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Gênero e classes sociais: categorias analíticas interdependentes

A constatação do caráter sexuado do trabalho confirma nossa convicção da relevância de se estudar a problemática específica da mulher trabalhadora. Nesse sentido, Kergoat dá-nos régua e compasso quando pontua que só a partir do questionamento epistemológico levado a efeito pelo feminismo, foi possível dar visibilidade à mulher, no interior de uma classe operária, até então tida como assexuada.

Chamando nossa atenção para a necessidade de se analisar articuladamente os diversos espaços por onde circula a mulher trabalhadora, sem hierarquizar as relações sociais neles estabelecidas, sem estabelecer “front ou inimigo principal”, Kergoat assinala que

Articular produção/reprodução significa para mim, trabalhar simultaneamente sobre dois grupos de relações sociais, relações entre os sexos e relações de classes, relações que chamaremos respectivamente opressão e exploração. (KERGOAT, 1987, p.83).

Os estudos das relações sociais de sexo/gênero permitem a apreensão das diferenciações hierarquizadas na relação entre homens e mulheres, que se estabelecem no processo produtivo, possibilitam o desvelamento de uma construção histórico-social do ser mulher, do ser homem. Uma construção que estabelece relações de poder, inscritas sobre corpos sexualizados, forjadas objetivamente por múltiplas instâncias sociais, e que se subjetivam através de mecanismos de socialização.

A desigualdade instituída a partir de diferenças naturais que não a justificam, transversalmente perpassa todos os espaços da vivência humana, do reprodutivo ao produtivo. Ubiquamente, as relações de gênero delineiam-se entre ou intra classes sociais.

Se a vivência de uma operária é diferente da de um operário, da mesma forma o é, a vivência do homem e da mulher de segmentos sociais mais elevados. Esta, ao integrar o

mercado de trabalho na qualidade de mão-de-obra qualificada, a despeito de contar com a ajuda de assalariados domésticos, também esbarra na dificuldade em conciliar um projeto profissional com os encargos domésticos.

Muitas mulheres de estratos elitizados, diante dos obstáculos com que se defrontam, acabam aprisionando-se em uma cadeia dourada, qual "mulheres de Atenas"19, abrindo mão da própria liberdade e autonomia. Como sombras de seus maridos, restam condenadas à invisibilidade dos afazeres realizados na instância reprodutiva do espaço doméstico. As relações sociais de sexo se fazem, pois, presentes nas mansões e nos barracos.

Assim como as classes sociais têm matizes sexuais, o gênero tem um colorido de classe; é muito diferente o cotidiano das mulheres de segmentos sociais privilegiados, do dia a dia das mulheres socialmente subalternizadas, que se defrontam com dificuldades muito maiores. Exercendo ou não um trabalho extradoméstico, estas assumem, ao contrário de mulheres melhor posicionadas socialmente, as infindáveis tarefas domésticas sem qualquer auxílio de terceiros a seu serviço.

Dessa forma, não faz sentido falar genérica e abstratamente em mulheres. É preciso situá-las em um momento e lugar determinados; é importante referir-se sempre a uma mulher real, que tem nome, que traz inscrita no corpo uma raça, que se insere em uma classe social, que integra uma determinada faixa etária. Tais traços, definidores da identidade do sujeito social, geram formas específicas de relações sociais.

Uma classe social não é homogênea, mas um coletivo de seres com particularidades. Escamotear tal caráter é contribuir para que tais especificidades sejam manipuladas e utilizadas contra o conjunto de pessoas que a compõem.

19

Título de música de Chico Buarque de Holanda e Augusto Boal, que retrata em versos, a submissão da mulher ateniense, na Grécia clássica.

Segue nessa direção a crítica de Boaventura de Sousa Santos, às “assexuadas” análises marxistas de classes sociais. O sociólogo português considera que o estremecimento das relações do feminismo - ventre gerador das teorias de gênero - com as concepções marxistas de sujeito social, ter-se-ia dado justamente pelo fato de, para o feminismo, o marxismo, ao privilegiar o enfoque da dominação de classe a partir de uma concepção de trabalhador universal, ter colocado em segundo plano as relações sociais de sexo, contribuindo até mesmo para ocultá-las:

O feminismo veio questionar o privilegiamento no marxismo da ação, das práticas, das identidades e do poder de classe, em detrimento de outras formas de construção da subjetividade social e nomeadamente a assente na identidade e na discriminação sexuais. (SANTOS, 1997, p.32).

O movimento feminista teria, então, buscado outros mananciais, a exemplo de Foucault e Derrida, pensadores que se recusaram a atribuir, aprioristicamente, a primazia exclusiva, a qualquer fator, seja classe, raça/etnia, idade, sexo, como determinante de relações de poder e desigualdade social.

Uma leitura das novas relações de trabalho, à luz da teoria de classes sociais, apoiada em elementos analíticos do materialismo histórico, que evitasse entronizar um único fator explicativo das relações sociais, encontra guarida em Santos que, de forma não dogmática, reafirma o instrumental teórico-metodológico mas, toma-o como ponto de partida, não de chegada, em uma hermenêutica, mais de “suspeição do que de adesão”

Em primeiro lugar, as classes são um fator de primeira importância na explicação dos processos sociais, mas tal importância só é aferível em análises concretas e não necessita, para se sustentar, da estipulação abstrata da primazia explicativa. Em segundo lugar, é errôneo reduzir a identificação, formação e estruturação das classes à estrutura econômica da sociedade. As classes são uma forma de poder e todo o poder é político. O valor explicativo das classes depende das constelações de diferentes formas de poder nas práticas sociais concretas. (SANTOS, 1997, p.42).

Nossas reflexões sobre as diferentes formas de poder que se fazem presentes nas práticas sociais concretas, levam-nos a considerar os vínculos de dominação estabelecidos entre sexos, como um mecanismo potencializador da exploração de uma

classe social por outra; que contribui para criar cunhas divisórias no interior da classe trabalhadora. Como afirma Kergoat:

Parece ser possível avançar a hipótese de que, no que se refere aos operários, a aceitação da divisão sexual do trabalho, legitimada por uma visão naturalista da sociedade, é uma enorme trava que se opõe à superação das divisões no grupo operário e à construção da solidariedade. Ademais, uma tal hipótese permitiria avançar a compreensão de como o capitalismo soube utilizar, para se fortalecer, as relações de sexos que lhe preexistiam. (KERGOAT, 1987, p.89).

O capitalismo contemporâneo dispõe, muito mais do que dispunham as suas configurações precedentes, de requintadas formas de manipulação das diferenças sexuais.

O novo paradigma produtivo, ampliado cenário de possibilidades e riscos, tanto pode ampliar as oportunidades, quanto intensificar a exploração do trabalhador e, em especial das mulheres, dos negros, dos menores e outros segmentos sociais que, no mundo do trabalho, são discriminados.

As tecnologias produtivas e os sistemas organizacionais, dos quais se utiliza a acumulação flexível em curso, requerem uma flexibilização do trabalho que tem se nutrido de uma tradicional maleabilidade coercivamente “adotada” pelas mulheres para conciliar vida profissional e familiar. No rol dessas atividades, incluem-se os empregos atípicos e precários, em tempo parcial e horários flexíveis, ou seja, os postos de serviço que permitam um tempo excedente, que possibilitem a liberação de horas para serem dedicadas, não ao lazer ou ócio “criativo”, mas às atividades domésticas. Esses empregos pior remunerados e que raramente propiciam ascensão profissional, tendem a ser feminizados.

À dificuldade da mulher em construir uma carreira através desse tipo de empregos, não tem sido dada a merecida importância; sua atuação profissional é tida como algo de somenos, já que sua identidade social é cunhada prioritariamente a partir das funções de mãe, de esposa e de dona-de-casa.

Para Hirata (1999), o processo de flexibilização amplia as desigualdades sexuais no trabalho. E as alterações produtivas atingem não só as condições objetivas das trabalhadoras mas atingem-nas também em sua individualidade uma vez que os impactos das relações familiares sobre as atividades profissionais e vice versa, são diferenciados para as mulheres e para os homens. Quando empregadas, as mulheres enfrentam, além das pressões e incertezas do mercado de trabalho, a sobrecarga da dupla jornada. Quando desempregadas, experimentam a inatividade de forma muito diferenciada da masculina; assumem o ônus dos afazeres caseiros e, não raro, em uma jornada contínua, realizam atividades remuneradas em domicílio, forma de trabalho que tem sido revitalizada pelo modelo de acumulação flexível. Harvey considera que:

Não apenas as novas estruturas do mercado de trabalho facilitam muito a exploração da força de trabalho das mulheres em ocupações de tempo parcial, substituindo assim trabalhadores homens centrais mais bem remunerados e menos facilmente demitíveis pelo trabalho feminino mal pago, como o retorno dos sistemas de trabalho doméstico e familiar e da subcontratação permite o ressurgimento de práticas e trabalhos de cunho patriarcal feitos em casa. (HARVEY, 2001, p.146).

O autor chama a atenção para o fato de que “mesmo que algumas mulheres e algumas minorias tenham tido acesso a posições mais privilegiadas, as novas condições do mercado de trabalho de maneira geral reacentuaram a vulnerabilidade dos grupos desprivilegiados.” (HARVEY, 2001, p.145).

As inovações tecnológico-organizacionais introduzidas no mundo do trabalho tanto atuaram no sentido de abrir espaços profissionais à mulher quanto no de reforçar a exploração e a discriminação da mão-de-obra feminina; daí a necessidade da perspectiva de gênero em estudos sobre a acumulação flexível.

Saffioti também ressalta o colorido de classe e gênero da vivência de seres múltiplos que experimentam vasta gama de interações. As relações de classe estão presentes na reprodução, assim como as relações de gênero penetram a esfera da produção.

Não se trata, pois, de retalhar a realidade social, situando em cada fatia um tipo de processo social ou relações sociais. Ao contrário, trata-se de estar sempre alerta para poder detectar a presença das diferenças - semelhanças de gênero nas relações de produção, assim como as diferenças - semelhanças de classe nas relações de gênero. Em outros termos, esses dois tipos de relações são absolutamente recorrentes, impregnando todo o tecido social. (SAFFIOTI, 1992, p. 192).

Gênero e classes sociais são categorias complementares uma vez que cada qual, isoladamente, não daria conta de explicar as desiguais relações que se estabelecem no mundo do trabalho, a partir de construção histórico-social e cultural, que reserva a homens e mulheres diferentes espaços e lugares sociais, pretensamente, em função de suas diferenças biológicas.

[A categoria gênero] permite explicar situações específicas da vida laboral (...) diferenças socialmente impostas às identidades feminina e masculina, que levam à estruturação de um mercado de trabalho discriminado (...) A discriminação mais visível encontra-se entre os diferentes tipos de trabalho: os homens são empregados em quase todos os ramos e postos, ao passo que as mulheres encontram-se concentradas nos serviços e, quando na indústria, em atividades similares às tarefas domésticas. Outra discriminação de gênero menos visível é observada no interior das empresas, primeiro, na atribuição dos postos e, segundo, nas exigências alheias aos processos de trabalho. (ANDRADE, 1997, p.29).

Os estudos de gênero põem a nu uma ideologia de opressão, capaz de manipular as enriquecedoras diferenças biológicas e fazer delas pretextos ou justificativas das práticas de discriminação social.

Mendiola pontua que as desiguais relações sociais entre sexos acabam tendo efeito rebote sobre o próprio homem; critica a voracidade da “ordem falocêntrica”, capaz de também vitimá-los, ao lhes impor padrões de conduta carregados de angústia, Nesse sentido, alerta para a importância dos estudos de gênero:

Los actuales estudios de género (gender) son un producto radical del pensamiento y movimiento feminista(s) contemporáneo(s) y constituyen ya un nuevo paradigma dentro del comportamiento de las ciencias sociales

[contribuem para] la de(s)construccion contracultural del (des)orden simbólico

falocéntrico. (1997, p.4)20.

20

Os atuais estudos de gênero (gender) são um produto radical do pensamento e movimento feminista (s) contemporâneo(s) e constituem um novo paradigma do comportamento das ciências sociais [contribuem para] a desconstrução contracultural da des(ordem) simbólico-falocêntrica. (Tradução da autora).

Enquanto houver exploração entre classes sociais e dominação entre seres de sexo, ou mesmo, de idades, de raças/etnias, de credos diferentes, a humanidade estará muito distante de um projeto emancipatório. A equalização na relação entre sexos e a autonomia da mulher estão entre os necessários passos rumo à emancipação do ser humano. As lutas feministas pela igualdade na diferença e seu aporte acadêmico, os estudos de gênero/relações sociais de sexo defendem, não uma mera troca de mãos que empunham o chicote, mas a destruição de todos os chicotes, a erradicação de quaisquer formas de dominação e exploração.

Estas considerações teóricas acerca das relações sociais de sexo/gênero articuladas às de classes sociais elucidam nossa análise de relações sociais específicas, construídas em um contexto particularizado. Fazem-se, pois, farol condutor desta pesquisa que focaliza, em um universo empírico, o trabalho da mulher na indústria de calçados de Franca.

III – A indústria coureiro-calçadista de Franca (SP)

Nos capítulos precedentes, de natureza teórico-conceitual, procuramos inicialmente caracterizar o novo mundo do trabalho, organizado segundo o paradigma da acumulação flexível. No intuito de apreender os impactos da reestruturação produtiva em curso sobre a divisão sexual do trabalho na indústria calçadista francana, tecemos algumas considerações acerca de classes sociais e gênero, categorias nucleares deste estudo.

Para adentrarmos o espaço empírico que nos propusemos a pesquisar, também caminharemos, doravante, do geral para o particular, situando em princípio o microcosmo da indústria de calçados de Franca no cenário da produção calçadista brasileira para, dessa forma, melhor avaliarmos sua dimensão e seu significado.

Em seguida, por pertinente, traçaremos algumas linhas remontando-nos aos marcos históricos da produção coureiro-calçadista de Franca, atividade produtiva que não se dissocia da história da cidade.

Passo seguinte, buscaremos retratar a crise vivenciada por esse setor produtivo durante as décadas de 1980 e 1990, em grande medida decorrente das mudanças ocorridas em escala internacional no contexto de globalização neoliberal e que tiveram significativa repercussão sobre espaços regionais e locais, a exemplo deste que ora focalizamos.

A partir desse pano-de-fundo, faz-se possível, então, analisar a divisão sexual de trabalho em uma fábrica de calçados e, pela voz da sapateira, delinear os aspectos objetivos e subjetivos que caracterizam a sua existência.