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Dentro desse jogo de poder, em que homens e mulheres se olham e não se percebem dentro daquilo que foi determinado para seu gênero, começa uma tarefa desafiadora e, ao mesmo tempo, libertadora, ecoando outros caminhos e possibilidades. E, nesse sentido, encontramos discursos que reafirmam essas considerações, ao exclamar:

Eu sou o menino que meu pai não teve! (FRIDA).

23 Termo usado por Melluci (2004, p. 48) para se referir ao “caráter processual, auto-reflexivo e construído da definição de nós mesmos”.

Bom, eu sempre fui muito levada. Eu gostava sempre de estar no meio dos meninos, de participar de jogos, brincava muito na rua, eu sempre gostei de esporte. (CRISTINA)

Nunca fui uma menina, sempre fui sapeca assim! (FRIDA)

As falas remetem a uma discussão sobre identidades e a uma aproximação sobre a constituição das identidades, principalmente na “sociedade tardia” ou pós-moderna (HALL, 2006). As concepções de identidades do sujeito na pós-modernidade diferem muito das concepções de identidade do sujeito do Iluminismo e do sujeito sociológico. Para esclarecer isso melhor, usarei os estudos de Hall (2006) e procurarei, de forma bem sucinta, explanar o que o autor diz sobre esses três tipos de sujeitos.

Hall (2006, p. 11) nos mostra que no Iluminismo a identidade era vista como algo que nasce com o sujeito, um “eu central”, um núcleo interior que seguia idêntico e contínuo por toda a vida, um sujeito que era considerado centrado, unificado, dotado de razão, consciência e ação. “Essa era uma concepção muito „individualista‟ do sujeito e de sua identidade (na verdade a identidade dele; já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como masculino)”.

Já o sujeito sociológico emerge da complexidade da modernidade e compreende a identidade como um núcleo interior, mas não autônomo e autossuficiente. Assim, a identidade se forma na relação com os outros. “O sujeito ainda tem um núcleo ou uma essência interior que é o „eu real‟, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais „exteriores‟ e as identidades que esses mundos oferecem” (HALL, 2006, p.11).

A identidade na pós-modernidade, ou do sujeito pós-moderno, que engloba todos/as nós, é vista como uma “celebração móvel” (HALL, 2006). Assumimos identidades diferentes em diferentes momentos, somos feitos de identidades contraditórias que nos empurram em diferentes direções e, dessa forma, continuamente deslocadas.

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. (HALL, 2006, p.12)

Sintetizando, quando, nas falas de Frida e Cristina, elas se identificam como

“meninos” ou como “sapecas” e por isso dizem que nunca foram meninas, compreendo que

isso se refere a resquícios de uma identidade unificada, uma identidade que defende a ideia de um único modo de ser. Voltando um pouco ao que já havia comentado, a cultura se encarrega de dividir e definir um único modo de ser homem e ser mulher em nossa sociedade. Ela dita

que, para ser mulher, seu corpo físico precisa apresentar determinadas características e seu comportamento não pode exceder “os limites” do contorno de seus corpos.

A exemplo disso, a sociedade, dentro dos aspectos históricos e culturais, ao enfatizar que mulher não pode correr, suar, falar alto, jogar bola, sentar sem cruzar as pernas, etc., pode contribuir para a delimitação de espaços. Nessa perspectiva quando não nos identificamos com formas reducionistas de vida, de mundo, começamos transpor barreiras, e muitas vezes deparamo-nos com uma perspectiva dualista de estruturação da sociedade, na qual existem dois universos: o masculino e o feminino. O fato de não pertencermos e não nos enquadrarmos em um desses panópticos, nos faz acreditar que, então, o “outro lado” é seguramente o lugar certo.

O importante é deixar claro que existe uma gama de possibilidades a serem exploradas e vivenciadas por homens e mulheres, e podem convenientes e boas, mesmo que provisoriamente, para transpor os limites de uma identidade masculina/feminina unificada.

Bourdieu (2007), em sua interessante análise sobre a “Incorporação da dominação”, pretende, em seu texto, nos deixar conscientes de que as diferenças que são visíveis no corpo feminino e masculino são percebidas e construídas a partir da visão androcêntrica e produzem, por meio de seus esquemas práticos, significações e valores que são indiscutíveis.

[...] não é o falo (ou a falta de) que é o fundamento dessa visão de mundo. E sim é essa visão de mundo que, estando organizada segundo a divisão em

gêneros relacionais, masculino e feminino, pode instituir o falo, constituído

em símbolo da virilidade, de ponto de honra [...]caracteristicamente masculino; e instituir a diferença entre os corpos biológicos em fundamentos objetivos da diferença entre os sexos, no sentido de gêneros construídos como duas essências sociais hierarquizadas. (BOURDIEU, 2007, p.32-33) Este autor diz que “os princípios antagônicos da identidade masculina e feminina se inscrevem assim, sob formas de maneiras permanentes de servir do corpo, ou de manter a postura, que são como que a realização, ou melhor, a naturalização de uma ética” (BOURDIEU, 2007, p.38). Sobre isso, o autor ressalta que o espaço, o enfrentar, o olhar de frente com postura ereta “que corresponde à de um militar perfilado entre nós” (p.38), se faz presente na moral da honra masculina, enquanto a submissão feminina é expressa na tradução natural de se “inclinar, abaixar-se, curvar-se, de se submeter (o contrário de „pôr-se acima de‟), nas posturas curvas, flexíveis, e na docilidade correlativa que se julga convir à mulher” (p.38). E complementa:

A educação elementar tende a inculcar maneiras de postar todo o corpo, ou tal ou qual de suas partes (mão direita, masculina, ou mão esquerda,

feminina), a maneira de andar, de erguer a cabeça ou os olhos, de olhar de frente, nos olhos, ou pelo contrário, abaixá-los para os pés etc., maneiras que estão prenhes de uma ética, de uma política e de uma cosmologia (toda a nossa ética, sem falar da nossa estética, assenta-se no sistema de adjetivos cardeais, elevado/baixo, direito/torto, rígido/flexível, aberto/fechado, uma boa parte dos quais designa também posições ou disposições do corpo ou de alguma de suas partes[...]. (BOURDIEU, 2007, p.38)

É preciso transbordar esse corpo, essas formas e normas fixas que muitas vezes nos capturam e nos mantêm em uma prisão invisível, de forma que, ao conseguirmos “escapar” dessas “armadilhas”, não nos sintamos culpados. E isso é válido tanto para as mulheres quanto para os homens.

Percebo uma consonância das narrativas de Frida e Cristina com os dizeres de Bauman (2005, p. 19), quando o autor ressalta que

estar total ou parcialmente “deslocado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras pessoas como estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes perturbadora. As duas professoras se deslocam no conceito unificado da identidade masculina e feminina e deixam claro que transitavam nessas fronteiras, enfrentando as possíveis críticas e proibições que poderiam resultar dessa posição, que algumas vezes eram, sim, desconfortáveis, como veremos no decorrer dessa pesquisa.

Existe uma necessidade de nos situarmos dentro do contexto do que a cultura determina “padrão” e, quando nos reconhecemos diferentes do que é atribuído, tratamos de nos enquadrar no polo oposto. Nesta reflexão Bauman (2005, p. 19) destaca que sempre temos algo a explicar, ressaltar, desculpar, esconder, negociar, barganhar, ostentar:

há diferenças a serem atenuadas ou desculpadas ou, pelo contrário, ressaltadas e tornadas mais claras [...]. As “identidades” flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha. Mas outras infladas e lançadas pelas pessoas em nossa volta, e é preciso estar em alerta constante para defender as primeiras em relação às últimas.

O autor ainda complementa que “há uma ampla probabilidade de desentendimento, e o resultado da negociação permanece eternamente pendente” (BAUMAN, 2005, p.19).

A tensão de reconhecimento próprio (individual) e coletivo (social) é gerida pelas diferenças percebidas nos outros. Dessa maneira, a diferença então demarca as fronteiras, sejam elas de gênero ou outras. Isso se estabelece sempre a partir do lugar social que ocupamos, tendo como suporte, em cada cultura, a norma. Tendo em nossa sociedade como norma o sujeito branco, heterossexual, cristão, se estabelece, então, que todos aqueles e

aquelas que não se enquadram nesses requisitos são “marcados como diferentes” e ficam sempre à margem (LOURO, 2010).

Demarcar fronteiras seria um agenciamento de poder (de)limitante, de controle. A impossibilidade de transitar em diferentes universos, tendo como impeditivo primário o gênero, estabelecido e entendido a partir das diferenças percebidas a partir do sexo anatômico, reduz o ser humano a um modo único de viver, cerceando assim pluralidades. Portanto, não falamos de masculinidadesss24 e feminilidadesss e das infinitas possibilidades de ser homem e mulher em nossa cultura. Fica bem mais cômodo e menos tenso controlar os corpos para que eles sejam dóceis25 e eloquentes dessa forma de viver e de expressar na sociedade.

Como falar em masculino e feminino, diante das diversas masculinidades e feminilidades existentes e possíveis? Esses mundos se apresentam diante de nós, e para adentrar nesses universos desconhecidos é preciso olhar mais amplo; nos afastar das premissas do corpo biológico, da carne; ampliar o sentido da existência humana; e transcender algumas certezas enraizadas a partir do sexo. Significa se aventurar e experienciar outras formas de se significar como humano dentro do contexto social, a exemplificar o contexto familiar, a infância.