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3 ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NA CONTEMPORANEIDADE: NOVOS

3.2 Gêneros textuais – Conceitos, usos e funcionalidade

A vida social contemporânea exige do indivíduo o desenvolvimento de habilidades comunicativas que possibilitem a interação participativa e crítica no mundo, a fim de intervir de maneira positiva na dinâmica social. O conhecimento sobre as práticas discursivas e sociais torna-se um pré-requisito para que se ingresse nessa dinâmica com menos ingenuidade e mais capacidade de prever, perceber, produzir, negociar sentidos por intermédio da linguagem (MEURER et al., 2002). Cada vez mais, se reconhece a necessidade de desenvolver discussões acerca dos gêneros que contribuem para organizar e estabilizar as atividades cotidianas de comunicação.

As observações relativas aos gêneros não são tão recentes. Platão, seguido por Aristóteles, Horácio e Quintiliano, já abordava, no âmbito literário, questões sobre os gêneros líricos, épicos e dramáticos. Numa perspectiva contemporânea, tem-se outra visão da análise dos gêneros que fazem parte dos postulados linguísticos. O estudo dos gêneros não corresponde somente à área da Literatura, mas também está presente no campo da linguagem, fazendo referência aos textos e aos domínios discursivos7 neles presentes. Conforme Rojo (2008):

Retomada das antigas retórica e poética, muitas vezes pelo percurso das releituras bakhtinianas, a noção de gênero e as análises de gêneros diversos têm sido objeto de reflexão de numerosas escolas e vertentes teóricas de análise do discurso. Da Escola de Sidney à de Genebra, da nova retórica à abordagem sistêmico-funcional, da linguística de corpus à reflexão bakhtiniana, gêneros de discurso/texto têm sido objeto de trabalho de muitos linguistas, analistas de discurso e linguistas aplicados (p. 76).

Gênero é facilmente usado, hoje, para fazer referência a uma categoria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou escrito, com ou sem aplicações literárias. A expressão “gênero” vem sendo cada vez mais utilizada por diversas

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De acordo com Marcuschi (2010), o domínio discursivo é usado “para designar uma esfera ou instância de produção discursiva ou de atividade humana. Esses domínios não são textos nem discursos, mas propiciam o surgimento de discursos bastante específicos. Do ponto de vista dos domínios, falamos em discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso etc. [...]”. (p. 24).

áreas do conhecimento, como a Retórica, a Análise do Discurso, a Sociologia e, claramente, a Linguística. Desta maneira, pode-se afirmar que o estudo do gênero está se tornando multidisciplinar e suas discussões englobam não só as descrições linguísticas, como também a compreensão de texto e de discurso. Segundo Beaugrande (1997),

(...) deve-se ter o cuidado de não confundir texto e discurso como se fossem a mesma coisa. Embora haja muita discussão a esse respeito, pode-se dizer que texto é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gênero textual. Discurso é aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos. Em outros termos, os textos realizam discursos em situações institucionais, históricas, sociais e ideológicas. Os textos são acontecimentos discursivos para os quais convergem ações linguísticas, sociais e cognitivas (apud MARCUSCHI, 2010, p. 25).

Por meio desse debate, referente à dissociação dos conceitos de texto e de discurso, não se quer retomar uma visão estruturalista dicotômica em relação aos aspectos da língua, mas deixar claramente explícito que, dentro do sistema de comunicação, há um entrecruzamento desses dois conceitos e não uma sobreposição. A partir dessas afirmações, pode-se ratificar que, dentro dos postulados científicos da linguagem, há uma subdivisão metateórica (ROJO, 2005) no estudo dos gêneros: uma teoria de gêneros de texto ou textuais e uma teoria de gêneros do discurso ou discursivos.

Sobre a teoria dos gêneros do discurso, tem-se o enfoque voltado para o estudo das situações de produção dos enunciados ou textos, em seus aspectos sócio-históricos. Já a teoria dos gêneros textuais preocupa-se com a descrição da materialidade do texto. Importante afirmar que, embora os trabalhos possam adotar vias metodológicas diferentes para o tratamento com os gêneros, mesmo sendo ambos de influência bakhtiniana, todos acabam por definirem aspectos bastante salutares de serem observados, discutidos e entendidos pelos usuários da língua. Nesta pesquisa, a expressão gênero textual representa a imbricação das características e dos postulados conceituais relativos a texto e a discurso.

Por meio de um olhar histórico, percebe-se que a amplitude dos gêneros textuais modifica-se com o passar do tempo, ou seja, pela evolução histórica e social, como também, consequentemente, sofre expressiva influência dos ritos e anseios culturais das sociedades que deles necessitam e fazem uso. Vê-se, então, que a partir do surgimento de um gênero textual, há uma interação funcional deste com as culturas em que se desenvolve. Segundo Marcuschi (2010):

(...) numa primeira fase, povos de cultura essencialmente oral desenvolveram um conjunto limitado de gêneros. Após a invenção da escrita alfabética por volta do século VII a.C., multiplicam-se os gêneros, surgindo os típicos da escrita. Numa terceira fase, a partir do século XV, os gêneros expandem-se com o florescimento da cultura impressa para, na fase intermediária de industrialização iniciada no século XVIII, dar início a uma grande ampliação. Hoje, em plena fase da denominada cultura eletrônica, com o telefone, o gravador, o rádio, a TV e, particularmente o computador pessoal e sua aplicação mais notável, a internet, presenciamos uma explosão de novos gêneros e novas formas de comunicação, tanto na oralidade como na escrita. (p. 20).

Os gêneros discursivos / textuais são formas de enunciados, escritos ou orais, ‘relativamente estáveis’, que o ser humano faz uso para se comunicar em todas as esferas da atividade humana (BAKHTIN, 2003). Independente do local e da forma como forem utilizados, eles constroem as ferramentas da comunicação e são os responsáveis pela interação verbal, devendo ser levado em consideração o momento histórico e os aspectos culturais. Além disso, deve-se verificar para quem se está produzindo o texto e quais as suas finalidades. Os gêneros surgem de processos sociais em que os indivíduos tentem se compreender para coordenar atividades e compartilhar significados, visando a seus propósitos práticos. Para Bakhtin (2003),

o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo, o estilo e a construção

composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. (p. 261).

Reforçando os postulados bakhtinianos, os gêneros não são entidades formais, mas comunicativas, “são formas verbais de ação social relativamente estáveis realizadas em textos situados em comunidades de práticas sociais e em domínios discursivos específicos” (MARCUSCHI, 2010, 26). Eles são fenômenos históricos, extremamente relacionados à vida social e cultural de uma comunidade. Os gêneros textuais configuram as formas distintas da linguagem produzidas em situações diferentes. Essas formas organizam a língua nos diversos momentos comunicativos, colocando-a em uso social.

Dessa forma, cada esfera de utilização linguística elabora seus tipos de enunciados, sejam jornais, programas de humor, receitas de bolo, poemas e, até mais recentemente, e-mails. Os gêneros são incontáveis, por serem construídos sócio-historicamente e também por possuírem estruturas formais maleáveis, dinâmicas e plásticas, as quais se diferenciam à medida que o próprio conhecimento se desenvolve cotidianamente entre os falantes.

Essa noção de maleabilidade e de dinamismo em relação aos gêneros textuais faz emergir duas conclusões. A primeira delas é a de que não se pode definir um gênero por meio de certas propriedades necessárias e suficientes, “(...) um gênero pode não ter determinada propriedade e ainda continuar sendo aquele gênero”. (MARCUSCHI, 2010, p. 31). Um bilhete ainda é um bilhete, ainda que não seja assinado.

A segunda conclusão diz respeito a poder existir a hibridização de uma configuração textual, a que se denomina como intergênero. Este acontece quando um determinado texto, tendo o seu formato canônico, passa a ser classificado, por mudanças de configuração, como um novo gênero. É o caso de um poema que apresente configuração de um artigo de opinião; de uma receita que apresente idiossincrasias de um poema; dentre outros.

Geraldi (1997) delimita, de forma implícita, a necessidade de se fazer uma interligação entre os gêneros textuais (sistemas de referência) e as operações discursivas:

‘Há’ dois níveis que, evidentemente, se entrecruzam: aquele da produção histórica e social de sistemas de referência em relação aos quais os recursos expressivos se tornam significativos e aquele das

operações discursivas que, remetendo aos sistemas de referência,

permitem a intercompreensão nos processos interlocutivos apesar da vagueza dos recursos expressivos utilizados. Nestas operações pode se dizer que há ações que os sujeitos fazem com a linguagem e ações que fazem sobre a linguagem; no agenciamento de recursos expressivos e na produção de sistemas de referências pode-se dizer que há uma ação da linguagem. (p.16).

O gênero interage em situações comunicativas da língua como um recurso empregado para alcançar um objetivo – a formação e a prática discursiva – por meio de suas diversidades. A ideia de que todo ser é livre para se manifestar discursivamente é contraditória, pois a sociedade molda o enunciado linguístico sob vários aspectos e isso leva a determinadas ações específicas. De fato, os gêneros textuais são tipos e modelos que constroem a totalidade discursiva, isso porque se eles não existissem a comunicação seria quase irrealizável.

A comunicação verbal acontece tendo algum gênero textual como suporte, sendo impossível se comunicar verbalmente sem que se faça uso de algum gênero. Daí, a importância de compreendê-los e saber utilizá-los. Os gêneros textuais não só apresentam um conjunto de características que auxiliam o indivíduo como materialidade necessária à prática discursiva, como também diversificam a capacidade de o homem produzir textos ao longo da sua vivência em meio social. Como afirma Bakhtin (2003):

Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em formas de gêneros e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, adivinhamos um determinado volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso) uma determinada construção composicional, prevendo o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em seguida apenas se diferencia no processo da fala.(p.283).

Importante se faz enfatizar também que tanto as expressões comunicativas orais quanto as escritas apresentam múltiplas diversidades na construção de sentido, ou seja, as formas de comunicação são variadas, possuindo amplo campo de utilização. Assim, a afinidade com os inúmeros gêneros enriquece o saber discursivo do indivíduo, possibilitando que ele exerça uma ação linguística diante da extensa realidade comunicativa.

Um ponto que vem sendo investigado recentemente a respeito dos gêneros textuais e que tem causado muitos questionamentos e equívocos, é em relação ao estudo do suporte dos gêneros – meio pelo qual o texto se manifesta sendo muitas vezes confundido como o próprio gênero. Para um melhor entendimento de suporte textual, pode-se tomar como exemplo o livro didático, em particular o de língua portuguesa.

O livro didático carrega consigo um conjunto de gêneros textuais definidos (contos, charges, notícias de jornal, receitas, cartas, poemas, entre outros), isso o torna um suporte textual com características especiais e não o próprio gênero. O suporte não determina o gênero, mas é indispensável para que ele se concretize e se torne conhecido na sociedade. “Entendemos aqui como suporte de um gênero um lócus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto”. (MARCUSCHI, 2008, p.174).

Os suportes são classificados em convencionais e incidentais. Os suportes convencionais são aqueles produzidos para uma finalidade que é portar ou fixar os textos, como exemplo pode-se considerar livros, revistas, jornal (diário), televisão, rádio, telefone, outdoor, folder, faixas, encartes. Já os suportes incidentais são aqueles que surgem eventualmente em determinada situação, tendo ilimitadas possibilidades de realização na relação com os textos escritos. Compreendem-se como suportes incidentais: embalagem, muros, paredes, fachadas, estações de metrô, paradas de ônibus, corpo humano, entre outros.

Outro aspecto teórico relevante para este contexto e fundamental para qualquer trabalho de produção e compreensão textual, é perceber a diferença entre o que se convencionou chamar tipo textual e gênero textual (MARCUSCHI, 2010). Muitas vezes, esses dois são confundidos por serem partes constitutivas para o

funcionamento da língua. Os gêneros e os tipos textuais diferenciam-se, principalmente, por seus aspectos funcionais.

Os tipos textuais são categorias com forma estabelecida, caracterizados e definidos por seus aspectos estruturais, pelos elementos que os constituem e por sua funcionalidade, seja pela maneira como são construídos ou por aparecerem em pequena quantidade, sendo encontrados em qualquer gênero textual. Dentre os tipos existentes, pode-se citar: o texto narrativo, o texto argumentativo, o texto expositivo, o texto descritivo e o texto injuntivo.

O texto narrativo é designado como um enunciado indicativo de ação e tem como objetivo principal informar e/ou relatar fatos que ocorreram em determinado momento, de interesses voltados para todo público. A intenção do texto argumentativo, por sua vez, é convencer, trata-se de um enunciado de atribuição de qualidade, que faz uso do verbo ser no presente e de adjetivos, utilizando uma linguagem clara e objetiva.

O texto expositivo trata-se de um enunciado de identificação e de ligação de fenômenos, supondo que o emissor não tem conhecimento de determinado assunto, faz-se descrição detalhada e pode-se encontrar este tipo de texto nos livros didáticos. A descrição é um texto de estrutura simples, por meio dele o autor pode descrever situações, pessoas, objetos, lugares entre outras coisas. Por fim, o texto injuntivo, que são enunciados com a intenção de provocar ações, indicando procedimentos a serem realizados e faz uso do verbo no imperativo. (MARCUSCHI, 2010).

Os tipos textuais servem “para designar uma espécie de construção teórica (em geral uma sequência subjacente aos textos) definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas”. (MARCUSCHI, 2010, p. 23). Já os gêneros textuais são inúmeros e estão disponíveis em todas as manifestações sociocomunicativas, são produzidos e concretizados diante das ações discursivas humanas e do contexto em que estão inseridos, tendo funções definidas e suas particularidades são compostas à medida que os textos se materializam, como já fora afirmado anteriormente.

Entre a infinidade de gêneros existentes hoje são exemplos: o telefonema, romance, carta pessoal, reportagem, aula expositiva, cardápio de restaurante, e- mail, receita, bula de remédio, resenha, edital de concurso, charge, notícia de jornal, piada, encarte, edital de concurso, lista de compras, piadas, resenhas, bate-papo por computador, entre outros. Segundo Marcuschi (2008),

gênero textual refere os textos materializados em situações comunicativas recorrentes. Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. (p.155).

A pretensão em trabalhar gêneros textuais na sala de aula é de proporcionar condições adequadas de elaboração e desenvolvimento de um trabalho linguístico que tenha significação, visto que a leitura é constituída pelo conhecimento e pelas experiências do contato com os diversos gêneros. Estes possibilitam aos docentes um ensino contextualizado, levando-os a discutirem as ações e os efeitos de sentido que os homens manifestam em forma de textos. Marcuschi (2010) ainda afirma que a inclusão dos gêneros, em sala, tem o objetivo de adaptar os alunos às transformações sociais e culturais, dando-lhes subsídios para um amplo desenvolvimento linguístico e discursivo.

Através do ensino dos gêneros textuais, pode-se tratar da linguagem, do pensamento humano, da cultura, da organização social, do funcionamento das leis e do momento político pelo qual passa, atualmente, o seio social. Ao se debaterem temas como estes, os alunos se tornam mais competentes para agirem de forma crítica e transformadora no âmbito social.

Essa interação dos alunos com o texto contribui para que sejam construídos conhecimentos em situações reais bem definidas, como também a criação de novos textos. Pode-se compreender que o resultado dessa interação texto/leitor e leitor/texto é outro texto recriado pelo leitor diferente do original (MAROTE, 2003). Ou seja, cabe ao leitor (aluno) atribuir sentidos ao texto, fazendo associações, interpretando e construindo novos textos.

Por meio da prática da leitura e da interpretação dos diversos gêneros textuais, são reunidas as experiências vividas no cotidiano dentro do processo de ensino-aprendizagem. Ao selecionar materiais para leitura, deve-se observar o que é interessante para os alunos, a fim de que aconteçam a interação, a aceitação e o prazer em ler, levando em conta os valores culturais e a utilização de uma linguagem clara, visto que os gêneros trazem diferentes valores e não são, simplesmente, para serem lidos, mas também para serem compreendidos.

Trabalhar com os gêneros, nas aulas de Língua Portuguesa, é permitir a inclusão da leitura; da compreensão / interpretação; da análise linguística e da produção textual, os quais são a base para um ensino que contemple a contextualização. Para Ilari, “o objetivo fundamental do professor de português é o de ampliar a capacidade de comunicação, expressão e interação pela linguagem”. (1997, p.9).

É importante reafirmar que os gêneros dispõem de amplas propriedades discursivas da linguagem, isto é, “cada gênero do discurso em cada campo de comunicação discursiva, tem a sua concepção típica de destinatário que o determina como gênero” (BAKHTIN, 2003, p.301). Os textos têm características distintas, o que se denomina tipologia dos gêneros. Sua utilização é feita de acordo com o momento histórico, a quem se destina, isto é, precisa-se dominar o gênero para empregá-lo de forma livre com base no que está sendo determinado pela comunicação.

A partir dessa compreensão referente a gênero, os discentes apreenderão os aspectos linguísticos e passarão a utilizá-los, de forma consciente, tornando os seus discursos claros e eficazes para o que se propõem. O estudo dos gêneros tem como principal intenção conduzir e construir interação entre o aluno, o professor e a sociedade, por meio da linguagem utilizada, seja ela formal ou informal. Sobre o trabalho com os gêneros na escola, é importante se levar em consideração o que afirmam Schneuwly e Dolz (1999):

a) Toda introdução de um gênero na escola é o resultado de uma decisão didática que visa a objetivos preciosos de aprendizagem que são sempre de dois tipos: trata-se de aprender a dominar o gênero, primeiramente, para melhor conhecê-lo ou apreciá-lo, para melhor saber compreendê-lo, para melhor produzi-lo dentro na escola ou fora dela e, em segundo lugar, para desenvolver capacidades que

ultrapassam o gênero e são transferíveis para outros gêneros próximos ou distantes. (...).

b) Pelo fato de que o gênero funciona num outro lugar social, diferente daquele em que foi originado, ele sofre, forçosamente, uma transformação. Ele não tem mais o mesmo sentido; ele é, principalmente, sempre – nós acabamos de dizê-lo – gênero a aprender, embora permaneça gênero para comunicar. (...) Trata-se de colocar os alunos, ao mesmo tempo, em situações de comunicação que estejam o quanto mais próximas de verdadeiras situações de comunicação que tenham um sentido para eles a fim de melhor dominá-las como realmente o são, sabendo, o tempo todo, que os objetivos visados são (também!) outros. (p. 10).

Os gêneros, quando expostos e utilizados na prática escolar, proporcionam a interação e o contato do usuário da língua com a pluralidade discursiva que circula no seu dia-a-dia, fazendo com que eles possam construir os seus próprios conhecimentos linguísticos. Segundo Bakhtin (2003),

Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (onde isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular de comunicação; em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso. (p.285).

Todos os conceitos (de gênero textual, de intergênero, de tipo textual, de suporte), apresentados e discutidos neste subitem, servirão de base para a elaboração da sequência didática proposta nesta pesquisa, pois dentre os componentes do ensino contextualizado de Língua Portuguesa todos esses aspectos teóricos são, contemporaneamente, abordados.