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2.2 OS SENTIDOS DO TRABALHO

2.2.4 Gênero e Estilo

Clot (2007) propõe definir conceitos que dão subsídios para responder em que condições e com quais instrumentos práticos e teóricos, pode-se reestabelecer ou sustentar esse poder de agir do trabalhador, individualmente ou coletivamente, em seu meio de trabalho e de vida. Por isso o autor apresenta as categorias gênero e estilo.

Conforme Clot (2007), o estilo é a forma pessoal com que o sujeito se apropria do gênero do seu trabalho, do seu espaço coletivo. Cada sujeito terá uma forma particular de realizar essa apropriação, dependendo do sentido que cada um atribuirá ao gênero da sua profissão. O interesse dessa pesquisa é o gênero profissional da área do transporte coletivo urbano, com foco na atividade dos motoristas de ônibus, com a intenção de compreender como esse sujeito é conceituado, refletir sobre suas recriações de estilos diante das condições de trabalho e situações que os envolvem, buscando descobrir quais os sentidos do trabalho para esse profissional.

Com relação ao gênero, o autor o define como uma espécie “de rascunho social que esboça as relações dos homens entre si para agir sobre o mundo” (CLOT, 2007, p. 50). Ou seja, é o que carrega as técnicas, os procedimentos, posturas e condutas desenvolvidos ao longo da história de cada profissão definida, podendo ser

chamados de “alma social” da atividade. O gênero é entendido como o organizador do trabalho. Portanto, o gênero é a dimensão social do trabalho e constitui-se na e pela atividade, serve como orientador para o coletivo de trabalhadores em uma determinada categoria profissional, por meio da definição de normas explícitas e implícitas, códigos éticos, linguagens e procedimentos técnicos que devem ser seguidos por todos envolvidos em uma profissão. Para o autor, gênero é:

Um corpo intermediário entre os sujeitos, um interposto social situado entre eles, por um lado e entre eles e o objeto do trabalho. [...] um gênero sempre vincula entre si os que participam de uma situação, como co-autores que reconhecem, compreendem e avaliam essa situação da mesma maneira. A atividade que se realiza num gênero dado tem uma parte explicita e outra sub-entendida [...] a parte sub-entendida da atividade é aquilo que os trabalhadores de um meio dado conhecem e vêem, esperam e reconhecem, apreciam ou temem, é o que lhes é comum e o que lhes reúne em condições reais de vida; é o que eles sabem o que devem fazer graças a uma comunidade de avaliações pressupostas, sem que seja necessário re- especificar a tarefa cada vez que ela se apresenta (CLOT, 2006, p. 41-42).

De acordo com Clot (2007), o gênero não é inalterável, o gênero é quem fala o que é permitido e aceitável ou não no trabalho, entretanto, o autor acrescenta que o estilo liberta o profissional do gênero, que vai se remodelando pelas recriações pessoais aceitas e compartilhadas no coletivo. O gênero tem a função de estruturar, organizar e não de paralisar as atividades profissionais. As profissões vão se atualizando e se redesenhando de acordo com os acontecimentos e os trabalhadores são a origem desses acontecimentos.

Segundo Clot (2007), o gênero também consente que o sujeito lute para romper com as barreiras e limitações impostas. Essa superação, o autor chama de estilo. Ou seja, além do gênero ser o meio para afrontar as imposições da ação, é também alvo de ajustes pelos trabalhadores. O estilo dá condições para que o trabalhador se liberte do engessamento do gênero. Os sujeitos e a sociedade se modificam, as necessidades mudam com o passar do tempo e o gênero precisa seguir as mudanças para que a atividade venha a ser eficaz. A existência do gênero

depende dos estilos, assim como os estilos e as próprias profissões necessitam das orientações que o gênero disponibiliza.

Dessa forma, trazendo para o contexto do transporte coletivo urbano, o estilo seria a forma como o motorista de ônibus se apropria da instrução e do conhecimento (como por exemplo, dirigir um ônibus biarticulado) para realizar suas atividades do dia a dia dentro do coletivo. Por meio do desenvolvimento de um estilo, o motorista pode redefinir suas tarefas, ou seja, suas atividades prescritas, reelaborar seu trajeto, reorganizar o que está posto considerando suas percepções pessoais. Pegar para si as instruções que lhe cabem saber não quer dizer que ele tem que repetir ou seguir as atividades sem adequá-las às novas circunstâncias, porque assim dizem os pesquisadores a respeito do estilo:

É uma espécie de libertação diante de certas imposições genéricas. No entanto vemos o estilo como uma dupla libertação. Por um lado, a libertação da memória impessoal. Nesse aspecto o indivíduo tenta se distanciar da imposição, procurando conservar as vantagens do recurso e se necessário até retoca a regra, o gesto ou a palavra, inaugurando uma variante do gênero cujo futuro dependerá do coletivo. Fazendo isso fica assegurado o desenvolvimento e, portanto, a vida do gênero, pois este recebe novas atribuições por re-criação pessoal, avaliadas e depois eventualmente validadas pelo coletivo. Por outro lado, a libertação da história pessoal. Nesse caso, são os esquemas pessoais que mobilizados na ação, são ajustados pelo impulso dos sentidos da atividade e das eficiências das operações. Também nesse caso, é através do desenvolvimento de sua própria experiência do gênero que o sujeito pode distanciar-se de si mesmo. O estilo é, portanto, um “misto” que descreve o esforço de emancipação do sujeito, diante da memória impessoal e diante da sua memória singular, o esforço buscando sempre a eficácia do trabalho. (CLOT; FAÏTA; FERNANDEZ; SCHELLER, 2001, p. 3).

O estilo, conforme explicam os autores é uma maneira do trabalhador buscar a emancipação profissional no agir do seu trabalho. Clot (2010) defende que é entre a atividade prescrita e a atividade realizada - que é aquela atividade que foi de fato executada - que existe o estilo. O estilo é próprio do sujeito, algo individual, de fazer

a atividade, mas é também ao mesmo tempo, social e histórico, podendo se tornar parte do gênero.

O estilo individual é, antes de mais nada, a transformação dos gêneros na história real das atividades no momento de agir em função das circunstâncias. Mas, desse modo, aqueles que agem devem ser capazes de servir-se do gênero ou, mais rigorosamente, manipular com destreza as diferentes variantes que animam a vida do gênero. É esse processo de metamorfose dos gêneros, promovidos à categoria de objeto da atividade e recebendo novas atribuições e funções para agir que conserva a vitalidade e a plasticidade do gênero. Os gêneros continuam vivos, graças às recriações estilistas. Mas, inversamente, o não domínio do gênero e de suas variantes impede a elaboração do estilo. Servir-se com certa liberdade dos gêneros implica sua refinada apropriação (CLOT, 2010, p. 126).

Assim sendo, o estilo é verificado, podendo ser validado pelo coletivo e estar relacionado com o sentido da atividade para o sujeito e para a sua subjetividade. Afirma Vigotski (1998, 2001) que a construção do sentido depende da experiência de cada indivíduo, da construção/reconstrução que ele faz do real, da forma com que ele se apropria do mundo e de como isso pode ser despertado na sua consciência. O sentido é socialmente construído, mas é constituído pelos sujeitos em particular.

Para Clot (2007), o estilo aumenta as possibilidades de transformação profissional e pessoal dos sujeitos, trazendo a inovação. Para isso, é preciso que os trabalhadores ultrapassem o limite colocado pelo gênero. Dessa forma, o trabalho possui uma importância singular para o ser humano, atribuindo sentido à sua vida.

Portanto, nessa pesquisa, estudou-se o trabalho dos sujeitos motoristas do transporte coletivo urbano de Curitiba, com base nessas duas categorias: gênero e estilo, além da categoria real da atividade, buscando compreender quais os sentidos do trabalho para esses profissionais.