Michel Foucault, no primeiro volume de História da sexualidade, deu um grande passo para a compreensão da dinâmica que envolve o sexo e o poder nas sociedades ocidentais, ao mostrar que a categoria sexo não é uma constante universal, mas sim um constructo discursivo marcado historicamente. Em outras palavras, o discurso em torno do sexo tem uma história, ou seja, é permeado pela historicidade. A cada momento histórico, ao longo da história da humanidade, houve diferentes maneiras de se conceituar, de se nomear e de se regular o sexo. Entretanto, ao longo desse fio descontínuo de categoriza- ções, há uma presença constante: a necessidade de se pôr o sexo em discurso, ou ainda, uma demanda de discursivização do sexo: “para dominá-lo, no plano real, necessário, primeiro, reduzi-lo ao nível da linguagem, controlar sua livre circulação no discurso, bani-lo das coisas ditas e extinguir as palavras que o tornam presente de maneira demasiado sensível” (FOUCAULT, 1994, p. 21).
Entre as diferentes estratégias de pôr o sexo em discurso, Foucault identifica, na prática da confissão, estabelecida pela Igreja Católica, um importante ponto de ruptura. É a partir do rito da confissão que se estabelecem a nomeação dos desejos e o reconhecimento de determinada formas de expressão da sexualidade como “pecado” e “perversão”. Importante salientar que a confissão tornou-se ferramenta privilegiada para a produção da Verdade, tal como afirma Foucault:
A confissão passou a ser, no Ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizadas para produzir a verdade. [...] confessam-se os crimes, os pecados, os pensamentos e os desejos, confessam-se passado e sonhos, confessa-se a infância; confessam-se as próprias doenças e misérias [...]. Tanto a ternura mais desarmada quanto os mais sangrentos poderes têm necessidade de confissões (FOUCAULT, 1994, p. 59).
Esse policiamento do sexo, agenciado por sua colocação no discurso, não deve ser em nenhum momento confundido com alguma espécie de interdição ou repressão sobre o sexo. Pelo contrário, é graças à disseminação do sexo no discurso e à produção de verdades (amparadas por diversas instituições, tais como a igreja, a clínica e _ mais tarde _ a biologia, o direito e a psicologia) que este pode ser nomeado e classificado: “censura sobre o sexo? Pelo contrário, [estas dinâmicas discursivas] constituem-se uma aparelhagem para produzir discursos, suscetíveis de funcionar e de ser efeito de sua própria economia” (FOUCAULT, 1994, p. 26). Logo, a normativização de determinadas práticas sexuais não constitui uma mera arbitrariedade moral: ela serve, fundamen- talmente, para possibilitar a manutenção da sexualidade pelo poder estatal: “cumpre falar do sexo como de uma coisa que não se deve simplesmente condenar ou tolerar mas gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos. O sexo não se julga apenas, administra-se” (FOUCAULT, 1994, p. 27).
Foucault evidencia a falácia daquilo que chama de “a hipótese repressiva”: não apenas o que é dito põe o sexo em discurso, produzindo saberes e verdades sobre o sexo, mas também o que não é dito (ou seja, aquilo que é silencia- do) também produz saberes dentro desse jogo de estratégias de produção da verdade sobre o sexo:
O próprio mutismo, aquilo que se recusa dizer ou que se proíbe mencionar, a discrição exigida entre certos locutores não constitui propriamente o limite absoluto ao discurso, ou seja, a outra face do que estaria além de uma fronteira rigorosa, mas, sobretudo, os elementos que funcionam ao lado de (com e em relação a) coisas ditas nas estra- tégias de conjunto. Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigida a uns e outros. Não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apoiam e atravessam os discursos (FOUCAULT, 1994, p. 30).
Tal como existem diferentes maneiras de se falar sobre a sexualidade, existem também diferentes maneiras de não se falar em sexualidade; dessa forma, os diferentes silêncios produzem diferentes sentidos, e calar configura-se
Prolegomena queer: gênero e sexualidade nos estudos literários
também como uma maneira de produzir um determinado saber (não menos comprometido) sobre a sexualidade. A partir dessas observações, Foucault chega à inseparabilidade das relações entre sexo e poder: “toda a sexualidade constitui o correlato de procedimentos precisos de poder” (FOUCAULT, 1994, p. 47). A partir daí, Foucault desenvolve a noção de dispositivo, pautado em estratégias (ou tecnologias) de produção da sexualidade e dos sujeitos da sexualidade.
Percebendo que uma “analítica” do poder faz-se muito mais pertinente do que uma “teoria” do poder, Foucault desenvolve a noção de dispositivo. Para entender tal noção, é importante ressaltar que o poder em Foucault não é um vetor vertical (opressores/oprimidos), mas sim uma rede de vetores. O dispositi- vo lança mão de quatro conjuntos estratégicos, situados historicamente a partir do século XVIII; tais conjuntos estratégicos, ao mesmo tempo que delimitam o que é lícito no campo das sexualidades, produzem os sujeitos ilícitos. Assim, a norma só consegue se estabelecer ao delimitar o seu exterior constituiti- vo, aquilo que está além da norma. Essas estratégias são: a) a histerização do corpo da mulher; b) a pedagogização do sexo das crianças; c) a socialização das condutas de procriação; e d) a psiquiatrização dos prazeres perversos. Tais estratégias produzem, respectivamente, a mulher histérica, a criança mastur- badora, o casal malthusiano (excessivamente reprodutivo) e o pervertido.
Essa última estratégia (a psiquiatrização dos prazeres perversos) é a que mais interessa aqui. Tendo se instalado profundamente no século XIX, é a nomenclatura dos prazeres perversos que dará origem a uma subjetividade singular: o sodomita. A prática da sodomia, em um primeiro instante vista de maneira ampla como o intercurso anal, inclina-se particularmente sobre o homem sodomita (visto que a mulher sodomita já estava “explicada” pela his- terização do corpo feminino, visto como um depósito de sexualidade), pois o homem que se submete ao intercurso anal afronta as leis da natureza. A partir de um dado momento, entretanto, inicia-se a incorporação das perversões ao corpo dos sujeitos perversos. Destarte, a sodomia deixa de ser uma perversão e dá lugar a um sujeito específico, o homossexual:
Esta nova caça às sexualidades periféricas provoca a incorporação das perversões e nova especificação dos indivíduos. [...] O homossexual do século XIX torna-se um personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma anatomia indiscreta, e, talvez, uma fisiologia misteriosa. [...]
A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida da prática da sodomia para uma espécie de an- droginia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um rein- cidente, agora o homossexual é uma espécie (FOUCAULT, 1994, p. 43-44).
Não apenas o homossexual é produzido como sujeito a partir da estratégia de psiquiatrização: são produzidos também o zoófilo, o autoerótico (adulto mas- turbador), o pedófilo, o fetichista, o sádico, o masoquista, entre tantos outros. O que, pois, evidencia a historicização dessas subjetividades? Ora, evidencia que tais “perversões” foram forjadas de forma a delimitar as zonas limítrofes que separam a sexualidade “saudável”, “legítima” e “natural” do sexo sem lei. Em outras palavras, as exceções foram cunhadas antes da regra, o que permite afirmar que a heterossexualidade só pode ser “inventada” (no sentido de “posta em discurso”) após os seus “outros” terem sido inventados.