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4. Resultados

4.4. Caracterização dos Praticantes de skate

4.4.1. Género

A problemática do género no skate é efectivamente um assunto que deve ser discutido. Contudo vou delinear uma discussão sucinta visto este tema assumir uma profundidade de relevância para a Antropologia, muito além do âmbito deste trabalho. Na verdade foi verificado, mediante a recolha de dados e a observação sistemática, que os praticantes de

skate são na sua grande maioria do sexo masculino. Nas incursões de campo tive a

oportunidade de constatar que entre os praticantes havia uma presença masculina hegemónica. Poucas foram as vezes em que foram observados praticantes do sexo feminino e aqueles que foram observados, aparentavam se apropriar de um comportamento tipicamente masculino.

Das 12 observações efectuadas para este trabalho somente em 6 destas foram observados praticantes do sexo feminino. A presença feminina neste desporto é sem dúvida quase nula. A prática deste desporto aparenta ser hegemonicamente masculina. As praticantes de skate são em grande minoria e as suas interacções com o grupo assumem características e directrizes geralmente atribuídas ao género masculino.

As condutas dentro dos grupos de praticantes eram tipicamente condutas e atitudes normalmente agregadas ao sexo masculino. Embora a Radical Skate Clube seja já o responsável pela organização de um campeonato de skate exclusivamente dedicado ao sexo feminino (Open Feminino) a tendência para o aparecimento de novos praticantes do sexo feminino é muito baixa ou quase nula pois a evolução da modalidade nos diferentes géneros parece assumir uma simetria inversa, o que se verifica numa taxa de abandono mais elevada deste desporto por parte do sexo feminino conforme a idade aumenta. A questão que se coloca é efectivamente, qual a razão para a existência de uma maior quantidade de praticantes do sexo masculino? A resposta a esta pergunta parece ter uma questão social, ou por outro lado poderá ser motivada por questões de natureza biológica e física com interligações à condição de performatividade (Souriau, 1990) do corpo. Sendo assim esta parece ser mais uma discussão do debate prevalente desde o inicio das ciências sociais nature versus nurture (Mead 2001).

As primeiras reflexões antropológicas acerca da divisão de papéis de género relacionam o fenómeno com a divisão sexual do trabalho nas primitivas sociedades agrícolas. Visto a função de reprodução recair sobre o sexo feminino, esta favoreceu a sua subordinação ao sexo masculino. O homem, associado a ideia de autoridade devido a sua força física, assumiu desta

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forma o poder dentro da sociedade, tendo este status quo persistido na sociedade capitalista baseando-se no argumento da diferença biológica como base para a desigualdade entre homens e mulheres (Engels, 1972). Desta forma pode-se pensar que a persistência neste modelo de divisão de tarefas pode-se reflectir, até certo ponto no tipo de actividades, principalmente actividades físicas como a prática de skate, por parte do género feminino. A este respeito podemos ainda afirmar que este tipo de organização estava fielmente implícita na dialéctica da reciprocidade (Strauss, 1982) tendo como consequência a subordinação do sexo feminino ao sexo masculino.

Retomando ainda a temática de nature versus nurture, o género define-se segundo a ideia de que este se refere ao sexo social das personagens sociais; a sociedade impõe ao sexo feminino e ao sexo masculino certos comportamentos e diferentes normas. Assim, se desde pequena a mulher brinca às casinhas e com bonecas, isso não se deve a um instinto materno, mas simplesmente a uma convenção social, sendo que isso não será devido a uma lei inata, mas sim, a uma construção imposta pela sociedade. Margaret Mead (2001) é sem dúvida um dos principais autores a debater este facto. Os papéis assumidos na sociedade por ambos os sexos, são meros papéis sociais, desempenhados como tradição, mas que porém, passíveis de ser trocados. Ao analisarmos as teorias sócio-biológicas que assinalam um diferente comportamento entre sexos, por causas biológicas inatas, a teoria do género vem afirmar que os diferentes comportamentos entre homens e mulheres desenvolvem-se através da assimilação social das identidades femininas e masculinas. Para além desta indicação, o grau de agressividade entre o sexo masculino e o grau de doçura variam de uma cultura a outra, tal como observado no trabalho de Margaret Mead (2001) aonde ela reforça a ideia de que as diferenças físicas de sexo são um signo e não uma causa dos diferentes papéis sociais.

Ao fazer a minha pesquisa estas questões pareceram não se descolar da minha curiosidade, pois o próprio comportamento dos praticantes do sexo feminino entrava em assimilação com a presença hegemónica. Pareceu-me que os praticantes do sexo feminino se encontravam num limbo entre os dois papéis sociais. Adoptavam comportamentos socialmente tidos como masculinos, como cuspir para o chão e dizer palavrões.

Por outro lado pode-se defender que existe neste deporto, como na maioria das modalidades desportivas uma diferença de performance entre ambos os sexos. Também no caso do skate diferenças fisico-anatómicas e fisiológicas, nomeadamente, tal como acontece no surf, diferenças ao nível da estrutura óssea da bacia e da proporção da força física dos membros inferiores, parecem ser parcialmente responsáveis pela diferente postura física

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adoptada por os dois conjuntos de praticantes. Os praticantes do sexo masculino aparentam sem dúvida ser mais ágeis na manobragem e versáteis na utilização dos diferentes obstáculos, o que resulta em melhores prestações neste desporto.

Um senso efectuado no Brasil, em 2009 pelo Instituto Datafolha (Datafolha, 2009) acedível em revelou que estatisticamente o número de praticantes do sexo masculino é muito superior ao número de praticantes do sexo feminino a nível nacional. Este censo indica haver uma percentagem esmagadora de 90% de praticantes masculinos para 10% de praticantes do sexo feminino. Esta tendência é possivelmente uma tendência que poderá ser alargada a outros países, incluindo segunda as observações efectuadas, Portugal. No trabalho de campo efectuado, foram feitas observações em 4 locais tendo sido observado um universo total de 134 praticantes dos quais 15 seriam praticantes do sexo feminino, sendo que a incidência de praticantes do sexo masculino situava-se na ordem dos 89% para 11% de incidência de praticantes do sexo feminino. Neste caso os resultados estatísticos obtidos mediante a observação encontram-se em consonância com as percentagens obtidas pelo estudo realizado no Brasil em 2009 pelo Instituto Datafolha.

Concluindo, no skate a presença feminina é uma presença diminuta, o que leva a crer que este desporto é essencialmente e hegemonicamente dominado por praticantes do sexo masculino. As razões que afastam e determinam esta baixa integração de praticantes de sexo feminino podem ser atribuídas tanto a imposições de cariz social, como a diferenças fisico- anatómica com francas implicações sobre a performatividade (Souriau, 1990) física do corpo.

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