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CAPÍTULO 3 A “IRRESISTÍVEL” ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO

3.1 GÊNESE E DESENVOLVIMENTO DO NEOLIBERALISMO

Em linhas gerais, considera-se como algo evidente, até mesmo no âmbito do senso comum, que o assim denominado neoliberalismo guarda inequívocas semelhanças com o liberalismo clássico, doutrina política, filosófica e social construída a partir do século XVII e consolidada no século XIX. Com efeito, o individualismo que lhe dá suporte, por vezes exacerbado, com apego incondicional às liberdades econômicas, ainda mais que às políticas; a aversão a qualquer igualdade mais substantiva – inclusive material e suplementadora de uma igualdade meramente formal ou jurídica –, especialmente quando alicerçada em interferências nos resultados distributivos produzidos pelo mercado; a apologia a uma ordem social baseada em aberta competição entre indivíduos, de resto desprezando-se as classes sociais enquanto categoria dotada de qualquer relevância explicativa; a curiosa e ambivalente identificação do Estado como uma estranha externalidade à economia, espécie de mal necessário, donde a decorrência lógica é o ideal de um Estado “mínimo”; a rejeição da política enquanto possível contraponto a uma racionalidade econômica supostamente superior etc., constituem componentes centrais tanto do antigo como do novo liberalismo.

Entretanto, é no exame da significação histórica de cada um deles que o neoliberalismo ganha sentido especial. Em outros termos, se bem representasse, até certo ponto e conforme seus primeiros propugnadores, o renascimento do pensamento liberal – acrescido de sofisticação teórica formal, de acordo com os cânones científicos estabelecidos –, enquanto movimento teórico e ideológico simbolizou uma peculiar e aguda reação contra determinada intervenção estatal representativa do capitalismo avançado do segundo pós-guerra, e dirigida, especialmente, às políticas promotoras de bem-estar social (pela implementação progressiva de garantias e direitos nas distintas sociedades nacionais) e à regulação estatal da economia. Vale dizer, a especificidade do neoliberalismo pode ser entendida, ao menos em parte, pelo próprio fato de que sua formulação se deu em um contexto histórico marcadamente diferenciado de outro no qual os pensadores liberais originais expuseram suas ideias centrais. O neoliberalismo é, pois, enquanto fenômeno histórico, verdadeiramente distinto do liberalismo clássico. E tal fenômeno, independentemente de como venha a ser interpretado, não corresponde em sua expressão morfológica a mero neologismo, decididamente.

Estudiosos das ciências sociais e filiados a distintas correntes teóricas, a exemplo de Anderson (1996a,), Fiori (1997a), Harvey (2008), Losurdo (2004), Paulani (1999, 2008) e

Wainwright (1998), reconhecem que se deve levar em conta aquele mesmo contexto do segundo pós-guerra para uma compreensão ampliada do neoliberalismo, cujo surgimento ocorreu no hemisfério norte, precisamente no eixo anglo-saxônico. E, de modo geral, não hesitam em apontar O Caminho da Servidão, de Friedrich von Hayek, publicado em 1944, na Inglaterra, como o trabalho teórico que deu partida a esse movimento de reação, bem como seu autor, destacado intelectual da denominada Escola Austríaca de Economia, como grande incentivador e líder incontestável desse empreendimento.

De maneira cabal, Anderson (1996a, p. 9) define essa obra como um ataque veemente a quaisquer dispositivos de regulação e controle estatais exercidos sobre a economia capitalista, entendidos por Hayek como causadores de restrições ao livre funcionamento dos mercados, geradores de ineficiências e distorções de toda natureza e, ainda mais importante, em si mesmos graves ameaças, efetivas ou potenciais, às liberdades individuais, tanto econômicas como políticas. Naquele momento histórico em que se desenrolava a etapa final do conflito mundial, com o lado vitorioso já praticamente definido, o alvo imediato e expresso do teórico austríaco era, de modo geral, a social-democracia europeia, em particular o trabalhismo britânico. No entanto, não se devem subestimar os ataques hayekianos, ainda que em caráter sub-reptício, desfechados ao longo do texto contra o então ascendente keynesianismo. Afinal de contas, Hayek residia havia já alguns anos na Inglaterra, pois aceitara, em 1931, o convite de Lionel Robbins, economista de reconhecida filiação ao campo liberal, para lecionar na London School of Economics e, com isso, como relatam Andrade (1997, p. 176) e Gros (2003, p. 92), reforçar as resistências acadêmicas contra a crescente influência das teorias favoráveis ao chamado intervencionismo, entre as quais se postava, naturalmente, a abordagem keynesiana88.

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Como ressalta Gros (2003, p. 92-94), tendo em mente o diagnóstico da severa depressão dos anos 1930, dando conta, ao mesmo tempo, da superprodução e do colapso da demanda efetiva, assim como a terapêutica anticíclica proposta por Keynes (1982), compreende-se que parte apreciável das elaborações hayekianas se insere na linha da formação de uma escola de pensamento econômico antikeynesiana e anti-intervencionista. Com efeito, durante esse período, tal pensamento podia assumir um caráter mais agressivo contra o keynesianismo, nos momentos mais favoráveis à ótica neoliberal; ou podia mirar a obra de Keynes de esguelha, sempre que as influências deste último se fizessem mais presentes nos círculos acadêmicos, intelectuais e governamentais. O Caminho da Servidão, de tom polêmico e panfletário, publicado com Keynes ainda vivo, não fugiu a essa regra. É digno de registro que, já em seu prefácio, Hayek (1987) admite que o conteúdo do livro é essencialmente político, e afirma desejar não disfarçá-lo sob o rótulo de “filosofia social”, expressão empregada por Keynes (1982) no capítulo final de sua obra magna para discutir as possíveis consequências sociais da aplicação de seus princípios. Curiosamente, é notadamente na parte final de O Caminho da Servidão que Hayek se encarrega de um ataque mais frontal à teoria keynesiana, expondo, igualmente, sua própria “filosofia social”. Conquanto tais ataques não abalassem seriamente o prestígio geral de Keynes junto à intelectualidade e ao governo inglês, sua resposta aos mesmos foi no mínimo frustrante: elogiou abertamente o conteúdo do livro de Hayek, fazendo-lhe,

Para o pensador austríaco, todas as construções teóricas com vistas a instrumentalizar as ações intervencionistas e regulatórias dos governos, a despeito de serem portadoras de algumas intenções a princípio louváveis – em hipótese alguma o caso daquelas que, de uma ou de outra maneira, buscavam legitimar o modelo soviético, assumindo, para Hayek, a desprezível condição de teorias organicamente totalitárias –, conduziriam as sociedades capitalistas avançadas ocidentais a uma espécie de servidão humana, embora de corte moderno. De outro modo, o fato de esse pensador ter escolhido a social-democracia europeia, o trabalhismo britânico e o pensamento keynesiano como seus adversários principais é bastante significativo, mas não o suficiente para obscurecer o caráter antissocialista radical do neoliberalismo, tanto em sua formulação original como em suas derivações posteriores.

Afinal, devido à participação do próprio Hayek, com protagonismo, durante os anos 1920 e 1930, nos debates sobre as possibilidades concretas das economias centralmente planificadas, em que cerrou fileiras ao lado de Ludwig von Mises – seu antigo mentor e também grande expoente da Escola Austríaca de Economia89 – contra os teóricos socialistas, e independentemente dos resultados objetivamente colhidos em tais controvérsias90, uma

todavia, reparos quanto a sua sumária condenação do planejamento estatal no capitalismo, que correspondia, grosso modo, à recusa hayekiana de qualquer intervenção estatal anticíclica (HEILBRONER, 1996, p. 259). Nesse particular, importa ter em conta que, por vezes, independentemente dos méritos teóricos de cada parte, numa disputa dessa espécie a doutrina mais “frágil” pode ser aquela que se caracteriza por maiores concessões. Como se sabe, Hayek não as fazia, ao passo que o reformismo ambíguo de Keynes as tornava inevitáveis. 89

Para além de uma crença comum nas virtudes supostamente inerentes ao liberalismo econômico, havia uma clara vinculação entre Mises e Hayek. Este último lecionou durante determinado período na Universidade de Viena, na qual, anteriormente, já se havia notabilizado o primeiro. Antes disso, já haviam trabalhado juntos, também na capital austríaca, no Institut für Konjuncturforschung, um centro de pesquisas especialmente dedicado à análise dos ciclos econômicos (ANDRADE, 1997, p. 175). Posteriormente, em anos diferentes, ambos migraram para os Estados Unidos, onde desempenharam funções acadêmicas, embora em centros distintos. Além disso, e mais importante, Hayek afirmou, em certa ocasião, que, na sua juventude, teria se aproximado de ideias socialistas – bem entendido, daquilo que o autor compreendia, desde sempre, como socialismo, isto é, um conjunto de medidas adotadas pelos governos com fins redistributivos, visando minimizar os efeitos de concentração da renda e da propriedade a que levam os chamados automatismos de mercado –, mas que, graças aos trabalhos teóricos de Mises, desenvolvidos no âmbito do referido Instituto, foi recolocado nos “trilhos certos”. Nesse particular, cabe reconhecer que, se é possível que intelectuais austríacos como Friedrich von Hayek e Karl Popper se sentiram atraídos, em algum momento de suas vidas, por ideais do denominado socialismo fabiano, indiscutível é o fato de que Ludwig von Mises, durante toda sua existência, manteve uma fé inabalável no laissez-faire emanado da histórica Escola de Manchester, bem como na ordem social liberal do século XIX, que em grande medida correspondia aos ditames daquela doutrina.

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Desde sempre mais radical que o próprio Hayek, seu mestre apressou-se em apresentar uma sentença taxativa: “[...] uma sociedade fundamentada na propriedade pública não é viável, uma vez que não permite previsão monetária e, consequentemente, não permite a ação econômica racional” (MISES, 1987a, p. 90). E ainda: “O cálculo econômico capitalista, que torna racional a produção possível, baseia-se em cálculo monetário. Somente pelo fato de que os preços de todos os bens e serviços existentes no mercado podem ser expressos em preços monetários é que se torna possível, a despeito de sua heterogeneidade, incluí-los em um cálculo que envolva unidades de medida homogêneas. Numa sociedade socialista, onde, consequentemente, não haja mercado nem troca de bens e serviços produtivos, também não pode haver preços monetários de bens e serviços de categoria superior. Um sistema social como esse, portanto, careceria, necessariamente, dos meios racionais de gerenciamento das empresas, isto é, do cálculo econômico. O cálculo econômico, pois, não pode ocorrer na

certeza o acompanhou até o fim da sua vida: a de que a supressão do mecanismo de “livre” determinação dos preços, pensada para economias socialistas, torná-las-iam insustentáveis, se não imediatamente, pelo menos em perspectiva de longo prazo, tanto mais que contribuía, decisivamente, para tolher o campo das liberdades econômicas individuais. Conquanto admitisse uma remota possibilidade teórica de se executar a planificação central da economia, concluía que os custos de operação e os tempos requeridos para a perfeita sincronia entre demanda e oferta nesse sistema seriam enormes, terminando por inviabilizá-lo (HAYEK, 1949). Em suma, quaisquer experiências socialistas, e principalmente a soviética, estariam fadadas ao fracasso.

Analogamente, porém, e sem necessidade de grande dose de imaginação, seria esse o mesmo destino a ser compartilhado por experimentos de intervenção e regulação externas à economia capitalista stricto sensu, fossem quais fossem suas variantes, é bem verdade, mas sobretudo por aqueles destinados a produzir transformações de monta no interior da ordem social prevalecente. Desse modo, a prioridade da luta ideológica inaugurada naquele período consistia em combater aqueles que, independentemente de suas “boas” intenções, desvirtuavam o próprio sentido do capitalismo, debilitando-o progressivamente. Não menos

ausência de um denominador comum, ao qual se possam reduzir todos os bens e serviços heterogêneos” (MISES, 1987b, p. 72). Para Paulani (2008, p. 108) e Wainwright (1998, p. 42-43), não obstante tamanha convicção de vários liberais, coube principalmente ao teórico polonês Oskar Lange demonstrar, teoricamente, a possibilidade do “cálculo socialista”, valendo-se, para tanto, e ironicamente, do individualismo metodológico de base neoclássica, resultando em certa aproximação da noção de mercado competitivo, pelo menos no que se refere às preferências individuais de consumo – um “mercado socializado”, por assim dizer. Por sua vez, a suposição de que o indivíduo era dotado de racionalidade extrema implicava a previsibilidade de seu comportamento econômico e, por conseguinte, sua inserção em um planejamento global que garantisse os melhores resultados para o conjunto da sociedade, incluindo-se aí, evidentemente, a possibilidade desses mesmos resultados serem alcançados em um sistema não mais capitalista. Com efeito, relembrando os termos principais desse debate, Lafer (1975, p. 11) enfatiza que, para Lange, o mérito maior da alocação de recursos numa dada sociedade pelo mecanismo da planificação central, apesar do inegável maior volume de informações requeridas, consistia em permitir uma visão global das alternativas de produção e consumo, evitando-se desperdícios naturalmente associados ao caráter atomizado das decisões individuais, vale dizer, à chamada anarquia de mercado. De todo modo, essa espécie de derrota teórica sofrida pelo campo liberal, ao menos no âmbito da lógica formal, alimentou em Hayek certo ressentimento em relação ao consagrado individualismo neoclássico, que por ele passou a ser designado, insistentemente, simplesmente como “falso”, por oposição ao “verdadeiro”, derivado da clássica abordagem de Smith (1996), de quem o pensador, aliás, se dizia legítimo herdeiro. Para as posições do autor nesse debate histórico, confiram-se capítulos VII, VIII e IX de Hayek (1949) e Paulani (1996). Já Blackburn (1992, p. 153-156), analisando retrospectivamente amplos aspectos dessa célebre disputa teórica, chega à conclusão de que ela se exauriu rigorosamente sem vitoriosos, uma vez que ambas as partes buscavam salientar, prioritariamente, os pontos críticos da abordagem adversária. Respondida a questão, levantada por Mises, da formação dos preços, numa economia socializada, pela emulação das relações de mercado, restaria aos teóricos socialistas retorquir à provocação hayekiana das debilidades intrínsecas ao planejamento centralizado, devido a uma natural impossibilidade da existência de um “cérebro universal” que apreendesse todas as variáveis em jogo. Hayek, por seu turno, não se sairia melhor: ao se defrontar com o argumento teórico de um “mercado socializado”, organizado não por instâncias estatais burocráticas e centralizadas de planejamento, mas por mecanismos de autogestão dos próprios trabalhadores, incluindo largo uso do conhecimento difuso de base individual, optaria por alegar, com desdém, que a aproximação da noção de mercado, qualquer que fosse, representaria por si só uma demonstração cabal de inferioridade do planejamento.

importante é o fato de que essa reação um tanto apaixonada de Hayek deixava transparecer a posição defensiva das correntes liberais mais intransigentes em um contexto histórico de supremacia intervencionista. Não obstante, tratava-se, igualmente, de criar as condições mais propícias para a deflagração futura de uma espécie de contraofensiva, visando reconquistar a hegemonia para esse tipo de pensamento no eixo central do sistema capitalista.

Com efeito, Hayek foi não apenas um teórico e ideólogo influente, como também um ativista do ressurgimento do liberalismo. Em 1947, sob auspícios de indivíduos, fundações privadas e grupos empresariais, todos abastados e engajados no que entendiam como uma luta pela promoção das liberdades econômicas individuais, convocou um encontro para a estação suíça de Mont Pèlerin. Dirigiram-se para lá intelectuais de ambos os lados do Atlântico, explicitamente filiados ao campo liberal e irmanados no combate tanto ao Estado social europeu como ao New Deal norte-americano. Finalmente, e mais uma vez por influência direta do teórico austríaco, foi organizada a Sociedade Mont Pèlerin, entidade que, naquele contexto histórico bastante peculiar, assumia ares de uma seita altamente dedicada a sua causa, com ramificações em quase todos os continentes, encarregada de promover encontros internacionais periódicos e, principalmente, de divulgar uma produção científica destinada a influenciar acadêmicos, governos, partidos e a opinião pública em geral. O combate sem tréguas ao papel proeminente da esfera pública na regulação do sistema capitalista, às políticas de pleno emprego, às políticas sociais, vale dizer, a certa noção então “prestigiada” e “consensual” de capitalismo organizado, assim como a preparação das bases para o retorno a um ambiente social mais “duro” e livre de salvaguardas ou limites impostos aos mecanismos de mercado pelo Estado, eram seus fins principais (ANDERSON, 1996a, p. 10). Nascia, enfim, o equivalente a uma Internacional Liberal.

Não por acaso, Gros (2003, p. 97-98) aponta que essa organização lograria tornar-se um modelo a ser copiado em todo o período inicial de gestação do neoliberalismo, seguindo-se, quando da sua etapa de difusão propriamente dita, em plenos “anos dourados” do capitalismo, uma verdadeira proliferação de think tanks liberais, especialmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, quase todos fartamente financiados por grandes corporações privadas, com desígnios de atuação no plano internacional e extremamente devotados à causa de “restauração plena das liberdades econômicas”91

. Quanto a Hayek, particularmente, coube-lhe

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A abordagem de Gros (2003) privilegia a questão da difusão global da ideologia neoliberal, executada por diversos think tanks. Durante largo período, tal difusão esteve baseada no hemisfério norte. Com o correr do

exercer a presidência da organização pela qual tanto havia se empenhado em criar, reinando absoluto nesse posto de 1947 a 1961. Um tanto curiosamente, os participantes do evento de Mont Pèlerin, fundadores da Sociedade que leva o nome dessa estação suíça, talvez para fugir às “armadilhas” por eles mesmos enfrentadas, nove anos antes, durante o Colóquio Walter Lippmann92, designaram a si mesmos como liberais, ao estilo clássico, e não como “novos liberais” ou “neoliberais”93. O “espírito” reinante no encontro de 1947, de caráter excêntrico

se comparado ao “consenso” da época94

, é destacado por Harvey (2008, p. 29), que apresenta os termos da declaração de fundação da Sociedade Mont Pèlerin, elaborada por um aguerrido grupo de “combatentes” liberais e que denuncia, em tons apocalípticos, mesmo varrida a ameaça da barbárie nazifascista, os “funestos” rumos então imprimidos às sociedades do capitalismo avançado:

tempo, porém, e conforme se mostravam claros os avanços do neoliberalismo no eixo central do capitalismo, esse fenômeno passou a apresentar, também, claras repercussões sobre os espaços periféricos desse sistema. 92

De certo ponto de vista, pode-se apontar o Colóquio Walter Lippmann, realizado em 1938, em Paris, como o antecessor imediato do evento ocorrido em 1947, em Mont Pèlerin. Existem, porém, significativas diferenças entre um e outro momento histórico. Uma delas diz respeito ao fato de que parte dos intelectuais que marcaram presença na capital francesa encontrava-se animada pela ideia-força da necessidade de formulação de um “novo liberalismo”, em consonância, aliás, com o próprio “espírito” da época, preocupação compartilhada por ninguém menos que Keynes, como reitera Fonseca (2010, p. 440-442). Com efeito, durante os anos que antecederam a Segunda Grande Guerra, alguns teóricos desse campo do pensamento já encaravam o laissez-faire como a parte mais desprestigiada do corpo doutrinário liberal, e propugnavam por determinada intervenção (estatal) que restabelecesse as condições de uma legítima concorrência e suprimisse os monopólios, entre outros objetivos considerados meritórios. Postados na linha de frente em Mont Pèlerin, Hayek e Mises também se fizeram presentes no primeiro evento, quando Mises, caracteristicamente, destacou-se por uma defesa intransigente do laissez-faire e do livre-cambismo manchesterianos. Gros (2003, p. 93) revela que os participantes do evento na França chegaram a concordar, genericamente, com a ideia da criação de uma entidade internacional para divulgação do pensamento liberal, ação que não pôde se concretizar, contudo, entre outros motivos, pela própria eclosão do conflito mundial, um ano depois. Seja como for, consumido por discussões entre múltiplas correntes que disputavam entre si a primazia de definir e conduzir os novos rumos do pensamento liberal, o Colóquio Walter Lippmann chegou ao fim sem decisões firmes quanto à necessidade de ações efetivamente coordenadas com o objetivo de restabelecer a hegemonia para aquele pensamento nas sociedades capitalistas avançadas, “equívoco” que não seria repetido pelos participantes do encontro em solo suíço, nove anos depois.

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Tal atitude permanece até os dias atuais. Nessa linha discursiva, alguns simplesmente recusam o rótulo “neoliberal”, definindo-se como “liberais”, à moda antiga. Muitas vezes, no entanto, provavelmente em virtude de determinada literatura que, na abordagem do fenômeno em si, emprega os termos “neoliberalismo” e “neoliberal” em sentido crítico, aqueles que se identificam com as teses neoliberais buscam naturalizá-las, escondendo-as por detrás de biombos como “superioridade dos mecanismos de mercado” e “imperativos da economia competitiva globalizada”. Sem embargo, mesmo compartilhando plenamente do ideário emanado do