Para Judith Butler (2003), o gênero é socialmente construído, rompendo com a tese de sexo binário, criticando a posição de Simone de Beauvoir. Assim, “gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem o resultado causal do sexo, nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo” (BUTLER, 2003, p. 24).
Quando analisamos os campi avançados, observamos que a palavra gênero nos PPCs de Astorga, Goioerê e Quedas do Iguaçu se referia apenas aos gêneros textuais, discursivos ou literários. Já Barracão previa o trabalho com gênero em dois itens distintos no PPC:
1) na Organização Curricular (item 3.10), em que
são fundamentais os princípios do desenvolvimento socioeconômico e ambiental do território, o reconhecimento dos sujeitos e sua diversidade, a acessibilidade garantida a todos que necessitam de condições diferenciadas, o reconhecimento das identidades étnico raciais e de gênero e o reconhecimento dos sujeitos e suas diversidades nas formas de produção, processos de trabalho e das culturas (IFPR BARRACÃO, 2017, p. 22).
2) na Ementa da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura III, em que há a previsão de “discussão de temas da atualidade, inclusive que abordam as questões étnico-raciais e de gênero” (IFPR BARRACÃO, 2017, p. 33).
Esse dado demonstra que, se partirmos do pressuposto de que gênero é uma construção social, surge uma série de indagações relacionadas ao modo como as questões sobre gênero estão sendo construídas pelos jovens estudantes da instituição, pois o gênero é constituído em conjunto com outras variáveis, a fim de compor a identidade dos sujeitos (BIROLI, 2016; LOURO, 1997; SEGATTO, 1998). Quais são as identidades que estão sendo constituídas? Quais são as percepções destes alunos? Será que eles enxergam a palavra gênero além da linguística? Como o gênero está invisibilizado dentro dos PPCs, esses estudantes buscam informações em outras fontes, às vezes não tão seguras ou/e baseadas no conhecimento científico, como seria na escola.
De certa forma, estes dados são preocupantes, já que gênero não está apenas relacionado à questão biológica do ser humano, embora gênero e sexo sejam facilmente confundidos (BUTLER, 2003; SCOTT, 1995). É preciso entender que o “gênero se constitui com ou sobre corpos sexuados, ou seja, não é negada a biologia, mas enfatizada, deliberadamente, a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas” (LOURO, 1997, p. 21).
Embora vinculada às vivências sociais de cada indivíduo, há diferentes maneiras para se relacionar com as questões de gênero. Louro (2007, p. 205) define que “essa diversidade, que pode, aos olhos de uns, parecer catastrófica, também pode, aos olhos de muitos, ser saudada como indicadora da vitalidade e da contemporaneidade dos campos teóricos e políticos” dos estudos sobre gênero e sexualidade.
Em contrapartida, quando analisamos os projetos sobre gênero no ensino, pesquisa e extensão, observamos que alguns campi desenvolvem ou desenvolveram
ações que coadunam com uma discussão real, sexual e biológica da questão do gênero. O quadro a seguir traz essas informações:
Quadro 1 — Projetos de Ensino, Pesquisa ou Extensão sobre gênero nos campi avançados
(continua)
Projeto Início Tipo do
Projeto Situação
A Esfinge — olhares e práticas multirreferenciais e
interdisciplinares em educação 2017 Pesquisa andamentoEm
Cálculo mais que divertido, um caminho para a
inclusão das mulheres na ciência 2017 Extensão Finalizado Campi
(conclusão) Quadro 1 — Projetos de Ensino, Pesquisa ou Extensão sobre gênero nos campi
avançados
Fonte: Copes dos campi avançados do IFPR.
Nota: As informações foram trabalhadas pelas autoras (2019-2020).
Dos projetos constantes no Quadro 1, há somente dois que abordam explicitamente alguma temática relacionada ao gênero: O clube de leitura Leia Mais Mulheres no Campus Avançado Astorga: conversando sobre a presença feminina na literatura e Cálculo mais que divertido, um caminho para a inclusão das mulheres na ciência. O
projeto Clube da Leitura Leia Mais Mulheres, inspirado no projeto Read Women 2014, de
Joanna Walsh, consiste em ler livros de mulheres, tanto brasileiras quanto estrangeiras, de modo a ampliar o repertório de leitura dos estudantes, incluindo autoras pouco conhecidas ou periféricas. O projeto Cálculo mais que divertido consiste em um curso
de pré-cálculo direcionado para as meninas, em parceria com WLF Program (uma ONG
norte-americana), com o intuito de estimular o interesse de meninas para a ciência, principalmente na área de exatas.
Diante disso, mesmo sendo um avanço a inclusão dessas discussões no currículo, ainda observamos que as questões sobre gênero se prendem na dicotomia “homem vs mulheres”. Se observarmos, alguns dos projetos apresentados se prendem em inserir discussões sobre as mulheres e sobre o feminino, desconsiderando toda a diversidade de gênero presente em nossa sociedade. Segundo Butler (2003), o gênero não pode ser discutido apenas na relação “homem vs mulher”, tendo em vista que há infinitas combinações para a identidade de gênero, já que “ninguém nasce com um gênero — o gênero é sempre adquirido” (BUTLER, 2003, p. 163).
Em complemento aos dados observados, vale ressaltar que todos os coordenadores do curso Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio são homens, ou seja, não há mulheres no posto de liderança do curso, o que dificulta que as meninas se sintam representadas, ou tenham em quem se inspirar para seguir na carreira técnica — apesar de que um dos projetos, o Clube de Leitura, é coordenado por uma mulher. Dessa forma,
“o fato é que a grande diferença que percebemos entre homens e mulheres é construída
Campi Projeto Início Tipo do
Projeto Situação
Astorga O clube de leitura Leia Mais Mulheres no Campus Avançado Astorga: conversando sobre a presença
feminina na literatura
2019 Extensão Em andamento Quedas do
socialmente, desde o nascimento, quando meninos e meninas são ensinados a agir de acordo como são identificadas, a ter um papel de gênero ‘adequado’” (JESUS, 2012, p. 8). Se privamos as meninas de terem em que se espelhar na liderança, o papel de gênero delas sempre será subalterno em relação aos meninos, o que irá contribuir para a manutenção do patriarcado, que nada mais é do que o sexismo institucionalizado, baseado no sistema de dominação, em que os homens são os maiores beneficiados (HOOKS, 2018).
Embora ouçamos muito, no senso comum, que as questões de gênero são “mimimi”, ou que as mulheres fazem muito “mimimi”, o Relatório da Unesco Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)1 apresenta dados alarmantes. O desinteresse das meninas pela ciência começa na adolescência (faixa etária dos cursos técnicos integrados do IFPR), por acreditarem que precisam de profissões de cuidado ou de que não são capazes de avançarem nas áreas de exatas, e há somente 3% matriculadas na área de TI. A partir de 2020, 98% dos postos de trabalho irão necessitar de formação em TI, ou seja, haverá 1 milhão de postos vazios na área de computação, o que torna o curso Técnico em Informática um potencial campo de formação e ascensão social, tanto para meninos quanto para meninas, se esse curso oferecer igualdade de condições.