2 FUTEBOL MODERNO: HISTÓRIA, PRINCÍPIOS E ELEMENTOS
2.2 FUTEBOL E IDENTIDADE SOCIAL: CONCEITOS E PRECONCEITOS À
Dados históricos ajudam na compreensão de como as duas abordagens listadas na seção anterior, quais sejam, a da identidade nacional e a da democracia racial, tornaram-se ideias aparentemente irrefutáveis. Do ponto de vista da identidade nacional, o antropólogo Roberto DaMatta talvez seja o pesquisador que mais se dedicou a elaborar teorias sobre a influência do futebol na composição do retrato do povo brasileiro no último século. Autor de mais de uma dezena de títulos que versam sobre o tema, desde livros de sua autoria, colunas em jornais, artigos científicos publicados em revistas de antropologia até a organização de livros com artigos afins, DaMatta estabeleceu e divulgou o conceito de drama social a partir da experiência do futebol. Já do ponto de vista da experiência de uma possível democracia racial em campo, talvez seja o jornalista Mário Filho o autor da mais provocadora e polêmica obra sobre a relação entre o negro e o futebol no Brasil, O Negro no Futebol Brasileiro, a qual, apesar de bastante criticada por sua característica predominantemente ensaística, chegando a ser considerada por alguns pesquisadores mais ortodoxos como uma obra fantasiosa, continua sendo fonte indispensável quando se trata de discutir a história e os desdobramentos da chegada do futebol ao Brasil.
É imperativo observar que os dois aspectos citados acima, de alguma forma, relacionam-se com expressões de preconceito dentro da experiência social e cultural do povo brasileiro. O racismo, evidenciado desde os primeiros anos da prática do futebol em nosso país, trata-se de um preconceito claro e enraizado no Brasil, ainda não superado. O outro preconceito, mais discreto talvez, é da ordem da cultura. Segundo a premissa de alguns, o futebol revela-se como um fenômeno de pouco ou nenhum conteúdo intelectual, sem virtudes morais, representando uma atividade rude, agressiva, exclusivamente corporal e que em nada contribuiria para a elevação da sociedade; ao contrário, chegaria mesmo a operar como um fator em desalinho com a educação que se espera de um povo civilizado, servindo de atividade de distração da população, desviando sua atenção das coisas ditas realmente importantes. Essa compreensão do futebol está na gênese da alcunha que recebeu de “ópio do povo”, como se verá adiante com Roberto DaMatta, que propõe, em artigo publicado na década de 1980, o confronto entre esse modo de conceber o esporte em questão e aquela outra proposta por ele denominada de drama de justiça social.
Curiosamente, o ataque ao futebol vem das mais diversas camadas da sociedade, nos mais diferentes momentos de sua história. Quando do desembarque das regras e dos equipamentos em terras nacionais, o grande argumento contra a prática do novo esporte reforçava a ideia de que uma atividade completamente estrangeira ia contra toda e qualquer tentativa de construção de uma identidade própria, contradição que se perceberá como tal anos depois, quando o próprio futebol terá se revelado como importante elemento constituinte dessa mesma identidade. O inimigo mais ilustre do futebol neste período, localizado nas primeiras décadas do século XX, parece ter sido o escritor Lima Barreto, fundador da Liga Brasileira Contra o Futebol. Sobre a verdadeira batalha travada por ele e seus correligionários contrários à prática do esporte inglês, DaMatta comenta no ensaio Antropologia do óbvio: um ensaio em torno do significado social do futebol brasileiro, publicado no livro A bola corre mais que os homens (2006):
Aprofundemos um pouco as opiniões negativas de Lima Barreto, escritor, sem berço, riqueza, dependente químico, marginalizado e mulato, sobre o futebol, pois elas revelam como são complicadas as percepções sociais numa sociedade dividida entre seguir modelos estrangeiros e emular, prestigiar e defender instituições nacionais, tendo como pressuposto uma incompatibilidade de raiz entre elas, como se as sociedades fossem entidades rígidas, incapazes de mudar e promover sínteses criativas e inesperadas das instituições ou objetos culturais com os quais entram em contato. [...] O que me parece sociologicamente relevante nas objeções de Lima Barreto e de outros críticos é a percepção de que o futebol transtornava papéis sociais hierarquizados, na medida em que o público deixava de ser um espectador passivo (como ocorria nos espetáculos burgueses tradicionais como o bel-canto, a ópera, o teatro e até mesmo as corridas de cavalo e as regatas), transformando-se num aficionado ativo singular: um “torcedor” desta ou daquela agremiação, certo de que sua atitude relativamente era um modo de participação importante para o resultado da partida. (DAMATTA, 2006, p. 140).
O comentário de DaMatta, ao mesmo tempo que serve para ilustrar os motivos pelos quais importantes figuras da cultura nacional rechaçavam o futebol, opera também como indicador dos possíveis motivos pelos quais o brasileiro vai chegar a níveis tão radicais de envolvimento com a performance de seus representantes em campo, como se verá no quarto capítulo desta tese, no item que versa sobre a função dramática da torcida enquanto coro trágico. O exercício ativo da apreciação, da fruição e, mais do que isso, da participação efetiva no evento, interferindo em seu desenrolar, configura-se como um dos mais relevantes fatores de envolvimento do torcedor com o futebol.
Com o passar do tempo, apesar de mudarem os motivos, os argumentos e as formas pelas quais parte da sociedade continuava a atacar o futebol e seus seguidores, a ofensiva continuava. Sempre capitaneados por boa parte da intelectualidade, a ojeriza ao futebol tomava agora contornos políticos, e a grande bandeira de seus detratores era sua suposta função anestésica diante do grave momento pelo qual o Brasil passava, sobretudo quando da conquista do título de 1970, ocorrida no auge da ditadura militar no Brasil. Sobre essa relação da esquerda brasileira com o futebol, José Miguel Wisnik (2008) faz questão de esclarecer o que se operava naquele momento. Para o ensaísta, não era o futebol um espelho ou mesmo um instrumento das forças militares, a serviço de uma hipnose coletiva. Era o regime militar que, fazendo uso daquele fantástico evento de efeito incomparável, esmerava-se na tentativa (às vezes bem-sucedida, é importante que se diga) de manipular o povo, associando, aos modos de governo desenvolvido pelo regime, a imagem de sucesso e empatia que aquele grupo mantinha com a sociedade.
O uso político da imagem dos jogadores de futebol, sobretudo em copas do mundo, não é uma invenção do regime militar. Mesmo na Copa de 1950, os políticos já faziam uso da imagem da seleção para promoverem-se diante de seus eleitores, tamanha era a boa relação entre jogadores e torcedores em geral. Como se verá na seção 4 deste estudo, a certeza da conquista do título, dias antes da realização da última partida, fez com que políticos e comerciantes realizassem uma verdadeira ofensiva sobre o escrete brasileiro, chegando a causar problemas para a concentração dos jogadores. Paulo Perdigão (1986), como resultado do levantamento de uma série de depoimentos dos protagonistas da derrota para o Uruguai no dia 16 de julho, revela como o assédio dos políticos, candidatos às eleições para o Legislativo e o Executivo, tornou-se uma prática intensa e desesperada.
Como se previa, os partidos políticos encontraram na Copa do Mundo uma chance rara de manipulação da opinião pública: não foi coincidência o fato de Cristiano Machado e Eduardo Gomes terem dado início às suas campanhas exatamente em 25 de junho, dia da primeira partida do Mundial. Durante os jogos, folhetos de propaganda eleitoral choviam sobre a torcida, pedindo votos. (PERDIGÃO, 1986, p. 71).
Mais adiante o autor transcreve um depoimento de um jogador daquela seleção, Zizinho:
São Januário passou a ser a sede da política nacional. Aqueles que queriam um pouco de prestígio iam para lá. No dia do jogo, um dia sagrado, chegaram a nos tirar da mesa do almoço e fomos levados à sala de troféus do Vasco para ouvir discursos dos políticos da época, como Cristiano Machado,
Ademar de Barros e suas comitivas [...]. Era um tal de discursos e promessas que ninguém aguentava mais. (ZIZINHO apud PERDIGÃO, 1986, p. 72). Os exemplos de 1950 e 1970 ilustram os interesses político-partidários na intensa e vigorosa relação de empatia do povo com os jogadores que o representam nestes embates de ordem mundial. Ilustram também, ao longo do tempo, a crítica, um tanto equivocada, feita ao modo como o Brasil foi-se deixando representar e compreender-se a si mesmo dentro da profunda experiência que é torcer por um time ou por uma seleção. Faltava aos intelectuais de esquerda do início das décadas de 50 e 70, e talvez falte ainda, um olhar menos rancoroso ou contaminado por influências outras que não os elementos inerentes à própria prática do futebol, evento que, de atividade importada no final do século anterior, passara a configurar-se como uma atividade praticada de modo genuinamente brasileiro e popular, tanto do ponto de vista dos jogadores, quanto do ponto de vista dos torcedores. Tivessem os detratores do futebol, que alegavam advogar pela causa do povo, recorrido ao próprio povo para compreender a grandeza do futebol, talvez conseguissem fazer uso da vitória de 1970 em favor da democracia, como o fizeram os generais em favor da ditadura. Mas os intelectuais estavam pouco ou nada interessados em consultar o povo e suas práticas cotidianas, posto que se dedicavam aos tratados filosóficos e sociológicos tão importados quanto o próprio futebol; tratados estes que, no entanto, ao contrário do futebol, em nenhum momento passaram pelo processo de antropofagia e reconstrução aos moldes locais. Estavam, os intelectuais, dedicados a compreender e defender, sempre de longe, o povo brasileiro, que desperdiçava sua nobre existência com atividades rudes e pouco elevadas, caracterizadas, sobretudo, pela desmedida comoção coletiva, que resultava na perda da individualidade, esse patrimônio tão caro à modernidade.
Retomando a tese do drama da justiça social, em oposição à ideia de ópio do povo, é pertinente introduzir o debate proposto por DaMatta com uma provocação sua, que esclarece de alguma forma a abordagem da elite brasileira em relação ao futebol no Brasil, bem como em relação a outras práticas tipicamente populares. Para o antropólogo,
[...] se você entrevistar dez membros da elite brasileira, pedindo a cada um a lista do que gosta e do que odeia, certamente o futebol, o carnaval, o jogo do bicho e a cachaça surgirão na lista das coisas detestáveis, do lado massificador e alienante da vida em geral e do Brasil em particular. (DAMATTA, 1982, p. 54).
E segue concluindo por que a leitura que se tem feito do Brasil até ali não se tem esmerado em incluir em suas análises as citadas práticas:
Como as pessoas que escrevem são justamente os filhos, enteados, maridos, afilhados, amigos e sócios dessa elite, naturalmente só falam dos temas nobres, a chamada “vida nacional”. Como, por outro lado, ninguém da elite vai ver futebol, carnaval ou jogar no bicho, deixa-se de lado tudo o que é classificado como “do povo” porque aqui teríamos a revelação da alienação que uma sociologia generosa e bem intencionada deveria tratar de erradicar. (DAMATTA, 1982, p. 54).
A introdução da teoria do drama social de DaMatta estrutura-se sobre um modelo de Brasil que, segundo ele, não apresenta condições de enquadrar-se no modelo frequentemente usado, proveniente de tradições europeias ou norte-americanas. A compreensão do percurso histórico sob o ponto de vista linear, na qual os acontecimentos organizar-se-iam um depois do outro, não se adequa ao modo pelo qual a sociedade brasileira tem desenvolvido seu modelo sui generis. Para o antropólogo, a simultaneidade representa melhor nosso modo de vida do que as rupturas e suas consequentes mudanças, próprias dos modelos lineares de compreensão dos fatos históricos. O exemplo usado por ele para ilustrar sua leitura do povo brasileiro é o fato de que, no Brasil, pode-se facilmente encontrar um conglomerado de características que em outras culturas impediriam umas às outras. “Assim, é mais fácil ser católico umbandista, milionário e socialista, aristocrata e populista, ao mesmo tempo, do que ser só uma dessas coisas num dado momento da existência” (DAMATTA, 1982, p. 55).
Dessa definição do modelo brasileiro de sociedade, DaMatta avança para o estabelecimento do conceito de drama no contexto social. A primeira consideração é não separar esporte de sociedade, fazendo referências entre as duas dimensões, mas sim compreender o futebol enquanto lugar de dramatização das questões pertinentes à experiência na própria sociedade. Segundo essa ideia, não são apenas metaforizadas ou mesmo ilustradas as relações sociais no futebol; mais que isso, ao serem dramatizadas – e não apenas imitadas –, as experiências no futebol brasileiro são, antes, experiências genuinamente sociais e, ao vivenciá-las naquele contexto, os envolvidos estão diretamente vivenciando experiências próprias da e na sociedade da qual fazem parte. Apesar de, em sua origem, o conceito de drama no âmbito antropológico ter relação com o conceito de drama no universo do teatro, os termos não se utilizam como sinônimos. Ainda assim é importante ressaltar que, dentro da presente tese, o futebol é considerado do ponto de vista do drama enquanto arte, e
não, como em DaMatta, enquanto dramatização social. Mesmo compreendendo-se a forma pela qual o antropólogo utiliza o termo e a esclarecendo a seguir, é importante que se registre, tantas vezes quantas forem necessárias, que a abordagem da Copa do Mundo de 1950 na tese que ora se estrutura diz respeito diretamente à arte dramática, mais especificamente em sua acepção trágica, expressa a partir da cena, mas passível de ser descrita sob os signos da dramaturgia da leitura, conceito estabelecido por mim no livro Futebol x Teatro: rito, cena e dramaturgia do espetáculo futebolístico (AMORIM, 2014).
Se DaMatta utiliza-se do termo drama dentro de um contexto antropológico, aqui o termo seria usado, num pleonasmo necessário, enquanto “drama dramatúrgico”. Martim Esslin, em Uma Anatomia do Drama (1978), já se dedica a problematizar sobre o conceito de drama, identificando uma pluralidade impressionante de acepções quando se tenta definir um termo tão abrangente. Grosso modo, Esslin nos aponta que, do ponto de vista etimológico, drama vem do grego “drontas”, que significa “ação”, daí que o conceito de drama, como se poderia supor, não está estritamente ligado a uma forma literária. Mesmo quando ligada a essa forma, por suas próprias características, a linguagem está a serviço de uma ação, tornando-se, ela mesma, ação, através, sobretudo, do recurso de diálogos e rubricas. Mas pensar no drama apenas como ação mimética ainda representa o risco de restringir-se a compreensão do termo dentro do universo da literatura dramática ou do teatro, o que impediria a construção do termo de DaMatta sob a perspectiva antropológica.
Ao comparar a relação de outras culturas com o futebol e a relação do Brasil com esse esporte, a primeira consideração feita por DaMatta diz respeito à diferença entre esporte e jogo. Para ele, se nos outros países o futebol é entendido como mais um esporte, sobretudo em países como a Inglaterra e os Estados Unidos, estes colonizados por aquela, nos países de influência latina, sobretudo os da América Latina, parece desenvolver-se uma relação com esse esporte similar ao caso brasileiro. No Brasil, o costume é tratar o futebol mais como jogo do que como esporte. E qual seria exatamente a diferença entre as duas práticas? O livro Futebol x Teatro: rito, cena e dramaturgia do espetáculo futebolístico (AMORIM, 2014), mais especificamente o capítulo I, item 2, que trata da “esportilização” (sic) dos rituais e da modernização do uso da bola, aborda essa diferença sob a ótica histórico-cultural, a partir da compreensão de Gerd Bornheim sobre a passagem da sociedade do jogo para a sociedade do esporte:
[...] O esporte passa a ser o lugar onde os sentimentos e os excessos são permitidos, porque são liberados dentro de normas e procedimentos. Em regras que viabilizam a existência do próprio jogo, defende-se a si mesmo de
distúrbios e choques descontrolados, passando a ser regido por regras internas. [...] Sobre a modernização dos jogos ou a criação dos esportes, é importante levar em consideração que a grande maioria dos jogos modernos é compilada pela burguesia e praticada pela juventude inglesa. Quase todos representam releituras de práticas populares pré-modernas que, curiosamente, obedeciam e serviam a interesses completamente opostos aos de agora. (AMORIM, 2014, p. 23).
Outra distinção entre o jogo e o esporte está na presença da sorte e do azar e, mais do que isso, na relevância dessa presença dentro do jogo, em contraposição à hegemonia da técnica e do desempenho vinculados à prática esportiva. Se, dentro da noção de esporte, busca-se anular tanto quanto possível a ação do destino ou de forças externas à sua própria execução técnica, na noção de jogo o destino aparece como personagem consideravelmente relevante. Está na base dessa compreensão do jogo, como sinaliza DaMatta, a existência, no Brasil e em outras culturas, de loterias vinculadas ao resultado de jogos, donde se compreende que, além da técnica e do desempenho dos jogadores (mais do que atletas), também um toque de sorte (ou azar) participará do resultado.
Ainda dentro da compreensão do futebol enquanto drama social, nota-se a constante relação entre a experiência coletiva e a individual, que, como foi observado acima, segundo DaMatta é absolutamente possível numa sociedade não-linear como a nossa. Desse modo, ao mesmo tempo em que, pelo futebol, o brasileiro relaciona-se coletivamente com um grupo de pouco mais de uma dezena de jogadores, com milhares de parceiros de torcida de um time ou com milhões de torcedores pela seleção nacional, ele também se individualiza no desempenho de um determinado jogador que descreve a curva de sua carreira baseada, sobretudo, no desempenho e talento próprios, diferentemente de outras tradições futebolísticas onde o desempenho do time sobrepõe-se ao talento de um determinado jogador. Dentro desta relação entre a performance individual do jogador e o desempenho coletivo do grupo, é salutar também compreender o espaço da improvisação como um elemento presente dentro do modo brasileiro de jogar futebol. Num modelo fechado e preestabelecido que é próprio de alguns clubes e seleções europeias, a improvisação de um jogador parece improvável ou mesmo inviável. Já no modelo típico das culturas latino-americanas, a improvisação revela-se como um elemento previsto em algum momento do jogo. Tanto que em muitos jogos da seleção brasileira, nos quais o resultado não se mostra favorável ao nosso escrete, lamentamos, julgando tenha faltado brilhar a estrela de um craque que fizesse a diferença.
Para ilustrar a teoria do drama social, DaMatta (1982) apresenta duas dramatizações possíveis de serem compreendidas a partir de suas considerações levantadas até
aqui, tratando das implicações sociais e políticas das dramatizações do futebol. A primeira delas, ele a nomeia como Destino e Biografia, e a segunda como Regras universais e desejo de grupos e indivíduos. No desenvolvimento da primeira ideia, DaMatta utiliza-se de um conceito muito caro a esta tese, que frequentemente se materializa no corpo de sua construção teórica, por conta da presença contínua da noção de trágico na abordagem do objeto de estudo – que se relembre, a participação do Brasil na Copa do Mundo de 1950. Trata-se da ideia de destino, a Moira6 da tradição mitológica grega, como se verá no capítulo seguinte, dedicado especificamente à tragédia.
DaMatta, em sua abordagem antropológica, define o destino, enquanto categoria social, como sendo uma tentativa que algumas sociedades fazem “de estabelecer uma mediação entre o conjunto de forças impessoais, que move o mundo, e as pessoas, com suas biografias, desejos e necessidades, que vivem neste mundo.” (1982, p. 56). No futebol, existem as regras próprias e específicas desse universo e existem as vontades pessoais que seriam o desejo de vitória dos times e dos jogadores. O destino seria, dessa forma, o encontro entre essas duas forças. A dramatização dá-se aí. No futebol, como na vida real, existem regras universais, as regras do jogo, quer seja aquele (o futebol) ou esta (a vida). Os homens organizam-se em agrupamentos, sejam times ou famílias. Dentro dessa organização, intentam sair vencedores, jogando com certo estilo próprio. Dentro de um jogo e do outro, podem, de