Para compreender a C&T Como uma das formas de conhecimento produzido
1.1.3. Gênese da articulação entre C&T
Freeman (1974, p.21) destaca que até a década de 1950, alguns economistas consideravam a articulação entre ciência e tecnologia (em
-bora importantes) como variáveis exógenas ao crescimento econômico de
um país. A atenção era voltada para a racionalização do trabalho e maior produtividade materializada e comercializada por mercados internos e externos, sem necessariamente haver uma fundamentação mais articula-da de conhecimentos para acompanhamento, elaboração e inovação de produtos tecnológicos. Pelo contrário, a preocupação era investir em pro-dutos industrializados que representassem retorno em curto prazo, tendo em vista a doutrina que orientava seus sistemas econômicos. Por isto o abandono destes elementos até então, uma vez que:
Um amplo setor da teoria econômica centrava sua atenção na análise a curto prazo das flutuações da oferta e procura de bens e serviços. Ainda que de grande utilidade para outros muitos fins, estes mo-delos tinham em comum a exclusão dos estudos das mudanças na estrutura econômica e social a partir da hipótese tradicionalceteris
paribus (sendo igual todos os demais). Inclusive quando, durante
a década de 1950, os economistas centraram sua atenção cada vez em maior medida sobre os problemas do crescimento econômico,
se continuou marginalizando o termo ‘todos os demais’, centran
-do seu interesse no fator tradicional: inputs de mão-de-obra e de pedra, do ferro e do ouro, por exemplo correspondem ao momento histórico social em que foram
cria-das ‘novas tecnologias’ para o aproveitamento desses recursos da natureza de forma a garantir melhor
qualidade de vida. O avanço científico da humanidade amplia o conhecimento sobre esses recursos e
cria permanentemente ‘novas tecnologias’, cada vez mais sofisticadas. A evolução tecnológica não se
restringe apenas aos novos usos de determinados equipamentos e produtos. Ela altera comportamentos. A ampliação e a banalização do uso de determinada tecnologia impõe-se à cultura existente e transfor-mam não apenas o comportamento individual, mas o de todo o grupo social. A descoberta da roda, por
exemplo, transformou radicalmente as formas de deslocamento entre os grupos (...) O homem transita
culturalmente mediado pelas tecnologias que lhe são contemporâneas. Elas transformam suas maneiras de pensar, sentir, agir. Mudam também suas formas de se comunicar e adquirir conhecimentos.”
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capital, considerando-se o ‘progresso técnico’ como um fator ‘re
-sidual’ ainda que compreendesse todas as demais contribuições ao crescimento, tais como a educação, a administração de empresas e a inovação tecnológica.(Tradução nossa)
Contudo, a partir do momento em que as condições de produção das economias mundiais impulsionadas pela competitividade do capital requeriam mudanças nos pólos industriais, este quadro iria mudar, uma vez que, pela necessidade de sistematização e estruturação das economias nacionais sob novo paradigma, a busca por melhorias e mudanças na for-ma de pensar e produzir, passam a depender cada vez em for-maior medida da compreensão deste processo em sua totalidade, exigindo necessaria-mente a articulação entre ciência e tecnologia11. Desta forma, percebeu-se
a importância de se associar à produção industrial (no caso dos países desenvolvidos) um conjunto maior que proporcionasse estudos de base
buscando eficiência, novas descobertas e fundamentos de técnicas incor-porando os avanços científicos e tecnológicos disponíveis, aperfeiçoando e gestando outros12. Tal mudança paradigmática favoreceu o surgimento
11 Dupas (2000, p.38) observa que a revolução tecnológica em maior ou menor grau atingiu o
mercado financeiro mundial, o que a posteriori facilitaria o capitalismo global pelo movimento de mundialização da produção. Vale ressaltar que tal quadro atingiria não somente a atividade produtiva e as economias nacionais, mas a vida dos cidadãos, “...alterando seu comportamento, seus empregos, suas atividades rotineiras de trabalho e seu relacionamento, por exemplo com bancos e supermerca-dos.” Mais do que simplesmente um aporte econômico, a ciência e tecnologia estão intrinsecamente presentes na vida do homem e no seu modo de viver e cada vez mais inserida nas condições materiais de produção da existência humana.
12 Bastos (1995, p.74-75) destaca que mesmo nesse processo de reconhecimento de C&T, muitas discussões foram efetuadas no sentido, não de integração de Ciência com Tecnologia como elemen -tos intimamente associados, mas como campos e subcampos definidos, nesta dualidade a política
tecnológica “(...) was conceived as a sub-set of science policy with the underlying assumption that basic research creates knowledge that subsequently is incorporated into technological pratice and commercial products and process.” Desta forma “While science policy’s aim is to develop basic research capabilities, technology policies are thoese intended to influence the decisions of firms to
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de departamentos de P&D em grandes indústrias de países desenvolvidos e a conseqüente contratação de cientistas especializados para intervenções e inovações tecnológicas no parque industrial, estabelecendo mecanismos de inputs e outputs do sistema de P&D, conforme projeções e interesses13, como se pode observar no Quadro 2.
QUADRO 2
INPUTS E OUTPUTS DO SISTEMA DE P&D
ETAPA INPUTS ILUSTRATIVOS OUTPUTS ILUSTRATIVOS
INPUTS DE REALIMENTAÇÃO PROCEDENTES DE
OUTROS INPUTS OUTPUT DE
REALIMENTAÇÃO OUTPUTSOUTROS Pesquisa básica Encargos dos empresários,
Pesquisa básica, trabalho inventivo trabalho de desenvolvi-mento, “dificuldades” Pesquisadores, labo-ratórios, mão de obra
não científica primeiras matérias, Combustível, energia Novos problemas científicos, resultados de laboratório Hipóteses e teorias , fórmu-las teóricas de pesquisa Trabalho inventivo e pesquisa aplicada
Encargos dos empresários, trabalho inventivo trabalho de desenvolvi-mento, “dificuldades” Output de pesquisa básica, pesquisadores, engenheiros, laborató-rios, mão de obra não
científica
primeiras matérias, Combustível, energia
Novos problemas
cien-tíficos, resultados de
laboratório, sucessos e fracassos inexplicáveis
Patentes, inven-tos não
patente-áveis, (memoriais, modelos viáveis, esquemas), anotações resultantes da pesquisa Trabalho de desenvolvimento experimental
Encargos dos empresários, trabalho de desenvolvi-mento,
“dificuldades”
Output inventivo, engenheiros, deli-neantes, outra mão de obra Novos problemas científicos, necessidade de invenções, sucessos e fracassos inexplicáveis Impressos, especificações, mostras, plantas piloto, protóti-pos, patentes, manuais Construção de plantas de novo tipo
Encargos dos empresários,
“dificuldades” Output de desenvol-vimento, recursos de
uma firma de constru -ção ordinária
“Dificuldades” Fábrica de novo tipo
FONTE: Freeman (1974, p. 28)
Em cada momento histórico, de diferentes formas, a preocupação com a ciência e tecnologia, esteve presente. Isso nem sempre aconteceu
13 Baiardi (1996, p.25), afirma que a ciência moderna é fruto de várias revoluções do pensamento,
entretanto, destaca que por si sós, estas revoluções não explicam seu surgimento. Desta forma apon-ta que a guerra e a concorrência em tempos de paz são elementos relevantes no desenvolvimento tecnológico, mas para a ciência são apenas estímulos a mais para seu desenvolvimento em nível de investimentos em pesquisas, também para fins bélicos.
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de maneira explícita ou como projeto intencional de desenvolvimento
do conhecimento humano, mas à medida que as relações de produção se
constituíam, o tratamento da C&T ganhava novos contornos, evoluindo
de um status familial e sacerdotal em sua gênese para outro de interesse governamental em termos de elaboração e desenvolvimento de políticas públicas para esta área. Neste sentido o delineamento da cultura da pes-quisa científica, para ser entendido em sua totalidade, necessita de uma contextualização, mesmo que breve, sobre as formas históricas de apoio
à Ciência e Tecnologia, fornecendo elementos mais concretos para situar
o processo de articulação entre ciência & tecnologia e políticas públicas