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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 TEORIAS DO CONCEITO: PENSAMENTO, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO

2.1.1 As Origens do Pensamento e da Linguagem e a Formação de Conceitos no

2.1.1.1 Gênese e estudo experimental da formação de conceitos

imaginativo) – que se manifestam as bases da busca pela verdade e da possibilidade

de construção social. O desenvolvimento de conceitos e a conseqüente expressão

lingüística, portanto, é fase imprescindível do desenvolvimento do pensamento e

também prova da complexidade evolutiva envolvida nessas atividades. A descoberta

da ligação entre a palavra e o objeto, entre o signo e o significado, é característica

de uma forma de pensamento desenvolvido. É preciso que a criança atinja um

determinado estágio de maturidade lingüística, cultural e intelectual para que comece

a buscar intencionalmente por palavras que signifiquem os objetos da experiência.

Ao mesmo tempo, o autor acredita na independência entre as duas funções –

linguagem e pensamento. Em crianças muito novas, portanto, a linguagem precede

a evolução do pensamento e serve a finalidades emocionais, tais como o alívio da

tensão. Além disso, a linguagem na fase pré-intelectual serve a funções sociais tais

como reação e interação. E é no momento em que essas duas linhas evolutivas se

cruzam – ou seja, é no momento em que as fases de desenvolvimento da linguagem

e o do pensamento se encontram – que o ser humano passa a adotar um novo tipo

de comportamento, capaz de relacionar palavras a objetos, signos a significados:

[...] quando a criança "faz a maior descoberta da sua vida", a de que "todas as

coisas têm um nome" [...] A fala, que na primeira fase era afetivo-conativa,

agora passa para a fase intelectual. As linhas do desenvolvimento da fala e

do pensamento se encontram (VYGOTSKY, 2008, p.53-54).

É este o momento em que o pensamento se torna verbal e a linguagem se

torna racional. É também o momento em que as estruturas do discurso dominadas

pela criança se transformam nas estruturas básicas do seu pensamento.

2.1.1.1 Gênese e estudo experimental da formação de conceitos

A principal dificuldade do estudo do processo de formação de conceitos,

segundo Vygotsky, é a dificuldade em observar diretamente o fenômeno, principalmente

a elaboração do material sensorial e sua transformação em palavra, ambos elementos

considerados essenciais na formação de conceitos. É preciso, portanto, em sua

opinião, aplicar um método de investigação das condições funcionais da gênese dos

conceitos, considerando-se principalmente "[...] que um conceito não é uma formação

isolada, fossilizada e imutável, mas sim uma parte ativa do processo intelectual,

constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução de problemas"

(VYGOTSKY, 2008, p.67). É preciso, ainda, abandonar a idéia de que o conceito é

fruto de uma relação mecânica entre palavra e objeto, passando-se a considerar

seriamente a gênese criativa dos conceitos.

É preciso também, explica o autor, entender que a base psicológica para a

formação de conceitos – embora comece a se desenvolver muito cedo – somente

alcança plena maturidade a partir da puberdade. E a partir de seu desenvolvimento

afeta não apenas o conteúdo, mas também a forma de pensar. É a capacidade de

formar conceitos, portanto, ao mesmo tempo a causa e o efeito de uma nova síntese

estrutural complexa das funções intelectuais a partir de determinado estágio de

desenvolvimento genético, cultural e social. Além disso, "Aprender a direcionar os

próprios processos mentais com a ajuda de palavras ou signos é uma parte

integrante do processo da formação de conceitos." (VYGOTSKY, 2008, p.73-74).

Abrindo-se um parêntese, é interessante observar que os estágios de

desenvolvimento conceitual propostos por Vygotsky – (1) estágio de junção aleatória

de objetos ou conglomeração sincrética para representação de palavras artificiais,

realizado pelo bebê; (2) estágio dos pensamentos por complexos4 ou agregação

objetiva de objetos relacionados entre si e sua representação por meio de palavras, na

criança e (3) estágio do pensamento conceitual, generalizante, realizado pelo adulto –

podem significar, metaforicamente, os estágios de desenvolvimento conceitual nas

diversas áreas do conhecimento. Ou seja, teoricamente, quanto mais avançado o

4 A principal diferença entre complexos e conceitos é o tipo de nexo utilizado para agrupar os objetos.

Enquanto no conceito agrupam-se objetos em função de um atributo independente da vontade individual,

no complexo as relações que ligam os objetos são diversas (mesma cor, mesma forma, diferenças,

etc.) e dependem da vontade do individuo que as agrupa, podendo ocorrer por contraste ou semelhança.

No caso do conceito, por outro lado, os objetos necessariamente fazem parte daquele determinado

grupo, do contrário o conceito não seria suficientemente representado.

estágio de desenvolvimento, maior a capacidade de "dar nome às coisas" e agregar

de forma racional os elementos ou objetos constituintes de um fenômeno.

Quanto ao conceito científico, para Vygotsky, é aquele sistematizado,

transmitido por meio das instituições sociais formalmente criadas para a disseminação

do conhecimento acumulado pela humanidade. Entretanto, embora diferencie o

conceito científico ou não-espontâneo do conceito espontâneo, o autor afirma haver

apenas um único processo mental/intelectual de desenvolvimento da gênese do conceito

durante o processo de evolução do pensamento infantil. Por outro lado, cada um dos

tipos de conceito – espontâneo e não-espontâneo – se forma e se desenvolve em

condições internas e externas totalmente diferentes. Enquanto o conceito espontâneo

surge da experiência direta, o conceito científico deve ser assimilado a partir do

estímulo externo. A importância do conceito científico transmitido à criança via instrução

escolar, de acordo com o autor, é a indução à percepção generalizante, processo

decisivo na formação da autoconsciência a respeito dos próprios processos mentais

e – por conseqüência – na capacidade de dominá-los.

Consciência, portanto, significa capacidade de generalização. E generalização,

por sua vez, passa por diversos níveis hierárquicos. Por exemplo, quando a criança

aprende as palavras "flor" e "rosa" demora um certo tempo até perceber que o

conceito de flor é mais geral, enquanto o conceito de rosa é um caso particular do

conceito geral ou conceito de grau superior.

Outro aspecto da teoria da Vygotsky diz respeito a duas dimensões

essenciais dos conceitos – os graus de concretude e de abstração. Quanto maior o

grau de abstração, maior o grau de generalidade. Generalização, portanto, é uma

característica essencial dos conceitos formulados pelo pensamento humano. Além

disso, o grau de generalidade de um conceito determina a quantidade e a qualidade

das operações intelectuais possíveis com este determinado conceito. Por exemplo,

conceitos com graus de generalidade equivalentes entre si permitem a realização de

comparações, o que não seria possível caso pertencessem a graus de generalidade

diferentes. Além disso, quanto maior o repertório de conceitos com alto grau de

abstração, mais desenvolvido é o sistema de pensamento e mais evoluída a

capacidade de relacionar diferentes fenômenos da experiência.

O autor lembra, ainda, que uma das principais unidades do pensamento

verbal e da fala significante é o significado da palavra. É o conceito, portanto, a

união entre o pensamento e a linguagem e, como tal, está sujeito a modificações e

evoluções decorrentes de mudanças na estrutura e nos sistemas do pensamento e

da linguagem: "Não é simplesmente o conteúdo de uma palavra que se altera, mas o

modo pelo qual a realidade é generalizada e refletida em uma palavra." (VYGOTSKY,

2008, p.152). E o inverso também é considerado verdadeiro: mudanças na percepção

conceitual provocam mudanças no pensamento e na linguagem.

Idealmente, um conceito deve ser generalizante o suficiente para englobar

todas as características essenciais do objeto-alvo do conceito, mas não deve ser tão

generalizante a ponto de causar intersecções indesejáveis com outros objetos da

experiência. O conceito ideal é a combinação perfeita entre análise e síntese, entre

capacidade de isolar os elementos do todo e capacidade de unificá-los:

Um conceito só aparece quando os traços abstraídos são sintetizados

novamente, e a síntese abstrata daí resultante torna-se o principal instrumento

do pensamento. [...] o papel decisivo nesse processo é desempenhado pela

palavra, deliberadamente empregada para dirigir todos os processos parciais

da fase mais avançada da formação de conceitos (VYGOTSKY, 2008, p.98).

Uma das principais peculiaridades semânticas das palavras, segundo Vygotsky

(2008), é a possibilidade de ter ao mesmo tempo sentido e significado. Sentido é

"a soma de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta em nossa

consciência." (p.181), ou seja, corresponde ao caráter mutável da palavra de acordo

com cada contexto onde é utilizada. O significado, por sua vez, mantém-se estável –

embora sempre acompanhe a palavra em todas as suas mudanças de sentido.

O sentido de uma palavra, portanto, é praticamente ilimitado, enquanto seu significado

encontra-se limitado pelas regras lexicais.

Por outro lado, Vygotsky chama a atenção para a dificuldade de transformar

pensamentos em discurso, principalmente porque os pensamentos se manifestam

em unidades completas em si mesmas, enquanto na linguagem as palavras precisam

ser desmembradas e reunidas em frases para fazer algum sentido. Para haver

comunicação é necessário transformar o pensamento em significados, os significados

em palavras, as palavras em sentenças, e assim por diante.

2.1.2 As Origens e a Estrutura da Linguagem sob o Ponto de Vista da Filosofia da