CAPÍTULO 2. O funcionamento do Programa Mediação de Conflitos: dados sobre a
3.1. Sobre o perfil dos atendidos pelo Programa Mediação de Conflitos
3.1.1. Gênero, cor, escolaridade, renda e conflitos
Durante o período de 2005 até 2011, foram realizados mais 116.000 mil atendimentos pelo Programa Mediação de Conflitos em todo o Estado. Estes dados se referem ao número de casos novos e retornos atendidos pelo programa 95. Apresentamos na Tabela 02 as 20 principais tipificações relacionadas aos serviços do eixo atendimento individual que são oferecidos pelo Programa Mediação de Conflitos à população. Podemos perceber que são amplas as demandas e que elas têm relação com uma extensa variedade de situações/conflitos. A natureza das demandas varia quanto ao tipo de direito, caracterizando-se por questões familiares, previdenciárias, penais, trabalhistas, contratuais, moradias/regularização fundiária, entre outras.
Tabela 02 – Demandas que são trabalhadas pelo Programa Mediação de Conflitos no Eixo do Atendimento Individual
Demanda Principal
01. Abuso de Autoridade ou Poder 02. Adolescente em Conflito com a Lei 03. Conflitos de Vizinhança 04. Conflitos Intrafamiliares 05. Contratos em Espécie 06. Pensão de Alimentos/Paternidade/visitas 07. Previdência 08. Questões Associativas 09. Questões com o Poder Público 10. Questões Penais
11. Questões Psicológicas 12. Questões Psiquiátricas
95 Para o programa, atendimentos de casos novos e retornos são classificações adotadas para mensurar o número
de vezes que foram realizados atendimentos à população. Outro aspecto é que este número de 116.000 não corresponde ao número total de pessoas abrangidas em cada atendimento nem tampouco ao número de casos novos – é a soma de atendimentos realizados, os novos e os seus retornos. De acordo com os relatórios quantitativos do programa, o número de pessoas enquadradas nos casos novos abrange em média três a quatro pessoas e/ou instituições, isto é, cada caso novo equivale a três ou quatro pessoas atendidas. Ainda se analisarmos a média de atendimento/retornos de cada caso novo, verificamos que são realizados em torno de três atendimentos por cada caso novo (mediação e orientação sociojurídicas), demonstrando, portanto, que o número de pessoas já atendidas pelo programa é bastante expressivo. No entanto, os relatórios apresentam somente os dados relacionados ao perfil da primeira parte que acessa o programa – a reclamante. Portanto, quando destacarmos a caracterização e perfil da população atendida estaremos tratando da primeira parte.
13. Questões Trabalhistas
14. Registro Civil/Emissão de Documentos 15. Regularização Fundiária/Posse/Propriedade 16. Relações de Consumo
17. Separação e Divórcio 18. Sucessões
19. Tutela/Curatela/Guarda/Adoção 20. Uso de álcool e/ou outras drogas 21. Outros – Qual?___________________
Fonte: Ficha de Atendimento Individual do Programa Mediação de Conflitos. Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos da CPEC/SEDS.
A maioria dos usurários que acessam pela primeira vez o programa é do sexo feminino, 78%, contra apenas 22% do sexo masculino 96. A busca das mulheres para resolução de seus conflitos é impulsionada, em sua maioria, por questões familiares, conforme indica o Gráfico 08.
Verificamos também que existem semelhanças entre os resultados encontrados em pesquisas sobre os Juizados de Pequenas Causas (D’Araújo, 1996) e os Juizados Especiais (Junqueira, 1996) e os dados do Programa Mediação de Conflitos. Nestes três espaços, as questões intrafamiliares e de vizinhança são os principais “tipos de demanda” apresentados pela população de baixa renda. Aqui, os dados demonstram que mais de 50% dos casos do Programa Mediação de Conflitos tem relação direta com questões intrafamiliares – em sua grande maioria envolvendo homens como segunda parte (cônjuges, companheiros, ex- maridos, etc.). Sendo que 24% são casos relacionados a pensão de alimentos, paternidade e visitas aos filhos. 10% tem relação com separação e divórcio e 9% tratam de conflitos intrafamiliares 97. Em quarto lugar estão as questões previdenciárias, 9% do total. Nestes
96 Conforme já mencionamos nos capítulos anteriores, o Programa Mediação de Conflitos adota um instrumento
denominado “Ficha de atendimento” que se encontra em anexo. Neste instrumento o programa faz o registro socioeconômico somente da “primeira parte” que acessa o programa, não sendo coletados os dados da “segunda parte”. Este percentual de homens e mulheres atendidos pela primeira vez pelo programa correspondem ao período de 2007 até 2011.
97 Salientamos que segundo os dados do programa, os conflitos intrafamiliares envolvem relações que a princípio
não se tratam de violência doméstica e contra a mulher, nem tampouco questões relacionadas à pensão de alimentos e separação e/ou divórcio. Contudo, as questões familiares são mais abrangentes, envolvendo vários aspectos que permeiam o ambiente familiar.
casos, a segunda parte se diferencia daquelas envolvidas nas outras três principais demandas citadas, tratando-se sempre de uma instituição pública – o Instituto Nacional do Seguro Social/INSS. Existe também um percentual de 8% identificado como “outros” 98. Em sexto
lugar, encontra-se a demanda por questões penais, em torno de 5% do total. Já em sétimo, estão as demandas relacionadas aos conflitos de vizinhança, somando 4%. Alcançando um percentual de 4%, a demanda por regularização fundiária está em oitavo lugar e, por fim, em nono, com quase 4%, vem a demanda por tratamento relacionado a questões psicológicas99.
Gráfico 08 – Sobre a demanda principal da população atendida pelo Eixo Atendimento Individual Programa Mediação de Conflitos - Período de 2007, 2008, 2009 e 2011.
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS. *Ressaltamos que os dados referentes à classificação/demanda inicial relativo ao ano de 2010 não foi encontrado nos relatórios gerais anuais do programa. Contudo, percebemos existir um comportamento semelhante dos dados entre os anos analisados, o que possibilita a análise.
98 Categoria que agrupa demandas que não se enquadram nas classificações prévias demonstradas pela Tabela 2. 99 As demais classificações não alcançaram, cada uma, 3%, tratando-se de demandas menos solicitadas que
optamos por não apresentar/descrever nessa seção.
0 5 10 15 20 25 30
Pensão de Alimentos/ Paternidade/Visitas Separação/Divórcio Conflitos Intrafamiliares Previdência Outros Questões Penais Conflitos de Vizinhança Regularização Fundiária/Posse/Propriedade Questões Psicológicas 2011 2009 2008 2007
Um aspecto importante que devemos ressaltar quanto à tipificação da classificação dos casos, em especial por serem em sua grande maioria relacionados a questões de família e terem como primeira reclamante as mulheres, é o número de recorrência de situações que envolvem violência contra a mulher. Embora a Tabela 2 não apresente atualmente a classificação “violência contra a mulher”, encontramos registros destes fatos (violências) como “demanda inicial” nos relatórios anteriores ao ano de 2010, mas surpreendentemente são baixos (Ferrari et. al., 2010). Porém, a retirada da tipificação de violência contra a mulher deve-se a algumas reformulações da prática do programa, uma vez que, inicialmente, as mulheres, na maioria dos casos, recorrem ao programa apresentando outras demandas como a principal questão a ser tratada e, no decorrer dos atendimentos, os mediadores identificam, a partir de suas falas, as formas violentas de relacionamento da segunda parte. Então, o que certamente poderia estar acontecendo é que o registro deste tipo de violência poderia estar sendo subnotificado pelo programa, exigindo reformulações na sua forma de coletar essa informação.
Atualmente, portanto, depois destas reformulações, os dados sobre casos de violência contra a mulher são registrados 100, mas não são mais classificados no primeiro atendimento, mas durante a realização destes atendimentos, como “relatos de violência” – aumentando exponencialmente sua incidência. O registro dos dados sobre os “relatos de violência” indica que mais de 58% dos atendidos em 2011, por exemplo, apresentam a violência de gênero como principal relato, conforme demonstração no Gráfico 9. Esta configuração, conforme Nunes et. al. (2009), se deu em conformidade com a Lei Maria da Penha. Esta Lei de nº11. 340 de 07 agosto de 2006, cuja função é coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, provocou mudanças nas normas e nas leis que têm como premissa garantir os direitos das mulheres que estão vivendo em situação de violência de gênero, além de limitar algumas
100 Ver anexo da Ficha de Atendimento.
formas de tratamento do fenômeno, em especial as práticas de conciliação de casais – como eram realizadas pelos Juizados Especiais Criminais (Lei de nº 9.099). Na experiência do Programa Mediação de Conflitos detectamos que, ao ser identificada a violência de gênero, os profissionais a destinam ao tratamento penal, não podendo ser utilizado o método de mediação. De acordo com Nunes et. al. (2009),
Em todos os casos recebidos, quando há qualquer tipo de violência – seja explícita (demanda principal) ou apareça ao longo do relato do caso – esta não é mediada. Porém, a intervenção acontece, considerando que nestes casos a função do técnico social prevalece sobre a do mediador, cabendo às equipes procederem a uma orientação qualificada, isto é, atuando no sentido de “desnaturalizar” a violência, refletindo com o atendido acerca de direitos, leis, e serviços relacionados ao tema e realizando os encaminhamentos necessários aos órgãos competentes. (NUNES et. al., 2009: 76-77).
Gráfico 9 – Maior Ocorrência de Relatos de Violência apresentado pelos usuários do Programa Mediação de Conflitos em 2011
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
58% 2% 8% 1% 7% 17% 3% 4% Violência de gênero Violência contra o idoso Violência contra criança Violência policial Violência em geral (não conhece a vítima) Uso de álcool e ou outras drogas
O aumento da busca da população pela orientação sociojurídica expressa nos dados acima reflete as especificidades encontrados na execução do programa. Isso torna necessário compreender, por exemplo, em quais casos é utilizado o procedimento de mediação de conflitos ou de orientação sociojurídica. Fato que estaria relacionado: ao perfil da primeira parte – maioria mulheres; ao tipo de conflito/demanda – demandas intrafamiliares e que envolvem situações de violência contra a mulher; e por fim, aos limites da atuação do programa/equipe de profissionais. Outro dado que merece menção é a faixa etária da população que acessa o programa, conforme Gráfico 10.
Gráfico 10 – Sobre a faixa etária dos atendidos Programa Mediação de Conflitos – Período de 2007 a 2011
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
Percebe-se que a maioria do público, em torno de 70%, são de jovens e adultos com idade entre 20 e 49 anos e que, deste percentual 36% possuem idade entre 20 e 34 anos. Quase 34% possuem idade entre 35 e 49 anos. Já a população que acessa o programa que tem idade entre 50 e 64 anos corresponde a um percentual de 19%. Aqueles que representam a
0 5 10 15 20 25 30 35 40 2007 2008 2009 2010 2011
Até 19 anos De 20 até 34 anos De 35 até 49 anos De 50 até 64 anos Acima de 65 anos
idade acima de 65 anos alcançam 5%, e por fim, o contingente que representa o público com idade até 19 anos, corresponde também a 5%.
Já os dados de escolaridade, conforme demonstra o Gráfico 11 abaixo, apresentam um elevado percentual do que pode ser considerado “baixa escolaridade” entre os usuários que acessaram o programa.
Gráfico 11 – Sobre a escolaridade dos atendidos Programa Mediação de Conflitos - Período de 2007 a 2011
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
A grande maioria dos atendidos pelo programa tem ensino fundamental incompleto, alcançando uma média em torno de 60%. Os que declaram ter concluído o ensino médio equivalem a 13%. Os que possuem ensino fundamental completo chegam a 11% e os que alcançam o ensino médio incompleto representam 10%. Os dados que apresentam o percentual relativo ao ensino superior incompleto ou completo são irrisórios, não chegam a 1% do total. Os dados informam que nenhuma pessoa atendida pelo programa acessou os níveis de pós-graduação – especialização, mestrado ou doutorado. As pessoas que não declararam esta informação correspondem a 9% do total.
0 10 20 30 40 50 60 70 2007 2008 2009 2010 2011
Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Médio Completo
A grande maioria se autodeclara parda ou preta, sendo que a maioria, 45%, informa ser parda, alcançando o primeiro lugar do total. Em segundo lugar, vêm aqueles que se autodeclaram pretos, o que corresponde a 24% 101. Aqueles que se autodeclaram brancos, correspondem 17%. Os que disserem ser amarelos chegam a 4% e os que autodeclaram indígena alcança uma média de 1%. Por fim, alguns atendidos não informaram como se autodeclaram, alcançando cerca de 9% do total, ver Gráfico 12.
Gráfico 12 – Sobre a autodeclaração da cor dos atendidos pelo Programa Mediação de Conflitos
Período de 2007 a 2011
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
Quando abordamos o perfil socioeconômico da população que acessa o programa, a maioria, quase que “esmagoradora”, conforme Gráfico 13, possui renda familiar que vai de menos de um salário mínimo até dois salários, representando 73% da população. Sendo que, 37% tem renda de até um salário mínimo e 36% possuem renda que vai de um salário até dois
101 Ressaltamos que constam alguns escritos nas Fichas de Atendimento do Centro de Prevenção à Criminalidade
da Pedreira Prado Lopes – que foram lidos durante a realização da pesquisa de campo – em que vários adjetivos que expressam outras características distintas a da classificação oficial do IBGE são mencionados pelos usuários; muitos se autodeclaram “marrom”, “bombom”, “cor de chocolate”, “negão”, “escurinho”, entre outros. Ratifica- se, contudo, que a classificação adotada pelo programa é a do IBGE.
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 2007 2008 2009 2010 2011
salários. Aqueles que possuem renda entre dois e três salários mínimos equivalem a 12%. Os que possuem renda de três a cinco salários chegam à média de 4%, os que têm renda de cinco a sete salários alcançam 1%, e os que apresentam renda acima de sete salários não chegam a 1% do total. Entre aquelas pessoas que não informaram sua renda, tem-se o equivalente a 6%.
Gráfico 13 – Sobre a renda familiar mensal dos atendidos pelo Programa Mediação de Conflitos
Período de 2008 a 2011
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
Deste conjunto de informações podemos concluir que a maioria da população que acessa o programa pela primeira vez, é constituída por mulheres, com baixa escolaridade, com idade jovem e adulta e possuem renda próxima ao salário mínimo. Podemos ainda mencionar que, em torno de 50% do casos, a busca pelo programa é impulsionada pela necessidade de tratar de demandas e questões familiares. Outro aspecto são os relatos de violência, em que quase 60% das situações estão relacionadas à violência de gênero. Lembrando que a maioria da população afirma ter ido ao programa por indicação de outra pessoa atendida “o boca-a- boca”, sendo elevada a proporção daquelas que ao longo dos anos retornam ao programa para
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 2008 2009 2010 2011
Nenhuma Até 1 salário De 1 até 2 salários De 2 até 3 salários De 3 até 5 salários De 5 até 7 salários Acima de 7 salários Não informou
serem atendidas novamente. Outro aspecto, já mencionado, é que cerca de 60% da população que acessa o programa pela primeira vez, diz ter sido a primeira instituição recorrida para tratamento da questão/assunto.
Por fim, estes dados demonstram um perfil muito particular de atendimento realizado pelo Programa Mediação de Conflitos. Em que pese a influência dos estudos sobre o acesso à Justiça no país utilizados nesta pesquisa como base para reflexão, encontramos algumas diferenças em relação às orientações dos mesmos: a principal delas está relacionada à busca por direitos reivindicados pelas mulheres. Os dados demonstram que o programa tem garantido o acesso destas mulheres ao tratamento de situações vividas no domínio do espaço privado, demonstrando a necessidade de judicialização desta esfera. Destacamos duas principais situações que envolvem esse segmento da população em busca de direitos: (i) o caso da pensão de alimentos – relacionando o cuidado com os filhos, a busca pela paternidade e a regulação de visitas; e (ii) o caso da violência contra a mulher – prevalecendo à assimetria hierárquica existente nas relações entre homens e mulheres. Ambas as situações apresentam aspectos e características que, somadas aos elementos já destacados ao longo de todo o texto – sobre os dilemas relacionados aos caminhos da cidadania no caso brasileiro – compõem o conjunto de desafios relacionados especialmente as estruturas de desigualdades de gênero na consolidação da democracia e na universalização de direitos no país.
A seguir apresentamos o contexto do campo de pesquisa, as características da região escolhida para a realização das entrevistas com as pessoas atendidas pelo programa e as principais perspectivas e percepções encontradas junto aos entrevistados, levando-nos a uma maior compreensão do tema em questão.