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TÓPICO 3 – A LINGUAGEM E SUAS PARTICULARIDADES

2.4 GÍRIAS

Apesar de muitas pessoas pensarem que a gíria é um desvio da linguagem, a maioria já pronunciou palavras como: bacana, cara, cuca, entre outras, não é mesmo? O que não podemos esquecer é que a gíria não pertence à linguagem padrão, não é aceita em situações de formalidade, como, por exemplo, redações de vestibular, ofícios, preenchimento de relatórios, e-mails, textos acadêmicos, artigos científicos etc.

Assim, podemos afirmar que a língua formal não aprova o uso de gírias, salvo em reprodução de falas de personagens. Quando usada em momento oportuno, ela cumpre o papel de denotar expressividade, podendo revelar grande criatividade do emissor, à medida que esteja adequada à situação: adaptada ao meio, à mensagem e a quem a receber.

A gíria, portanto, é característica da linguagem informal. Para Terra (1997, p. 66) “[...] a gíria é uma variante da língua padrão utilizada por indivíduos de um grupo social ou profissional em circunstâncias especiais”. Muitas vezes utilizamos algumas delas sem perceber que não estamos fazendo uso da linguagem formal, pois encontramos gírias diferenciadas, como, por exemplo: a dos jovens, a dos surfistas, a dos jogadores de futebol, entre outras.

Constantemente surgem novas gírias e outras caem em desuso, isso porque a gíria, como já mencionado, é uma variante da língua, e esta, por sua vez, está em constante evolução e/ou reformulação.

Leia agora um pequeno texto sobre o assunto.

GÍRIA: O LADO JOVEM E TRANSITÓRIO DA LINGUAGEM

Da festa do balacobaco à reúna onde se descolava aquela mina até o

“ficar” de hoje, os jovens de todas as épocas reinventam a língua portuguesa.

A juventude principalmente, mas todos os grupos de interesse e vivências particulares criam seu próprio modo de expressão e identidade, enriquecendo e dando gosto e graça ao vocabulário.

Perseguida pelos puristas, sempre provocadora de polêmicas entre os gramáticos, escolas e redações de jornais, a gíria, na verdade, inova e renova a linguagem. Chamar alguém de bacana anos atrás era um elogio e linguagem de quem estava “por dentro”. Agora, a mesma palavra pode ser classificada como uma expressão típica de um “mauricinho”. Com humor e criatividade, as gírias são fugazes e estão sempre se renovando.

Recentemente, foi lançado em Brasília, pelo jornalista e professor universitário, João Bosco Serra e Gurgel, o Dicionário de Gíria; modismo linguístico e equipamento falado do brasileiro. Serra e Gurgel defende que a disseminação da gíria pode estar levando o português a se tornar uma língua ágrafa, sem representação gráfica para sua manifestação sonora.

O uso da gíria pela juventude e pelos meios de comunicação sempre gerou polêmica. Serra e Gurgel dizem que 90% dos jovens adotam a gíria e desprezam a estruturação de sujeito, verbo e complemento. “Suas frases são vagas, carregadas de sons que nada significam”. Celso Luft afirma que a gíria é própria da juventude e da linguagem coloquial, informal.

Descontraída, debochada ou crítica, a gíria tem contribuído para dar um colorido próprio à linguagem. Sem ela, sem o recurso de regionalismo, acredita Luft, a linguagem corre o risco de empobrecer pela padronização, ficando sem vida. “Por trás do preconceito contra a gíria há sempre um conflito entre conservadores e juventude, grupo social contra grupo social. Se a linguagem da juventude se restringir só à gíria, então haverá perigo”.

FONTE: BRAGANÇA, Maria Alice. Revista ZH. Porto Alegre, 1991, p. 6-7.

3 A LINGUAGEM PARTICULAR DE UMA PROFISSÃO

A escolha de uma profissão não é algo que se decide de uma hora para outra, não é? Vários fatores são levados em conta, como as habilidades que se têm, a afinidade com alguma área em especial ou até mesmo a admiração por profissionais que já exercem tal trabalho. Pode-se afirmar que cada vez mais a pressão em torno da responsabilidade pela escolha certa, na era da informação, do avanço tecnológico e comunicacional proporcionado pela globalização está exigindo profissionais muito qualificados.

Você sabe, provavelmente, que não é possível haver indivíduos qualificados sem levar em conta um item muito importante no currículo de qualquer profissional das mais variadas áreas: o uso do nível culto da língua portuguesa.

Vimos, anteriormente, que nós temos a linguagem falada e escrita, porém não escrevemos como falamos nem vice-versa. Você deve concordar conosco que, em situações de oralidade, a negociação de sentido entre os interlocutores é mais imediata, o que pode implicar, muitas vezes, na facilidade de compreensão do conteúdo da mensagem. Além disso, a oralidade dispõe de elementos como a entonação e variação de voz, que contribuem para o entendimento. Em outras palavras, dependendo da situação, você emprega a linguagem que mais se adequa:

se informal, usa-se uma linguagem sem formalidades; se formal, emprega-se a norma culta. Você já estudou, também, que a modalidade escrita vem sendo muito exigida em concursos e entrevistas para emprego. Assim, preste atenção, acadêmico, pois a era digital parece informal, mas, no trabalho, requer o uso de regras coerentes. Assim, o profissional que quer permanecer num mercado de trabalho tão competitivo no mundo globalizado precisa ter domínio da norma culta, bem como das regras, e ainda saber falar e escrever muito bem.

Queiramos ou não, a linguagem particular utilizada nas diversas profissões, seja na elaboração de um ofício, relatório, ata, memorando, e-mail, mala direta, num aviso a colegas de trabalho, numa conversa, entre outros, exige o uso da norma culta da língua.

Reconhecemos, então, que a norma culta constitui como um aspecto da linguagem importante para a comunicação empresarial. Acerca da linguagem profissional, também é importante discutirmos a linguagem técnica ou jargão, que corresponde a um palavreado particular de uma categoria ou de uma profissão.

Segundo o dicionário Michaelis (2008), jargão é uma gíria profissional. Perceba que linguagem técnica ou jargão é um código da língua, pertencente a um grupo profissional ou sociocultural com vocabulário especial.

Apesar de em muitos casos o jargão ser apenas um modo de impressionar o receptor, há também os casos em que sua colocação é quase que obrigatória. Seja qual for a causa de sua existência, o jargão tem um sentido muito importante para quem o utiliza. Quando um advogado peticiona, por exemplo, ele expressa o que os leigos conhecem por “pedir para o juiz”. Assim, podemos dizer que a linguagem técnica ou o jargão é a “gíria” usada específica e limitadamente por grupos de profissionais de um mesmo meio: professores, advogados, médicos etc.

O uso de jargões, como pudemos ver, corresponde a um recurso, a uma função da linguagem, que contribui para a produção de textos (orais ou escritos) na área profissional. Na seção a seguir, vamos refletir sobre a linguagem e suas funções.

4 A LINGUAGEM E SUAS FUNÇÕES

As funções da linguagem são recursos que enfatizam a intenção do emissor para que se estabeleça uma comunicação eficiente. Um texto pode apresentar mais de uma função enfatizadora.

As funções da linguagem têm a finalidade de levar o leitor ou o receptor a compreender determinado efeito ou conceito para determinado objetivo. Diante disso, comungamos da ideia de Chalhub (1990, p. 9):

Numa mesma mensagem [...] várias funções podem ocorrer, uma vez que, atualizando corretamente possibilidades de uso do código, entrecruzam-se diferentes níveis de linguagem. A emissão, que organiza os sinais físicos em forma de mensagem, colocará ênfase em uma das funções – e as demais dialogarão em subsídio, [...].

Obviamente, as funções da linguagem requerem, antes de serem individualmente estudadas e antes de observarmos suas influências no dia a dia, indicar que todo processo comunicativo é centrado em elementos. Chalhub (1990, p. 1) reflete a respeito disso dizendo:

Diferentes mensagens veiculam significações as mais diversificadas, mostrando na sua marca e traço [...]. O funcionamento da mensagem ocorre tendo em vista a finalidade de transmitir – uma vez que participam do processo comunicacional: um emissor que envia a mensagem a um receptor, usando do código para efetuá-la; esta, por sua vez, refere-se a um contexto. A passagem da emissão para a recepção faz-se através do suporte físico que é o canal. Aí estão, portanto, os fatores que sustentam o modelo de comunicação: emissor;

receptor; canal; código; referente; mensagem.

Os elementos da comunicação instituem funções, assim conhecidas:

• função referencial;

• função emotiva;

• função conativa;

• função fática;

• função metalinguística e

• função poética.

Vamos visualizar o esquema a seguir para poder entendê-las melhor?

FIGURA 20 – FUNÇÕES DA LINGUAGEM

Emissor (emotiva) Mensagem

Contexto (referencial)

(poética) Receptor (conativa)

Canal (fática)

Código (metalinguística) FONTE: As autoras