Um primeiro ponto a ser comentado neste trecho do episódio é que a ação de Gabriel e Tiffani em arrastar os colchonetes pela sala chama a atenção de outras crianças presentes no espaço: cinco diferentes crianças se aproximam da dupla que brinca com os colchonetes. A brincadeira parece se tornar atraente para o grupo: observa-se um número crescente de crianças que se interessam em participar daquela atividade. Diz-se que elas se interessam em participar porque essas crianças disputam e negociam entre si a posse dos colchonetes, utilizando diferentes estratégias para participar da brincadeira.
Interessante é pontuar que esses colchonetes estavam, desde o início da sessão, disponíveis às crianças, contudo, só quando Tiffani e Gabriel passam a brincar com eles é que as outras crianças começam a se interessar por eles também. Isto reforça a ideia de que o objeto ganha valor quando está na mão do outro, passando a ser mais atrativo quando também é objeto de interesse de outra criança (NADEL; BAUDONNIÈRE, 1981).
O trecho descrito ilustra este argumento e revela as diferentes estratégias de negociação que as crianças fazem uso enquanto disputam a posse dos colchonetes: empurram o colega, puxam o objeto para si, ficam em cima do objeto, indicam outro colchonete para o colega, por meio do gesto de apontar, falam „não‟ e apelam para o adulto presente; todos esses
Gabriel Tiffani
comportamentos podem ser considerados estratégias de negociação utilizadas pelas crianças para obter a posse dos colchonetes.
Samuel, por exemplo, para brincar com o colchonete de Tiffani, se joga em cima dele. Já Luan, depois de não ter conseguido pegar o colchonete que Tiffani apontou para Samuel porque a educadora estava sentada em cima dele, tenta tomar o colchonete da colega, puxando-o para si. Tiffani, por sua vez, para resguardar o seu „brinquedo‟ de Samuel, experimenta empurrar o colega para tirá-lo de cima do colchonete e aponta para outro colchonete semelhante, que estava disponível. Com Luan, Tiffani disputa o colchonete, puxando-o para mais perto de si, fala „não‟, e também apela para o adulto presente, que intervém em seu favor.
Destaca-se a forte participação do corpo nesses processos de negociação pela posse do objeto. Apesar de receber o auxílio de componentes verbais, principalmente nos momentos em que as crianças solicitam a ajuda do adulto para conseguirem ficar com o colchonete, as estratégias utilizadas estão fortemente apoiadas nos movimentos feitos e nas posturas dos seus corpos. Isso fica muito claro no momento em que Gabriel fica de pé em cima do seu colchonete quando dois dos seus colegas, Tarcio e Gleysse, acidentalmente, caem em cima do colchonete que o garoto brincava. O desenrolar da sequência interativa permite levantar a suposição de que ficar de pé em cima do seu colchonete é a estratégia utilizada por Gabriel para resguardar o seu „brinquedo‟ dos colegas. Se por de pé em cima do objeto parece ser a forma mais efetiva de assegurar que o parceiro não conseguirá tomar o „brinquedo‟. Esta suposição é reforçada pelo fato de que, quando as crianças saem de cima do colchonete, Gabriel, imediatamente, também sai e volta a arrastá-lo pelo galpão.
Nessa discussão em que o corpo se destaca como elemento central de um processo de significação por meio de uma negociação de significados, é importante deixar claro, como argumentam Amorim e Rossetti-Ferreira (2008, p. 78), que esse corpo “não representa uma instância individualizante, já que ele não existe primeiro e, depois, interage com o mundo externo”. Essas autoras usam a expressão „corporeidade‟ para marcar uma compreensão do corpo como, ao mesmo tempo, meio e resultado de um processo de significação em curso.
Afora o já comentado ajustamento da dupla para brincar com um tema em comum e as estratégias utilizadas pelas demais crianças para participar da brincadeira, duas outras características dessa sequência interativa podem ser apontadas como contribuindo na extensão da rotina no grupo. A primeira diz respeito ao uso de um objeto grande, como os colchonetes, durante a brincadeira. Já a segunda, pode estar associada ao fato de as crianças arrastarem esses colchonetes por quase toda extensão do galpão. Supõe-se que essas duas características,
que convergem para a conspicuidade da brincadeira, potencializam a chance das outras crianças presentes notarem as ações que estão sendo realizadas para brincar com os colchonetes. Do mesmo modo, potencializa a chance de outras crianças aderirem à rotina em construção, seja: negociando a posse dos colchonetes para arrastá-los, como fazem Samuel e Luan com a dupla que iniciou a brincadeira; ou ainda, modificando a brincadeira, nesse processo de negociação, como faz Claudino ao seguir pisando no colchonete enquanto Tiffani o arrasta. Aos poucos, as crianças começam a acrescentar novos contornos a esta estrutura de participação-base – arrastar. No trecho que será descrito a seguir esse comentário ficará mais claro.
Episódio Arrastando os Colchonetes - Momento 2
Tarcio se aproxima de Tiffani. A câmera muda de foco e quando retoma vê-se que Tarcio joga algum brinquedo no colchonete que a garota arrastava. Tiffani e Gabriel arrastam seus colchonetes para o outro lado da sala (onde então as educadoras e as outras crianças). Tarcio vê outro colchonete livre e o pega para arrastá-lo também. O garoto coloca em cima do colchão um brinquedo de borracha e uma garrafa. Ele sai arrastando o colchonete e vê que a educadora segura um brinquedo. O garoto faz a volta no galpão arrastando o colchão e se aproxima da educadora pedindo o brinquedo que ela tem nas mãos. Ele pede o brinquedo que ela segurava estendendo a mão em direção ao brinquedo e depois batendo com a mesma mão no seu colchonete (como se pedisse para ela colocar o brinquedo no colchonete). A ADI cede o brinquedo para Tarcio e o menino o põe no seu colchonete. Tarcio e Tiffani abalroam os seus colchonetes e gargalham. Tiffani segue Tarcio, empurrando o seu colchonete, e Gabriel também arrasta o seu seguindo o de Tiffani.