2 FUTEBOL, BRASILIDADE E TELEJORNALISMO ESPORTIVO
2.1 O futebol e os desdobramentos político-econômicos do Brasil
2.1.2 Futebol, globalização e interculturalidade
DaMatta (1982) argumenta que, embora o futebol seja uma atividade moderna, um espetáculo pago, produzido pela indústria cultural, ele, em contrapartida, também orquestra componentes civis básicos, identidades sociais, valores culturais e gostos individuais. No fundo, o futebol prova que é possível reunir valores culturais locais com uma lógica moderna e particularista. Não há dúvida de que o futebol revela muitas características brasileiras, como a tendência à carnavalização, com a troca de papéis e da hierarquia (em que, predominantemente, negros e mestiços são heróis). Contribui também para a ideia de coletividade exclusiva: de um lado, tem-se um sentido coletivo (o time) e, de outro, indivíduos com normas universais (as regras do futebol).
Contudo, o futebol não é só revelação, é também dramatização. O povo brasileiro se vê no futebol, coloca-se no papel de jogador e aprende nesse papel. Aprende lições de democracia, de igualdade, de respeito às regras (COSTA, 1995). No entanto, é fundamental pontuar que esse aprendizado só se torna possível quando é dada ao torcedor-cidadão a possibilidade de participar de forma democrática do esporte, não sendo excluído dos estádios em decorrência dos preços abusivos dos ingressos, que fazem do futebol, principalmente nas competições de caráter internacional, um privilégio da elite.
O estímulo à consolidação de laços afetivos acabou tornando o futebol um dos principais veículos da manifestação popular do afeto e da paixão. O povo brasileiro
também mostrou que foi capaz de incorporar, a um esporte importado, características de seu perfil cultural, dando-lhe dinamismo, em uma demonstração de sua capacidade de assimilação e transformação cultural. A globalização no futebol não diz respeito apenas à padronização de técnicas e táticas. Refere-se também a seleções cada vez mais estrangeiras em seu próprio país, composto por jogadores que atuam em outras partes do mundo, tornando tênues as identificações nacionais. Com seleções globalizadas, o jeito de jogar se diversifica, abre-se para novas possibilidades e raciocínios. A própria regulação do esporte em megaeventos mundiais é feita através da FIFA com base em seu estatuto. Ela se coloca acima de legislações nacionais, determinando, durante a Copa do Mundo, as leis que serão seguidas pelo país-sede. Como exemplo, é possível citar a imposição da venda de bebidas alcóolicas nos estádios brasileiros em 2014, proibida nas principais cidades do país desde 2008 com a implantação do Estatuto do Torcedor, uma legislação federal que surgiu justamente para evitar a violência dentro dos estádios. Tal exigência se deu em decorrência do patrocínio da marca de cervejas Budweiser, que tinha interesse na venda de suas bebidas durante a realização dos jogos no Mundial.
Boaventura Souza Santos (2009) acredita que o termo globalização se refere à globalização bem-sucedida de determinado localismo. Dessa forma, os países centrais especializam-se em localismos globalizados, enquanto aos países periféricos cabe escolher entre os globalismos localizados. No futebol, o Brasil sofreu a influência, nos primórdios, do estilo europeu no esporte, mais técnico e coletivo. No entanto, o jeito brasileiro de jogar futebol mostra que existe um espaço de resistência à globalização a partir de uma apropriação local e contra-hegemônica: os talentos individuais, os dribles, o gingado – estilo que diferencia e singulariza o esporte praticado em solo brasileiro.
Um exemplo do caráter individualista do futebol brasileiro é o protagonismo dado aos craques em Copas do Mundo, como Neymar, Taffarel, Ronaldinho Gaúcho, Zico, Pelé, Rivellino, figuras consideradas determinantes para as conquistas brasileiras com seus lances singulares. Por outro lado, temos também os vilões no futebol, culpados pelas derrotas da Seleção Brasileira. Um exemplo recente foi a construção da imagem do jogador Fred e do técnico Luís Felipe Scolari como principais responsáveis pela derrota do Brasil na semifinal da Copa do Mundo de 2014 por 7 a 1 para a Seleção Alemã. É como se apenas Fred estivesse jogando em campo do lado brasileiro e como se uma substituição do técnico pudesse fazer um milagre para mudar o resultado.
Afinal, era preciso dar respostas à torcida pela humilhação sofrida, o que levou à constituição de uma estratégia que nomeasse quem eram os vilões da pátria.
Além de evidenciar a influência da globalização no estilo e na formação das equipes, também é possível compreender o futebol como um terreno para o diálogo intercultural. Existe no Brasil uma constelação de times locais/nacionais, mutuamente inteligíveis, graças ao respeito às regras universais que regem o esporte. Esses times, apesar de seguirem as mesmas normas, mantêm suas particularidades relativas à região de atuação, à cultura local, a tradições populares. O quadro do futebol no país é composto, assim, por uma diversidade de times que se complementam a partir de suas diferenças e se igualam a partir seus objetivos esportivos. Para Santos (2009), o reconhecimento de incompletudes mútuas é condição imprescindível de um diálogo intercultural, pois exige um trabalho de escuta e de colaboração recíprocas. Assim, as seleções periféricas não estão subordinadas às seleções dos países desenvolvidos, possibilitando à abertura a novas técnicas, estilos, concepções de jogo. É percebendo-se através da igualdade e da diferença, a partir do reconhecimento do outro, que as culturas podem se abrir e se complementar, lutando pelo direito de serem iguais quando a diferença inferiorizar e de serem diferentes quando a igualdade descaracterizar (SANTOS, 2009, p. 18).
No caso brasileiro, existem muitos times de primeira, segunda e terceira divisão, cada qual com suas especificidades, muito relacionadas com seu local, seu povo, sua torcida, seu estado, exibindo, assim, inúmeras diferenças entre si. Essas diferenças são fundamentais para que essa diversidade de times e suas características não desapareçam e não sejam descaracterizadas. Por outro lado, também somos únicos quando pensamos na Seleção Brasileira, que supostamente busca os melhores jogadores para representar a nação. Dessa forma, a igualdade existe no sentido que respeitamos as mesmas regras durante a Copa do Mundo, o que permite que, apesar das inúmeras diferenças entre os países, todas as seleções tenham os mesmos direitos e deveres dentro de campo.
Touraine (2006) pondera que a comunicação intercultural não é apenas um esforço de compreensão mútua: é um conhecimento que procura situar o outro e a si mesmo dentro de unidades históricas e dentro de relações de poder. A comunicação intercultural é o diálogo entre indivíduos e coletividades que dispõem dos mesmos princípios e de experiências históricas diferentes para se situarem uns em relação aos outros. Ao mesmo tempo em que não pode haver comunicação sem uma língua comum, tampouco é possível sem reconhecer as diferenças existentes entre os atores reais. Nesse
sentido, o futebol torna-se a língua comum entre todos os times, os quais, entretanto, constituem suas identidades a partir do reconhecimento das diferenças existentes entre si.
Essas diferenças entre os países são ancoradas por um passado real ou imaginado que confere substância à comunidade designada com essa forma política. A nação precisa lançar mão de um seleto grupo de tradições para se justificar. Em um mundo que rompe com as referências clássicas, é preciso ressignificar tradições e gerar novas ficções orientadoras que permitam navegar pelo mundo. No caso do futebol, o passado torna-se fundamental para o entendimento sobre a brasilidade no presente, tendo em vista que são os resíduos de nossas conquistas, de nossos craques e de nosso estilo que tornam viva a identidade do Brasil como “país do futebol”, fazendo com que nos reconheçamos e sejamos reconhecidos pelos demais. Novas tradições também podem emergir na sociedade em um processo dinâmico, disputando espaço com os resíduos do passado e com os sentidos hegemônicos.
Para Morales (2013), a tradição é inventada, pois implica um grupo de práticas, normalmente governadas por regras aceitas aberta e tacitamente e de natureza simbólica ou ritual, que buscam inculcar determinados valores ou normas de comportamento por meio de sua repetição, a qual implica automaticamente continuidade com o passado. Sempre que possível, busca-se conexão com um passado histórico que seja adequado de acordo com os interesses dos grupos hegemônicos. As bandeiras, os hinos, os gritos de torcida, os discursos e as camisas são elementos simbólicos que colaboram para o fortalecimento do sentimento de pertencimento a uma dada identidade.
Os meios de comunicação, por sua vez, constituem-se como um grande difusor de um discurso uniformizador e gerador de pátrias subjetivas políticas para amplos setores da população. Há uma batalha simbólica pelo passado, monopolizada por um só discurso: o dos vencedores. Isso evidencia que a construção da identidade brasileira se dá em torno de valores dominantes, que ocultam possibilidades alternativas de identificação. Meneses (1993) coloca que a completude de uma identidade se dá justamente no encontro com a pluralidade, já que é no contraste com outras identidades, com formas contra-hegemônicas, com novos estilos de vida, que é possível reconhecer as características da brasilidade, por exemplo. São essas diferenças que enriquecem a noção de unidade, permitindo vislumbrar a possibilidade de ser único na multiplicidade.