Juventude e cidadania: representações de jovens de espaços populares sobre
4. A Comunidade Nova República: o exercício da cidadania em espaços populares
4.3. Gênero, sexualidade e gravidez: mães, meninas
A gravidez na adolescência virou um fenômeno nacional. Segundo dados do IBGE de 2001, 73% das jovens de 15 a 17 anos têm pelo menos um fi lho. Desde 1980, o número de adolescentes entre 15 e 19 anos grávidas aumentou 15%. Só para ter idéia do que isso signifi ca, são cerca de 700 mil meninas se tornando mães a cada ano no Brasil. Desse total, 1,3% são partos realizados em garotas de 10 a 14 anos. A região Nordeste, em comparação com as pesquisas anteriores do IBGE, Maranhão, Ceará e Paraíba, continua apresentando altas proporções de jovens adolescentes com fi lhos. Mas o que está por trás desse fenômeno? E por que, apesar de tantas informações através das mídias, das campanhas do Ministério da Saúde sobre métodos anticonceptivos, ainda assim, são elevados os índices de natalidade entre as jovens em sua maioria oriundas de espaços populares. Esta é uma das questões que buscamos responder com a presente pesquisa realizada na Nova República.
Algumas das meninas trabalham em suas casas em serviços domésticos. Muitas dessas adolescentes não estudam, interromperam seus estudos antes mesmo de concluírem o Ensi- no Médio e a grande maioria são mães antes dos 14 anos de idade. Nas ruas da comunidade percebemos grande concentração de adolescentes mães ou que estão grávidas.
Quando perguntamos se a Nova República é um bom lugar para a criação dos seus fi lhos, logo respondem que não e afi rmam não gostar de morar na comunidade, por ter tráfi co de drogas, por não ter uma área de lazer reservada para as crianças, por não ter escolas e creches onde pudessem deixar seus fi lhos para estudar e concluir seus estudos.
Muitas entrevistadas afi rmaram que um dos maiores problemas enfrentados pela Nova República é o alto índice de natalidade das jovens, fi cando em segundo lugar nas preocu- pações dos moradores, perdendo apenas para a violência, que ocupa o primeiro lugar.
A maioria das meninas entrevistadas afi rmou ter engravidado do namorado, ou seja, a maior parte dos casos de gravidez acontece dentro de relacionamentos estáveis, sendo que na primeira relação sexual elas afi rmam utilizar algum método anticoncepcional, contudo, na medida em que o relacionamento passa a fi car mais estável, há um relaxamento na uti- lização desses métodos. Quando perguntamos se a gravidez foi planejada, todas afi rmam
que não. Algumas das entrevistadas afi rmam ainda fi carem constrangidas em pedir ao parceiro para usar a camisinha, porque seus namorados ou maridos poderiam pensar que elas estão desconfi ando dos mesmos, ou pior, que elas poderiam estar doentes. Não usam pílulas por serem caras e muitas vezes pela difi culdade de encontrarem esse medicamento no posto de saúde local.
A difi culdade de negociar a contracepção com o parceiro e a falta de um projeto edu- cacional e profi ssional para estas jovens são aspectos fundamentais para compreender o fenômeno. Para as jovens desta comunidade, a maternidade signifi ca a independência em relação aos pais, embora tornem-se dependentes dos companheiros.
Nas entrevistas nos surpreendemos quando as mesmas nos afi rmam que a maternidade não foi algo ruim para suas vidas, apesar de fi car mais difícil para estudar, fazer alguns cursos ou mesmo sair para as festas, elas agora têm a sua própria casa e são “donas dos seus
próprios destinos”. Motivações de ordem psicológica e ou social estão presentes nas falas
dessas meninas.
O maior problema que a precocidade da natalidade acarreta nas vidas dessas meninas é o comprometimento com os estudos. O impacto sobre os estudos é bem maior para as jovens mães do que para seus companheiros. No primeiro, ano após o nascimento dos bebês, a maiorias das entrevistadas afi rmam ter tido problemas em freqüentar a escola. Muitas delas pararam de estudar temporariamente e algumas, defi nitivamente.
Os jovens pesquisados vivenciam múltiplas carências, mas vêm desenvolvendo uma consciência de direito à inserção, á participação e a uma vida digna que se manifesta em alguns discursos e práticas sociais. Os jovens da S. Rafael sentem-se deslocados e pouco identifi cados com o local onde residem, o que pode ser lido como crítica a precariedade de condições do lugar, porém, os da N. República identifi cam-se com o lugar, desenvolvendo uma consciência do direito á inserção que é visível em suas práticas culturais.
No contexto sócio-político-cultural em que vivem, noções de cidadania habitam os discursos desses jovens em termos de certa consciência e percepção de ausência de alguns direitos sociais, como segurança pública, educação e lazer. Percebeu-se a consciência que têm da ausência do Estado, omisso na prestação de serviços públicos essenciais à vivência da cidadania, sem que soubessem identifi car canais e forjar táticas para reivindicar estes direitos e serviços.
Referências:
ABAD, Miguel. Crítica Política das políticas de juventude. In: M. V. de Freitas e F. de C. Papa (orgs.). Políticas Públicas: Juventude em Pauta. São Paulo: Cortez; Ação Educativa, Asses- soria, Pesquisa e Informação: Fundação Friedrich Ebert, 2003.
BARBALET, J. M. A cidadania. Lisboa: Editorial Estampa, 1989.
COVRE, M. de Lourdes M. O que é cidadania. São Paulo: Brasiliense: 1993.
DAGNINO, Evelina. Os movimentos sociais e a emergência de uma nova noção de cidadania. In: DAGNINO, E. (org.) Anos 90: Política e sociedade no Brasil. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.
RIBEIRO, R. J. Política e Juventude: o que fi ca da energia. In: Novaes, R. e Vannuchi, P. (orgs.)
Juventude e Sociedade: Trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Ed. Perseu
Abramo, 2004.
Notas:
1 O Montepio é uma instituição “ancestral” do IPEP (Instituto de Previdência do Estado da Paraíba),
que além de fi nanciar projetos de habitação também era órgão competente na área de saúde.
2 Nela existe a escolas estadual São Rafael e a escolinha da E.B.E (Entidade Benefi cente Evangélica),
ONG atuante na comunidade, ambas de ensino fundamental.
3 Programa de Saúde da Família.
4 Fundação de Ação Comunitária, órgão do Governo do Estado da Paraíba.
5 O HIP-HOP é composto de quatro elementos, são eles: RAP, que é basicamente a música e quem a
faz é o MC; BREAK, que é a dança e quem realiza são denominados B-Boys; GRAFITE, que é a arte plástica do movimento, a pintura, e quem o faz é o grafi teiro; E por fi m há o DJ, discotecagem, que está ligado diretamente ao RAP, geralmente todo grupo de Rap possui um DJ.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO