De acordo com a discussão anterior, verifica-se que os tipos de textos apresentados no ensino tradicional são os clássicos: descritivo, narrativo e dissertativo; entretanto, atualmente, verifica-se que o ensino de texto tem se baseado na Teoria dos Gêneros do Discurso (Bakhtin, 1979), dos processos interativos de sala de aula, como orientam os PCN, “unidade
53 organizadora de currículos e de progressões no ensino fundamental”, Rojo, (1999:03).
Segundo Koch, 1984:19, “A interação social por intermédio da língua caracteriza-se, fundamentalmente, pela argumentatividade...”. O ser humano, constantemente, avalia, julga e critica, formando opinião a respeito do mundo que o rodeia; mas também influencia o comportamento dos indivíduos que o cerca, a fim de que compartilhem de suas opiniões.
O artigo de opinião apresenta como característica a exposição das idéias e opiniões do autor sobre fatos polêmicos. Entretanto, para que tal situação ocorra é necessário que haja leitura, uma vez que ninguém escreve sobre o que não sabe, porque não haverá reflexão a respeito de determinado assunto, não haverá resposta ao posicionamento do autor se não houver leitura.
Neste gênero textual, apresentam-se e discutem-se fatos, dados e pontos de vista sobre um tema proposto. O bom senso, a lógica, a razão e a verdade devem ser o alvo de um texto dessa natureza.
O interlocutor é considerado como um leitor universal, ou seja, qualquer leitor interessado naquele assunto poderá ler o texto; porém desse leitor deseja-se aderência para que este aceite as idéias do autor, é preciso que o texto apresente-se de forma clara e objetiva. Pois é como bem observa Bakhtin, (1997:321),
“Enquanto falo, sempre levo em conta o fundo aperceptivo sobre o qual minha fala será recebida pelo destinatário: o grau de informação que ele tem da situação, seus conhecimentos especializados na área de determinada comunicação cultural, suas opiniões e suas convicções, seus preconceitos (de meu ponto de vista), suas simpatias e antipatias (...) pois é isso que condicionará sua compreensão responsiva de meu enunciado.”.
54 Para o autor, são esses fatores que nos levarão a escolher o gênero enunciativo adequado, os elementos lingüísticos, enfim o estilo textual apropriado ao meu interlocutor.
Os gêneros textuais são, geralmente, heterogêneos. Um gênero pode em toda a sua composição, apresentar variadas seqüências tipológicas, do tipo: descritivo, injuntivo, narrativo, expositivo. De acordo com Adam, (1992), na maioria das vezes, nos gêneros, uma destas seqüências se destaca sobre as demais, assim, é possível, metodologicamente, classificá-las como narrativos, descritivos ou argumentativos.
Nas proposições de Adam, a argumentação realiza-se lingüística e cognitivamente por meio de fases tais como a exposição da tese anterior supostamente admitida a respeito de um tema; a premissa – constatação de partida da argumentação; a apresentação de argumentos; a apresentação de contra-argumentos e a conclusão. Nesse sentido, podemos considerar o artigo de opinião como um gênero organizado, tendencialmente, pela seqüência argumentativa.
Abaixo apresentamos um esquema de representação para a superestrutura argumentativa segundo Adam, (1987a), (apud: Prestes, 1999, p.123): Superestrutura Argumentativa ... : : : : : : : : : :
Tese Premissas Cadeia de Conclusão Nova anterior Argumentos Tese
Fig. 2: Superestrutura argumentativa
Segundo Selma et al (2001:120), “... a argumentação é vista como uma atividade discursiva e social, orientada para a resolução de uma
55 diferença de opinião ...”. Assim sendo, a argumentação é uma atividade essencial à vida do homem, por saber-se que no cotidiano os indivíduos estão em constante negociação nas relações interpessoais.
Nesta perspectiva dialógica, o indivíduo busca interagir e defender seus pontos de vista, por meio de operações lingüísticas que lhe proporcionem o desenvolvimento de uma melhor elaboração textual. Tendo em vista que esta composição pode ser fruto tanto da interação face a face (oralidade), quanto pode ser da escrita.
Como operações lingüísticas e de raciocínio, de acordo com Selma et al (2001:121), a argumentação existe a partir de alguns pressupostos, ou seja, para existir argumentação é necessário que:
haja um ponto de vista do tema a ser discutido,
quem o propõe deve estar preparado para defendê-lo, de modo que torne sua posição aceitável,
as razões apresentadas na argumentação consistem em conceitos, valores, regras gerais, entre outras.
Na apresentação de um tema, deve-se ter claro que para cada posição defendida, haverá sempre a possibilidade de contestações, restrições, dúvidas e contra-argumentos por parte dos envolvidos com pontos de vista plural.
O Artigo de Opinião, texto de natureza argumentativa, apresenta estratégias discursivas que objetivam convencimento do leitor. De acordo com Kaufman & Rodríguez (1995:27) entre as estratégias discursivas encontram-se:
as acusações claras aos oponentes; as ironias;
as insinuações; as digressões;
as apelações à sensibilidade ou, ao contrário, a tomada de distância através do uso das construções impessoais, para dar objetividade e consenso à análise realizada;
56 a retenção de recursos descritivos – detalhados e precisos, ou em relatos em que as diferentes etapas de pesquisa estão bem especificadas com uma minuciosa enumeração das fontes da informação.
Tais estratégias realizam-se, lingüisticamente, numa trama argumentativa em que há uma predominância de:
orações enunciativas que servem para relativizar os alcances e o valor da informação, o assunto em questão; orações dubitativas e exortivas que servem para convencer
o leitor a aceitar suas premissas como verdadeiras.
Assim podemos constatar que a interpretação do artigo de opinião é feita por meio da percepção ideológica de seu autor, identificando-se os interesses, as circunstâncias e os propósitos com que foi organizada a informação exposta. Para tanto, utilizam-se as estratégias de referência exofórica, a integração crítica dos dados do texto com os recolhidos em outras fontes e a leitura atenta das entrelinhas a fim de converter em explícito o que está implícito.
O discurso argumentativo apresenta elementos específicos que o torna uma tarefa difícil quanto a sua elaboração na linguagem escrita. Sua complexidade se deve ao caráter difuso dos temas a ser discutidos. Conforme Selma at al, (2001:127), uma pesquisa feita por Mattoso, (1998), a respeito da difícil tarefa de definir e precisar os conceitos usados nas argumentações de escritores adultos (universitários), permitindo concluir que “... boa parte das dificuldades de organização conceptual na escrita argumentativa tem sua origem na própria ‘vagueza’ dos temas sobre os quais se argumenta.”
Neste capítulo, no intuito de identificar as concepções sobre gêneros textuais e artigo de opinião, apresentamos as abordagens que analisam esses tópicos, por meio das quais pudemos refletir e considerar o artigo de opinião como um gênero organizado a partir de uma seqüência
57 argumentativa. Apresentaremos a seguir os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos, com base nos estudos de Bronckart, (1999).
3.2 Mecanismos de textualização e mecanismos enunciativos no artigo