Entender a pós-modernidade não é tarefa fácil pois, há muitos discursos sobre ela, mas poucas definições de fato sobre a abordagem dessa perspectiva (ANDERSON, 1999). Até a própria nomenclatura teve seus impasses, sendo em seus primórdios a pós-modernidade reconhecida como pós-modernismo. A primeira tratando questões temporais, e o segundo, de questões estéticas e filosóficas. Isso ocorreu também com a modernidade e o modernismo, que tinham significados diferenciados.
Nesse contexto, segundo as contribuições de Anderson (1999), o pouco do que se sabia sobre o pós-modernismo podia ser observado na arquitetura e era representado de uma forma pejorativa, tanto que já no início da década de 1950 o termo desapareceu. Reapareceu apenas no fim da mesma década, na literatura, rejeitando os padrões intelectuais rígidos desta e celebrando a geração dos “excluídos da história”. Percebe-se nesse sentido que “[...] o uso do termo “pós-moderno” foi de importância circunstancial. Mas o desenvolvimento teórico é outra coisa” (ANDERSON, 1999, p. 20), pois só se efetivou nas décadas subsequentes.
Havia ainda uma dúvida a respeito dessa definição na sociedade que questionava se a nova ideologia tratava apenas de uma tendência artística ou também da composição de um fenômeno social completo. Dúvida esta colocada em maior destaque nas tentativas de esclarecê-la em torno da década de 1970, conforme esclarece Anderson (1999), visto que em todas as partes do mundo europeu o pós-moderno foi se definindo, embora não de forma “moderna”, que atendesse o desejo de uma definição mais determinada e unívoca.
A pós-modernidade é entendida nos estudos de seus defensores ou de seus críticos (KAPLA, 1993; JAMESON, 1997; KUMAR, 1997; HELLER & FEHER, 1998; ANDERSON, 199; WOOD, 1999; LYOTARD, 2002) como fenômeno que emerge e cumpre uma trajetória com predominância de diferentes significados em momentos diversos. Inicialmente, instaura-se o debate em torno da pós-modernidade como campo cultural, privilegiando a conceituação estética. Na continuidade do percurso desenvolvido, a pós-modernidade formaliza-se teoricamente no campo filosófico (CAVAZOTTI, 2010, p. 9).
Com base na obra de Lyotard lançada em 1979, considerada a primeira obra filosófica pós-moderna, Anderson afirma que, “[...] a condição pós-moderna, é a tendência para o
contrato temporário em todas as áreas da existência humana: a ocupacional, a emocional,
a sexual, a política, com laços econômicos flexíveis e mais criativo que os da modernidade” (1999, p. 33, grifo nosso). Sobre isso, Carcanholo e Baruco (2008, p. 2) afirmam que,
A condição pós-moderna costuma ser apresentada, tanto por seus defensores, como por seus adversários, de maneira bastante heterogênea. Uns a defendem, de forma mais incisiva, como uma nova etapa da sociabilidade humana, calcada em um novo modo de produção que, no limite, poderia já ter suplantado o capitalista. Viveríamos, portanto, em uma sociedade pós-capitalista. Outros, menos pretensiosos, tratam a condição pós-moderna como uma nova etapa da sociedade capitalista, onde os valores característicos da época moderna teriam sido superados. Os autores ainda acrescentam que, “[...] assim o pós-modernismo seria entendido como uma conjugação, evidentemente com fissuras e distintas interpretações nos mais diversos autores, da arte pós-moderna com a filosofia pós-estruturalista e a teoria da sociedade pós-industrial” (CARCANHOLO; BARUCO, 2008, p. 3).
Adquire relevância o predomínio da instabilidade, da mutabilidade constante e das incertezas. A rejeição da razão e da modernidade como um todo, a deslegitimação das grandes narrativas, a desconstrução das “ilusões da modernidade” torna-se uma bandeira, mas em nenhum momento esse posicionamento se coloca como luta pela superação do capitalismo, e quando o faz, realiza-o parcialmente e não contra seus fundamentos, conforme esclarece Anderson (1999). Na pós-modernidade ocorre, portanto, o desejo de descortinar uma suposta ilusão mantida pela modernidade, com a defesa de um engano ainda maior, o de que a pós- modernidade pudesse alcançar as miragens da modernidade, suprimindo-a completamente.
Assim, de uma concepção do que seria a sociedade pós-industrial, o pós- modernismo passa para a negação de toda perspectiva totalizante e para a afirmação da efemeridade e da fragmentação, do descontínuo e do caótico. O pós-modernismo aceita por isso (i) a instrução de Foucault de rejeitar os sistemas, as unidades, a uniformidade, afirmando os arranjos móveis, os fluxos, a diferença, o múltiplo, e, (ii) a ênfase no caráter caótico da vida (pós) moderna, ao mesmo tempo em que se torna impossível tratá-lo a partir do pensamento racional - herança do pensamento de Nietzsche. Daí a repulsa do pós-modernismo a qualquer prática e/ou teoria
totalizante. A modernidade, para o pós-modernismo, teria como base a produção sustentada na grande indústria e, como hoje em dia, o consumo e os serviços teriam um espaço mais abrangente na sociedade do que a produção fabril, estaríamos em uma nova era: pós-moderna. Não valeriam mais as teorizações que construíam seus argumentos sobre o capital, capitalismo, valor, trabalho produtivo, sujeito revolucionário etc., a partir da lógica industrial, fabril. Em outras palavras, a morte da era moderna implicaria a morte de Marx, assim como a de qualquer metanarrativa totalizante. Além do mais, como as sociedades pós-modernas são constituídas com uma base tecnológica nova, onde a lógica da produção e, principalmente, do consumo cada vez mais rápido e efêmero, a compressão do espaço-tempo, em todas as esferas, seria mais uma característica marcante desta nova era pós-moderna (CARCANHOLO; BARUCO, 2008, p. 4).
Para alguns, a perspectiva pós-moderna defendia uma proposta que não vinha após o moderno, mas dentro dele, baseada nele, para compensar a incompletude da modernidade. Na verdade, refletiu uma expressão da frustração com as expectativas para com a modernidade e suas promessas, tanto que alguns filósofos, como Lyotard, Baudrillard que, após se afirmarem marxistas, se afastaram dessa perspectiva por considerá-la pessimista. O olhar agora se direcionava à proposta pós-moderna, que se afirmava como quem prima pela liberdade e valorização do menor, do eu, do cotidiano, da individualidade (ANDERSON, 1999). Como demonstra Bauman (1998, p. 10),
Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal- estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de liberdade da procura do prazer que tolera uma segurança pequena demais.
Em virtude disso, não se pode negar que os anúncios da pós-modernidade, embora com nomenclaturas e encaminhamentos diferenciados, defendiam o fim do período moderno ou da proposta filosófica do mundo moderno com o questionamento da razão também na psicologia e na sociologia. Em contrapartida, Cavazotti (2010, p. 12) argumenta que,
A essas considerações fazem eco os pensadores da sociologia, afirmando que o “desmoronamento da razão, a revelação das forças do irracional e do inconsciente deixam, em certa medida, acertou o caminho para a relegitimação das forças da religião, da mitologia e de outras formas pré-modernas”. Afirmação corroborada por Freud, que interroga a ideia moderna de progresso, tendo em vista que foi “construída ao custo de enorme sofrimento psíquico e de debilitamento” moral do homem moderno.
Segundo a autora, há um equívoco na interpretação geral sobre a gênese do pós- modernidade que o coloca como um acontecimento a-histórico, pois o defende ou como aquele que coloca o fim na história ou como uma nova época, como se fosse possível uma ruptura e uma negação brusca de tudo o que vem antes da “pós-modernidade”, embora afirme
ter surgido nela. Nesse contexto e por esse encaminhamento acaba-se abrindo a possibilidade de um retorno à metafísica, como um “[...] jogo entre a indefinição e a imanência” (ANDERSON, 1999, p. 26), uma verdadeira instabilidade e inconstância.
Outro filósofo marcante na emergência da pós-modernidade foi Jameson, uma vez que suas contribuições vão além do ocidente ao se tornar conhecido como aquele que encerra o marxismo ocidental devido à expansão de suas ideias não apenas territorialmente, mas também por não ter limites em suas influências teóricas.
Em um enredo em que muitos se arriscaram em ser protagonistas, – sem ao mesmo tempo ter a clareza real do que se tratava esse novo direcionamento, na verdade desencaminhado –, estes seguiram na tentativa de constituí-la durante a elaboração teórica do viés descrito anteriormente. Seus fundamentos possibilitam visualizar melhor as alianças filosóficas, econômicas e estéticas da escorregadia pós-modernidade. O título proposto para a emergência pós-moderna já nos instiga a pensar em uma definição para essa perspectiva que engrandece as incertezas, as descontinuidades e a instabilidade. Essas relações e características apontadas pela pós-modernidade se destacam não apenas na atualidade, mas historicamente, conforme esclarecimentos a seguir.