelas, onde as condições eram difíceis e, consequentemente, o consumo de qualquer tipo de mercadoria, até mesmo de alimentação, era muito limitado, como é o caso do Mc Lon. Em matéria exibida pelo programa Câmera Record (2014) sobre a verdadeira história do funk ostentação, o funkeiro conta que pedia comida nas feiras e também contava com a ajuda dos vizinhos, além de ter sido abandonado pelo pai durante um certo período e ter trabalhado com flanelinha e cabeleireiro.
Ao falar sobre a ostentação e a sensação de andar em carros de luxo, o cantor diz que “É fenomenal, mano, poder andar num carro assim, ser comparado a uma pessoa de nível muito alto de vida, entendeu? (sic)” (CÂMERA..., 2014, grifo nosso), os relatos são semelhantes. Para o Mc Menor do Charme, a ostentação é algo necessário, ele diz que “para o conforto não pode economizar, tem que ser tudo do bom e do melhor mesmo, a gente já veio do sofrimento, agora que a vida melhorou a gente tem que procurar ostentar. (sic)” (ibidem). Essa é outra característica desses sujeitos do funk ostentação. Para a maioria deles, a ascensão social se dá por meio do consumo, muito graças ao valor simbólico que as marcas e os bens materiais adquirem.
Questionado como entrou para o mundo da ostentação, Mc Dede conta que começou a fazer esse tipo de funk após começar a frequentar os bailes, inicialmente o artista usava calçados simples, até mesmo rasgados, e via outros rapazes usarem os ‘kits’, com óculos e acessórios de marca. Ele explica que
a gente sempre teve vontade também de ter uma coisinha, então o que aconteceu velho, eu comecei a escrever música de ostentação, que foi uma música que eu fiz chamada ‘Kit 1’ [...], então a galera começou a curtir, tanto que a gente começou a colar em muitas periferias e a gente até que ficou meio surpreso, a molecada, as vezes, que não tinha uma condição e tal, comprava aquele Omega 024, tudo réplica, eu tinha uma réplica também, e virou febre, febre mesmo nas periferias (sic). (FUNK..., 2017)
Tomando como exemplo o relato acima, devemos considerar que esse tipo de atitude ocorre e é comum, pois,
Mesmo a renda funciona como uma barreira limitada. Os produtos similares e ‘piratas’ permitem que estilos de vida sejam construídos e desconstruídos e lançados ao mercado e utilizados por pessoas cujas rendas certamente não são compatíveis com o uso de muitos deles nas suas respectivas versões originais. (BARBOSA, 2014, p.22 - 23)
Para a professora e Doutora em Ciências Políticas, Denilde Oliveira (FUNK..., 2014), as músicas de funk ostentação refletem uma mudança na sociedade, representando não só a ostentação em si, mas apresentando o que é o sonho dessas novas comunidades, como ter um carro novo, objetos de marca. Para a estudiosa, esse é um reflexo da mudança da classe média brasileira com a ampliação do consumo estimulada pelo governo e pela mídia, o que fez com que as pessoas incorporassem isso nos seus discursos, nas músicas.
Para os que levantam a bandeira em defesa desse tipo de manifestação, se defende que o estilo musical possui uma positividade. Para DJ Malboro (ibidem), o funk ostentação é positivo, pois, “as pessoas estão falando dos seus desejos e anseios, daquilo que elas pretendem [...], a ambição desmedida é ruim, mas a ambição de você querer ter uma vida melhor, eu acho isso muito legal [...]”. Esse mesmo tipo de pensamento é compartilhado pelos cantores do funk ostentação, que se veem como uma inspiração para crianças e adolescentes que buscam um futuro melhor, como um caminho para não cair na criminalidade.
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Omega é uma marca suíça de relógios de luxo, os lançamentos podem passar dos 20 mil reais.
Para o sociólogo Rodrigo Brando (CÂMERA..., 2014) a explicação para o sucesso do funk ostentação é que neles os sujeitos encontram um discurso onde os artistas mostram que ‘venceram’, com isso, os admiradores e fãs do estilo musical se encontram, se identificam, seja por serem pessoas que também ‘venceram’, apesar das adversidades da vida, seja por se espelharem nesses ídolos para construir uma história de vida parecida, para buscarem os sonhos e conseguir uma vida melhor, mesmo que essa ‘melhora’ esteja baseada apenas no ato de consumir mais. O professor Dr. em Ciências Sociais, Luiz Gabriel (FUNK..., 2014), explica que isso se dá pelo motivo que “a juventude encontrou nessa manifestação do funk ostentação, sem dúvida nenhuma, uma forma de expressar o seu anseio, o seu desejo de ascensão social.”
Compreender as condições de possibilidade do funk ostentação, que surgiu por volta dos anos 2000, é importante, pois o contexto dessa época foi determinante para que a vertente conseguisse se manter ativa, o cenário de crescimento econômico Brasileiro aparece como um acontecimento fundamental para que tais discursos surgissem e se sustentassem.