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Gênero e relações de poder nas narrativas

CASO 7 – Caso Raissa

4.3 Gênero e relações de poder nas narrativas

De modo genérico, os programas jornalísticos com temática policial são reconhecidos pela cobertura prioritária de crimes e de ocorrências policiais diversas. Em geral, esses programas são associados a uma premissa básica pelo apelo dramático na abordagem de suas narrativas. Entretanto, como apresenta Araújo (2014), para além de uma cobertura grotesca e sensacionalista, há, por parte desses programas, um desejo de aproximação dos padrões referenciais do telejornal brasileiro.

Em consonância com a Análise em Telejornalismo, como desenvolvemos no capítulo 1 desta dissertação, partimos da premissa de que os gêneros televisivos atuam como categorias culturais. Como tal, elas estão sujeitas a situações contextuais que ajudam a situar a audiência televisiva, tanto em relação ao programa em questão, quanto em relação ao assunto nele tratado e à forma como o mediador se destina ao seu público.

Assim como Mittel (2001), acreditamos que os gêneros também são construídos por relações de poder, que se situam dentro de grandes sistemas diversos, com implicações políticas, inclusive. Dessa forma, portanto, quando o Cidade 190 se define como telejornal policial, busca assumir, pelo menos, três locais de fala cruciais em nossa sociedade - o da informação, o da segurança pública e o da religião – associadas a três campos de poder. Há uma articulação entre esses três grandes eixos que estão presentes nas estratégias utilizadas na construção das narrativas aqui abordadas. A partir dos casos que apresentamos, narrativas sobre violências sexuais cometidas contra crianças do sexo feminino, ficam evidentes essas relações de poder que constroem o gênero do telejornal policial Cidade 190.

Em princípio, é fundamental ressaltar que o contexto em que o programa está inserido, por si só, já é revelador dos interesses que o perpassa. Como apresentamos no início deste capítulo, o programa faz parte da programação de uma das maiores emissoras de televisão do Brasil, a Rede Record. Essa emissora é de propriedade de Edir Macedo, o líder religioso de uma das maiores igrejas do País: a Assembleia de

Deus. É por meio dele que essas instituições, sobretudo quando são interligadas a um produto, evidenciam princípios que as norteiam.

Esses princípios norteadores são ligados também à política eleitoral. É relevante ressaltar que este empresário participa ativamente dos processos eleitorais brasileiros, apoiando abertamente candidaturas à presidência da nação, por exemplo. Isso ficou evidente nas eleições presidenciais de 2018, quando Edir Macêdo declarou apoio a Jair Bolsonaro, candidato que foi eleito defendendo propostas que evidenciam discursos machistas95, incitam atitudes violentas96, inclusive com crianças97, e capitaliza o tema segurança pública9899.

É nesse contexto, portanto, que a construção do gênero no Cidade 190 ocorre. Essas influências ficam evidenciadas nas matérias aqui apresentadas, seja no formato, no conteúdo ou nas diversas estratégias utilizadas em suas construções. O Cidade 190, portanto, não é apenas um telejornal policial, mas um telejornal policial em uma emissora controlada por um líder religioso, com fortes tendências politicas conservadoras claramente evidenciadas, cuja atuação tem como locus privilegiado as periferias de Fortaleza e de algumas regiões pobres do Ceará, que é projetado, nesse tipo de abordagem, sob a ótica da estigmatização .

Portanto, ao se autodefinir como jornalismo, o Programa evidencia o intento de se legitimar por meio de um tipo de conteúdo reconhecido como relevante para a sociedade e que é enquadrado como informação. As temáticas e abordagens escolhidas, assim como uma série de posicionamentos políticos, tendem a gozar da proteção oferecida à informação no campo do jornalismo – como é o caso, por exemplo, da classificação indicativa. Quando o Cidade 190 se apresenta como programa telejornalístico policial, ele é avaliado como tal e, dessa forma, não pode ser enquadrado na lei de classificação indicativa100, que não se aplica a esse gênero.

95 Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/o-discurso-que-legitima-o-

feminicidio>. Acesso em: out. 2018.

96 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/entidades-civis-veem-ameaca-em-

discurso-de-bolsonaro.shtml>. Acesso em: out. 2018.

97 Disponível em: <https://exame.abril.com.br/brasil/video-mostra-bolsonaro-ensinando-gesto-de-arma-

com-as-maos-para-crianca/>. Acesso em: out. 2018.

98 Disponível em: <https://www.huffpostbrasil.com/2015/10/05/jair-bolsonaro-defende-que-a-pm-mate-

mais-no-brasil-violencia_a_21690502/>. Acesso em: out. 2018.

99 Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/29/politica/1540850603_327020.html>.

Acesso em: out. 2018.

100 <http://www.justica.gov.br/seus-direitos/classificacao/legislacao/constituicao.pdf>. Acesso em: out.

No que concerne ainda às relações de poder e interesses que perpassam o Cidade 190, consideramos importante observar as vozes escolhidas para construir as narrativas, inclusive para identificar aquelas que foram omitidas. Na tabela a seguir, elencamos os tempos totais das narrativas de cada um dos casos analisados, assim como o tempo de fala de cada ator nela presente. Além disso, também indicamos o percentual de cada tempo de fala dos diversos agentes na totalidade da matéria. Neste processo, verificamos a tendência de se repetir certos atores nas narrativas apresentadas – mediadores, familiares da vítima, vítima, pessoas da comunidade, agressores ou pessoas relacionadas aos agressores.

Tabela 1 – Tempo de fala dos atores presentes nas narrativas

Matéria

Mediador

Familiares

Vítima

Autoridades Comunidade Familiares

agressor e

s

Caso

1

7’23’’ 3’36’’/48,76% 1’06’’+2’39’’/50,79% x x 00’10’’/2,26% X

Caso

2

14’38’’ 5’09’’/35,19% 3’20’’+1’+3’53’’/56,15% 1’04’’/7,29% x X X

Caso

3

9’55’’ 5’03’’/50,92% 1’28’’+ 1’24’’/28,91% 0’28’’/4,71% x 0’23’’/3,87% 0’44’’/ 7,39%

Caso

4

12’17’’ 6’42’’/54,55% 3’18’’+1’09’’ +0’24’’+0’27’’/ 43,15% 0’05’’/0,68% x 0’20’’/2,71% X

Caso

5

13’14’’ 5’28’’/41,31% 02’22’’+1’12’’ +1’18’’/36,78% x 0’50’’+0’09’’ +0’43’’/12,85% 0’47’’/5,92% X

Caso

6

17’35 09’30’’/54,03% 5’48’’+1’02’’ +0’41’’/42,75% x x x 0’22’’/ 2,09%

Caso

7

50’* 22’*/44% X x x x X

* No caso 6, 50 minutos diz respeito ao total de tempo em que foi falado sobre o caso ao longo do programa, seja em comentários, seja em matérias. Dessa forma, 22 minutos é o tempo dos comentários feitos pelo apresentador do programa em relação ao caso em questão.

Em relação ao tempo das matérias, observamos que a menor, o Caso 1, possui pouco mais de sete minutos de duração, enquanto que a maior possui mais de dezessete minutos. Esses dados por si são reveladores de que as narrativas abordadas são bastante extensas, considerando-se o tempo médio de uma matéria de telejornal.

No que diz respeito ao tempo de fala do mediador, observamos que em apenas uma das matérias, o caso 2, o tempo de fala é inferior a 40% do tempo total da matéria. Esse dado, por si só, já evidencia o papel central que ele assume na construção da matéria. Entretanto, a manutenção do turno de fala não é o único indicativo do papel central do mediador na construção da matéria. Observamos também que mesmo quando acessa as fontes, o mediador o faz perguntas que sugerem a resposta e induzem a fala de quem as responde.

Em seguida, atentamos para a fala dos familiares da vítima, uma vez que ela também possui destaque no que diz respeito ao tempo de manutenção da fala. A fala dos familiares corresponde às segundas vozes que mais aparecem nas matérias. O seu tempo é quase tão grande quanto o tempo do mediador. Observamos, portanto, que a voz dos familiares e a dos mediadores representam quase a totalidade das vozes nas matérias pesquisadas, apesar de outros atores aparecerem também nessas matérias.

Um destaque deve ser dado às vítimas, que são abordadas na metade das matérias utilizadas. No caso 2, inclusive, sua participação por meio da fala, ocupa 7,28% do tempo da matéria. Ressaltamos duas características que as falas das meninas assumem, comportando certo espaço para contradição e algum nível de espontaneidade. No primeiro caso, ao mesmo tempo em que é apresentada como um ser frágil, divino, digno de proteção, há uma insistência por parte do mediador e, por vezes, dos familiares, de expor essa criança, que deveria ser protegida. Isso ocorre para fortalecer uma narrativa que induz ao sofrimento, relembra e compartilha detalhes da violência sofrida, amparado no desejo declarado de promover “justiça”; a segunda diz respeito à espontaneidade com que respondem às perguntas dos narradores, contradizendo uma versão previamente apresentada pelo repórter, o que dificilmente ocorre com os outros atores presentes nas narrativas.

Nos casos apresentados, instituições que têm alguma autoridade nas questões relativas à proteção e à promoção de direitos da criança, da mulher, entre outros, são quase que completamente ausentes. Estão ausente também atores do campo da assistência à criança, tais como psicólogos, assistentes sociais e outros. Não são

o Adolescente, com o Juiz da Criança e do adolescente; Promotoria de Defesa da Criança e do Adolescente, com o Promotor da Criança e do Adolescente e a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. A exceção é o caso 5, que traz em sua narrativa os conselheiros tutelares responsáveis pelo caso em questão. Entretanto, apesar da presença de dois conselheiros, o foco da fala recai no caráter factual do caso específico, não abordando a questão da violência sexual contra crianças do sexo feminino como um problema social complexo – não há preocupação com acompanhamento da criança e sim com o “fazer justiça”.

Outros atores presentes nas narrativas são sujeitos da comunidade em que a vítima está inserida. São, na maior parte dos casos, vizinhos e conhecidos da vítima e de sua família, questionados sobre detalhes do crime, assim como sobre detalhes outros da vida da própria criança. Dessa forma, a narrativa não só revitimiza a criança, quanto a induz a falar sobre o crime que sofreu, a ver e ouvir relatos sobre o caso, a ver a exposição midiática (não só na televisão, mas também na internet). Há ainda uma exposição da criança à comunidade no momento de produção da matéria, inclusive aos seus próprios pares, outras crianças.

Sobre esse processo de revitimização, Ventura (2017) fala do lugar estereotipado que a vítima assume a partir dos discursos midiáticos. Ela critica a linguagem simplista utilizada em narrativas midiáticas como responsáveis por uma dupla vitimização, dos crimes e dos discursos culpabilizantes da imprensa, que podem desmotivar, inclusive, outras vítimas de denunciarem agressões semelhantes.

Além dessas questões, ressaltamos que nas matérias analisadas, familiares dos supostos agressores são impelidos a participar. Em uma delas, inclusive, o caso 6, a entrevista é feita e gravada apesar da companheira do suposto agressor se negar a comentar o caso. Há uma insistência, por parte da mediadora em questão, para que haja a confirmação do discurso construído ao longo da matéria. Isso termina por comprometer esse tipo de cobertura que, usualmente, não reporta elementos novos e/ou versões diferentes sobre os casos, que fujam a este tipo de enquadramento.