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2 DIVERSIDADE, DIFERENÇA E MULTICULTURALISMO CRÍTICO:

2.2 Gênero: perspectivas universal, relacional e plural

A categoria gênero amadureceu ao longo do tempo, ganhando fôlego e força no meio social e acadêmico. Inicialmente utilizado para enfatizar a diferença entre os sexos, no âmbito da linguagem e dos papéis sociais, questionando o determinismo biológico, gênero

36 A abordagem plural de gênero não se refere à perspectiva justaposta das diferenças; a partir de Bento (2014a),

problematiza a diferença e a pluralidade. Assim, “a categoria de gênero, usada primeiro para analisar as diferenças entre os sexos, foi estendida à questão das diferenças dentro da diferença” (SCOTT, 1990, p. 85) representando uma forte aliada na luta contra a desigualdade, contrariando a falsa oposição construída entre teoria e política, que se referia a gênero como uma categoria acadêmica distanciada da atuação política.

Na fase de mudança do conceito de sexo, determinado pelo biológico e entremeado pela ideia de construção social, é criado o conceito de gênero, utilizado pelas feministas inglesas no final dos anos de 1960. Gênero era utilizado, sobretudo, para se referir às distinções socialmente construídas para homens e mulheres a partir das diferenças sexuais, portanto, o conceito ainda estava preso ao biológico, como suplemento e não substituto de sexo (NICHOLSON, 2000).

Para Matos (2008), mais do que um conceito ou ferramenta, gênero passa a ser um campo novo nas ciências humanas e sociais, porque traz uma nova compreensão da ciência, situando os discursos de verdade e questionando a hegemonia dos paradigmas científicos; através da perspectiva crítica, aponta na direção multicultural de ciência.

Gênero consolida-se como uma categoria analítica e política para tratar das diferenças e desigualdades das relações entre mulheres e homens, homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens. Na década de 1980, a categoria gênero envolve e articula-se a outras dinâmicas das diferenças, de classe social, de etnia, de raça, de geração, de sexualidade.

O conceito de gênero é polissêmico e envolve a relação entre natureza e cultura. Nicholson (2000) nomeia por “determinismo biológico” quando gênero é tratado de forma oposicional a sexo. Em outro movimento, gênero sobrepõe-se a sexo, definido por Nicholson (2000) de “fundacionismo biológico”.

O determinismo biológico concebe a distinção entre natureza e cultura, atribuindo à natureza uma condição estática e à cultura uma condição de construção. Dessa forma, sexo e gênero são categorias distintas, uma vez que sexo corresponde à determinação biológica, relativa ao corpo, enquanto gênero corresponde à construção cultural, relativa ao comportamento.

O fundacionismo biológico aproxima natureza e cultura, concebendo gênero de forma sobreposta a sexo, ou seja, o gênero como construção cultural tem a capacidade de produzir significados para o corpo.

Para Nicholson (2000), é necessário abandonar tanto o determinismo quanto o fundacionismo biológico, tendo em vista que a humanidade difere no seu interior, nas suas expectativas sociais, comportamentos, valores e também nos modos de compreender o corpo.

Desse modo, o corpo ganha movimento, dinamicidade e ultrapassa o limite do dado natural, determinado biologicamente, remetendo à compreensão de que gênero e sexo são produzidos culturalmente.

Através das contribuições de Butler (2010), este corpo imutável, intocado, é posto em questão porque ela considera que sexo e gênero são produções culturais/discursivas. A partir de Foucault, a autora diz que os corpos são governados por poderes diversos e reiterativos, chamados por Butler (2010) de performatividade37, que buscam dar-lhes materialidade, com o intuito de firmar a determinação heterossexual. Assim, “o gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser” (BUTLER, 2010, p. 59).

A sustância do corpo, sua concretude, é material; entretanto, esta matéria também está vinculada à materialização da norma. Desse modo, “não se pode, de forma alguma, conceber o gênero como um construto cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o ‘corpo’, quer como um suposto sexo” (BUTLER, 2010, p. 154). O corpo e o sexo, neste sentido, são construídos socialmente, também pelos discursos. Neste trabalho, evidenciamos as produções materiais e discursivas sobre as diferenças de gênero e de sexualidade, que têm possibilidades de produzir, reproduzir e também de transformar as desigualdades.

A produção cultural do gênero e do sexo demanda reflexão sobre os significados atribuídos à construção, que pode significar apreensão de uma cultura imposta, deslocamentos e, ainda, transformações. O risco de substituir a determinação do biológico pela determinação do cultural, ao conceber o gênero como construído culturalmente, pode configurá-lo como atributo ou marca inerente ao sujeito dotado de capacidades universais. No entanto, esta “marca” ou “atributo” são produtos de relações e não características específicas postas sobre as pessoas. Desse modo, nem o gênero nem a pessoa são substância universal, estão se fazendo na relação histórica e contextual.

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“A performatividade não é, assim, um ‘ato’ singular, pois ela é sempre uma reiteração de uma norma ou conjunto de normas. E na medida em que ela adquire o status de ato no presente, ela oculta ou dissimula as convenções das quais ela é uma repetição” (BUTLER, 2010, p. 167).

Para Butler, as possibilidades em relação às construções de gênero dependem dos limites discursivos e

Tais limites se estabelecem sempre nos termos de um discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que se apresentam como a linguagem da racionalidade universal. Assim, a coerção é introduzida naquilo que a linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero (BUTLER, 2013, p. 28).

A linguagem hegemônica determina a construção binária de gênero e de sexualidade; no entanto, a linguagem assim como a ciência ou parte dela também pode assumir perspectivas diversas.

Para Butler (2013), a subversão e os deslocamentos das compreensões naturalizadas dos padrões binários de gênero e de heterossexualidade podem ocorrer através da mobilização, da confusão, da paródia, do jogo de significados acerca dos gêneros, e não através de estratégias utópicas. Assim,

Observe-se não só que as ambiguidades e incoerências nas práticas heterossexual, homossexual e bissexual – e entre elas – são suprimidas e redescritas no interior da estrutura reificada do binário disjuntivo e assimétrico do masculino/feminino, mas que essas configurações culturais de confusão do gênero operam como lugares de intervenção, denúncia e deslocamento dessas reificações (BUTLER, 2013, p. 57).

Essas “confusões de gênero” (BUTLER, 2013) são as diferentes e dinâmicas configurações assumidas pelas pessoas que não se enquadram no padrão masculino ou feminino e, interventivamente, mexem, incomodam e “insultam” a “normalidade”. Para além de uma solução, estas confusões são ambíguas e difusas.

Embora seja considerada a importância das “paródias de gênero” como forma de denúncia, subversão e deslocamentos dos padrões binários de gênero, a mudança nas estruturas sociais produtoras das diferenças também é situada neste trabalho a partir do multiculturalismo crítico (MCLAREN, 1997).

Dessa forma, as contribuições do currículo da formação de professores, professoras para a prática pedagógica docente com as diferenças de gênero consideram a crítica lúdica aos padrões binários de gênero e heteronormativos e, sobretudo, evidenciam intervenções materiais nas práticas pedagógicas.

Butler (2013) sugere coalizões abertas como unidade provisória, que reuniria identidades fluidas para ações políticas. McLaren (1997) sugere um metadiscurso primário como forma de engajamento provisório em busca de alianças. Esse ponto de encontro fortalece a definição de utopia do multiculturalismo crítico, situada na pesquisa como “[...]

uma antecipação do futuro por intermédio de práticas de solidariedade e de comunidade” (MCLAREN, 1997, p. 151). Desse modo, as construções de gênero e de sexualidade assumem perspectivas plurais que, articuladas, podem intervir nos modelos binários e heteronormativos. A partir dessas contribuições, os estudos de gênero podem ser situados em três perspectivas que estabelecem superações. Inicialmente gênero é explicado a partir das oposições binárias entre o masculino e feminino; em seguida, a partir da perspectiva relacional e inter-relacional das diferenças e, por fim, a partir das dinâmicas das diferenças. Bento (2014a) configura os estudos de gênero em três tendências explicativas, definindo-as em universal, relacional e plural, com argumentações próprias acerca da sexualidade, do corpo e de gênero.

Para Bento (2014a), a tendência universal de gênero toma por base as produções feministas, evidenciada, sobretudo por Beauvoir ao tratar da origem e dos fundamentos da condição de subordinação das mulheres aos homens, a partir da biologia, da psicanálise e da economia. A contraposição ao paradigma naturalista é marcada pela emblemática frase de Beauvoir - “ninguém nasce mulher torna-se mulher” - para defender a possibilidade de transcendência, do “vir a ser” das mulheres. A intenção dessa autora é a desnaturalização do feminino. Ao dizer que, “em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável. Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno” (BEAUVOIR, 1980, p. 13), a autora incita as mulheres a se colocarem como sujeitos sociais, intervindo na determinação posta a elas pelos imperativos do biológico.

No entanto, os argumentos da tendência universal preservam a essencialização dos gêneros, reforçando a polarização fixa entre homens e mulheres. Mesmo enfatizando a dimensão cultural que produz a supremacia do homem sobre a mulher, a tendência universalista preserva a estrutura dos pares binários, através do corpo (BENTO, 2014a). Assim, “o corpo aqui é pensado como naturalmente dimórfico, como uma folha em branco, esperando o carimbo da cultura que, por meio de uma série de significados culturais, assume o gênero” (BENTO, 2014a, p. 71). Por mais que os significados culturais sejam alterados, a oposição binária é conservada, uma vez que o dado natural passa a ser intransponível.

A tendência relacional, para Bento (2014a), situa a partir dos construtos das produções feministas da década de 1990, a indagação da identidade singular e universal de mulher. Nessa tendência, a categoria gênero atenta para as diferenças de classe, de raça, de sexualidade, de religiosidade que permeiam a produção das mulheres, problematizando a

universalidade e essencialização tanto do feminino quanto do masculino, desdobrando-se, inclusive, nos estudos sobre as masculinidades. Para Bento (2014a, p. 74),

Este momento representou uma ruptura com um olhar que posicionava a mulher como portadora de uma condição universalmente subordinada, o que gerou, por um lado, uma representação da mulher-vítima e, por outro, do homem-inimigo, dois lados da mesma moeda: o patriarcalismo.

A compreensão revanchista que opunha mulheres contra homens passa a ser questionada pelo viés da relação, na qual homens e mulheres se constroem mutuamente. Essas relações também se dão no interior de uma mesma categoria, a partir das dinâmicas das diferenças (mulheres brancas e mulheres negras, mulheres nordestinas e mulheres sulistas, homens ricos e homens pobres). Bento (2014a) situa Joan Scott como a referência fundamental nesta tendência, uma vez que ela trata gênero como categoria de análise, apontando os processos históricos e o poder na configuração das relações de gênero.

Segundo Scott (1990, p. 14), “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder”.

O limite da definição de gênero como categoria de análise, para Bento (2014a), reside em situar gênero a partir das produções históricas e situar a diferença a partir do sexo, reforçando a matriz da relação binária (diferença sexual). Aqui se situa o ponto de encontro das tendências universal e relacional, ambas preservam o constructo biológico do sexo.

Em Bento (2014a), a superação das tendências universal e relacional é promovida pelos estudos queer, ao evidenciarem o padrão heterossexista e binário dessas tendências e anunciarem a dimensão plural das construções identitárias.

A Teoria Queer, decorrente de estudos difusos, se configura na segunda metade da década de 1980, nos EUA, sobretudo, em decorrência da AIDS (MISKOLCI, 2015), ela representa “[...] uma radicalização do questionamento da estabilidade e da fixidez da identidade feito pela teoria feminista recente” (SILVA, T. 2007, p. 105).

Com maior visibilidade a partir da década de 1990, os estudos queer propõem o cruzamento de fronteiras, que ultrapassam o limite de compreensão acerca da superação dos padrões que determinam o que é ser homem, mulher, heterossexual ou homossexual.

O termo assume a função política de evidenciar e converter o sentido pejorativo do conceito, utilizado como insulto às pessoas não heterossexuais (queer-estranho), em ferramenta de assunção do movimento. O termo associado ao que é considerado abjeto (MISKOLCI, 2015) assume uma perspectiva de contestação irreverente por parte dos

movimentos homossexuais, sobretudo, que se contrapõem à fixidez das identidades (LOURO, 2008).

Os estudos queer começaram a surgir no final da década de 1980, a partir do construcionismo e do pós-estruturalismo, mas sua ênfase está na desconstrução e nas políticas de identidade, que questionam as verdades e situam a impossibilidade de captar a realidade, as práticas sociais, que, para os pós-estruturalistas, são discursos. Os limites da teoria queer têm sido discutidos, uma vez que, ao desestabilizar e questionar as identidades, torna-se complicado estudá-las (GAMSON, 2006) e reivindicar direitos. A utilização do termo queer é protagonizada por Teresa de Lauretis, em 1990, numa conferência (MARTINEZ, 2015; OLIVEIRA; OLIVEIRA; MIRANDA, 2012).

Com base nas discussões e nos movimentos da década de 1980 acerca da orientação sexual, da contribuição de Foucault sobre as relações entre poder, saber e sexualidade, bem como de Rubin sobre a necessidade de separar os estudos de gênero dos estudos da sexualidade, surge a tendência plural (BENTO, 2014a). Ela se configura com

A idéia do múltiplo, da desnaturalização, da legitimidade das sexualidades divergentes e das histórias das tecnologias para a produção dos ‘sexos verdadeiros’ adquire um status teórico que, embora vinculado aos estudos das relações de gênero, cobra um estatuto próprio: são os estudos queer (BENTO, 2014a, p. 80).

Nessa tendência, as sexualidades são transitórias e não se prendem a definições binárias de macho e fêmea, uma vez que são plurais e não se fundam no sexo biológico. A tendência plural radicaliza a desnaturalização das relações dos pares binários, produzidas pelos discursos, e suas reivindicações não são de gêneros específicos, fixos, mas de trânsitos e possibilidades.

Este trabalho se situa nas tendências relacional e plural, uma vez que as reivindicações ainda estão presas à superação das desigualdades fundadas na argumentação do biológico, portanto, conservam-se como desigualdades de gênero.

No entanto, a compreensão de que as relações vão para além dos pares binários, envolvem identidades/identificações plurais, orientações sexuais dinâmicas e instáveis, também situa o trabalho na tendência plural. Essa tendência avança em relação às anteriores porque considera que a diferença é em relação às potencialidades humanas de se descobrir, construir e se reconstruir e não ao construto cultural fundado no sexo biológico. Além disso, essa tendência possibilita evidenciar as desigualdades que as pessoas homossexuais, bissexuais, intersex e trans sofrem cotidianamente e são invisibilizadas nas tendências anteriores porque estão presas ao referente heterossexual e aos pares binários.

Dessa forma, o currículo da formação e a prática pedagógica com as diferenças de gênero e de sexualidade dialogam com as demandas pela superação dos binarismos de gênero em busca de relações plurais. Articulada a gênero, a categoria sexualidade explicita sua polissemia, que repercute em práticas sociais diferenciadas, sobretudo, na educação.

2.3 Sexualidade: energia impulsionadora de vida, estimuladora de curiosidades e