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festa do Boi.‖ Compostas por versos, letras e melodias as toadas dialogam, no sentido bakhtiniano da palavra, com: toadas a elas anteriores, discursos, alegorias, indumentárias, coreografias, itens, lugares e sujeitos. No período do Festival, no Porto de Parintins, poderosas caixas de som, tocando esse gênero do discurso, recepcionam aqueles que ali chegam em embarcações. Cavalcanti (2000) destaca que seu ritmo enche a cidade inteira:

―nada de silêncio, nem do barulho manso das águas do rio: tudo fica imerso num ambiente musical tão onipresente quanto confuso, pois todos os pequenos bares (...) e casas de família tocam incessantemente suas toadas preferidas.‖ (CAVALCANTI, 2000, p.1045).

A definição de gênero do discurso apresentada por Bakhtin está atrelada à noção de enunciado, também descrita pelo autor, e sobre a qual foi falada acima. O gênero, para Bakhtin (2011, p.293), ―não é uma forma típica da língua, mas uma forma típica do enunciado‖. Nesse sentido, os gêneros do discurso, de acordo com o mestre russo, são definidos como enunciados relativamente estáveis interpelados por conteúdo temático, composição e estilo, sendo que, os três últimos são determinados pela esfera da atividade humana e pelo campo comunicacional em que se inserem. O conteúdo temático ou o tema diz respeito aos sentidos produzidos por esse gênero. Enquanto, a composição se relaciona à estrutura textual, à forma textual do gênero. Ao passo que, o estilo, que diz respeito às escolhas lexicais, fraseológicas e gramaticais da língua, se dilui entre o estilo individual do falante e o estilo de linguagem, a depender da rigidez ou fluidez do gênero, assim sendo, gêneros mais maleáveis recebem melhor o estilo do falante do que gêneros mais duros.

O gênero do discurso toada, aqui enfocado, por exemplo, tem como o tema o folclore, o amor e devoção pelo boi de pano e a multiculturalidade do sujeito amazônida. Enquanto isso, por se tratar de um gênero do campo musical-artístico, as toadas são terreno fértil para a criação e para a saliência do estilo individual do falante. A composição, por sua vez, segue a estrutura típica da música popular brasileira, ou seja, versos que compõem estrofes intercaladas por um refrão.

Esmiuçando os elementos que compõem o gênero do discurso, em consonância com Volóchinov (2017), o tema é o sentido do enunciado como um todo. O autor acrescenta, ainda, que ―o tema deve ser único, caso contrário não temos nenhum fundamento para falar sobre enunciado. Em sua essência, o tema deste é individual e irrepetível como o próprio enunciado. Ele expressa a situação histórica concreta que gerou o enunciado.‖

(VOLÓCHINOV, 2017, p.228) O tema de um enunciado, portanto, mantém relações estreitas com os aspectos verbais e extraverbais da interação, como, por exemplo, com o momento histórico em que é pronunciado. Nesse sentido, no caso dos enunciados das toadas dos Bumbás, os aspectos verbais ligam-se ao momento sócio-histórico e aos valores culturais da região.

Dentro do tema bakhtiniano, por sua vez, existe a significação. A significação está relacionada às combinações morfológicas e sintáticas entre os elementos linguísticos e é entendida como aqueles aspectos que se repetem em todas as ocorrências, ou seja, em todas as situações históricas. Volóchinov (2017, p. 229), no entanto, em relação a esses dois aspectos, faz uma ressalva ao afirmar que é ―impossível traçar um limite absoluto e mecânico entre tema e significação. Não há tema sem significação, como não há significação sem tema.‖ É possível afirmar, portanto, que o tema das toadas está atrelado a um conjunto de valores discursivos interpelados por valores específicos da região, mas também sentidos humanos gerais e internacionalmente abrangentes.

No tocante ao estilo, Bakhtin (2011) aponta que o enunciado por ser uma expressão sígnica de natureza individual é terreno fértil para a saliência do estilo individual do falante.

No entanto, o autor destaca que os gêneros do discurso possuem modos diferentes de se relacionar com o estilo individual e coletivo. Nesse sentido, os gêneros mais flexíveis, mais fluídos, como por exemplo, os gêneros das toadas, são mais abertos ao reflexo da individualidade do enunciado. Ao passo que, os gêneros mais padronizados, mais rígidos, tais como os documentos oficiais, são menos propícios a essa individualidade. Ainda na seara do estilo, Bakhtin (2011) afirma que o estilo de linguagem dos gêneros acompanha as mudanças históricas que se debruçam sobre a língua. Nesse sentido:

Os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros do discursivos são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. Nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos. (BAKHTIN, 2011, p.268).

Ainda sobre os gêneros padronizados e os gêneros mais flexíveis, Bakhtin (2011, p.284) assinala que os primeiros ―requerem ainda um certo tom, isto é, incluem em sua

52 estrutura uma determinada entonação expressiva.‖ Dessa forma, a individualidade do falante, nesses casos, se restringe à aplicação de um tom mais seco ou respeitoso, mais frio ou mais caloroso, agressivo ou emotivo etc. Tais gêneros, no entanto, podem ser atravessados pelo processo da reacentuação, ―assim, por exemplo, pode-se transferir a forma de gênero da saudação do campo oficial para o campo da comunicação familiar, isto é, empregá-la com uma reacentuação irônico-paródica; com fins análogos pode-se misturar deliberadamente os gêneros das diferentes esferas.‖ (BAKHTIN, 2011, p.284) Nesse sentido, os gêneros mais livres, como por exemplo, os gêneros da esfera artística ou do espetáculo dos Bumbás são, expansivamente, atravessados pela reacentuação, no entanto, ―o uso criativamente livre não é uma nova criação de gênero – é preciso dominar bem os gêneros para empregá-los livremente.‖ (BAKHTIN, 2011, p.284)

A composição, para Bakhtin (2011, p.282), diz respeito às ―formas relativamente estáveis e típicas da construção do todo.‖ É sobre essas formas que são aplicados o tema e o estilo. Desse modo, os falantes encontram os gêneros na dispersão e escolhem tais formas, de acordo com a vontade discursiva, ou seja, de acordo com seus objetivos e com a situação concreta de comunicação e com a esfera da atividade humana em que se encontram. A heterogeneidade dos gêneros, portanto, ―é determinada pelo fato de que eles são diferentes em função da situação, da posição social e das relações pessoais de reciprocidade entre os participantes da comunicação: há formas elevadas, rigorosamente oficiais e respeitosas desses gêneros, paralelamente a formas familiares‖. (BAKHTIN, 2011, p.285) Alves e Faria (2013), sobre a maleabilidade da forma composicional, destacam que cada autor pode subverter a composição do gênero de acordo com os efeitos de sentido desejados, no entanto, essa subversão não pode desconfigurar o gênero a ponto que os interlocutores não o reconheçam.

Assim, os autores das toadas têm em seu horizonte que esse gênero, por ser se constituir como um gênero poético-musical, é impossível de ser composto sem versos, rimas e refrão bem como ritmo e melodia característicos.

A interação entre os agentes, enunciador e interlocutor, do discurso, portanto, é uma força que sobre os gêneros do discurso atua. Dessa forma, o endereçamento, ou seja, o direcionamento do enunciado a um destinatário, influi ―na escolha do gênero do enunciado e a escolha dos procedimentos composicionais e, por último, dos meios linguísticos, isto é, o estilo do enunciado.‖ (BAKHTIN, 2011, p.302) Exemplificando essa relação, Bakhtin (2011, p. 302) destaca que ―os gêneros da literatura popular científica são endereçados a um determinado círculo de leitores dotados de um determinado fundo aperceptível de

compreensão ativa; a outro leitor está endereçada uma literatura didática especial e a outro, inteiramente diferente, trabalhos especiais de pesquisa.‖ As toadas do Caprichoso e do Garantido, por sua vez, estão inseridas no contexto do Festival Folclórico de Parintins, um espetáculo de teor fortemente turístico, direcionado ao Brasil e ao mundo. Essas músicas buscam, nesse sentido, construir imagens do sujeito amazônida, do folclore e da floresta para os povos dali e os de fora. Seus enunciados, portanto, são repletos de palavras, termos, expressões, ritmos e enredos regionais/ indígenas, caboclos, europeus e africanos que os representam, os identificam, pois é essa Amazônia que desperta olhares e curiosidades e que, consequentemente, faz o capital por ali circular.

Cabe ressaltar, que as três características do gênero do discurso acima apontadas (tema, estilo e composição), no entanto, mantêm entre si relações dialógicas, uma vez que, de acordo com Bakhtin (2011, p. 262) ―estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação.‖

Seguindo esse mesmo fluxo, os gêneros, também, se relacionam com outros gêneros e, assim, a partir dessas relações, é que se constituem e vão se constituindo. Bakhtin (2011), nesse sentido, propõe, a fim de minimizar a heterogeneidade dos gêneros do discurso, a diferenciação entre gêneros primários (simples) e gêneros secundários (complexos). De acordo com o autor, os gêneros secundários (complexos) incorporam e reelaboram os gêneros primários. São exemplos de gêneros secundários: romances, dramas, pesquisas científicas e também as toadas. Os gêneros primários, por sua vez, ao serem inseridos nos gêneros secundários, adquirem caráter especial, uma vez que passam a configurar em outra realidade concreta.

A diferença entre os gêneros primário e secundário (ideológicos) é extremamente grande e essencial, e é por isso mesmo que a natureza do enunciado deve ser descoberta e definida por meio da análise de ambas as modalidades; apenas sob essa condição a definição pode vir a ser adequada à natureza complexa e profunda do considerado um gênero secundário, uma vez que seus enunciados se mesclam a enunciados de outros gêneros, tais como, mitos, lendas e rituais. Desse modo, as toadas se constituem por versos poéticos em que narrativas diversas a eles se diluem. Nesse sentido, tais narrativas, ao serem inseridas no contexto do Festival Folclórico, absorvem as nuances da toada e passam a atuar no todo do gênero. Além disso, nesse cenário, os ritos, mitos e lendas sofrem

54 modificações para melhor servirem aos temas das toadas e a espetacularização das apresentações. Sobre esse caráter flutuante, Assayag (1995, p.28) destaca que os Bumbás

―tem os pés fincados na tradição, mas também as mãos livres para criar e ressignificar.

Respeita os mitos, mas sai em busca de novas aventuras; pesquisa lendas, mas encontra técnicas e estilos diferentes. É um navegador em busca de outras dimensões‖.

2.2 DO ETHOS ARISTOTÉLICO AO ETHOS DISCURSIVO DO SUJEITO AMAZÔNIDA A partir de então, se debruçando sobre uma amostragem de toadas dos Bois-Bumbás Caprichoso e Garantido esta pesquisa pretende analisar quais imagens e representações, ou seja, o ethos do sujeito nelas construídas. De acordo com Martins (2005), o sujeito amazônida é:

[...] representado nos vários discursos das ciências humanas sobre o indivíduo interpelado que habita a Amazônia e que, portanto, é chamado a se identificar, a ocupar um lugar, a se representar, a se ver representado nesses vários discursos. Isso nos mostra que a cada chamado que o sujeito da Amazônia é evocado, traz consigo forte presença dos vários discursos circulantes sobre ele, falando diferentemente isso, sendo chamado de caboclo, ribeirinho, homem da floresta, homem da Amazônia, caboclo high tech ou mais estereotipadamente de índio – referindo-se não só ao indígena, mas a qualquer pessoa pertencente a esta região - essas denominações não estão só ligadas a discursos que se têm sobre o sujeito amazônida, como também fazem termos diferentes representações do espaço ocupado por ele. (MARTINS, 2005, p.8)

Amossy (2005) afirma que o simples ato de o sujeito tomar a palavra para falar de sua identidade implica na construção de uma imagem de si. Nesse sentido, mesmo que o sujeito não fale explicitamente de si, ele apresenta, em seu discurso, uma representação de sua imagem. ―Assim, deliberadamente ou não, o locutor efetua em seu discurso uma apresentação de si.‖ (AMOSSY, 2005, p.9) Sobre esse assunto, a autora acrescenta que o ethos não está relacionado apenas à uma técnica, a um artifício apreendido, como aponta Aristóteles em sua Retórica, pois a imagem de si pode ser observada nos mais diversos gêneros e nas mais distintas esferas da comunicação e das atividades humanas. Isto posto, na atualidade, diversas searas das ciências das linguagens têm se debruçado sobre esse conceito, convergindo com a noção aristotélica e alçando novos voos, como por exemplo, a Análise do Discurso, a Pragmática e a Argumentação.

De acordo com Maingueneau (2008, p.12), o ethos pertence à tradição retórica, mais precisamente à Retórica de Aristóteles, ―primeiro autor em que encontramos uma elaboração conceitual ou, pelo menos, cuja concepção chegou até nós.‖ Em sua Retórica, Aristóteles tem como objetivo apresentar uma técnica de convencimento, ou seja, uma técnica de persuasão a

fim de que o orador cause uma boa impressão ao auditório. O conceito aristotélico, em Retórica, por sua vez, aparece atrelado às noções de pathos e logos, sendo que, o pathos está relacionado aos meios de ―colocar o juiz [ou qualquer outro público] em certa disposição‖

(Aristóteles, 1991: 181), ao passo que o logos, em consonância com Amossy (2018), se refere às estratégias discursivas e o ethos diz respeito à imagem do locutor. Nesse sentido, para Aristóteles:

Persuade-se pelo caráter [= ethos] quando o discurso tem uma natureza que confere ao orador a condição de digno de fé; pois as pessoas honestas nos inspiram uma grande e pronta confiança sobre as questões em geral, e inteira confiança sobre as que não comportam de nenhum modo certeza, deixando lugar à dúvida. Mas é preciso que essa confiança seja efeito do discurso, não uma previsão sobre o caráter do orador (ARISTÓTELES, 1356a: p. 5-6)

A partir de então, Benites (2008) endossa que a noção de ethos, em a Retórica de Aristóteles, é um conceito discursivo, pois a boa impressão visada pelo autor se constrói no e pelo discurso. Dessa forma, trata-se de um conceito dinâmico, uma vez que envolve, de modo interativo, o trabalho tanto do orador quanto do interlocutor. Nesse sentido, o ethos aristotélico ―está ligado à própria enunciação, e não a um saber extra-discursivo sobre o locutor‖ (MAINGUENEAU, 2008, p.13), sendo que, para construir uma imagem positiva de si, o sujeito deve se apoiar em três qualidades essenciais: ―a phronesis, ou prudência, a aretè, ou virtude, e a eunoia, ou benevolência.‖ (MAINGUENEAU, 2008, p.13)

Quanto aos oradores, eles inspiram confiança por três razões; as que efetivamente, à parte as demonstrações, determinam nossa crença: a prudência (phronesis), a virtude (aretè) e a benevolência (eunoia). Se, de fato, os oradores alteram a verdade sobre o que dizem enquanto falam ou aconselham; é por causa de todas essas coisas de uma só vez ou de uma dentre elas: ou bem, por falta de prudência, eles não são razoáveis, eles calam suas opiniões por desonestidade; ou, prudentes e honestos, não são benevolentes; é por isso que podem, mesmo conhecendo o melhor caminho a seguir, não o aconselhar. (ARISTÓTELES, 1378a: 6-14)

O conceito de ethos, sob a perspectiva argumentativa, de Charaudeau (2006), de modo semelhante, converge ao conceito de Aristóteles, pois a perspectiva apresentada pelo primeiro aponta que ―é o ethos que permite ao orador parecer ‗digno de fé‗; o ethos mais transparece (no tom da voz, nos gestos, na maneira de falar e no conteúdo das propostas do indivíduo) do que aparece‖. (BENITES, 2008, p.104) Por outro lado, a noção de Charaudeau (2006) extrapola os limites das palavras, pois, para o autor, a construção do ethos está estreitamente relacionada aos dados a elas preexistentes. Outro ponto de divergência dessa noção com a aristotélica, é que, para Charaudeau (2006), o ethos pode ser dito pelo locutor, ou seja, o locutor pode falar de si mesmo no discurso para endossar esse construto. O ethos, em consonância com o autor está, também, relacionado a indivíduos e a grupos. Charadeuau (2006) afirma ainda que, sobre ethos se exercem as forças dos estereótipos, ou seja, as

56 representações fixas atribuídas a uma coletividade atuam fortemente sobre a construção dessas imagens. Nesta pesquisa, por exemplo, o ethos analisado se relaciona a um grupo, isto é, ao grupo de pessoas (homens e mulheres) que moram na Amazônia. E, no que diz respeito a esse grupo, analisamos divergências e convergências entre o ethos apresentado pelos enunciados das toadas e estereótipos sócio historicamente construídos por nossa sociedade.

Maingueneau (2005, 2008), ao inserir a noção de ethos na instância do discurso, assim o faz ampliando as noções de ethos retórico de Aristóteles e de ethos argumentativo de Charaudeau. De acordo com Maingueneau (2008, p.17), ―para além da persuasão por meio de argumentos, a noção de ethos permite, de fato, refletir sobre o processo mais geral da adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva.‖ A partir de então, considerando que o ethos pode ser construído pelo discurso, nos enunciados do enunciador se materializa um posicionamento discursivo que pode ser rejeitado ou aceito pelo co-enunciador. Em outras palavras, grosso modo, a adesão do público às apresentações dos Bois-bumbás varia de acordo com o nível de identificação entre o posicionamento daquele que ―fala‖ e daquele ―escuta‖. Para Maingueneau (2008), portanto:

- o ethos é uma noção discursiva, ele se constrói através do discurso, não é uma

―imagem‖ do locutor exterior a sua fala;

- o ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro;

- é uma noção fundamentalmente híbrida (sócio-discursiva), um comportamento socialmente avaliado, que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numa determinada conjuntura sócio- histórica. (MAINGUENEAU, 2008, p.17)

Ampliando a noção aristotélica, Maingueneau (2005) não limita a noção de ethos à enunciação, pois, de acordo com o autor, antes mesmo que o enunciador fale, o público constrói representações sobre sua imagem. Nesse sentido, Maingueneau (2005, 2008) traz à tona a distinção entre ethos discursivo e ethos pré-discursivo, sendo o primeiro apreendido no discurso e o segundo apreendido antes de sua materialização. Alguns gêneros do discurso, de acordo com o autor, são mais propícios à emergência do ethos pré-discurso – como é o caso da toada de Boi-Bumbá do Festival Folclórico de Parintins - ao passo que, em alguns casos, como é o caso de um texto de um autor desconhecido, essa construção se transmuta em uma tarefa árdua. Árdua, porém não impossível, pois, de acordo com Maingueneau (2005, p.71), mesmo que o co-enunciador nada saiba, previamente, sobre o enunciador ―o simples fato de um texto pertencer a um gênero do discurso ou a um certo posicionamento ideológico induz expectativas em matéria de ethos.‖

Além dessa distinção, entre ethos pré-discursivo e ethos discursivo, Maingueneau (2005,2008) faz a diferenciação entre ethos dito e ethos mostrado. O ethos dito diz respeito à

menção direta que o enunciador faz de si no discurso, tal como acontece na toada A cor do meu país, do Boi-Bumbá Caprichoso (2011): ―Eu sou marujeiro. Eu sou filho de Gandhi. Do manto azul da padroeira.‖, na qual o enunciador se mostra um sujeito que se nutre de diferentes crenças, de Ghandi a Nossa Senhora Aparecida.‖ Enquanto isso, no ethos mostrado, como é possível deduzir, o enunciador menciona, implicitamente, a si mesmo no discurso, Isto posto, percebe-se uma amostra de ethos mostrado nos enunciados da toada Caprichoso:

um canto novo de esperança: ―O homem branco estourou o índio valente consumindo a sua fé. Até que chegou o meu boi fazendo a seu povo um canto novo de esperança‖.

(CAPRICHOSO, 2019), em que o enunciador apresenta, indiretamente, o sujeito amazônida como um índio guerreiro, porém, vítima dos desdobramentos da colonização e que encontrou no boi de pano um motivo para ter esperança.

Nesse sentido, de acordo com Maingueneau (2008), o ethos é o resultado, a soma, dessas várias instâncias:

O ethos de um discurso resulta da interação de diversos fatores: ethos pré- discursivo, ethos discursivo (ethos mostrado), mas também os fragmentos do texto nos quais o enunciador evoca sua própria enunciação (ethos dito) – diretamente (―é um amigo que lhes fala‖) ou indiretamente, por meio de metáforas ou de alusões a outras cenas de fala, por exemplo. (...) O ethos efetivo, construído por tal ou qual destinatário, resulta da interação dessas diversas instâncias. (MAINGUENEAU, p. 18/19, 2008)

Ademais, Maingueneau (2005) inseriu ao seu conceito de ethos a noção de tom que, quem o disse: o termo ‗tom‗ apresenta a vantagem de valer tanto para o escrito como para o oral: pode-se falar do ‗tom‗ de um livro. (MAINGUENEAU, 2005, p.72)

Imbricada à noção de tom, ele traz à superfície questões relacionadas ao corpo do enunciador que, aqui, não corresponde ao corpo do autor efetivo. A esse corpo, Maingueneau (2005) dá o nome de fiador. No caso das toadas, por exemplo, o fiador não é quem as compõe, mas, sim os sujeitos que nelas enunciam e são enunciados. O fiador, apreendido pelo co-enunciador, por meio de indícios textuais, se compõe de caráter e de corporalidade. O caráter diz respeito às características psicológicas do enunciador, ao passo que, a corporalidade ―é associada a uma compleição corporal, mas também a uma forma de vestir-se e de mover-se no espaço social.‖ (MAINGUENEAU, 2005, p.72) Considerando, então, os enunciados das toadas, nelas, o fiador pode variar do indígena resistente e guerreiro ao